O Segredo Mais Bem Guardado
15 Capítulo 15
Ao contrário do que Narcisa havia previsto, os convidados chegaram praticamente ao mesmo tempo.
Ou pelo menos tão próximos quanto era possível quando cinco pessoas utilizavam a mesma conexão de Flu.
A chama da lareira da sala de recepção brilhou em verde pela primeira vez pouco antes do meio-dia.
Theo Nott surgiu com a elegância habitual, sacudindo discretamente uma pequena quantidade de fuligem do casaco.
Segundos depois foi a vez de Daphne.
Em seguida Astoria.
Depois Blaise.
E por último Pansy.
Que quase tropeçou ao sair da lareira.
— Eu odeio viajar por Flu.
— Você diz isso toda vez. — comentou Theo.
— Porque toda vez continua sendo uma experiência horrível.
Blaise observou o amplo hall de entrada ao redor.
E permaneceu em silêncio por alguns segundos.
A nova Mansão Malfoy era diferente.
Muito diferente.
Continuava grande.
Continuava elegante.
Continuava absurdamente cara.
Mas não possuía o ar pesado da antiga propriedade.
A luz atravessava as enormes janelas.
Os tons eram mais claros.
Os espaços mais abertos.
E havia uma estranha sensação de vida no ambiente.
Como se as pessoas realmente morassem ali.
— Certo. — disse Pansy.
Blaise suspirou.
— Toda vez que você começa uma frase assim eu fico preocupado.
— Eles estão ridiculamente ricos.
— Descoberta chocante. — respondeu Theo.
— Não estou falando do dinheiro.
Ela apontou para a escadaria principal.
— Estou falando do fato de que isso parece confortável.
— Eu entendi o que ela quis dizer. — comentou Daphne.
Astoria observava alguns dos quadros espalhados pelas paredes.
— Parece menos um monumento familiar e mais uma casa.
— Exatamente. — concordou Pansy.
Antes que pudessem continuar observando o hall, um elfo doméstico apareceu próximo à escadaria.
Vestia um uniforme impecável nas cores da família e carregava a postura séria de alguém que levava suas funções extremamente a sério.
— Senhor Zabini, Senhor Nott, Senhoritas Parkinson e Greengrass. Sejam bem-vindos à Mansão Malfoy.
— Ainda é estranho ouvir isso. — comentou Blaise.
— Ouvir o quê? — perguntou Theo.
— "Mansão Malfoy". Eu continuo esperando encontrar a antiga.
O elfo fez uma pequena reverência.
— Senhora Malfoy os aguarda na sala de estar.
Os cinco trocaram um olhar.
Pansy foi a primeira a falar.
— Qual delas?
O elfo piscou.
— Perdão?
— Senhora Malfoy.
— Sim.
— Qual delas?
O elfo pareceu refletir por um instante.
— Ah.
— A Senhora Malfoy.
O grupo continuou encarando-o.
— Isso não ajudou. — comentou Blaise.
O elfo assentiu educadamente.
— Senhora Malfoy é a mãe do Senhor Malfoy.
— Certo. — disse Astoria.
— Lady Malfoy é a esposa do Senhor Malfoy.
— Ah. — respondeu Pansy.
— Agora faz sentido. — concordou Daphne.
— Senhora Malfoy os aguarda na sala de estar. — repetiu o elfo.
E começou a guiá-los pelos corredores da mansão.
Enquanto caminhavam, Pansy observou outro elfo atravessar discretamente um corredor carregando uma bandeja.
— Tenho que admitir. — comentou. — Nunca imaginei que Granger acabaria vivendo numa mansão cheia de elfos domésticos.
O comentário saiu mais reflexivo do que maldoso.
Mas o elfo imediatamente reduziu o passo.
Então virou-se.
Muito sério.
— Lady Malfoy gosta muito dos elfos.
O grupo inteiro ficou em silêncio.
Pansy piscou.
— Eu não disse que não gostava.
— Ela pergunta sobre nossas famílias.
— Certo...
— Ela sabe o nome de todos.
Theo imediatamente desviou o olhar para esconder um sorriso.
— Ela também insiste que os elfos sentem durante as refeições importantes.
Pansy ficou claramente surpresa.
— Ela faz o quê?
— E agradece quando servimos chá.
Agora até Blaise precisou olhar para o outro lado.
O elfo pareceu perceber que ainda não havia concluído adequadamente sua defesa.
— Lady Malfoy é muito gentil.
Pansy ergueu ambas as mãos.
— Eu acredito em você.
— Certo.
— Eu não estava criticando.
— Certo.
— Você claramente gosta dela.
— Sim.
— Ótimo.
— Muito.
Theo tossiu discretamente.
Na tentativa mais óbvia do mundo de esconder uma risada.
O elfo finalmente pareceu satisfeito.
— Peço desculpas.
— Não precisa. — respondeu Pansy.
— Preciso sim.
— Por quê?
— Sra Malfoy diz que interromper convidados é falta de educação.
Blaise abaixou a cabeça imediatamente.
Os ombros tremendo.
