Ao contrário do que Narcisa havia previsto, os convidados chegaram praticamente ao mesmo tempo.

Ou pelo menos tão próximos quanto era possível quando cinco pessoas utilizavam a mesma conexão de Flu.

A chama da lareira da sala de recepção brilhou em verde pela primeira vez pouco antes do meio-dia.

Theo Nott surgiu com a elegância habitual, sacudindo discretamente uma pequena quantidade de fuligem do casaco.

Segundos depois foi a vez de Daphne.

Em seguida Astoria.

Depois Blaise.

E por último Pansy.

Que quase tropeçou ao sair da lareira.

— Eu odeio viajar por Flu.

— Você diz isso toda vez. — comentou Theo.

— Porque toda vez continua sendo uma experiência horrível.

Blaise observou o amplo hall de entrada ao redor.

E permaneceu em silêncio por alguns segundos.

A nova Mansão Malfoy era diferente.

Muito diferente.

Continuava grande.

Continuava elegante.

Continuava absurdamente cara.

Mas não possuía o ar pesado da antiga propriedade.

A luz atravessava as enormes janelas.

Os tons eram mais claros.

Os espaços mais abertos.

E havia uma estranha sensação de vida no ambiente.

Como se as pessoas realmente morassem ali.

— Certo. — disse Pansy.

Blaise suspirou.

— Toda vez que você começa uma frase assim eu fico preocupado.

— Eles estão ridiculamente ricos.

— Descoberta chocante. — respondeu Theo.

— Não estou falando do dinheiro.

Ela apontou para a escadaria principal.

— Estou falando do fato de que isso parece confortável.

— Eu entendi o que ela quis dizer. — comentou Daphne.

Astoria observava alguns dos quadros espalhados pelas paredes.

— Parece menos um monumento familiar e mais uma casa.

— Exatamente. — concordou Pansy.

Antes que pudessem continuar observando o hall, um elfo doméstico apareceu próximo à escadaria.

Vestia um uniforme impecável nas cores da família e carregava a postura séria de alguém que levava suas funções extremamente a sério.

— Senhor Zabini, Senhor Nott, Senhoritas Parkinson e Greengrass. Sejam bem-vindos à Mansão Malfoy.

— Ainda é estranho ouvir isso. — comentou Blaise.

— Ouvir o quê? — perguntou Theo.

— "Mansão Malfoy". Eu continuo esperando encontrar a antiga.

O elfo fez uma pequena reverência.

— Senhora Malfoy os aguarda na sala de estar.

Os cinco trocaram um olhar.

Pansy foi a primeira a falar.

— Qual delas?

O elfo piscou.

— Perdão?

— Senhora Malfoy.

— Sim.

— Qual delas?

O elfo pareceu refletir por um instante.

— Ah.

— A Senhora Malfoy.

O grupo continuou encarando-o.

— Isso não ajudou. — comentou Blaise.

O elfo assentiu educadamente.

— Senhora Malfoy é a mãe do Senhor Malfoy.

— Certo. — disse Astoria.

— Lady Malfoy é a esposa do Senhor Malfoy.

— Ah. — respondeu Pansy.

— Agora faz sentido. — concordou Daphne.

— Senhora Malfoy os aguarda na sala de estar. — repetiu o elfo.

E começou a guiá-los pelos corredores da mansão.

Enquanto caminhavam, Pansy observou outro elfo atravessar discretamente um corredor carregando uma bandeja.

— Tenho que admitir. — comentou. — Nunca imaginei que Granger acabaria vivendo numa mansão cheia de elfos domésticos.

O comentário saiu mais reflexivo do que maldoso.

Mas o elfo imediatamente reduziu o passo.

Então virou-se.

Muito sério.

— Lady Malfoy gosta muito dos elfos.

O grupo inteiro ficou em silêncio.

Pansy piscou.

— Eu não disse que não gostava.

— Ela pergunta sobre nossas famílias.

— Certo...

— Ela sabe o nome de todos.

Theo imediatamente desviou o olhar para esconder um sorriso.

— Ela também insiste que os elfos sentem durante as refeições importantes.

Pansy ficou claramente surpresa.

— Ela faz o quê?

— E agradece quando servimos chá.

Agora até Blaise precisou olhar para o outro lado.

O elfo pareceu perceber que ainda não havia concluído adequadamente sua defesa.

— Lady Malfoy é muito gentil.

Pansy ergueu ambas as mãos.

— Eu acredito em você.

— Certo.

— Eu não estava criticando.

— Certo.

— Você claramente gosta dela.

— Sim.

— Ótimo.

— Muito.

Theo tossiu discretamente.

Na tentativa mais óbvia do mundo de esconder uma risada.

O elfo finalmente pareceu satisfeito.

— Peço desculpas.

— Não precisa. — respondeu Pansy.

— Preciso sim.

— Por quê?

— Sra Malfoy diz que interromper convidados é falta de educação.

Blaise abaixou a cabeça imediatamente.

Os ombros tremendo.

— Mas eu achei importante esclarecer. — completou o elfo com dignidade.

