O Segredo De Prata.
3 Porto de Prata.
Abro a porta de casa fazendo um estrondo e atraio todos os olhares para mim. Minha mãe, Lauren, sai da cozinha para ver quem invadiu sua casa, meus irmãos nem sequer olham e meu pai abaixa o jornal. Luke não era exatamente meu pai, mas me tratava como filha. Na época Luke estava viajando para a Guiana e tinha brigado com a minha mãe, eles já tinham um maravilhoso filho de cabelos castanhos, como os de Lauren. Quando eles reataram, minha mãe apareceu grávida, e oito meses e meio depois uma bastarda ruiva nasceu. Nossa família não tinha nenhum ruivo. Luke sabia que eu não era filha dele, mas me adotou como se fosse, dois anos depois nasce Victor, um menino loiro como o pai, Luke. Uma família colorida.
– Essa porta não foi barata. – brinca meu pai.
– Desculpe. – murmuro e sigo em direção ao meu quarto
– Ana banana – ele me chama – O que aconteceu?
– Nada, eu... – penso em uma desculpa esfarrapada. – trouxe maçãs.
– Se não aconteceu nada, quero ver os seus dentes. – abro a boca e ele ri – Não assim, quero ver um sorriso.
E esse era o meu pai de verdade, não um homem qualquer cujo sangue eu carregava nas veias. Abro meu maior e verdadeiro sorriso e me sento na poltrona ao seu lado.
As horas se passaram bem rápido e eu quase me esqueci do ocorrido de hoje à tarde. Quase. Ainda pensava em qual era a ligação do escritório de advocacia, do Porto de Prata e do próprio líquido prateado com a morte do homem.
– O jantar está pronto. – minha mãe fala enquanto coloca a mesa.
Todos nos sentamos e começamos a comer. No início em silêncio, logo depois minha mãe começa a falar sobre seu dia.
– A filha da Dona Amelia disse que o centro ficou cheio de policiais hoje.
– Lá no trabalho falaram que foi um estardalhaço, vendedor brigando com crianças, e policiais cercando a área. – Luke falou enfiando uma colher de ensopado na boca.
Todos já estavam sabendo da briga com o vendedor de bolos e dos policiais. Dois assuntos em que eu estava envolvida. Eu não podia contar nada sobre o corpo, era um segredo. Será que eu poderia contar sobre o vendedor?
– Você viu alguma coisa, Ana? – Victor perguntou.
– Não, ouvi umas senhoras falando sobre isso, mas não vi nada. – minto e sinto alívio por ninguém desconfiar.
Termino meu ensopado em silêncio e me levanto dando boa noite a todos.
– Boa noite. – todos respondem em uníssono.
– Durma com Deus, querida. – minha mãe diz.
Abro a porta do meu quarto e a poeira me faz espirrar. É um lugar pequeno, com uma cama e uma estante para livros e roupas. Uma janela na parede deixa a luz do poste entrar, fecho a cortina e coloco meu pijama. Apago a luz e me deito. Hoje o dia foi exaustivo e eu estava cansada demais para pensar, amanhã tudo vai ser esclarecido.
Meus olhos se abrem e uma luz forte me deixa cega momentaneamente. Levanto-me da grama e minha visão ainda embaçada se acostuma aos poucos com o ambiente.
– Finalmente você acordou. – uma voz masculina diz.
Fico confusa por um instante, eu dormi na minha cama e acordei no mato? Viro-me para a pessoa que conversa comigo e meu coração quase para. É ele, o morto, porém... Vivo.
Minha boca se abre, mas não consigo emitir nenhum som, o homem percebe e da uma risada leve. Seus traços são simpáticos, e os fios do seu cabelo castanho-acobreado balançam com o vento. Sua aparência não é gélida e cinzenta, suas bochechas estão levemente rosadas, como se algo tivesse lhe soprado vida. A barba rala ainda estava lá, mas agora, não parecia descuido, e sim charme.
– Oi. – é a única palavra que consigo dizer e isso o faz rir ainda mais, mas não de um jeito debochado.
– Oi Ana. – ele responde e se senta do meu lado.
– Como sabe o meu nome? – pergunto confusa.
– Eu sei bastante coisa sobre você. E nos sonhos coisas malucas acontecem, como por exemplo, eu estar vivo aqui. – ele suspira e continua. – Você me encontrou, agora nós temos um tipo de ligação.
– Que clichê. – digo e ele ri novamente.
– Sabe Ana, você é uma menina inteligente, eu percebi isso... E olha que no momento não estou percebendo muita coisa.
Ele se levanta e estende a mão para me ajudar. É macia. Nós dois começamos a andar devagar e começo a reconhecer o lugar. É a reserva onde encontrei seu corpo.
– Qual o seu nome? – pergunto e encaro seus grandes olhos verdes.
– Assim não tem graça. Você vai descobrir. – seu sorriso exibe dentes perfeitamente brancos.
– Por que estamos na reserva onde... – respiro fundo e continuo. – Eu te achei?
– Não me pergunte, o sonho é seu.
Continuamos a andar em silêncio até que me deparo com seu corpo imóvel caído no chão. Rapidamente olho para o lado para ver se ele sumiu, mas ele ainda está ali, em pé, encarando seu corpo morto.
– A coisa ta feia. – ele diz e tudo se dissolve.