— Mas eu achei importante esclarecer. — completou o elfo com dignidade.
Dessa vez ninguém conseguiu esconder completamente o sorriso.
Quando finalmente chegaram à sala de estar, Narcisa ergueu os olhos do livro que lia.
Seu olhar passou pelos convidados.
Depois pelo elfo.
Depois pelos convidados novamente.
— O que aconteceu?
— Nada. — respondeu Pansy rapidamente.
— Senhorita Parkinson insinuou que Lady Malfoy talvez não gostasse de elfos domésticos.
— Eu não insinuei!
— E eu esclareci o equívoco.
O silêncio que se seguiu durou aproximadamente dois segundos.
Então Narcisa fechou o livro.
— Tobby.
— Sim, Lady Malfoy?
— Tenho absoluta certeza de que a senhorita Parkinson não pretendia ofender Hermione.
Pansy apontou imediatamente para Narcisa.
— Exatamente.
— Claro que não. — continuou Narcisa com toda a elegância aristocrática possível. — Porque isso seria extremamente deselegante.
— Muito obrigada pelo apoio.
— Sempre, querida.
Tobby assentiu solenemente.
— Entendido.
Então fez uma reverência.
E desapareceu.
O silêncio durou apenas um instante.
Então Blaise foi o primeiro a ceder.
Começou a rir.
Theo veio logo depois.
E em menos de um minuto praticamente todos estavam rindo.
Exceto Pansy.
Que permanecia sentada com a dignidade ferida.
— Fui repreendida por um elfo doméstico.
— Tecnicamente. — observou Theo. — Você foi repreendida por um elfo doméstico apaixonado pela Granger.
— Isso é ainda pior.
Narcisa observou os cinco por cima da xícara de chá.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
O que, considerando quem estava sentado naquela sala, era quase impressionante.
— Fico feliz que tenham vindo. — comentou Narcisa.
— Nós também. — respondeu Daphne educadamente.
— Mentira. — disse Pansy imediatamente.
Theo fechou os olhos.
— Merlin.
— O quê? — Pansy abriu os braços. — Estamos todos aqui pelo mesmo motivo.
— Não estamos. — respondeu Blaise.
Pansy virou-se para ele.
— Ah, não?
— Eu vim pela comida. — declarou Blaise com absoluta seriedade.
— Mentiroso. — respondeu Pansy.
— Descaradamente. — concordou Theo.
Astoria soltou uma pequena risada.
— Acho que todos estamos curiosos.
Narcisa arqueou uma sobrancelha.
— Curiosos sobre o quê?
Cinco pares de olhos a encararam ao mesmo tempo.
Blaise foi o primeiro a falar.
— Tia Ciça...
— Não. — respondeu Narcisa imediatamente.
— Nem deixou terminar.
— Não precisava.
Daphne levou a mão aos lábios para esconder um sorriso.
— Isso foi um pouco cruel.
— Isso foi experiência. — corrigiu Narcisa.
Theo apoiou o braço na poltrona.
— Admito que ainda estou processando tudo.
— Todos estamos. — concordou Astoria.
— O baile inteiro pareceu um pouco surreal. — acrescentou Daphne.
Pansy cruzou os braços.
— Eu continuo achando ofensivo que Granger tenha reaparecido parecendo uma diplomata internacional.
Blaise virou a cabeça lentamente para ela.
— Você está ofendida porque ela estava bonita?
— Não. — respondeu Pansy.
— Então qual é o problema?
— Estou ofendida porque ela estava elegante.
Theo soltou uma risada.
— Isso continua não fazendo sentido.
— Faz na minha cabeça. — respondeu Pansy.
— Esse é exatamente o problema. — concluiu Blaise.
As risadas percorreram a sala.
Narcisa apenas observava em silêncio.
Claramente divertida.
Depois de alguns segundos, Blaise voltou ao assunto principal.
— Então onde estão os protagonistas do escândalo social da semana?
— Em algum lugar da ala esquerda. — respondeu Narcisa calmamente.
— Isso foi extremamente específico. — comentou Theo.
— E ao mesmo tempo nada específico. — acrescentou Pansy.
Narcisa fechou o livro que estava lendo.
— Eu acredito que estejam na biblioteca.
— Biblioteca. — repetiu Blaise.
— Claro. — murmurou Theo.
— Eu nem sei por que continuo me surpreendendo. — disse Pansy.
Narcisa levantou-se elegantemente.
— Venham.
Os cinco trocaram um olhar.
— Isso significa que vamos encontrá-los? — perguntou Astoria.
— Isso significa que vocês vão parar de fingir que conseguem conversar sobre qualquer outro assunto.
Pansy levantou-se imediatamente.
— Finalmente.
Enquanto atravessavam os corredores da mansão, os olhares curiosos percorriam cada detalhe.
A propriedade ainda carregava a sofisticação característica dos Malfoy.
Mas havia algo diferente.
Algo mais leve.
Mais vivido.
Mais humano.
Daphne foi a primeira a diminuir o passo diante de uma das molduras.
— Essa fotografia é nova.
Os demais acompanharam seu olhar.