Dessa vez ninguém conseguiu esconder completamente o sorriso.

Quando finalmente chegaram à sala de estar, Narcisa ergueu os olhos do livro que lia.

Seu olhar passou pelos convidados.

Depois pelo elfo.

Depois pelos convidados novamente.

— O que aconteceu?

— Nada. — respondeu Pansy rapidamente.

— Senhorita Parkinson insinuou que Lady Malfoy talvez não gostasse de elfos domésticos.

— Eu não insinuei!

— E eu esclareci o equívoco.

O silêncio que se seguiu durou aproximadamente dois segundos.

Então Narcisa fechou o livro.

— Tobby.

— Sim, Lady Malfoy?

— Tenho absoluta certeza de que a senhorita Parkinson não pretendia ofender Hermione.

Pansy apontou imediatamente para Narcisa.

— Exatamente.

— Claro que não. — continuou Narcisa com toda a elegância aristocrática possível. — Porque isso seria extremamente deselegante.

— Muito obrigada pelo apoio.

— Sempre, querida.

Tobby assentiu solenemente.

— Entendido.

Então fez uma reverência.

E desapareceu.

O silêncio durou apenas um instante.

Então Blaise foi o primeiro a ceder.

Começou a rir.

Theo veio logo depois.

E em menos de um minuto praticamente todos estavam rindo.

Exceto Pansy.

Que permanecia sentada com a dignidade ferida.

— Fui repreendida por um elfo doméstico.

— Tecnicamente. — observou Theo. — Você foi repreendida por um elfo doméstico apaixonado pela Granger.

— Isso é ainda pior.

Narcisa observou os cinco por cima da xícara de chá.

Por alguns segundos, ninguém falou nada.

O que, considerando quem estava sentado naquela sala, era quase impressionante.

— Fico feliz que tenham vindo. — comentou Narcisa.

— Nós também. — respondeu Daphne educadamente.

— Mentira. — disse Pansy imediatamente.

Theo fechou os olhos.

— Merlin.

— O quê? — Pansy abriu os braços. — Estamos todos aqui pelo mesmo motivo.

— Não estamos. — respondeu Blaise.

Pansy virou-se para ele.

— Ah, não?

— Eu vim pela comida. — declarou Blaise com absoluta seriedade.

— Mentiroso. — respondeu Pansy.

— Descaradamente. — concordou Theo.

Astoria soltou uma pequena risada.

— Acho que todos estamos curiosos.

Narcisa arqueou uma sobrancelha.

— Curiosos sobre o quê?

Cinco pares de olhos a encararam ao mesmo tempo.

Blaise foi o primeiro a falar.

— Tia Ciça...

— Não. — respondeu Narcisa imediatamente.

— Nem deixou terminar.

— Não precisava.

Daphne levou a mão aos lábios para esconder um sorriso.

— Isso foi um pouco cruel.

— Isso foi experiência. — corrigiu Narcisa.

Theo apoiou o braço na poltrona.

— Admito que ainda estou processando tudo.

— Todos estamos. — concordou Astoria.

— O baile inteiro pareceu um pouco surreal. — acrescentou Daphne.

Pansy cruzou os braços.

— Eu continuo achando ofensivo que Granger tenha reaparecido parecendo uma diplomata internacional.

Blaise virou a cabeça lentamente para ela.

— Você está ofendida porque ela estava bonita?

— Não. — respondeu Pansy.

— Então qual é o problema?

— Estou ofendida porque ela estava elegante.

Theo soltou uma risada.

— Isso continua não fazendo sentido.

— Faz na minha cabeça. — respondeu Pansy.

— Esse é exatamente o problema. — concluiu Blaise.

As risadas percorreram a sala.

Narcisa apenas observava em silêncio.

Claramente divertida.

Depois de alguns segundos, Blaise voltou ao assunto principal.

— Então onde estão os protagonistas do escândalo social da semana?

— Em algum lugar da ala esquerda. — respondeu Narcisa calmamente.

— Isso foi extremamente específico. — comentou Theo.

— E ao mesmo tempo nada específico. — acrescentou Pansy.

Narcisa fechou o livro que estava lendo.

— Eu acredito que estejam na biblioteca.

— Biblioteca. — repetiu Blaise.

— Claro. — murmurou Theo.

— Eu nem sei por que continuo me surpreendendo. — disse Pansy.

Narcisa levantou-se elegantemente.

— Venham.

Os cinco trocaram um olhar.

— Isso significa que vamos encontrá-los? — perguntou Astoria.

— Isso significa que vocês vão parar de fingir que conseguem conversar sobre qualquer outro assunto.

Pansy levantou-se imediatamente.

— Finalmente.

Enquanto atravessavam os corredores da mansão, os olhares curiosos percorriam cada detalhe.

A propriedade ainda carregava a sofisticação característica dos Malfoy.

Mas havia algo diferente.

Algo mais leve.

Mais vivido.

Mais humano.

Daphne foi a primeira a diminuir o passo diante de uma das molduras.

— Essa fotografia é nova.

Os demais acompanharam seu olhar.

