O quarto estava mergulhado na penumbra suave produzida pelas luminárias próximas à lareira.

Londres parecia distante dali.

Pela primeira vez desde o baile, a mansão estava verdadeiramente silenciosa.

Sem jornalistas.

Sem manchetes.

Sem amigos surpresos.

Sem perguntas.

Apenas eles.

Hermione terminou de prender os cabelos em uma trança solta enquanto observava o reflexo do marido no espelho.

Draco já estava sentado na cama, folheando distraidamente um artigo médico que claramente não estava lendo.

Ela conhecia aquela expressão.

Ele parecia tranquilo.

Mas estava pensando demais.

— Você não virou uma página sequer nos últimos cinco minutos.

Os olhos cinzentos se ergueram.

— Estou refletindo.

— Você está preocupado.

— Estou refletindo preocupado.

Hermione sorriu.

Draco fechou a revista e a deixou sobre a mesa de cabeceira.

— Venha cá.

Ela caminhou até a cama.

Assim que se aproximou, ele segurou sua mão e a puxou gentilmente para junto de si.

— Nervosa?

Hermione soltou um suspiro.

— Um pouco.

— Um pouco ou muito?

— Muito.

Draco sorriu.

— Honestidade. Excelente sinal.

Ela apoiou a cabeça no ombro dele.

— Faz anos que não trabalho em Londres.

— Faz.

— E eu sei que sou qualificada para o cargo.

— Você é mais do que qualificada.

— Eu sei.

Ela realmente sabia.

Não havia falsa modéstia em Hermione.

O problema era outro.

— Mas também sei que amanhã ninguém vai me olhar apenas como a nova chefe do departamento.

Draco permaneceu em silêncio.

Esperando.

— Vão olhar para a heroína da guerra.

A voz dela saiu mais baixa.

— Vão olhar para a mulher que desapareceu por quatro anos.

Ela fez uma pausa.

— Vão olhar para a esposa de Draco Malfoy.

Os dedos dele encontraram os dela.

— Talvez.

— Talvez?

— Definitivamente.

Hermione soltou uma risada sem humor.

— Obrigada pela sinceridade.

— Sempre às suas ordens.

Ela ergueu os olhos para ele.

— Não estou preocupada com o trabalho.

— Eu sei.

— Estou preocupada com todo o resto.

Draco passou o polegar sobre os nós dos dedos dela.

Um gesto simples.

Familiar.

— Então deixe que eu me preocupe com o resto.

— Não funciona assim.

— Funciona um pouco.

— Draco...

— Hermione.

Ela já conhecia aquele tom.

O tom que ele usava quando queria que ela o escutasse.

De verdade.

— Você passou quatro anos construindo uma carreira em um país que não lhe devia absolutamente nada.

Os olhos cinzentos permaneceram fixos nos dela.

— Você conquistou respeito sem Harry Potter, sem a guerra, sem manchetes e sem símbolos.

A mão dele subiu até seu rosto.

— Amanhã você não estará entrando naquele Ministério para provar quem é.

— Não?

— Não.

Ele inclinou a cabeça.

— Você já fez isso.

Hermione sustentou o olhar dele.

Parte dela sabia que Draco tinha razão.

Mas a inquietação continuava ali.

Porque não era realmente sobre o cargo.

Draco pareceu perceber.

Como sempre.

— Tem mais alguma coisa.

Não foi uma pergunta.

Hermione soltou uma respiração lenta.

— O Ministro marcou uma reunião com todos os chefes de departamento logo cedo.

— Imagino que tenha marcado.

— Para me apresentar formalmente.

— Faz sentido.

Ela assentiu.

— Harry vai estar lá.

A compreensão surgiu imediatamente nos olhos dele.

— Eu não sei como ele vai agir.

— Nem ele.

Ela virou o rosto.

— O que isso significa?

— Significa que Harry provavelmente também está nervoso.

Hermione soltou uma respiração curta.

— Harry nunca fica nervoso.

— Hermione.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— O homem enfrentou dragões, Comensais da Morte e Voldemort.

— Sim.

— Repetidamente.

— Sim.

— E você acha que ele está nervoso?

— Acho que ele vai encontrar a melhor amiga pela primeira vez desde descobrir que ela construiu uma vida inteira sem contar a ele.

Hermione abriu a boca.

Depois fechou novamente.

Porque aquilo era justo.

Draco segurou sua mão.

— Você está olhando para isso apenas do seu lado.

— E qual é o lado dele?

— O lado de alguém que está magoado.

A expressão dela suavizou.

