O Segredo De Hades
2 Alguem veste minhas calças
Notas iniciais
Er, ok, vamos recapitular o que houve comigo,
primeiro: fui chutado pro submundo.
segundo:fui chutado para uma missão.
terceiro:fui chutado do acampamento para New York.
E agora,estou amarrotado dentro de um beco, com uma mochila na minha cabeça e vários "presentinhos de viagem" do meu pai. Ótimo, realmente ótimo, bendita boca a minha. Me levanto e recolho os potes etiquetados que caíram da minha mochila recém -recebida enquanto eu tentava tirar a terra da calça. Tudo bem Nico, o que você vai fazer agora? Peguei o GPS e olhei a tela verde, surpreendentemente, o aparelho continha plantas completas de todos os prédios, casas, e lojas de NY que estavam ao meu redor, se eu fosse um ladrão não teria dificuldade alguma de invadir o banco. ( não que eu tenha pensado nisso, bem, só um pouco) Começo a andar pela cidade, o GPS apitando fracamente dentro do meu bolso, enquanto eu tentava achar um caminho que fizesse o barulho aumentar.
Passei pelas estações de metrô, lojas de conveniência, parques, museus e todos os lugares não mostraram uma leitura sequer. Eu estava ficando irritado, não, eu estava irritado. Meu pai simplesmente resolve que precisa de mim e me joga numa missão de uma hora pra outra, eu nem posso voltar e buscar minhas coisas?! Que raiva!
Eu pus a mão no bolso para tirar o GPS.
Havia uma linha verde desenhada no mapa do aparelho, a dois passos de mim. No exato momento em que pisei, o GPS começou a captar sinais vindos de um grande prédio no fim da rua. Aquilo era simplesmente assustador.
Era a escola Atalanta para jovens promissores. Aquela era uma escola muito cara. Sem chance de justo aqui ter um monstro, quais as chances disso?! Esse lugar é mais rígido do que a minha antiga escola! O pátio era inteiramente coberto de cimento, com uma ou outra plantinha travessa que saia do chão. Pilastras sustentando grandes portões de uma mistura mutante de plástico-metal, e duas estátuas de leões famintos rosnando. Assustador. Um se chamava "ensino" e o outro "excelência". Havia um busto bem no meio do pátio, de um cara careca com um sorriso no mínimo estranho, usando uma gravata borboleta, provavelmente o diretor do lugar.
Pus os pés na escada, e senti algo perto de mim. A presença de um meio-sangue.
Impossível.
Abri a porta a tempo de ver um par de botas coloridas e o diretor puxando alguém pela orelha, e o sino tocou, o corredor ficou lotado de gente, e eu os perdi de vista, enquanto era arrastado pela onda de robozinhos fardados. OK, tinha de ter algum sátiro por aqui certo? Eu deveria ter deixado isso pra lá e ir procurar espíritos o mais rápido possível, só que, veja bem, havia algo no lugar, eu não queria deixar o coitado(a) preso ali. Ainda mais se for a pessoa sendo arrastada pela orelha. Desvencilhando-me das crianças que olhavam para mim com espanto e para a espada em minha mão a qual eu nem lembrava de ter pego, vou tentando abrir espaço pela multidão, correndo e tropeçando, até cair e bater a cara numa porta.
* * *
Meu cérebro com certeza vai ficar danificado. Contando todas as vezes até agora que fui apunhalado na cabeça, isso não ia prestar. Me sentei dolorido, e percebi que estava numa maca, e, não menos importante, eu não estava em minhas roupas. Bem, não pelado, quero dizer, alguém havia trocado minhas roupas pelo uniforme comportado e provavelmente caro da academia Atalanta. Quem quer que seja, me deve explicações seriíssimas sobre como trocou minhas calças!
Olho em volta e reconheço minha mochila num canto, minhas roupas dobradas ao seu lado, e minha espada,somente com o cabo de fora, por baixo das duas (uma tentativa de esconde-la, talvez?). Jogo tudo isso dentro da mochila e pego um pacote de primeiros-socorros dando sopa, enquanto caminho em direção a saída. Felizmente (ou infelizmente) a pessoa que trocara minhas roupas havia colocado o GPS em meu bolso, mas não me serviria de nada, já que ele só apontava para o prédio pintando em verde, dizendo "você chegou ao seu destino". Continuei andando pelos corredores,tentando sentir a presença do meio-sangue, até parar na sala de química.
Lá dentro o professor ensinava algum tipo de experiência em beques, e minha atenção se virou para o lado esquerdo da sala, onde uma garota loira com um sorrisinho de canto colocava algumas misturas desnecessárias no beque, fofocando com sua parceira. Talvez fosse ela.
Num minuto percebi que ela jogou a coisa a qual ela misturava na menina da frente, e tomou o experimento das mãos dela, enquanto seu cabelo se desfazia. A garota atingida, de cabelo castanho, ficou atônita e olhou desesperadamente para o professor, que percebeu o que acontecia, e, para minha surpresa, expulsou a garota de cabelo desintegrado, e não a loira, que tinha agora uma face angelical. Ela acenou com a cabeça, como se isso acontecesse sempre, e se virou em direção a porta. Me joguei do lado do bebedouro, e ela passou sem me perceber, o cabelo assimétrico balançando por baixo da touca de crochê vermelho-sangue.
Então ela parou. E eu pesei que tinha sido descoberto, até ela se virar e abrir um dos armários.
— Ei, rodopio, será que ele está bem?-ela falava virada para o armário.
Escutei um piado vindo em resposta, e ela retirou um passarinho amarelo de dentro da cabine, e o pôs debaixo da touca.
Enquanto se virava, e ia em direção a enfermaria.
Pois é, descobri quem vestiu minhas calças.
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