A imagem mostrava Draco e Hermione sentados em uma varanda ensolarada.

Hermione tinha um livro aberto sobre o colo.

Draco observava alguma coisa que ela apontava na página.

Nenhum dos dois parecia perceber que estava sendo fotografado.

Os dois sorriam.

Naturalmente.

— Itália. — explicou Narcisa.

Astoria observou a fotografia por alguns segundos.

— Eles parecem felizes.

O sorriso de Narcisa suavizou.

— Porque estavam.

Por algum motivo, ninguém fez piada daquela vez.

Continuaram caminhando.

Mais adiante, foi Blaise quem parou.

— Certo.

— O quê? — perguntou Theo.

— Isso é estranho.

Dessa vez a fotografia mostrava os três.

Draco.

Hermione.

Narcisa.

Sentados em um jardim.

Rindo de alguma coisa que acontecia fora da imagem.

— Eu nunca imaginei ver uma fotografia da família Malfoy parecendo normal. — admitiu Blaise.

— Concordo. — respondeu Pansy.

— É quase perturbador.

— Vocês são dramáticos. — comentou Astoria.

— Estamos sendo honestos. — corrigiu Blaise.

Narcisa apenas continuou caminhando.

Claramente divertida.

Continuaram caminhando e entraram na ala leste da mansão.

Próximo a entrada, Astoria diminuiu o passo diante de outra moldura.

— Esperem.

Os demais acompanharam seu olhar.

Dessa vez a fotografia era diferente.

Menos formal.

Mais familiar.

Mostrava uma grande mesa ao ar livre sob uma pérgola coberta por flores.

Draco e Hermione estavam sentados lado a lado.

Narcisa ocupava uma das extremidades.

Mas não eram eles que chamavam atenção.

E sim o casal sentado do outro lado da mesa.

Um homem e uma mulher de aparência trouxa.

Sorrindo.

Conversando.

Perfeitamente à vontade.

Como se pertencessem àquela cena.

Como se sempre tivessem pertencido.

O silêncio durou alguns segundos.

Foi Daphne quem falou primeiro.

— São os pais dela?

— Sim. — respondeu Narcisa.

Astoria observou a imagem novamente.

A mãe de Hermione ria de alguma coisa que Narcisa acabara de dizer.

O pai dela parecia discutir animadamente com Draco.

Ao fundo, Hermione parecia revirar os olhos para alguma piada que claramente os dois homens haviam feito.

Uma típica fotografia de família.

— Eles se dão bem? — perguntou Astoria.

Narcisa pareceu genuinamente surpresa.

— Muito.

— Mesmo? — perguntou Blaise.

— Minha querida, Jean e eu tomávamos chá juntas duas vezes por semana quando moravam mais perto.

O grupo inteiro virou a cabeça.

— Vocês o quê? — perguntou Pansy.

— Chá. — respondeu Narcisa com naturalidade.

— Duas vezes por semana.

— Isso é amizade.

— Sim.

— Vocês são amigas?

— Sim.

Pansy ficou alguns segundos em silêncio.

— Certo.

— Isso foi mais chocante do que o casamento. — admitiu Theo.

Narcisa ignorou o comentário.

— Richard também é uma companhia agradável.

— Richard? — perguntou Daphne.

— O pai de Hermione.

— Você chama os pais da Granger pelo primeiro nome? — perguntou Blaise.

— Há anos.

O silêncio voltou a se instalar.

Astoria observou a fotografia novamente.

Quanto mais olhava, mais natural tudo parecia.

E talvez fosse justamente isso que causava estranheza.

Nada naquela imagem parecia forçado.

Nada parecia recente.

Parecia uma família.

— E Draco? — perguntou Theo. — Como ele sobreviveu a isso?

Um sorriso divertido surgiu nos lábios de Narcisa.

— Richard o arrastou para assistir partidas e futebol.

— Não. — respondeu Blaise imediatamente.

— Sim.

— Malfoy?

— Sim.

— Esportes trouxas?

— Frequentemente.

Pansy apoiou a mão sobre o peito.

— Eu sinto que estou descobrindo coisas que jamais deveriam existir.

— No início ele não queria dar oportunidade devido ao quadribol. — continuou Narcisa. — Hoje em dia os dois fazem planos sem sequer consultar Hermione.

— Isso é pior. — concluiu Theo.

— Muito pior. — concordou Blaise.

— E os jantares? — perguntou Astoria.

— Revezávamos as casas. — respondeu Narcisa. — Algumas em nossa casa. Algumas vezes com os Granger. Algumas vezes em restaurantes.

Daphne observou a fotografia mais uma vez.

— Então eles realmente se tornaram uma família.

Dessa vez Narcisa sorriu.

Um sorriso pequeno.

Mas sincero.

— Sim.

Por algum motivo, ninguém fez piada.

Porque pela primeira vez desde que chegaram à mansão, todos começavam a perceber a mesma coisa.

Eles não estavam olhando para um relacionamento inesperado.

Estavam olhando para anos de vida compartilhada.

Anos dos quais simplesmente não haviam participado.