Narcisa permitiu que o silêncio permanecesse por alguns segundos antes de voltar a caminhar.

— Venham. — disse ela.

O grupo a acompanhou pelo corredor que marcava o início da ala esquerda da mansão.

Ao contrário das áreas sociais, aquela parte da casa parecia muito mais privada.

Mais pessoal.

Havia apenas quatro portas ao longo do corredor.

E todas pareciam ser utilizadas com frequência.

— O escritório fica aqui. — comentou Narcisa, indicando a primeira porta.

— Dos dois? — perguntou Astoria.

— Sim. — confirmou Narcisa.

Pansy franziu a testa.

— Eles dividem um escritório?

— Sim. — respondeu Narcisa novamente.

— Isso parece perigosamente antinatural. — declarou Pansy.

Theo apoiou uma mão na parede.

— Concordo.

— Eu sabia que você teria bom senso. — respondeu Pansy.

— Não. — corrigiu Theo. — Eu só estou imaginando duas pessoas discutindo legislação por lazer.

— Ah. — disse Pansy. — Justo.

Blaise observou a porta.

— Eles realmente trabalham juntos?

— Frequentemente. — respondeu Narcisa.

— Voluntariamente? — perguntou Daphne.

— Frequentemente e voluntariamente.

— Isso é preocupante. — concluiu Blaise.

Continuaram caminhando.

Narcisa indicou outra porta.

— Cinema.

— Cinema? — repetiu Astoria.

— Hermione gosta de filmes trouxas. — explicou Narcisa.

— E Draco assiste? — perguntou Theo.

— Reclama durante metade do filme e assiste até o final.

— Isso soa exatamente como Draco. — comentou Blaise.

Pouco adiante surgia a última porta.

— E o banheiro. — concluiu Narcisa.

— Que emocionante. — comentou Pansy.

— Eu achei importante ser completa. — respondeu Narcisa com absoluta seriedade.

Astoria precisou esconder uma risada.

Então finalmente chegaram ao final do corredor.

As enormes portas duplas da biblioteca ocupavam praticamente toda a parede.

Daphne foi a primeira a parar.

— Certo.

— O quê? — perguntou Blaise.

— Isso é impressionante.

Acima das portas havia um brasão.

Não o antigo brasão dos Malfoy.

Mas um novo.

Um dragão prateado entrelaçado a um ramo de oliveira.

— Isso é novo. — observou Theo.

— Foi criado depois do casamento. — explicou Narcisa.

— Eles criaram um brasão? — perguntou Astoria.

— Sim.

— Isso é surpreendentemente romântico. — comentou Daphne.

— Não conte para eles que você disse isso. — respondeu Blaise.

Narcisa abriu as portas.

E todos ficaram em silêncio.

A biblioteca ocupava dois andares inteiros.

Estantes alcançavam o teto.

Escadas móveis percorriam trilhos dourados.

Mesas de leitura estavam espalhadas pelo ambiente.

Poltronas ocupavam diversos cantos.

E ao fundo, enormes janelas iluminavam um amplo solário.

Por alguns segundos ninguém falou nada.

Então Pansy respirou fundo.

— Certo.

— Lá vem. — murmurou Theo.

Pansy continuou observando as estantes.

— Talvez ele tenha convencido a Granger prometendo comprar todos os livros do mundo.

Blaise assentiu lentamente.

— Essa teoria tem mais credibilidade do que qualquer outra que ouvimos até agora.

— Concordo. — respondeu Theo.

— Finalmente alguém sensato. — declarou Pansy.

— Eu não disse que era uma teoria boa.

— Theo!

Astoria balançou a cabeça.

— Vocês são impossíveis.

Foi Daphne quem percebeu primeiro.

— Ali.

Os olhares se voltaram para o fundo da biblioteca.

E então encontraram o casal.

Por alguns segundos, ninguém falou nada.

Porque a cena era absurdamente comum.

Hermione ocupava um dos grandes sofás do solário.

Estava deitada de bruços sobre as almofadas, um livro aberto diante dela.

Usava roupas muito mais simples do que qualquer um deles esperava encontrar numa mansão Malfoy.

