O Segredo Mais Bem Guardado
20 Capítulo 20
Cinco minutos depois, as portas da sala de reuniões principal abriram-se diante dela.
O ambiente era amplo.
Formal.
Uma longa mesa oval ocupava o centro.
Diversos bruxos e bruxas já conversavam em pequenos grupos.
Chefes de departamento.
Diretores.
Assessores seniores.
Alguns rostos eram desconhecidos.
Outros, familiares.
Hermione reconheceu vários nomes antes mesmo de reconhecer os rostos.
E então encontrou um rosto que jamais precisaria procurar.
Harry Potter.
Ele estava do outro lado da mesa.
Conversando com dois aurores.
Por um instante, o restante da sala pareceu desaparecer.
Não havia raiva em sua expressão.
Nem cordialidade.
Nem distância.
Havia apenas algo muito mais complicado.
Harry também a viu.
A conversa que mantinha foi interrompida no meio da frase.
Os olhos verdes encontraram os dela.
E permaneceram ali.
Por alguns segundos.
Longos demais para serem ignorados.
Curtos demais para resolver qualquer coisa.
Foi o Ministro quem quebrou o momento.
— Hermione!
O homem atravessou a sala imediatamente.
Sorridente.
Claramente satisfeito com a presença dela.
— Excelente. Estávamos esperando você.
A atenção do ambiente voltou-se para ambos.
O Ministro abriu os braços.
— Senhoras e senhores, acredito que este seja o momento perfeito para começarmos.
As conversas cessaram.
Os ocupantes da sala tomaram seus lugares.
Hermione ocupou a cadeira reservada para ela.
O Ministro permaneceu de pé.
— Como todos sabem, a partir desta semana, o Departamento de Execução das Leis da Magia estará sob nova liderança.
Ele sorriu.
— Tenho enorme satisfação em apresentar oficialmente Hermione Jean Malfoy.
O Ministro fez uma breve pausa.
— Embora suspeite que apresentações formais sejam quase desnecessárias.
Alguns sorrisos discretos surgiram ao redor da mesa.
— Ainda assim, acredito que muitos dos senhores conhecem apenas uma pequena parte de sua trajetória.
Hermione permaneceu imóvel.
Já começava a desconfiar para onde aquilo estava indo.
— Durante os últimos anos, a senhora Malfoy atuou junto ao Ministério da Magia Italiano, onde integrou inicialmente o Programa de Cooperação Jurídica Internacional.
Algumas cabeças assentiram.
Outras começaram a prestar mais atenção.
— Posteriormente tornou-se Coordenadora de Integração Legislativa para Assuntos Interministeriais.
Agora alguns dos presentes já demonstravam surpresa.
O Ministro continuou.
— Nos últimos dois anos ocupou o cargo de Assessora-Chefe do Gabinete Ministerial Italiano, sendo responsável pela coordenação de projetos de modernização administrativa, acordos internacionais de cooperação mágica e negociações multilaterais com diversos Ministérios europeus.
Hermione fechou os olhos por um breve segundo.
Definitivamente ele havia preparado aquele discurso.
— Além disso, liderou o grupo responsável pela revisão de protocolos de proteção a criaturas mágicas sencientes e participou da elaboração do Acordo de Florença para Cooperação Jurídica Internacional.
Nesse momento até mesmo alguns dos chefes de departamento pareciam genuinamente impressionados.
Porque aquilo não era fama.
Era currículo.
Era trabalho.
Era experiência.
O Ministro sorriu.
— Em outras palavras, senhores, não a convidei para retornar por causa do que realizou aos dezessete anos.
Os olhares voltaram-se imediatamente para Hermione.
— Convidei-a para retornar por causa do que realizou desde então.
A reunião prosseguiu logo em seguida.
Relatórios.
Atualizações departamentais.
Questões orçamentárias.
Projetos que exigiam aprovação conjunta.
Hermione tomou notas, fez observações pontuais e ouviu atentamente cada apresentação.
Profissionalmente, sentia-se quase confortável.
Era um ambiente diferente.
Mas o trabalho continuava sendo trabalho.
Ainda assim, em alguns momentos, era impossível ignorar a sensação de estar sendo observada.
Não por toda a mesa.
Apenas por uma pessoa.
Harry.
Ele acompanhava a reunião.
Fazia perguntas.
Analisava relatórios.
Participava das discussões como sempre havia feito.
Mas, vez ou outra, seus olhos encontravam os dela.
E permaneciam ali por um segundo a mais do que deveriam.
Como se ainda estivesse tentando reconciliar duas versões da mesma pessoa.
Hermione Granger.
E Hermione Malfoy.
Ou talvez não fosse isso.
Talvez estivesse apenas tentando entender os quatro anos que existiam entre elas.
Enquanto isso, do outro lado de Londres, Draco Malfoy descobria que os jornalistas haviam desenvolvido um interesse considerável por hospitais.
Infelizmente para eles, o interesse não parecia ser pela medicina.
O pequeno grupo reunido diante da entrada principal o identificou quase imediatamente.
