O Segredo De Hades

5 A exterminadora de cobras.


\"\"Estávamos andando a mais de 4 horas. Logo, o sol iria aparecer e cegar nós dois, e mesmo assim, estamos pelo menos há três horas de Patterson, que era a próxima cidade pintada de verde no mapa. E acredite, viajar com Ella não era das coisas mais agradavéis. Há cada cinco minutos ela começava a gemer "nós já estamos chegando?", ou então cantarolar uma musiquinha de comercial para se distrair.

– Eei... Nico, deixa eu dar uma olhadinha nesse negocio? Você deve estar lendo errado... Não tem como estarmos tão longe...

Ignorei-a e continuei a andar, pensando em como poderia expulsar um eidolon de um corpo.

– Oe... está me escutando?- ela imitou um bebê.

Deuses, que vozinha infantil. Ela fazia isso pra me chamar atenção.

– Falta muito? Não é uma pergunta difícil...

Vamos, conte até três Nico, esqueça do barulho das botas dela, se concentre no mapa e na rodovia.

– Você fazendo essa cara parece um velho sabia? um velho com fome.

–E daí.

–Velhos rabugentos não tem amigos!- Ella se pôs na minha frente- E vivem sempre reclamões, E são chatos!

Sério que o Percy conseguiu me aguentar quando eu era assim?

– Não preciso de amigos, se eu estiver sozinho posso reclamar a vontade, e não vou incomodar ninguém com a minha chatisse.- rebati, e a pus para fora do meu caminho.

Normalmente, bastaria eu fazer uma viagem pelas sombras e pronto, teria chegado ao meu destino, mas, levar outra pessoa comigo, e uma mochila pesada (que eu agradecia muito por ela estar carregando e não eu) estava fora de questão, talvez um de nós chegasse sem uma das pernas, ou coisa pior.

Suspiro.

Com certeza não era por mal. Eu podia olhar para Ella e imaginar orelhas e rabo de cachorrinho, abanando e esperando que eu faça alguma coisa heróica, ou que lhe dê atenção. Ela parecia feliz em me seguir, como eu era antes. É geralmente nesses momentos que eu quero uma borracha bem grande pra apagar a vergonha que eu tenho de mim mesmo no passado.

–Mas é ruim ficar sem amigos.-continuou, sem eu nem mesmo ter percebido que continuava ao meu lado- não ter ninguém pra conversar ou fazer alguma coisa divertida.

–A única coisa de que preciso nesse momento é um milagre que me ajude a achar uma alma perdida.

–Eu estou olhando pra uma nesse exato momento.-murmurou, com seus botões, enquanto fazia barulho com as botas de borracha.

–O quê?

–Nada, velho rabugento.-sorriu, rindo da própria piada.

Franzi a testa, e ela começou a rir. Eu realmente não entendo essa garota. Ela tem o quê? seis anos de idade?

–Nem parece que você tem treze anos.- resmunguei, olhando para a tela do GPS- parece uma criança.

–E daí? as pessoas ainda me chamam de criança mesmo! Eu estou muito feliz do jeito que eu estou!- assentiu — E você também não parece ter treze anos, então não fale de mim!

– Eu pareço ser mais velho, o que é bom. E não ficar por ai agindo como se estivesse no primário.

–Se você tem uma vida inteira pra viver, tem que aproveitar cada segundo que puder, pra não se arrepender de nada que fez. Ou que deixou de fazer. Eu vou aproveitar o resto minímo da minha infância enquanto ainda tiver tempo, e as pessoas não me cobrarem atitudes sérias.- sua voz era quase um susurro, mas no silêncio em que estávamos, completamente audível. Ela parecia totalmente séria.- Então, por que não brincar enquanto ainda há tempo?- sua voz voltou ao timbre normal, e escutei um riso.- Você, mais do que qualquer um devia saber disso velho rabugento! Você não é o filho da morte?

–Nunca tive tempo para pensar nisso.-menti. Uma das coisas nas quais sempre voltavam ao meu pensamento era a morte. Mas não a morte em si, em Bianca, mais precisamente.

–Sua vida deve ser bem agitada.

Era, na maioria das vezes, quando eu não estava sem o que fazer, ou quando eu não fazia o papel de garota em perigo.

Depois disso, aquela noite se passou em silêncio, somente com o chapinhar de suas botas de borracha, e o cabelo assimétrico fazendo um barulho enquanto voava.

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Eram precisamente, sete da manhã. E o sol estava queimando meus olhos. Ella arrastava a mochila no chão, de corpo curvado, e eu não conseguia nem mesmo encarar a tela do GPS sem sentir uma dor aguda no cérebro. Mas foi neste momento que chegamos a Patterson. Patterson City, uma cidadezinha rural composta de 10.000 habitantes, segundo a grande placa azul na entrada. Capital das vacas e do milho, um lugar daqueles que você vê em filmes, as casinhas pintadas de branco, milharais, mulheres louras com penteados entupidos de laquê e uma ou duas histórias dramáticas sobre um menino e seu fiel cão.

Ella jogou a mochila no chão e tirou de lá uma garrafa d´água.A mochila certamente parecia bem menor.

– Ei, isso não estava cheio?- apontei a bolsa preta.

Ella limpou a boca, e olhou pra mim.

–É que... eu fiz alguns lanchinhos durante a noite... he, he.

Deuses! ela detonou o meu estoque de comida?!

–como você consegui isso?! eu estava acordado o tempo todo!