Uma calça de alfaiataria clara.

Uma blusa de tricô fina em tom creme com as mangas levemente dobradas.

Os cabelos presos de forma despreocupada.

Elegante.

Mas confortável.

Como alguém que estava em casa.

Draco estava sentado ao lado dela.

Recostado no canto do sofá.

Um livro apoiado em uma das mãos.

As mangas da camisa azul-escura estavam dobradas até os antebraços e o primeiro botão permanecia aberto.

Nada de casacos.

Nada de formalidade.

Nada que lembrasse o homem impecavelmente vestido que havia dominado o baile na noite anterior.

Pareciam simplesmente...

Relaxados.

Hermione mantinha as pernas estendidas ao longo do sofá.

Os tornozelos apoiados sobre a coxa de Draco.

E sem sequer olhar para o que fazia, ele acariciava distraidamente sua panturrilha enquanto lia.

Como se fosse um hábito tão antigo que nenhum dos dois precisasse pensar sobre ele.

Como se estivesse acontecendo havia horas.

Talvez estivesse.

O silêncio se prolongou.

Blaise piscou algumas vezes.

— Certo.

Ninguém respondeu.

— Isso é pior do que eu imaginava.

— Eu também pensei isso. — admitiu Theo.

— Eles nem perceberam que chegamos. — comentou Astoria.

— Porque claramente vivem numa realidade paralela. — respondeu Pansy.

Daphne observava a cena em silêncio.

— Eles parecem felizes.

— Não. — corrigiu Blaise.

— Eles parecem casados.

Aquilo arrancou uma pequena risada de Astoria.

Mas ninguém discordou.

Porque havia uma diferença.

Felicidade podia ser encenada.

Aquilo não.

Aquilo era conforto.

Era familiaridade.

Era o tipo de proximidade construída por milhares de pequenos momentos invisíveis.

Foi então que Hermione ergueu os olhos do livro.

Demorou alguns segundos para perceber que a biblioteca estava consideravelmente mais cheia do que antes.

— Ah.

Draco virou uma página.

— Já chegaram?

Pansy fechou os olhos.

— Eu me recuso a aceitar que vocês dois são pessoas reais.

Hermione foi a primeira a perceber que algo estava errado.

Ou melhor.

Que todos estavam olhando para eles de forma estranha.

Ela apoiou o livro sobre a mesa lateral.

— Certo... o que aconteceu?

Pansy soltou uma risada sem humor.

— Você realmente vai fingir que não sabe?

— Honestamente? — Hermione respondeu. — Sim.

Draco virou uma página.

— Eu apoio essa estratégia.

Theo apoiou um cotovelo no encosto da poltrona.

— Isso explica muita coisa.

— O quê? — perguntou Hermione.

— Vocês dois.

Hermione franziu a testa.

— Isso não respondeu absolutamente nada.

— Exatamente. — concordou Blaise.

O silêncio que se seguiu durou apenas alguns segundos.

Então Pansy apontou para os dois.

— Nós passamos quatro anos tentando descobrir quem era ela.

Draco nem sequer ergueu os olhos do livro.

— Eu sei.

— Não, você não sabe.

— Eu sei sim.

— Não sabe.

— Pansy, eu conheço você desde os onze anos.

— E mesmo assim você não faz ideia do nível do problema.

Astoria precisou esconder uma risada.

— Ela está certa.

Hermione olhou entre eles.

— Vocês estavam realmente tão curiosos assim?

— Curiosos? — repetiu Theo.

— Houve apostas.

— Muitas apostas. — acrescentou Blaise.

Hermione piscou.

— Apostas?

— Durante anos. — confirmou Daphne.

Draco finalmente fechou o livro.

— Eu odeio todos vocês.

— E ainda assim estamos aqui. — respondeu Blaise.

— Infelizmente.

Pansy cruzou os braços.

— Houve uma época em que eu honestamente achei que ela não existia.

Hermione ficou em silêncio.

— Como assim não existia?

— Literalmente não existia. — explicou Theo. — Existia uma teoria inteira sobre isso.

— Uma teoria ridícula. — comentou Astoria.

