O Segredo Mais Bem Guardado
19 Capítulo 19
A manhã seguinte chegou mais tranquila do que Hermione imaginara.
A luz suave do início do dia atravessava as amplas janelas da sala de jantar, espalhando tons dourados sobre a mesa já posta. O aroma de café fresco misturava-se ao perfume discreto das flores que decoravam o centro da mesa, criando uma atmosfera tão familiar que, por alguns instantes, era possível esquecer que o mundo bruxo continuava discutindo seu nome.
Quando entrou na sala, encontrou Narcisa já acomodada em seu lugar habitual.
Elegante como sempre.
Impecável como sempre.
E aparentemente em guerra com o jornal da manhã.
— Bom dia, querida.
— Bom dia.
Hermione inclinou-se para beijar seu rosto antes de sentar-se.
Narcisa observou-a por alguns segundos.
— Dormiu bem?
— Melhor do que esperava.
— Excelente.
Ela virou uma página do jornal.
— Porque os jornalistas certamente não dormiram.
Hermione soltou uma pequena risada.
— Ainda?
— Infelizmente.
— Alguma teoria nova?
— Diversas.
Narcisa apoiou a xícara no pires.
— Uma delas afirma que você e Draco planejaram tudo durante anos para influenciar a política internacional.
— Claro.
— Outra acredita que seu casamento é uma farsa cuidadosamente construída para fortalecer a imagem pública dos Malfoy.
— Naturalmente.
— E uma terceira sugere que vocês possuem uma propriedade secreta na França onde realizam reuniões diplomáticas clandestinas.
Hermione fechou os olhos por um instante.
— Eu sequer gosto da França.
— Eu sei.
A voz masculina surgiu da entrada da sala.
— O que torna essa teoria particularmente ofensiva.
Hermione ergueu os olhos.
O sorriso apareceu antes que pudesse evitá-lo.
Draco atravessou o ambiente ajustando os punhos da camisa.
Os cabelos ainda guardavam um leve desalinho que denunciava uma manhã apressada.
Ele inclinou-se ao passar por Hermione.
Os lábios tocaram brevemente sua têmpora.
Um gesto simples.
Automático.
Tão natural quanto respirar.
Só então ocupou a cadeira ao lado dela.
— Bom dia.
— Bom dia.
Os dedos dele tocaram discretamente os dela sobre a mesa antes de se afastarem.
Narcisa observou a cena por cima da xícara.
— Fascinante.
Os dois voltaram-se para ela.
— O quê? — perguntou Hermione.
— Nada.
Ela tomou mais um gole de chá.
— Apenas continuo impressionada que vocês ainda se comportem como recém-casados.
— Mãe.
— Estou fazendo uma observação.
— Está sendo inconveniente.
— Também estou fazendo isso.
Hermione riu.
Draco apenas balançou a cabeça.
Algumas coisas jamais mudariam.
O restante do café transcorreu de forma agradável.
Comentários sobre o hospital.
Sobre o Ministério.
Sobre as inúmeras especulações absurdas publicadas nos jornais.
Em determinado momento, Narcisa dobrou cuidadosamente o periódico e o deixou ao lado do prato.
— Não estarei aqui para o almoço.
Hermione ergueu os olhos.
— Não?
— Vou visitar Andrômeda.
Um sorriso discreto suavizou suas feições.
— Ted aparentemente descobriu uma espécie de sapo mágico capaz de mudar de cor e decidiu que isso exige uma reunião familiar urgente.
Hermione sorriu.
— Parece uma questão importante.
— Gravíssima.
— Então não vou impedir.
— Fico grata.
A conversa prosseguiu por mais alguns minutos.
Até que o relógio próximo à parede anunciou o horário.
E a realidade do dia voltou a se impor.
Hermione lançou um olhar para as horas.
O estômago apertou levemente.
A reunião.
O Ministério.
Harry.
Como se sentisse seus pensamentos, a mão de Draco encontrou a dela sob a mesa.
Um único aperto.
Silencioso.
Familiar.
Estou aqui.
Hermione apertou de volta.
Eu sei.
Pouco depois, os três encontravam-se no hall principal.
Narcisa foi a primeira a aproximar-se da lareira.
Beijou o rosto de Hermione com carinho genuíno.
— Você se saíra excelente.
— Obrigada.
— E se alguém for desagradável...
Os olhos azuis deslizaram para o filho.
— Tenho certeza de que Draco encontrará alguma forma extremamente educada de fazê-los se arrepender.
— Mãe.
— O quê?
— Isso não ajuda.
— Eu discordo.
Draco soltou um suspiro resignado.
Hermione riu.
Narcisa entrou nas chamas esmeralda no instante seguinte, desaparecendo rumo à casa da irmã.
Quando o brilho verde desapareceu, o silêncio retornou ao hall.
Por alguns segundos, restaram apenas eles.
A lareira crepitava suavemente.
Hermione ajeitou a manga do blazer.
Respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Ei.
Ela voltou-se.
Draco estava mais próximo agora.
Os olhos cinzentos percorreram-na lentamente.
Sem qualquer pressa.
Sem qualquer disfarce.
Hermione reconheceu aquele olhar imediatamente.
— Não.
— Não o quê?
— Nem pense nisso.
Um sorriso surgiu nos lábios dele.
— Eu ainda não disse nada.
— Conheço você.
— Isso é verdade.
Os olhos dele voltaram a percorrer sua figura.
