O Segredo De Prata.

1 O centro da cidade.


O ar melancólico pairava sobre a tão agitada Londres. Camelôs praticamente implorando que comprem seus produtos falsificados, mulheres histéricas brigando com maridos bêbados, ratos doentes e prostitutas em seus vestidos mais provocantes. Bem vindos à parte mais suja e pobre de Londres.


Moro nesse lugar com meus pais e meus dois irmãos, Brandon e Victor, não somos tão pobres como a maioria, mas também não somos ricos. Minha mãe trabalhava muito, então tive pouca influencia feminina. Cresci com homens, portanto tinha mais facilidade em fazer amizades com garotos, um exemplo era meu melhor amigo, Ethan Lewis. Nossas mães eram voluntárias na igreja e nos levaram para organizar doações de roupa. Na época tínhamos sete anos, e nossa amizade surgiu enquanto dobrávamos um suéter verde, velho e poeirento. Há nove anos somos inseparáveis.


Enquanto me desvio dos relógios fabricados na China e das frutas podres, Carl, o camelô mais idoso, segura o meu braço.

– Oi Ana, como está? – ele pergunta, educado como sempre.

– Bom dia Carl, eu estou bem, e você? – retribuo a educação. Eu gostava dele, era educado e muito inteligente, eu o considerava um avô, e também um amigo.

– Também, tirando essa dor nos quadris, mas já estou acostumado. Brenda sempre reclama que estou velho demais para trabalhar, mas nunca se é velho demais para fazer algo que gosta, e eu gosto disso. – Carl fala sem parar, isso sempre acontecia. Ele era solitário, só tinha a neta, Brenda, ela era da minha idade, e acho que a única menina com quem eu compartilhava uma amizade.

– O senhor tem razão, mas é melhor tomar cuidado. – digo. – É melhor eu ir, meus irmãos estão me esperando com o almoço e eu ainda nem comprei. Tchau, até logo.

– Até mais. – ele diz acenando.


Corro com toda a minha velocidade, a peixaria já deve estar quase fechando.

– Espera Al. – grito antes que Albert feche as portas.

– Por Deus, Ana, você nunca me deixa fechar na hora certa.

– Vai ser rápido. Eu quero 600g de cação. – falo ainda suspirando de cansaço.


Ele pega o peixe e coloca na balança. Pego meu saquinho de dinheiro e lhe dou a quantia exata.

– Obrigada Al. – digo e saio correndo.

Olho para o relógio da igreja, ainda falta um minuto para o meio dia. Corro e tento não esbarrar nos vendedores, mas isso é quase impossível, quase sou jogada no rio e tento não cair no chão sujo. Chego em casa, abro a porta e as badaladas do sino da igreja tocam.


– Finalmente, eu já estava morrendo de fome. – Brandon, meu irmão mais velho grita. – Anda, Ana, eu estou louco para comer aquele peixe que você faz.

– Cadê a mamãe? – pergunto.

– No trabalho.

– E o papai?

– Também. Esqueceu que eles têm emprego? – ele faz uma pergunta retórica.

Antes de eu perguntar onde está Victor, ele sai correndo do quarto e me olha com seus grandes olhos castanhos.

– Vocês vão me ajudar na cozinha. – digo sorrindo e Brandon pega a sacola da minha mão.


Vamos para a cozinha e lavo as minhas mãos. Jogo um fio de azeite na panela e coloco os pedaços de cação, um a um, por cima. Victor me da os ingredientes enquanto Brandon fica olhando. Coloco o tempeiro, uma pitada de pimenta do reino, sal e uma gota de limão e espero para que o peixe pareça comestível.


Quando a comida fica pronta, nos servimos e vamos para a mesa nos deliciar. Eu estava morrendo de fome e pela cara dos meus irmãos, eles também. Enquanto saboreio meu peixe, alguém bate na porta. Nos encaramos por um instante.

– Sério? Eu que vou ter que abrir? – pergunto e não obtenho resposta.

Abro a porta e me deparo com os cabelos castanhos e desorganizados de Ethan, seus olhos azulados se fecham em um sorriso.

– Lansdale. – ele diz empolgado, eu odiava quando ele me chamava pelo sobrenome. – Vamos ao centro hoje.

– Eu aceito, obrigada pelo convite. – digo colocando ênfase na última palavra. – Quer entrar? Eu fiz peixe.

– Obrigado. – ele diz e me acompanha para dentro.

– Ethan! – Brandon e Victor falam em uníssono.

– Como estão? – pergunta Ethan.

– Bem, e você? – Victor fala. – Eu não te vi no parque hoje, onde você estava?

– Eu fui comprar umas coisas. – ele fala.


Termino de almoçar e coloco a minha melhor roupa, um sobretudo e uma touca. E assim Ethan e eu vamos para o centro. Não era tão perto, íamos ter uma longa caminhada, mas eu não me importava.


– Afinal, o que você foi comprar hoje cedo? – pergunto desconfiada.

– Uma coisa.

– Ethan. – digo seu nome pausadamente.

– Isso. – ele diz tirando uma caixinha do bolso e me entregando.


Abro a caixa e dentro há uma pulseira com alguns pingentes. Ethan trabalhava meio horário no parque, isso provavelmente custou mais do que ele ganhava em um mês.

– Obrigada. – digo e lhe dou um abraço. – Mas por quê?

– É o seu presente de aniversário, eu sei que é amanhã, mas eu não consegui esperar.

– Muito obrigada mesmo. – o abraço novamente.


Caminhamos em silêncio até chegarmos ao centro. Chegando lá alguns vendedores tentavam nos puxar para as lojas, nem todos eram educados. As ruas estavam cheias, o ar tinha um cheiro de cocô de cavalo e minhas narinas ardiam em busca de um ar limpo.


– Ei garotinha do cabelo laranja! – tenho a impressão de que alguém me chama e me viro. – É, você mesma! Quer comprar um bolo decorado?

– Não, obrigada. – digo.

– Vai se danar. – o vendedor suado grita e eu arregalo os olhos.

– Ah, vê se procura outra pessoa para infernizar, seu gorducho. – Ethan grita.

– É melhor não mexer com essa gente. – sussurro.

– Está tomando as dores dessa bastarda? – ele grita novamente e sinto que não só o meu sangue ferve, mas o de Ethan ferve muito mais.


Sem dizer uma palavra ele avança no vendedor, que revida com um soco. Corro e tento puxar Ethan, sua boca sangra e o olho do vendedor está roxo. Chuto sua barriga tão forte que ele cai no chão e nós dois corremos para longe. Olho para trás a cada passo para me certificar de que ninguém nos persegue. Saímos das ruas cheias e entramos num local cheio de árvores e mato.


– Isso é uma floresta? – pergunto, tentando recuperar o fôlego.

– Acho que é uma reserva, não sei. – Ethan responde apertando a ponta do casaco na boca. – Vamos embora daqui.

– Ta. – digo e vamos andando, procurando por uma saída.


Não sei dizer por quanto tempo andamos, mas não foi pouco. As folhas secas se desfaziam embaixo dos meus pés como areia, até que tropeço em uma coisa sólida, que penso ser uma pedra. Os olhos de Ethan se arregalam e a boca se abre sem emitir nenhum som. Abaixo meu olhar para a pedra e vejo que não é uma pedra. É um corpo.


Notas finais
Gostaram?