Acordo no chão do meu quarto, eu devo ter rolado na cama até cair. Olho para o relógio da parede que marca 6 horas da manhã, Carl já deve estar indo para a feira. Levanto com dificuldade, meu corpo inteiro dói. Tomo café da manhã rápido e me arrumo. Pego um papel em branco e deixo um bilhete na mesa. Escrevo com pressa e minha letra sai horrível. Dirijo-me até a saída, abro a porta e me deparo com Ethan. Meu coração dá um pulo de susto.
– Parabéns – ele diz sorrindo.
Só agora me dou conta de que dia é hoje, eu não estava nem lembrando. Ethan me abraça e ri.
– Você esqueceu o dia do próprio aniversário. — ele afirma, provavelmente minha expressão me entregou. Dou uma risada e paro para não acordar ninguém. Ele olha para o meu pulso e seu sorriso fica maior. Eu estava usando seu presente.
Conto todo o meu sonho para Ethan. Não deixo escapar nenhum detalhe e não abro espaço para seus comentários, quando termino de contar já estou ofegando.
– Você comeu açúcar puro? – ele pergunta ignorando tudo que falei.
– Só um pouco. – admito. – O que acha do sonho?
– Eu não sei, parece bem real pelo que me contou. Nós vamos saber tudo agora, ali está Carl.
Corro para chegar o mais rápido possível, e Carl, sem olhar para mim pergunta.
– Quer comprar um relógio, moça?
– Carl? – digo e ele olha para mim.
– Ah, oi Ana. – ele diz olhando para o meu lado. – Oi Ethan, como está sua mãe?
– Ela está bem, obrigado.
– O que fazem aqui tão cedo? – Carl pergunta.
– Queremos saber se você conhece Porto de Prata, conhece? – pergunto quase sem esperança.
– Claro que conheço, já trabalhei lá descarregando prata, é por isso que o nome é Porto de Prata.
Uma chama de esperança se acende em mim, Carl começa a dar as instruções do lugar, mas deixo essa com Ethan, não consigo nem prestar atenção e eu provavelmente não ia entender nada. O sonho que tive só me deixou com mais vontade de entender o que aconteceu com o simpático homem de cabelos castanho-acobreado. Largo Ethan e Carl discutindo sobre o caminho e me perco nos meus próprios pensamentos. Será que esse homem tinha uma vida boa? Será que ele era rico? Será que ele tinha família? Qual seria o motivo de sua morte prematura?
– Vamos ter que pegar o ônibus para encurtar a caminhada. – Ethan diz e nos despedimos de Carl.
Pego todas as moedas que tenho e Ethan pega as dele, da para pagar nossas passagens de ida e volta. Esperamos o ônibus por mais ou menos meia hora e quando ele chega, percebo que está lotado de trabalhadores. Subimos e com dificuldade passamos pelas pessoas, que de tanto calor humano estão suadas, pagamos ao trocador e me seguro em uma das barras nojentas para não cair. Ethan se segura na mesma barra, todos estão tão juntos que chega a me dar falta de ar.
A cada parada o ônibus se esvaziava mais, até que pudemos nos sentar lado a lado sem sermos esmagados por ninguém. Mas por pouco tempo, nossa parada já havia chegado. Desço com dificuldade, ainda um pouco tonta por causa do calor e vejo o porto, um pouco mais a frente.
– Chegamos. Qual é o plano? – Ethan pergunta ofegante.
– Na hora a gente pensa. – digo cansada.
O porto era cheio de homens barrigudos bebendo cerveja, o chão era imundo, alguns ratos passavam por nós sem se preocupar com o nosso tamanho.
– Para uma garota magricela, você é bem bonita, docinho. – um dos gorduchos grita, olho para os lados e percebo que sou a única magricela do porto.
– É melhor você calar a boca, imbecil. – Ethan toma partido, já irritado.
O homem não se levanta para brigar, provavelmente porque está cansado de tanto carregar sua barriga por aí, ele fica calado e volta a beber sua cerveja como se nada tivesse acontecido.
– Obrigada. – digo realmente grata.
– Eu já estou cansado desses caras falando com você desse jeito. Meu Deus, pra que isso? – ele bufa e fica quieto imediatamente quando aponta para a placa e a lê em voz alta – Escritório de Advocacia Porto de Prata.
Entramos na casa e vou direto para a recepção.
– Moça. – chamo e ela me olha com desdém. – Você conhece um homem de mais ou menos 25 anos, com olhos verdes, barba rala e cabelo castanho-acobreado curto?
– Me desculpe, mas não posso te dar essa informação. – ela diz sem tirar os olhos da tela do computador.
– Por favor, é muito importante. – digo e meus olhos se enchem de lágrimas, forço para que as lágrimas voltem de onde vieram e meus olhos ardem.
– Vou repetir. – seu tom de voz é um pouco mais hostil – Não posso te dar essa informação.
– Que droga. – exclamo e Ethan segura minha mão para me acalmar.
– Não pode nem nos dizer se ele trabalha aqui? – Ethan pergunta fazendo parecer que acreditamos que o homem ainda vive.
– Ele trabalhava. – pergunto-me o porquê da mulher ser educada com Ethan e comigo não.
– Com licença, garotinha. – uma voz masculina se aproxima. Levanto meus olhos e vejo um homem com olhos castanhos e cabelo acobreado.
– Sim?
– Você está falando desse homem? – ele pergunta e retira uma foto do bolso.
– Ele mesmo! É ele! O senhor o conhece? – pergunto e balanço Ethan para que ele veja, mas ele já está olhando.
– Ele é o meu filho, Aaron.
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