O Segredo Mais Bem Guardado
17 Capítulo 17
O assunto acabou mudando naturalmente quando todos já estavam acomodados na sala de estar.
Por alguns minutos falaram sobre a mansão, viagens e alguns conhecidos em comum.
Até que Pansy finalmente fez a pergunta que claramente estava guardando havia tempo demais.
— Certo. — disse ela, cruzando as pernas na poltrona. — Agora eu quero entender uma coisa.
Draco suspirou.
— Isso nunca termina bem.
— Quase nada nesta sala termina bem. — respondeu Theo.
Pansy ignorou ambos.
— Itália.
Hermione arqueou uma sobrancelha.
— Itália?
— Itália. — repetiu Pansy. — Você desapareceu para o outro lado do mundo e voltou casada com um Malfoy. Eu sinto que pulei alguns capítulos importantes.
Isso arrancou algumas risadas.
— É uma reclamação justa. — admitiu Hermione.
— Obrigada. — respondeu Pansy.
— Mas a história começa antes da Itália.
A conversa diminuiu imediatamente.
Hermione apoiou a xícara sobre a mesa.
— Depois de Hogwarts eu fui para a Austrália.
Daphne assentiu discretamente.
Todos conheciam aquela parte da história.
Ou pelo menos parte dela.
— Inicialmente seria algo temporário. — continuou Hermione. — Eu precisava resolver algumas questões pessoais que ficaram pendentes depois da guerra.
Seu tom permaneceu leve.
Mas havia algo mais profundo por trás das palavras.
— O plano era ficar seis meses.
— E não ficou. — concluiu Theo.
— Não.
— O que aconteceu? — perguntou Astoria.
Hermione demorou alguns segundos antes de responder.
— Eu não sabia o que queria fazer em seguida.
O silêncio foi imediato.
Porque aquela frase parecia estranha vinda dela.
Hermione observou o chá por alguns instantes.
— Na verdade... acho que eu sabia o que não queria.
Os olhares permaneceram nela.
— Eu não queria voltar e continuar exatamente de onde tinha parado.
Aquilo fez até Draco erguer os olhos.
— Durante anos tudo na minha vida teve um próximo passo muito claro.
— Hogwarts.
— A guerra.
— A reconstrução.
Ela soltou uma pequena risada.
— E de repente todo mundo parecia saber qual deveria ser meu futuro.
— Menos você? — perguntou Daphne.
Hermione assentiu.
— Menos eu.
O ambiente ficou mais silencioso.
— Eu estava cansada. — admitiu ela.
— Cansada de ser a Bruxa de Ouro.
— Cansada de ser a heroína da guerra.
— Cansada de sentir que existia uma expectativa constante sobre o que eu deveria fazer em seguida.
Pansy a observava atentamente agora.
Sem interrupções.
Sem piadas.
— E pela primeira vez eu não queria viver sob as expectativas de todo mundo.
A frase pairou no ar por alguns segundos.
Porque todos ali entendiam exatamente o que ela queria dizer.
Talvez não na mesma intensidade.
Mas entendiam.
— Então você ficou. — concluiu Astoria.
— Fiquei.
— E descansou?
Hermione olhou para ela.
Depois para Draco.
Depois voltou para Astoria.
— Por aproximadamente três semanas.
Theo começou a rir.
— Isso parece muito mais plausível.
— Foram semanas horríveis. — admitiu Hermione.
— Eu estava entediada.
— Inquieta.
— Sem rotina.
— Sem estudar.
— Sem trabalhar.
Draco apoiou o cotovelo no braço do sofá.
— Ela estava enlouquecendo.
— Eu não estava enlouquecendo.
— Hermione.
— Certo. Eu estava enlouquecendo.
Isso arrancou risadas do grupo inteiro.
— Então encontrei um curso na Itália. — continuou ela.
— Uma área que sempre tive interesse em estudar.
— Pensei que me manter ocupada ajudaria.
— E ajudou?
— Muito.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Porque me obrigou a conhecer pessoas.
— Me obrigou a sair da minha zona de conforto.
— Me obrigou a construir uma vida nova sem depender da antiga.
Daphne observou Hermione por alguns segundos.
— Isso parece assustador.
— Foi.
— E libertador ao mesmo tempo.
Pela primeira vez, ninguém respondeu imediatamente.
Porque aquela talvez fosse a explicação mais honesta que Hermione havia dado até agora sobre os anos em que esteve longe.
