O Segredo Mais Bem Guardado
14 Capítulo 14
O almoço na Toca costumava ser barulhento.
Naquele domingo, entretanto, existia uma espécie de tensão estranha pairando sobre a mesa.
Não era exatamente desconforto.
Mas definitivamente não era normalidade.
Todos tentaram.
Por aproximadamente quinze minutos.
Arthur comentou uma matéria sobre novas regulamentações para objetos trouxas.
Molly insistiu para que todos pegassem mais batatas.
As crianças corriam pelo jardim.
Mas era impossível ignorar o elefante gigantesco sentado no meio da mesa.
O recorde de resistência pertenceu a Jorge.
— Certo. — anunciou enquanto apoiava os talheres sobre a mesa. — Já podemos falar sobre o fato de que Hermione Granger aparentemente se casou com Draco Malfoy e ninguém percebeu?
Angelina soltou um suspiro.
— Jorge.
— O quê? Estou sendo o mais maduro da mesa.
— Isso é preocupante.
— Concordo. — respondeu Jorge imediatamente.
Algumas risadas surgiram ao redor da mesa.
Poucas.
Mas suficientes para aliviar um pouco da tensão.
— Ainda acho que a melhor parte foi a cara do Rony. — acrescentou Jorge antes de beber um gole de suco.
— Jorge. — repetiu Angelina.
— Estou apenas relatando fatos históricos.
Harry balançou a cabeça enquanto sorria de canto.
— Você realmente não consegue evitar.
— Anos de prática. — respondeu Jorge.
— Nós percebemos. — comentou Audrey.
Jorge pareceu genuinamente satisfeito com a observação.
O silêncio voltou por alguns segundos.
— Ela podia ter contado!
A frase de Rony saiu alta o suficiente para fazer metade da mesa se calar.
Molly lançou um olhar de advertência.
Mas Rony continuou.
— Não estou dizendo que ela precisava mandar uma carta toda semana!
— Rony... — começou Gina.
— Não, porque todo mundo está agindo como se eu estivesse sendo irracional!
Ele abriu os braços.
Claramente exaltado. E assim se iniciou uma discussão entre Gina e Rony.
— É um casamento!
— Nós éramos melhores amigos!
— Eu cresci com ela! E descubro tudo junto com metade do mundo bruxo porque o Ministro resolve fazer um anúncio?
O silêncio tomou conta da mesa.
Porque aquela parte era difícil de rebater.
Rony passou a mão pelos cabelos.
— Eu nem sabia que ela estava namorando. Nem sabia que estava apaixonada. Nem sabia que estava pensando em casar. – Ele fez uma pausa entre cada constatação.
Gina observou o irmão por alguns segundos.
Então falou:
— Eu sabia que ela estava conhecendo alguém.
Rony virou a cabeça imediatamente.
— O quê?
— Não quem era. Mas sabia que existia alguém.
— Desde quando?
— Desde o meu casamento.
A mesa inteira voltou a ficar em silêncio.
— Você sabia? — perguntou Rony, incrédulo.
— Não exatamente.
— Gina.
— Eu sabia que ela estava conhecendo alguém.
— Isso conta como saber!
— Não, não conta.
— Claro que conta!
— Rony, eu não tinha nome.
— Mas tinha informação!
— Uma informação extremamente vaga.
Rony soltou uma risada sem humor.
— Impressionante.
Gina arqueou uma sobrancelha.
— O quê?
— Você conseguiu guardar isso por anos.
— Porque não era da minha conta.
— Ela era nossa amiga!
— Exatamente.
A resposta saiu tão rápida que o fez parar.
Gina apoiou os braços na mesa.
— Ela me contou porque eu insisti e mesmo assim me contou quase nada. Porque claramente não queria falar sobre aquilo.
Rony balançou a cabeça.
— Então você simplesmente aceitou?
— Sim.
— Sem perguntar mais nada?
— Sim.
— Gina!
— O quê você queria que eu fizesse? Contratasse um investigador particular?
Algumas pessoas na mesa precisaram esconder o sorriso.
Mas Rony não estava achando graça.
— Eu só acho que ela devia ter contado.
— E eu acho que se ela não contou havia um motivo.
Os dois se encararam por alguns segundos.
Foi Molly quem interveio.
— Já chega.
O tom foi suficiente para encerrar a discussão.
Rony desviou o olhar primeiro. Claramente frustrado e permaneceu em silêncio, por alguns segundos até começar ficar com o rosto vermelho novamente.
— E outra coisa! — Rony disparou de repente, claramente ainda longe de terminar.
Molly fechou os olhos.
— Ronald...
— Não, porque ninguém falou sobre isso ainda!
Ele apontou para o jornal como se estivesse apresentando uma prova em um julgamento.