— Eu nunca quis machucá-lo.

— Eu sei.

— Ele sabe disso?

Draco refletiu por um instante.

— Acho que uma parte dele sabe.

— E a outra?

— A outra ainda está tentando entender o que aconteceu.

Hermione baixou os olhos.

Aquela era a parte mais difícil.

Não as manchetes.

Não os comentários.

Não os políticos.

Harry.

Harry era a parte difícil.

— Eu não sei o que dizer quando o encontrar.

A voz saiu mais baixa.

Mais vulnerável.

Draco aproximou-se um pouco mais.

— Então não prepare um discurso.

— Não?

— Não.

Ele levou a mão dela aos lábios.

— Apenas seja honesta.

Hermione observou os olhos cinzentos diante dos seus.

Tão familiares.

Tão seguros.

— E se ele estiver com raiva?

— Ele tem esse direito.

Ela assentiu.

— E se ele não quiser conversar?

— Então você respeita.

— E se ele disser que eu deveria ter contado?

Draco passou o polegar suavemente sobre sua mão.

— Então você diz a verdade.

— Qual verdade?

— A mesma que sempre disse para mim.

Hermione permaneceu em silêncio.

— Que eu nunca quis esconder minha vida deles.

— Exatamente.

— Eu só queria viver essa vida primeiro.

— Exatamente.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dele.

— E considerando que você acabou se casando comigo no processo...

Hermione soltou uma risada.

— Apenas um pequeno detalhe.

— Um detalhe de dois anos.

— Draco.

— Estou tentando aliviar a tensão.

— Está falhando.

— Discordo completamente.

Pela primeira vez naquela noite, o sorriso dela pareceu genuíno.

E isso já era uma vitória.

— E você?

— O que tem eu?

— Vai ficar bem amanhã?

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Pretende ser mais específica?

— Seu hospital.

— Ah.

Hermione entrelaçou os dedos aos dele.

— Você sabe que vão falar.

— Sim.

— Vão fazer perguntas.

— Sim.

— Algumas provavelmente muito inconvenientes.

— Sem dúvida.

Ela observou o marido por alguns segundos.

— Isso não te incomoda?

Draco pareceu refletir.

— Incomodaria há alguns anos.

— E agora?

Um sorriso pequeno apareceu em seus lábios.

— Agora eu tenho coisas mais interessantes para fazer do que me preocupar com a opinião de colegas curiosos.

— Como salvar vidas?

— Como salvar vidas.

Ele se aproximou.

— E voltar para casa no fim do dia.

Os olhos dele percorreram o rosto dela.

— Para você. Agora vamos dormir, vem...

Ele se deitou e trouxe ela para mais perto a encaixando perfeitamente em seu corpo, e adormeceram abraçados.

— E voltar para casa no fim do dia.

Os olhos dele percorreram o rosto dela.

— Para você.

O silêncio que se seguiu foi confortável.

Familiar.

Hermione observou o marido por alguns segundos.

Ainda lhe parecia estranho como Draco conseguia fazer tudo parecer mais simples.

Não porque diminuía os problemas.

Mas porque a lembrava de que ela não precisava enfrentá-los sozinha.

A mão dela encontrou a dele novamente.

— Eu te amo.

Um sorriso suave surgiu nos lábios de Draco.

Aquele sorriso raro.

Reservado para poucas pessoas.

Reservado para ela.

— Eu sei.

Hermione estreitou os olhos.

— Essa é sua resposta?

— Não.

Ele inclinou-se para frente e depositou um beijo em sua testa.

Demorado.

Carinhoso.

— Eu também te amo.

Os dedos dele deslizaram por sua cintura.

— E amanhã vai ficar tudo bem.

— Você não pode saber disso.

— Posso.

— Não, não pode.

— Posso porque, aconteça o que acontecer naquele Ministério...

Ele encostou a testa na dela.

— ...você ainda vai voltar para casa comigo no fim do dia.

Hermione sentiu o peito aquecer.

Porque, de alguma forma, aquilo colocava tudo em perspectiva.

Harry.

O Ministério.

As manchetes.

As especulações.

Nada desapareceria na manhã seguinte.

Mas também não mudaria o que haviam construído.

Quatro anos.

Uma vida inteira que era deles.

E ninguém poderia tirar isso.

Draco puxou o cobertor sobre ambos e a trouxe para junto de si.

Hermione encaixou-se naturalmente em seus braços.

Como sempre.

Como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo.

E talvez fosse.

Amanhã eles enfrentariam o restante do mundo.