A imagem mostrava Draco e Hermione sentados em uma varanda ensolarada.
Hermione tinha um livro aberto sobre o colo.
Draco observava alguma coisa que ela apontava na página.
Nenhum dos dois parecia perceber que estava sendo fotografado.
Os dois sorriam.
Naturalmente.
— Itália. — explicou Narcisa.
Astoria observou a fotografia por alguns segundos.
— Eles parecem felizes.
O sorriso de Narcisa suavizou.
— Porque estavam.
Por algum motivo, ninguém fez piada daquela vez.
Continuaram caminhando.
Mais adiante, foi Blaise quem parou.
— Certo.
— O quê? — perguntou Theo.
— Isso é estranho.
Dessa vez a fotografia mostrava os três.
Draco.
Hermione.
Narcisa.
Sentados em um jardim.
Rindo de alguma coisa que acontecia fora da imagem.
— Eu nunca imaginei ver uma fotografia da família Malfoy parecendo normal. — admitiu Blaise.
— Concordo. — respondeu Pansy.
— É quase perturbador.
— Vocês são dramáticos. — comentou Astoria.
— Estamos sendo honestos. — corrigiu Blaise.
Narcisa apenas continuou caminhando.
Claramente divertida.
Continuaram caminhando e entraram na ala leste da mansão.
Próximo a entrada, Astoria diminuiu o passo diante de outra moldura.
— Esperem.
Os demais acompanharam seu olhar.
Dessa vez a fotografia era diferente.
Menos formal.
Mais familiar.
Mostrava uma grande mesa ao ar livre sob uma pérgola coberta por flores.
Draco e Hermione estavam sentados lado a lado.
Narcisa ocupava uma das extremidades.
Mas não eram eles que chamavam atenção.
E sim o casal sentado do outro lado da mesa.
Um homem e uma mulher de aparência trouxa.
Sorrindo.
Conversando.
Perfeitamente à vontade.
Como se pertencessem àquela cena.
Como se sempre tivessem pertencido.
O silêncio durou alguns segundos.
Foi Daphne quem falou primeiro.
— São os pais dela?
— Sim. — respondeu Narcisa.
Astoria observou a imagem novamente.
A mãe de Hermione ria de alguma coisa que Narcisa acabara de dizer.
O pai dela parecia discutir animadamente com Draco.
Ao fundo, Hermione parecia revirar os olhos para alguma piada que claramente os dois homens haviam feito.
Uma típica fotografia de família.
— Eles se dão bem? — perguntou Astoria.
Narcisa pareceu genuinamente surpresa.
— Muito.
— Mesmo? — perguntou Blaise.
— Minha querida, Jean e eu tomávamos chá juntas duas vezes por semana quando moravam mais perto.
O grupo inteiro virou a cabeça.
— Vocês o quê? — perguntou Pansy.
— Chá. — respondeu Narcisa com naturalidade.
— Duas vezes por semana.
— Isso é amizade.
— Sim.
— Vocês são amigas?
— Sim.
Pansy ficou alguns segundos em silêncio.
— Certo.
— Isso foi mais chocante do que o casamento. — admitiu Theo.
Narcisa ignorou o comentário.
— Richard também é uma companhia agradável.
— Richard? — perguntou Daphne.
— O pai de Hermione.
— Você chama os pais da Granger pelo primeiro nome? — perguntou Blaise.
— Há anos.
O silêncio voltou a se instalar.
Astoria observou a fotografia novamente.
Quanto mais olhava, mais natural tudo parecia.
E talvez fosse justamente isso que causava estranheza.
Nada naquela imagem parecia forçado.
Nada parecia recente.
Parecia uma família.
— E Draco? — perguntou Theo. — Como ele sobreviveu a isso?
Um sorriso divertido surgiu nos lábios de Narcisa.
— Richard o arrastou para assistir partidas e futebol.
— Não. — respondeu Blaise imediatamente.
— Sim.
— Malfoy?
— Sim.
— Esportes trouxas?
— Frequentemente.
Pansy apoiou a mão sobre o peito.
— Eu sinto que estou descobrindo coisas que jamais deveriam existir.
— No início ele não queria dar oportunidade devido ao quadribol. — continuou Narcisa. — Hoje em dia os dois fazem planos sem sequer consultar Hermione.
— Isso é pior. — concluiu Theo.
— Muito pior. — concordou Blaise.
— E os jantares? — perguntou Astoria.
— Revezávamos as casas. — respondeu Narcisa. — Algumas em nossa casa. Algumas vezes com os Granger. Algumas vezes em restaurantes.
Daphne observou a fotografia mais uma vez.
— Então eles realmente se tornaram uma família.
Dessa vez Narcisa sorriu.
Um sorriso pequeno.
Mas sincero.
— Sim.
Por algum motivo, ninguém fez piada.
Porque pela primeira vez desde que chegaram à mansão, todos começavam a perceber a mesma coisa.
Eles não estavam olhando para um relacionamento inesperado.
Estavam olhando para anos de vida compartilhada.
Anos dos quais simplesmente não haviam participado.
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