O Segredo De Prata.
2 O corpo.
Notas iniciais
Dou um berro de susto e instantaneamente começo a chorar, Ethan me ajuda a levantar, ainda assustado, seu rosto transparece medo. Ele me abraça e ficamos quietos sem saber o que fazer.
Minutos se passam e quando finalmente paro de chorar, vamos andando até achar uma saída para a cidade. Muito tempo se passa até que ouço um barulho.
– Um carro. – digo. – A cidade está para a esquerda, venha.
Começo a ver vários carros na rua e passamos da paisagem verde para a cinzenta.
– Ei, o que estão fazendo aí? – um guarda pergunta. – Essa é uma reserva particular.
– Nós vimos um corpo lá. – Ethan aponta para a reserva.
– Um corpo?
– Um defunto, cadáver, morto. – digo nervosa.
– Vocês podem parar de brincar? Eu tenho coisas sérias para fazer.
– Não é brincadeira! – grito e tenho vontade de xingá-lo. – Se não acredita, vá lá e procure.
O guarda revira os olhos, tira o chapéu, limpa o suor da testa e o recoloca na cabeça.
– Se vocês estiverem fazendo uma brincadeira... – ele deixa a frase no ar.
– Pela última vez, não é brincadeira. O senhor poderia conferir? – Ethan fala, já estressado.
Meu rosto estava queimando e minhas mãos suando, eu nunca tinha visto um cadáver, só o da minha avó no seu enterro, mas fora isso, nunca. Levamos o policial até o local em que o corpo estava, Ethan o guiou, e eu, ainda abalada, fiquei por último. A paisagem parecia mais morta, como o homem, provavelmente era só impressão. Chegamos lá e o policial emite um som de surpresa, só agora começo a perceber os detalhes do corpo. Parecia ter mais ou menos 25 anos, tinha uma barba rala, os olhos abertos exibiam íris esverdeadas, pareciam os meus. Sua pele parecia frágil e cinzenta. Ele usava uma roupa social e percebo que no seu colarinho tem um líquido prateado. Inclino meu corpo para ver melhor, olho para trás, o policial e Ethan conversam sobre o acontecido, pego a caixinha que Ethan me deu mais cedo, retiro a pulseira de dentro e recolho um pouco do líquido prateado. Vejo em seu paletó as palavras Escritório de Advocacia Porto de Prata, as letras estão um pouco apagadas, mas consigo percebê-las. Com medo de que alguém me veja, coloco a caixinha no bolso e me levanto.
O policial vai para perto de uma árvore e nos deixa a sós. Ele provavelmente está chamando reforços.
– Já tem como saber quem é? – pergunto confusa.
– O policial Carter está chamando mais policiais, eles vão isolar a área e procurar algum documento que possa informar quem ele é. – ele diz e pega na minha mão de uma forma consoladora. – Fica calma.
– Eu estou melhor. – digo e retiro a caixinha do bolso. – Peguei uma amostra daquele líquido no colarinho dele.
– Pegou? – Ethan se exalta um pouco.
– Cala a boca, idiota. – o repreendo. – Peguei, não vai fazer falta, e eu quero saber o que é.
– É melhor isso ficar só entre nós. Podem achar que você está interferindo na cena do crime. – ele fala e dá uma risada descontraída. – E você está.
– Um segredo só nosso. – sorrio e pisco um dos olhos.
O local vai ficando cheio de policiais a cada instante, colocam uma faixa amarela e preta por volta do corpo.
– Ei Taylor! – Carter chama um homem robusto. – Vou liberar as crianças, já anotei tudo que o garoto falou.
– E a garota? – Taylor pergunta.
– Ela estava muito abalada, foi ela quem tropeçou no corpo.
– Tudo bem então.
– É melhor vocês ficarem fora disso... – outro policial, cujo crachá dizia "M. Russel" falou.
Eu não sei se eu estava delirando, mas aquilo não parecia um conselho amigável. Aceno com a cabeça e vamos embora. Apresso o passo e Ethan me acompanha. Olho para trás e o cadáver está sendo coberto por uma manta preta. Fecho meus olhos rapidamente, viro para frente e volto a andar. O barulho dos automóveis aumenta e finalmente voltamos à cidade.
Ouço vozes por todos os lados e não consigo distinguir as palavras, parecem zumbidos irritantes. Sinto como se todos me observassem, apesar de ninguém estar interessado em uma garota pobre. No centro da cidade ninguém se importa com você.
– Ah meu Deus, quase me esqueci. – digo. – No paletó daquele homem estava escrito Escritório de Advocacia Porto de Prata.
– Você não está pensando em ir nesse lugar? Está? – ele pergunta já sabendo a resposta.
– Primeiro vamos perguntar alguém sobre isso e só depois vamos lá.
– Perguntar para quem?
– Quem sabe tudo que acontece em Londres? – pergunto.
– Carl. – ele diz e começamos a rir. — Prefiro investigar a seguir as instruções daquele idiota do Russel. – Ethan sorri maliciosamente.
A nossa caminhada de volta parece ter uma duração menor. Quando chegamos, vou até os camelôs e procuro por Carl. Vejo Hazel, uma mulher loira de meia idade que vende frutas guardando suas mercadorias.
– Oi Hazel. – cumprimento. – Você sabe onde o Carl está?
– Ana, querida. – ela diz e me dá um abraço. – O velho foi embora há uns 10 minutos, disse que estava cansado e queria dormir. Não acho que você consiga encontrá-lo hoje.
– Ah... – murmuro cabisbaixa. – Obrigada.
– Por nada. – ela fala e pega o saco de maçãs. – Vai querer levar algumas para os seus irmãos hoje?
– Vou sim. Quero cinco, por favor. – pago e vou embora.
Eu não podia deixar de ficar chateada com o fato de não conseguir falar com Carl, eu queria saber onde era Porto de Prata. Eu não só queria como precisava saber.
– Relaxa. – ele me abraça sem jeito. – Eu vou para casa. Amanhã bem cedinho nós vamos perguntar ao Carl, ok?
– Ok. – falo e Ethan vai embora, me largando sozinha com os meus pensamentos.
Eu posso não saber o que aconteceu, mas eu sei que existe um motivo para a palavra prata aparecer tanto na minha mente. E não era um motivo bobo.
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