A manhã seguinte chegou mais tranquila do que Hermione imaginara.

A luz suave do início do dia atravessava as amplas janelas da sala de jantar, espalhando tons dourados sobre a mesa já posta. O aroma de café fresco misturava-se ao perfume discreto das flores que decoravam o centro da mesa, criando uma atmosfera tão familiar que, por alguns instantes, era possível esquecer que o mundo bruxo continuava discutindo seu nome.

Quando entrou na sala, encontrou Narcisa já acomodada em seu lugar habitual.

Elegante como sempre.

Impecável como sempre.

E aparentemente em guerra com o jornal da manhã.

— Bom dia, querida.

— Bom dia.

Hermione inclinou-se para beijar seu rosto antes de sentar-se.

Narcisa observou-a por alguns segundos.

— Dormiu bem?

— Melhor do que esperava.

— Excelente.

Ela virou uma página do jornal.

— Porque os jornalistas certamente não dormiram.

Hermione soltou uma pequena risada.

— Ainda?

— Infelizmente.

— Alguma teoria nova?

— Diversas.

Narcisa apoiou a xícara no pires.

— Uma delas afirma que você e Draco planejaram tudo durante anos para influenciar a política internacional.

— Claro.

— Outra acredita que seu casamento é uma farsa cuidadosamente construída para fortalecer a imagem pública dos Malfoy.

— Naturalmente.

— E uma terceira sugere que vocês possuem uma propriedade secreta na França onde realizam reuniões diplomáticas clandestinas.

Hermione fechou os olhos por um instante.

— Eu sequer gosto da França.

— Eu sei.

A voz masculina surgiu da entrada da sala.

— O que torna essa teoria particularmente ofensiva.

Hermione ergueu os olhos.

O sorriso apareceu antes que pudesse evitá-lo.

Draco atravessou o ambiente ajustando os punhos da camisa.

Os cabelos ainda guardavam um leve desalinho que denunciava uma manhã apressada.

Ele inclinou-se ao passar por Hermione.

Os lábios tocaram brevemente sua têmpora.

Um gesto simples.

Automático.

Tão natural quanto respirar.

Só então ocupou a cadeira ao lado dela.

— Bom dia.

— Bom dia.

Os dedos dele tocaram discretamente os dela sobre a mesa antes de se afastarem.

Narcisa observou a cena por cima da xícara.

— Fascinante.

Os dois voltaram-se para ela.

— O quê? — perguntou Hermione.

— Nada.

Ela tomou mais um gole de chá.

— Apenas continuo impressionada que vocês ainda se comportem como recém-casados.

— Mãe.

— Estou fazendo uma observação.

— Está sendo inconveniente.

— Também estou fazendo isso.

Hermione riu.

Draco apenas balançou a cabeça.

Algumas coisas jamais mudariam.

O restante do café transcorreu de forma agradável.

Comentários sobre o hospital.

Sobre o Ministério.

Sobre as inúmeras especulações absurdas publicadas nos jornais.

Em determinado momento, Narcisa dobrou cuidadosamente o periódico e o deixou ao lado do prato.

— Não estarei aqui para o almoço.

Hermione ergueu os olhos.

— Não?

— Vou visitar Andrômeda.

Um sorriso discreto suavizou suas feições.

— Ted aparentemente descobriu uma espécie de sapo mágico capaz de mudar de cor e decidiu que isso exige uma reunião familiar urgente.

Hermione sorriu.

— Parece uma questão importante.

— Gravíssima.

— Então não vou impedir.

— Fico grata.

A conversa prosseguiu por mais alguns minutos.

Até que o relógio próximo à parede anunciou o horário.

E a realidade do dia voltou a se impor.

Hermione lançou um olhar para as horas.

O estômago apertou levemente.

A reunião.

O Ministério.

Harry.

Como se sentisse seus pensamentos, a mão de Draco encontrou a dela sob a mesa.

Um único aperto.

Silencioso.

Familiar.

Estou aqui.

Hermione apertou de volta.

Eu sei.

Pouco depois, os três encontravam-se no hall principal.

Narcisa foi a primeira a aproximar-se da lareira.

Beijou o rosto de Hermione com carinho genuíno.

— Você se saíra excelente.

— Obrigada.

— E se alguém for desagradável...

Os olhos azuis deslizaram para o filho.

— Tenho certeza de que Draco encontrará alguma forma extremamente educada de fazê-los se arrepender.

— Mãe.

— O quê?

— Isso não ajuda.

— Eu discordo.

Draco soltou um suspiro resignado.

Hermione riu.

Narcisa entrou nas chamas esmeralda no instante seguinte, desaparecendo rumo à casa da irmã.

Quando o brilho verde desapareceu, o silêncio retornou ao hall.

Por alguns segundos, restaram apenas eles.

A lareira crepitava suavemente.

Hermione ajeitou a manga do blazer.

Respirou fundo.

Uma vez.

Duas.

Três.

— Ei.

Ela voltou-se.

Draco estava mais próximo agora.

Os olhos cinzentos percorreram-na lentamente.

Sem qualquer pressa.

Sem qualquer disfarce.

Hermione reconheceu aquele olhar imediatamente.

— Não.

— Não o quê?

— Nem pense nisso.

Um sorriso surgiu nos lábios dele.

— Eu ainda não disse nada.

— Conheço você.

— Isso é verdade.

Os olhos dele voltaram a percorrer sua figura.