–Eu como sem fazer barulho.

Você bem que podia fazer outras coisas sem barulho também!

–Qual é a dessa sua cara?Parece que vai explodir.-riu

–MAS É LÓGICO QUE-

Uma velhinha tinha parado bem na nossa frente. Olhando para nós dois, com seu cabelo branco arrumado no estilo dos anos 60, e uma roupa pink de ginástica.

Ótimo, só falta chamarem a Lassie.

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Eu estava numa sala rosa, com tapetes rosa, e quadros sobre coisas rosas, olhando para pratos decorados rosa, num sofá branco.A minha frente, está Ella, voraz devoradora de biscoitos, e uma velhinha simpática que quase não falava.Acho que ela é muda.Simplesmente gesticula para nós, e dá comida.

Eu particularmente, não vejo mau em ela me dar comida.

–Ei velho, por quê não está comendo?

Olho para Ella com cara de poucos amigos. Não sei pra onde vai toda aquela comida.

–Pra não ficar parecido com você.

A velhinha riu.E Ella me deu língua. Realmente, situação digna de herói.

–O que mochileiros tão jovens fazem num local como este?

Me assustei. A velha não era muda!

–estamos de passagem, só procurando algo.

–Algo?- indagou.

–É uma coisa importante para minha familia.- peguei o bolinho que estava na minha frente, cutucando os confeitos.

–Ah... deve ser ruim ser um semi-deus, certo?

–Como você sabe quem somos?

–Passei um tempo nesse mundo.Mas logo, as coisas melhorarão, pode acreditar querido.

Ella parou de comer e olhou a velhinha se levantar, pegando um de seus pratos decorados de gatinho da parede, por uma fração de segundo ela o olhou profundamente, e então, bateu com ele na minha cabeça.

Teria batido, pelo menos.

Se não fosse Ella e um bolinho voador, que se espatifou contra os óculos da senhora, enquanto ela corria para pegar seu bastão da mochila.Eu tentei acompanha-la na fuga, e alguma coisa bateu em meus pés e me fez cair de cara no chão, enquanto eu escutava um silvo extranho bem atrás de mim.

–Levante daí antes que ela te pegue!-Ella já estava com seu bastão em uma mão, segurando minha espada na outra.

–Antes que o quê me pegue?

–Equidna!

Eu só olhei pra trás uma vez, e me arrependi.

A velhinha tinha se trasnformado em uma grande cobra negra da cintura para baixo.Uma parte de sua pele de "velha" estava pendurada em um dos braços brancos pálidos, a boca cheia de dentes afiados pingava uma baba verde, e sua lingua bifurcada vinha diretamente na minha direção.

Senti um dos meus braços ser puxado, e dei uma guinada para frente, tentando me soltar e alcançar a porta da casa, mas Equidna era mais forte.Seu rabo me puxou para junto si, e uma das gotas fedorentas se saliva caiu em meu rosto.Houve um barulho do outro lado da casa, de algo caindo no chão. A mulher-cobra levantou o rosto, a tempo de ver apenas Ella, pulando e a batendo com o bastão de bassebal, que se quebrou em sua cabeça, e fez uma bolha vermelha na testa.

–anda! sai daí antes que ela aperte!-Ella disse, me puxando pelo braço e chutando o rabo negro que me prendia.

Eu tentei me levantar, e o rabo se mecheu, se levantando no ar (comigo junto) e batendo em Ella, enquanto a cabeça humana soltava um silvo agudo.

–Não entendo como você pode ter esse cheiro, mortal!

Mordi a ponta negra de sua cauda, e ela me soltou com o susto. Corri até minha espada-que tinha ficado atirada no chão de carpete rosa- e a peguei, dando um giro e apontando ela para Equidna.Num canto oposto da sala, Ella levantava, segurando a cabeça com as mãos, e praguejando alguma coisa, e vi um fio de sangue descer por uma de suas mãos, que tapavam o rosto.O cheiro de sangue fez a cobra olhar na direção de Ella, me deixando com a chance de abate-la.Equidna rastejou até o corpo de Ella, enquanto a mesma tentava se levantar.Corri em direção ao rabo negro da cobra, que se movimentava e batia em todos os lados, E pulei paara acertar a sua cabeça com a minha espada. Ella levantou a cabeça- que tinha um corte na testa, banhando seu rosto em sangue, e olhou ameaçadoramente para Equidna.

–Eu odeio cobras.

E deu um soco na cara pálida da cobra, que virou a cabeça e fez eu acertar o corte em seus ombros.Ela silvou e virou-se para mim, dando uma guianada com o rabo, que me jogou para trás, com minha espada ainda fincada em seus ombros.Equidna retirou minha arma e a jogou para trás, vindo na minha direção, com um olhar ameaçador, enquanto eu não conseguia me levantar.Seu rosto se aproximou perigosamente do meu.

–Diga adeus, semideus.-um sorriso se fez no rosto assombroso.

–Adeus.-a voz feminina atrás de nós disse.

Equidna fez uma careta, se jogando para trás, e levou as mãos ao pescoço, que tinha minha espada atravessada, e, na outra ponta, Ella o segurava com uma cara séria.Deu seu último silvo e desapareceu, num monte de areia.

–Eu realmente odeio cobras.

Ella passou o braço pelo rosto, limpando parte do sangue, e deu um sorriso.

–Então, você já tem uma ideia de quem eu sou filha?

Notas finais
Alguém sabe de quem a Ella é filha?