As perguntas começaram antes mesmo que ele alcançasse os primeiros degraus.
— Senhor Malfoy!
Draco continuou caminhando.
— Por que nunca revelou que sua esposa era Hermione Granger?
— Porque a identidade da minha esposa não era assunto público.
— Mas ela é uma figura pública.
— Isso continua não tornando meu casamento assunto público.
As penas registraram a resposta freneticamente.
— Quando os senhores pretendiam contar a verdade?
— Não me lembro de ter prometido um anúncio oficial.
Alguns jornalistas trocaram olhares.
Aquela resposta parecia tipicamente Malfoy.
— O senhor sabia da nomeação dela antes do baile?
Draco lançou um olhar para o repórter.
— Sou casado com ela.
— Então sim?
— Estou impressionado com sua capacidade dedutiva.
A jornalista ao lado precisou esconder um sorriso.
Outro repórter avançou um passo.
— A senhora Malfoy participou de decisões relacionadas ao hospital?
— Não.
— E o senhor participou de decisões relacionadas à nomeação dela?
— Também não.
— Então os cargos de ambos são mera coincidência?
Draco ergueu uma sobrancelha.
— Não.
As penas praticamente voaram sobre os pergaminhos.
— Não?
— São resultado de anos de estudo, trabalho e competência.
O silêncio que se seguiu foi extremamente satisfatório.
Draco retomou o caminho.
Mas, ao alcançar a entrada principal, voltou-se pela última vez.
Os jornalistas imediatamente se animaram.
Talvez finalmente conseguissem uma declaração importante.
— Antes que eu entre.
O grupo silenciou.
— Gostaria apenas de lembrar aos senhores que este é um hospital.
A voz permanecia calma.
Controlada.
Educada.
O que, em Draco Malfoy, costumava ser um sinal de alerta.
— Pessoas doentes entram por essas portas diariamente.
Os olhos cinzentos percorreram o grupo.
— Algumas delas em situações que certamente consideram mais urgentes do que a identidade da minha esposa.
Ninguém respondeu.
— Portanto, se qualquer um dos senhores dificultar a passagem de pacientes, familiares ou funcionários...
Ele fez uma breve pausa.
— Terei o enorme prazer de solicitar que os aurores resolvam o problema.
Um dos jornalistas pigarreou.
— Isso é uma ameaça, senhor Malfoy?
Draco pareceu genuinamente considerar a pergunta.
— Não.
O homem relaxou.
— É um aviso.
O relaxamento desapareceu imediatamente.
Draco ofereceu um sorriso impecavelmente educado.
— Há uma diferença importante.
A reunião estendeu-se por boa parte da manhã.
Quando finalmente chegou ao fim, cadeiras começaram a ser afastadas e conversas paralelas surgiram imediatamente ao redor da mesa.
Alguns chefes de departamento aproximaram-se de Hermione para cumprimentá-la formalmente.
Outros aproveitaram para discutir assuntos que haviam sido mencionados durante a reunião.
Nada muito diferente do que ela esperava.
Ainda assim, demorou alguns minutos até que a sala começasse a esvaziar de verdade.
Foi então que Hermione percebeu.
Harry ainda estava ali.
Do outro lado da mesa.
Organizando documentos que já estavam organizados.
Recolhendo relatórios que claramente não precisava recolher.
Lendo páginas que provavelmente não estava lendo.
Enrolando.
Hermione quase sorriu.
Porque ela conhecia aquele comportamento.
Já o tinha visto dezenas de vezes ao longo dos anos.
Harry fazia aquilo sempre que precisava ter uma conversa difícil.
O Ministro aproximou-se dela nesse momento.
— Primeira impressão?
— Menos assustador do que imaginei.
— Fico feliz em ouvir isso.
Hermione acompanhou com os olhos mais algumas pessoas deixando a sala.
Quando voltou a olhar para o Ministro, encontrou um sorriso discreto em seu rosto.
Daqueles que diziam mais do que deveriam.
— O quê?
— Nada.
— Ministro.
— Hermione.
Ela seguiu a direção do olhar dele.
Harry.
Ainda ali.
Ainda organizando os mesmos pergaminhos.
O Ministro soltou uma pequena risada.
— Alguns relatórios parecem exigir atenção extraordinária hoje.
Hermione suspirou.
— Pelo visto.
O homem ajeitou os próprios documentos.
— Bem.
Fez uma pausa.
— Tenho certeza de que sobreviverão sem mim pelos próximos quinze minutos.
— Ministro...
— Não me agradeça.
— Eu não ia agradecer.
— Claro que ia.
Hermione balançou a cabeça.
O homem sorriu.
Então recolheu a própria pasta.
— Vejo vocês mais tarde.
E deixou a sala.
A porta fechou-se suavemente atrás dele.
O silêncio que permaneceu pareceu imediatamente maior.
Mais pesado.
Mais real.
Agora não havia mais relatórios.
Não havia mais chefes de departamento.
Não havia mais reuniões.
Apenas Harry.
E Hermione.
Pela primeira vez desde o baile.
Sozinhos.
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