Não era apenas sobre carreira.
Nem sobre a Itália.
Nem sobre o trabalho.
Era sobre ter encontrado espaço para descobrir quem ela era quando ninguém estava esperando nada dela.
A conversa já havia migrado para assuntos mais leves quando Blaise voltou a encarar o casal.
Por alguns segundos.
Em silêncio.
O que imediatamente chamou a atenção de todos.
— Não faça essa cara. — avisou Draco.
— Que cara?
— A cara de quem teve uma ideia.
— Eu tive uma pergunta.
— Pior ainda.
Theo apoiou o cotovelo no sofá.
— Eu também quero saber.
Hermione já começou a rir.
— Isso parece promissor.
— Não parece. — respondeu Draco.
Blaise ignorou completamente.
— Como vocês fizeram isso?
— Isso o quê? — perguntou Hermione.
— Quatro anos.
— Ah.
— Quatro anos de namoro.
— Noivado.
— Casamento.
— E absolutamente ninguém descobriu.
Astoria assentiu imediatamente.
— Essa parte continua me incomodando.
— Bastante. — concordou Daphne.
— Honestamente. — acrescentou Pansy. — Eu ainda não entendo como vocês não apareceram acidentalmente em uma fotografia sequer.
Hermione trocou um olhar rápido com Draco.
Então sorriu.
— Nós realmente não tentamos tanto quanto vocês imaginam.
Cinco pessoas a encararam.
— Mentira. — respondeu Theo.
— Não é.
— É sim.
— Não é.
— Hermione. — insistiu Pansy. — Estamos falando de você e Draco Malfoy.
— Sim.
— Isso sozinho já seria notícia durante seis meses.
— Talvez um ano. — corrigiu Blaise.
— Obrigada pelo voto de confiança.
— Não foi um elogio.
Draco apoiou a xícara na mesa.
— A verdade é que metade do trabalho foi feito por vocês.
O grupo inteiro ficou em silêncio.
— Perdão? — perguntou Theo.
— Vocês ajudaram.
— Nós nem sabíamos que ela existia.
— Exatamente. — respondeu Draco.
Theo abriu a boca.
Fechou.
Pensou.
Abriu novamente.
— Eu odeio quando ele faz isso.
Hermione sorriu.
— Durante anos todo mundo estava tentando descobrir quem era a esposa do Draco.
— Sim.
— E todo mundo partia do pressuposto de que ela precisava ser alguém extraordinariamente óbvia.
— Uma princesa. — lembrou Astoria.
— Eu ouvi essa teoria. — respondeu Draco.
— Uma herdeira francesa. — acrescentou Daphne.
— Também ouvi.
— Uma diplomata alemã. — disse Theo.
— Essa apareceu três vezes.
Pansy apontou para Hermione.
— Ninguém pensou nela.
— Não. — concordou Hermione.
— Porque ninguém estava procurando por mim.
O ambiente ficou mais silencioso.
— Como assim? — perguntou Blaise.
Hermione deu de ombros.
— Quando deixei a Inglaterra, todo mundo presumiu que eu voltaria.
— Em alguns meses.
— Talvez um ano.
— Ninguém imaginou que eu construiria uma vida em outro país.
Astoria pareceu refletir sobre aquilo.
— Então vocês simplesmente...
— Viviam normalmente. — respondeu Hermione.
— Na Itália eu não era "a heroína da guerra".
— Eu era apenas Jean Granger.
Pansy piscou.
— Jean?
— Meu segundo nome.
— Você usava Jean?
— Quase sempre.
Theo imediatamente começou a rir.
— Isso é brilhante.
— Não foi planejado.
— Isso torna ainda melhor.
Hermione balançou a cabeça.
— Quando cheguei lá ninguém sabia quem eu era.
— Eu me apresentei como Jean.
— Continuei usando.
— E ficou.
Daphne apoiou a xícara no colo.
— Espera.
— Você está me dizendo que metade da Itália conhecia Jean Granger e ninguém percebeu que ela era Hermione Granger?
— Basicamente.
— Isso é absurdo.
— Concordo. — respondeu Hermione.
— Mas funcionou.
— Funcionou por quatro anos. — acrescentou Theo.
— Detalhe importante.
Draco observava a conversa com uma expressão quase divertida.
— Além disso, eu não ajudava.
— Não ajudava? — repetiu Blaise.
— Não.