— O Ministro sabia.
A mesa inteira ficou em silêncio.
— Rony... — começou Harry.
— Não, pensa nisso!
Ele olhou para todos.
— O Kingsley sabia. Há quanto tempo? Meses? Anos? E nunca disse nada.
Ele fez uma pausa como se desse tempo para todos acompanharem seu raciocínio.
— Nunca avisou ninguém. Nunca sequer deu uma pista.
Jorge apoiou o queixo na mão.
— Tecnicamente não era um assunto dele.
— Claro que era!
— Não era. — respondeu Angelina.
— Era a Hermione!
— E a vida da Hermione continua sendo dela. — rebateu Gina imediatamente.
Rony virou-se para a irmã e os dois retornaram a discutir.
— Kingsley não era qualquer pessoa!
— Eu sei exatamente quem ele é.
— Ele lutou ao nosso lado!
— Sim.
— Ele é nosso amigo!
— Sim.
— Então podia ter falado alguma coisa!
— Não, não podia.
A resposta saiu tão firme que Rony ficou alguns segundos sem reação.
Gina cruzou os braços.
— Se Hermione pediu sigilo, ele tinha obrigação de respeitar.
— Mesmo conosco?
— Principalmente com vocês.
O silêncio caiu sobre a mesa.
Rony pareceu ainda mais irritado com aquilo.
Porque, no fundo, sabia que ela tinha razão.
— Continuo achando absurdo.
— Você está magoado. — respondeu Gina.
— Estou!
— E isso é compreensível.
— Obrigado.
— Mas isso não transforma a vida da Hermione em informação pública.
Rony abriu a boca para responder.
Nenhuma palavra saiu.
Arthur resolveu intervir antes que a discussão recomeçasse.
— Sinceramente? — disse ele calmamente. — Eu ficaria muito decepcionado com Kingsley se ele tivesse contado.
Isso fez Rony piscar.
— O quê?
Arthur deu de ombros.
— Se um amigo me confiasse algo daquela importância, eu esperaria que ele guardasse o segredo.
Molly assentiu discretamente.
— Eu também.
Rony olhou para um lado.
Depois para o outro.
Claramente percebendo que não estava encontrando muitos aliados naquela linha de raciocínio.
— Ainda acho irritante.
— Isso você tem o direito de achar. — respondeu Molly.
— Finalmente alguém do meu lado.
— Eu não estou do seu lado.
— Ah.
— Estou apenas reconhecendo que você está sendo dramático por um motivo legítimo.
Jorge imediatamente apontou para a mãe.
— Essa foi a descrição mais educada que já ouvi para o Rony.
— Concordo. — disse Charlie.
— Também concordo. — acrescentou Bill.
— Traidores. — murmurou Rony.
A tensão demorou alguns segundos para diminuir.
Foi então que Harry finalmente falou.
A voz muito mais baixa.
Muito mais cansada.
— Acho que parte do problema é que eu nem percebi que isso estava acontecendo.
A mesa inteira ficou quieta.
Harry encarava o próprio prato.
Pensativo.
— Ontem à noite eu fiquei pensando nas cartas que trocávamos.
Gina voltou a sentar-se corretamente na cadeira.
Agora observando o marido.
— E percebi uma coisa.
Harry soltou uma pequena risada sem humor.
— Eu nunca perguntava sobre a vida dela.
Ninguém interrompeu.
— Não de verdade.
Ele apoiou os antebraços sobre a mesa.
— Eu perguntava quando ela voltaria. Comentava sobre vagas no Ministério que queriam ela. Falava de alguma coisa acontecendo em Londres. Perguntava quando vinha visitar alguém.
Ele fez uma pausa.
Mais longa dessa vez.
— Mas nunca perguntava se ela estava feliz.
O silêncio ficou ainda maior.
— Eu sabia que ela trabalhava. Que estava sendo promovida.
Harry respirou fundo.
— Mas nunca parei para perguntar o que ela queria construir lá.
Gina estendeu a mão por baixo da mesa e segurou a dele.
Harry apertou seus dedos automaticamente.
— Acho que uma parte de mim sempre acreditou que ela voltaria.
Arthur abaixou os olhos.
Molly permaneceu imóvel.
— Não porque estivesse infeliz. Mas porque era a Hermione.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
Como se estivesse finalmente entendendo algo.
— E acho que nunca percebi que ela não estava esperando voltar.
A mesa permaneceu quieta.
Harry observou o jornal dobrado ao lado do próprio prato.
A fotografia de Hermione sorria para as câmeras ao lado de Draco.
Não parecia alguém que estivesse esperando alguma coisa.
Parecia alguém que já tinha encontrado exatamente onde queria estar.
E talvez fosse justamente isso que doía mais.
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