— Uma teoria plausível. — corrigiu Pansy.

— Era ridícula. — insistiu Blaise.

— Era brilhante.

Hermione voltou-se lentamente para Draco.

— Você inventou uma esposa imaginária?

— Eu não inventei uma esposa imaginária.

— Foi exatamente isso que eu disse. — respondeu Pansy.

— Eu nunca disse que ela era imaginária.

— Porque você nunca dizia nada. — rebateu Theo.

Blaise apontou para Draco.

— Esse era o problema.

— Qual?

— Qualquer pergunta sobre sua esposa recebia exatamente a mesma resposta.

Draco arqueou uma sobrancelha.

— Porque era uma boa resposta.

— Não era.

— Era elegante.

— Era irritante. — corrigiu Pansy.

Astoria imitou perfeitamente o tom aristocrático de Draco:

— "Minha esposa prefere privacidade."

Daphne entrou na brincadeira:

— "Minha esposa não aprecia exposição pública."

Theo ergueu a xícara:

— "Minha esposa está muito bem, obrigado pela preocupação."

Agora até Hermione começou a rir.

— Você realmente respondia assim?

— Funcionava.

— Não funcionava. — respondeu Blaise.

— Funcionava sim.

— Draco, isso só fazia as pessoas ficarem mais curiosas.

— Não era meu problema.

— Era literalmente seu problema.

Pansy apontou novamente para Hermione.

— Você entende que ninguém sequer chegou perto de descobrir quem você era?

Hermione pareceu genuinamente surpresa.

— Ninguém?

— Ninguém. — respondeu Daphne.

— Nem uma única vez. — acrescentou Theo.

— Nem remotamente. — concordou Astoria.

Hermione virou-se para Draco.

— Impressionante.

— Obrigado.

— Eu não estava elogiando você.

— Eu escolhi interpretar como elogio.

Blaise recostou-se na poltrona.

— O mais absurdo é que, olhando para trás, a resposta estava literalmente em Hogwarts.

— Não estava. — respondeu Theo.

— Estava sim.

— Não estava.

— Como não?

Theo apontou para Hermione.

— Porque Hermione Granger era a única pessoa que nunca entrou na lista de suspeitas.

Aquilo arrancou uma risada de Narcisa.

A primeira desde que haviam chegado à biblioteca.

— Isso é verdade. — admitiu ela.

— Obrigado, tia Ciça. — respondeu Theo.

— De nada, querido.

Pansy balançou a cabeça.

— Eu considerei uma aristocrata francesa.

— Eu lembro. — disse Blaise.

— Uma diplomata italiana.

— Também lembro. — respondeu Theo.

— Uma herdeira suíça.

— Essa foi particularmente ruim. — comentou Daphne.

— E até uma princesa.

— Essa foi a pior de todas. — concluiu Astoria.

Hermione apoiou o rosto na mão.

Claramente se divertindo.

— E em nenhum momento vocês pensaram em mim?

Cinco pares de olhos voltaram-se para ela.

— Não. — respondeu Pansy.

— Nem por um segundo. — acrescentou Blaise.

— Nunca. — concordou Theo.

O silêncio durou apenas um instante.

— Bem... — começou Daphne.

O grupo inteiro virou a cabeça.

Astoria já começou a sorrir.

— Ah não.

— O quê? — perguntou Hermione.

Daphne pareceu levemente constrangida.

— Houve uma vez.

— Uma vez? — repetiu Draco.

— Foi um pensamento de aproximadamente cinco minutos.

— Isso continua sendo preocupante. — respondeu ele.

Astoria apoiou o rosto na mão.

— Eu lembro dessa história.

— Claro que lembra. — murmurou Daphne.

Theo imediatamente se interessou.

— Agora eu preciso ouvir.

Daphne suspirou.

— Foi numa aula de Adivinhação.

Draco fechou os olhos.

— Excelente.

— Não me olhe assim. — respondeu Daphne.

— Eu não estou olhando.

— Exatamente.

Hermione começou a rir.

— Continue.

Daphne apoiou a xícara sobre a mesa.