— Draco.
— Eu nunca respondia.
— Isso é ajudar.
— Eu apenas me recusava a alimentar fofocas.
— Você literalmente alimentou uma teoria de que sua esposa era fictícia. — respondeu Theo.
— Aquela foi engraçada.
— Você achou engraçada.
— Muito.
Astoria começou a rir.
— Eu lembro dessa.
— O Profeta publicou uma matéria inteira questionando se ela existia.
— E eu considerei responder.
— Por quê? — perguntou Pansy.
Draco tomou um gole de chá.
— Porque queria perguntar à minha esposa imaginária o que ela achava do assunto.
Dessa vez até Hermione precisou esconder uma risada.
— Você é impossível.
— Eu sou engraçado.
— Não para os jornalistas.
— Principalmente para os jornalistas.
Blaise observou os dois por alguns segundos.
Então soltou uma risada curta.
— Sinceramente?
— O quê? — perguntou Hermione.
— Acho que vocês conseguiram porque ninguém imaginaria uma coisa tão absurda.
— Qual parte? — perguntou Draco.
— Hermione Granger e Draco Malfoy.
O silêncio durou apenas um segundo.
— Justo. — respondeu Hermione.
— Muito justo. — concordou Draco.
Quando perceberam, a tarde já começava a avançar.
As xícaras de chá haviam sido substituídas por café.
Os assuntos haviam mudado diversas vezes.
Hogwarts.
Itália.
Antigos professores.
Desastres ministeriais.
Projetos profissionais.
Histórias constrangedoras da adolescência que nenhum deles pretendia admitir em voz alta.
E, em algum momento entre uma conversa e outra, o clima estranho dos primeiros minutos simplesmente desapareceu.
Ninguém comentou sobre isso.
Mas todos perceberam.
Aquela sensação inicial de estarem diante de algo desconhecido já não existia mais.
Hermione continuava sendo diferente da garota que haviam conhecido em Hogwarts.
Mais tranquila.
Mais segura.
Mais feliz.
Mas, ao mesmo tempo, continuava sendo Hermione.
E isso tornava tudo inesperadamente fácil.
Quando Blaise finalmente se levantou para ir embora, olhou ao redor da sala antes de soltar um pequeno suspiro.
— Bem.
— Isso soa preocupante. — comentou Draco.
— Eu estava preparado para odiar toda essa situação.
— Que gentil da sua parte. — respondeu Hermione.
— Estou sendo sincero.
Theo assentiu.
— Eu também.
— Que adoráveis vocês dois. — comentou Daphne.
— Não interrompa minha evolução emocional. — respondeu Blaise.
Astoria começou a rir.
Pansy balançou a cabeça.
— Vocês são ridículos.
— Mas eu estava certo. — continuou Blaise. — Achei que isso seria estranho.
— Foi estranho. — respondeu Theo.
— Um pouco.
— Bastante. — corrigiu Pansy.
— Mas agora não está mais.
O comentário fez o ambiente ficar brevemente silencioso.
Não desconfortável.
Apenas sincero.
Hermione sorriu.
Pequeno.
Mas verdadeiro.
— Eu também estava nervosa.
— Você? — perguntou Daphne.
— Claro.
— Granger. — disse Theo. — Você enfrentou um basilisco aos doze anos.
— E mesmo assim estava nervosa.
— Isso é absurdamente irritante.
— Eu sei.
Todos acabaram rindo.
Quando finalmente começaram a se despedir, Narcisa reapareceu na sala.
Como se tivesse calculado perfeitamente o momento.
— Já vão embora?
— Infelizmente. — respondeu Astoria.
— Foi um prazer vê-los novamente.
Narcisa aproximou-se para abraçar cada um deles.
Com a naturalidade de quem realmente os tinha visto crescer.
E por um breve instante, todos voltaram a se sentir adolescentes.
Antes da guerra.
Antes das perdas.
Antes de tudo ter ficado tão complicado.
Quando o último deles desapareceu pelas chamas verdes da lareira, o silêncio finalmente retornou à mansão.
Hermione observou o fogo se apagar.
Depois sentiu a mão de Draco encontrar a sua.
— Então? — perguntou ele.
Ela sorriu.
— Sobreviveu.
— Eu sempre sobrevivo.
— Modesto como sempre.
— Uma das minhas melhores qualidades.
Hermione apoiou a cabeça em seu ombro.
Fale com o autor