Do blazer impecavelmente ajustado.
À postura elegante.
Ao cuidado evidente com cada detalhe.
— Está deslumbrante.
Hermione revirou os olhos.
— Draco.
— Estou sendo objetivo.
— Você é meu marido.
— Exatamente. Sou uma autoridade no assunto.
Ela soltou uma risada.
— Isso não faz o menor sentido.
— Faz bastante.
Ele aproximou-se mais um passo.
— Metade daquele Ministério vai esquecer o próprio nome quando você entrar naquela sala.
— Que exagero.
— Não é exagero.
Os olhos cinzentos brilharam de diversão.
— É uma previsão médica.
— Ah, claro.
— Sou especialista.
— Em quê?
— Em observar você.
Hermione balançou a cabeça.
Incapaz de conter o sorriso.
Draco então levou uma das mãos ao rosto dela.
O polegar acariciou sua pele.
Suave.
Carinhosamente.
Então inclinou-se e a beijou.
Lento.
Familiar.
Como se quisesse levar embora os últimos vestígios de ansiedade.
Quando se afastaram, Hermione ainda sorria.
— Isso foi para me desejar boa sorte?
Os olhos dele permaneceram presos aos dela.
Por um segundo.
Dois.
Então um sorriso preguiçoso surgiu.
— Não.
— Não?
Draco inclinou-se novamente e depositou um segundo beijo, mais breve, no canto de sua boca.
— Foi para lembrar que você volta para casa comigo.
Hermione soltou uma gargalhada.
— Isso foi absurdamente Malfoy.
— Aceito essa avaliação.
Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo.
Muito mais leve do que estava alguns minutos antes.
— Tenha um bom dia, Draco.
A expressão dele suavizou imediatamente.
— Você também, Herms.
Hermione respirou fundo.
Apanhou um punhado de pó de Flu.
E caminhou até a lareira.
No instante antes de desaparecer entre as chamas verdes, voltou-se uma última vez.
Draco ainda estava ali.
Observando-a.
Com aquele mesmo olhar que a acompanhara por quatro anos.
O olhar de alguém que nunca tentara mudá-la.
Apenas caminhara ao seu lado.
Então Hermione sorriu.
Atirou o pó às chamas.
E desapareceu em direção ao Ministério da Magia.
O Ministério da Magia estava exatamente como Hermione se lembrava.
E completamente diferente.
As lareiras públicas ocupavam uma das extremidades do átrio principal, lançando bruxos e bruxas para dentro do enorme espaço em intervalos constantes.
O movimento era intenso.
Funcionários apressados.
Visitantes.
Mensageiros.
Representantes de outros departamentos.
Durante alguns segundos, ninguém pareceu notar sua chegada.
Então alguém percebeu.
E tudo mudou.
— É ela.
A frase surgiu em algum lugar próximo.
Outra voz respondeu imediatamente.
— Hermione Granger!
Ela mal teve tempo de dar dois passos antes que os primeiros flashes disparassem.
O som das câmeras mágicas ecoou pelo átrio.
— Hermione!
— Senhora Malfoy!
— Uma declaração!
— Há quanto tempo estão casados?
— O casamento foi realizado na Itália?
— Pretende comentar as acusações de favorecimento político?
— O senhor Malfoy influenciou sua nomeação?
— Vocês esconderam o relacionamento deliberadamente?
Mais flashes.
Mais perguntas.
Mais vozes.
Hermione continuou caminhando.
Sem acelerar.
Sem hesitar.
Sem demonstrar qualquer intenção de fugir.
A multidão de jornalistas avançou junto dela.
Mantendo o ritmo.
Tentando arrancar qualquer reação.
Qualquer deslize.
Qualquer frase.
Hermione parou.
O movimento foi tão repentino que parte dos jornalistas quase esbarrou nela.
O silêncio instalou-se por um breve instante.
Ela observou o grupo diante de si.
Calmamente.
Completamente serena.
Quando falou, sua voz não precisou ser elevada.
Ainda assim, todos a ouviram.
— Bom dia.
Algumas penas de repetição começaram a registrar freneticamente cada palavra.
— Sei que muitos de vocês possuem perguntas.
Um fotógrafo ergueu a câmera.
Outro preparou o bloco de anotações.
Hermione sustentou o olhar coletivo.
— E compreendo perfeitamente o interesse.
A resposta pareceu animá-los.
Então ela continuou.
— Entretanto, não farei comentários sobre minha vida pessoal.
Metade das penas parou.
A outra metade acelerou.
— Meu cargo no Ministério não está relacionado ao meu casamento.
A voz permaneceu firme.
Elegante.
Controlada.
— Portanto, todas as perguntas referentes ao Departamento de Execução das Leis da Magia serão respondidas através dos canais oficiais apropriados.
Um jornalista ergueu a mão.
— Senhora Malfoy, por que esconderam o casamento por tanto tempo?
Hermione voltou os olhos para ele.
Não havia irritação.
Nem desconforto.
Apenas tranquilidade.
— Porque era nosso.
O homem pareceu surpreso.
Hermione ofereceu um sorriso educado.
Pequeno.
Quase impossível de interpretar.
— Tenham um excelente dia.
E voltou a caminhar.
As perguntas recomeçaram imediatamente.
Mas ela não desacelerou.
Não voltou atrás.
Não olhou para trás.
Apenas seguiu em frente.
Fale com o autor