— A professora Trelawney tinha nos colocado para fazer leituras em pares usando folhas de chá.

— Isso já está horrível. — comentou Theo.

— Concordo. — respondeu Blaise.

— Eu estava sentada perto do Malfoy.

— Que azar. — comentou Pansy.

— Foi traumático para nós dois. — respondeu Daphne.

Até Draco pareceu concordar.

— E eu acabei lendo a xícara dele.

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— Você leu a sorte do Draco?

— Sim.

— E sobreviveu?

— Por pouco.

Astoria riu.

— Ela ficou obcecada com aquilo durante uma semana.

— Eu não fiquei obcecada.

— Ficou sim.

— Fiquei curiosa.

— Obcecada.

Daphne ignorou a amiga.

— Enfim. Eu estava olhando as folhas e apareceu uma formação muito estranha.

— O que exatamente? — perguntou Hermione.

Daphne pensou por um instante.

— Havia duas figuras.

— Isso parece genérico. — comentou Draco.

— Eu ainda não terminei.

— Continue. — incentivou Theo.

— Uma delas aparecia muito nítida.

— Certo.

— A outra parecia estar sempre ligada à primeira.

Como se os dois símbolos continuassem se cruzando várias vezes.

Hermione ouviu atentamente.

Daphne continuou:

— Também havia um símbolo que lembrava uma coroa de louros.

— Vitória? — perguntou Astoria.

— Sim.

— Ou reconhecimento público. — acrescentou Daphne.

— Isso continua sendo genérico. — insistiu Draco.

— Espere.

Pela primeira vez, até Narcisa parecia interessada.

— Próximo aos dois símbolos havia algo que Trelawney chamou de "ponte".

— Uma ponte? — perguntou Hermione.

— Sim.

— Entre mundos diferentes.

O ambiente ficou um pouco mais silencioso.

— O que isso significa? — perguntou Blaise.

— Na interpretação dela?

— Sim.

— Duas pessoas vindas de realidades completamente distintas que acabariam construindo algo juntas.

Theo arregalou os olhos.

— Certo.

— Exatamente o que eu pensei. — respondeu Daphne.

— Isso é assustador.

— Não era a parte estranha. — continuou ela.

— Existe mais? — perguntou Astoria.

— Havia livros.

Hermione piscou.

— Livros?

— Muitos.

Draco imediatamente virou-se para a esposa.

— Pronto.

— Nem comece.

— Agora é você.

Daphne sorriu.

— A xícara estava cheia de símbolos ligados a conhecimento.

Livros.

Pergaminhos.

Penas.

Até Trelawney comentou que a segunda figura parecia alguém cuja vida girava em torno do aprendizado.

Hermione já escondia o sorriso atrás da xícara.

— Isso é ridiculamente específico.

— Foi exatamente o que eu pensei. — respondeu Daphne.

— Então eu comentei com Astoria depois da aula.

Astoria assentiu.

— Ela disse que, se aquela leitura tivesse qualquer sentido, a única pessoa que encaixava na descrição era Hermione Granger.

O silêncio foi imediato.

Hermione arregalou os olhos.

Draco simplesmente encarou Daphne.

— Você associou isso à Granger?

— Por cinco minutos. — respondeu Daphne.

— Talvez dez. — corrigiu Astoria.

— Oito no máximo.

— Treze. — respondeu Astoria.

Theo já ria.

— Isso é fantástico.

— Não é. — respondeu Draco.

— É sim.

— E depois eu descartei completamente a ideia. — concluiu Daphne.

— Por quê? — perguntou Hermione.

Daphne pareceu genuinamente surpresa pela pergunta.

— Porque vocês dois se odiavam.

— Exatamente. — respondeu Draco.

— Era uma teoria absurda.

Astoria sorriu.

— Até o baile de ontem.

— Até o baile de ontem. — concordou Daphne.

Então ela observou o casal sentado lado a lado.

— Agora olhando para trás...

Hermione arqueou uma sobrancelha.

— Sim?

Daphne sorriu pela primeira vez.

— Acho que Trelawney leu corretamente a sorte uma vez na vida.

Todos riram.