Do blazer impecavelmente ajustado.

À postura elegante.

Ao cuidado evidente com cada detalhe.

— Está deslumbrante.

Hermione revirou os olhos.

— Draco.

— Estou sendo objetivo.

— Você é meu marido.

— Exatamente. Sou uma autoridade no assunto.

Ela soltou uma risada.

— Isso não faz o menor sentido.

— Faz bastante.

Ele aproximou-se mais um passo.

— Metade daquele Ministério vai esquecer o próprio nome quando você entrar naquela sala.

— Que exagero.

— Não é exagero.

Os olhos cinzentos brilharam de diversão.

— É uma previsão médica.

— Ah, claro.

— Sou especialista.

— Em quê?

— Em observar você.

Hermione balançou a cabeça.

Incapaz de conter o sorriso.

Draco então levou uma das mãos ao rosto dela.

O polegar acariciou sua pele.

Suave.

Carinhosamente.

Então inclinou-se e a beijou.

Lento.

Familiar.

Como se quisesse levar embora os últimos vestígios de ansiedade.

Quando se afastaram, Hermione ainda sorria.

— Isso foi para me desejar boa sorte?

Os olhos dele permaneceram presos aos dela.

Por um segundo.

Dois.

Então um sorriso preguiçoso surgiu.

— Não.

— Não?

Draco inclinou-se novamente e depositou um segundo beijo, mais breve, no canto de sua boca.

— Foi para lembrar que você volta para casa comigo.

Hermione soltou uma gargalhada.

— Isso foi absurdamente Malfoy.

— Aceito essa avaliação.

Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo.

Muito mais leve do que estava alguns minutos antes.

— Tenha um bom dia, Draco.

A expressão dele suavizou imediatamente.

— Você também, Herms.

Hermione respirou fundo.

Apanhou um punhado de pó de Flu.

E caminhou até a lareira.

No instante antes de desaparecer entre as chamas verdes, voltou-se uma última vez.

Draco ainda estava ali.

Observando-a.

Com aquele mesmo olhar que a acompanhara por quatro anos.

O olhar de alguém que nunca tentara mudá-la.

Apenas caminhara ao seu lado.

Então Hermione sorriu.

Atirou o pó às chamas.

E desapareceu em direção ao Ministério da Magia.

O Ministério da Magia estava exatamente como Hermione se lembrava.

E completamente diferente.

As lareiras públicas ocupavam uma das extremidades do átrio principal, lançando bruxos e bruxas para dentro do enorme espaço em intervalos constantes.

O movimento era intenso.

Funcionários apressados.

Visitantes.

Mensageiros.

Representantes de outros departamentos.

Durante alguns segundos, ninguém pareceu notar sua chegada.

Então alguém percebeu.

E tudo mudou.

— É ela.

A frase surgiu em algum lugar próximo.

Outra voz respondeu imediatamente.

— Hermione Granger!

Ela mal teve tempo de dar dois passos antes que os primeiros flashes disparassem.

O som das câmeras mágicas ecoou pelo átrio.

— Hermione!

— Senhora Malfoy!

— Uma declaração!

— Há quanto tempo estão casados?

— O casamento foi realizado na Itália?

— Pretende comentar as acusações de favorecimento político?

— O senhor Malfoy influenciou sua nomeação?

— Vocês esconderam o relacionamento deliberadamente?

Mais flashes.

Mais perguntas.

Mais vozes.

Hermione continuou caminhando.

Sem acelerar.

Sem hesitar.

Sem demonstrar qualquer intenção de fugir.

A multidão de jornalistas avançou junto dela.

Mantendo o ritmo.

Tentando arrancar qualquer reação.

Qualquer deslize.

Qualquer frase.

Hermione parou.

O movimento foi tão repentino que parte dos jornalistas quase esbarrou nela.

O silêncio instalou-se por um breve instante.

Ela observou o grupo diante de si.

Calmamente.

Completamente serena.

Quando falou, sua voz não precisou ser elevada.

Ainda assim, todos a ouviram.

— Bom dia.

Algumas penas de repetição começaram a registrar freneticamente cada palavra.

— Sei que muitos de vocês possuem perguntas.

Um fotógrafo ergueu a câmera.

Outro preparou o bloco de anotações.

Hermione sustentou o olhar coletivo.

— E compreendo perfeitamente o interesse.

A resposta pareceu animá-los.

Então ela continuou.

— Entretanto, não farei comentários sobre minha vida pessoal.

Metade das penas parou.

A outra metade acelerou.

— Meu cargo no Ministério não está relacionado ao meu casamento.

A voz permaneceu firme.

Elegante.

Controlada.

— Portanto, todas as perguntas referentes ao Departamento de Execução das Leis da Magia serão respondidas através dos canais oficiais apropriados.

Um jornalista ergueu a mão.

— Senhora Malfoy, por que esconderam o casamento por tanto tempo?

Hermione voltou os olhos para ele.

Não havia irritação.

Nem desconforto.

Apenas tranquilidade.

— Porque era nosso.

O homem pareceu surpreso.

Hermione ofereceu um sorriso educado.

Pequeno.

Quase impossível de interpretar.

— Tenham um excelente dia.

E voltou a caminhar.

As perguntas recomeçaram imediatamente.

Mas ela não desacelerou.

Não voltou atrás.

Não olhou para trás.

Apenas seguiu em frente.