O Secretário
5 O Rapto
Notas iniciais
Uma criança tão pequena com tanto conhecimento que não lhe implicava, pensei um tempo antes de levantar do chão. Quando em fim me levantei ela estava de olhos abertos e sorrindo para mim como uma criança normal.
“Quem sabe aquilo não fora apenas um sonho” pensei, será que ela lembraria quando acordasse? Mas de qualquer forma o subconsciente dela não era normal.
Sai do quarto, atravessei a parede e me deparei com Giselda, ela estava lendo, sentada na cama, um livro de romance normal, como uma mulher normal, ao menos uma pessoa normal naquela casa.
Atravessei novamente uma parede e me deparei com o quarto de Gabriel como sempre bagunçado, ele ainda estava no hospital com a mãe, deveria passar a noite com a mãe. Decidi ir ao hospital, quem sabe ele esteja dormindo.
Apareci no hospital, como esperado ele estava do lado da cama, sentado (deitado) na pequena poltrona branca com um livro no peito, algo sobre mitologia antiga, não demorei e entrei em seu sonho.
Gabriel estava na sacada de um apartamento, em pé no para peito, estava pensando em pular com certeza, apareci sentado em uma cadeira que estava no canto:
-Porque não pula? Perguntei, ele levou um susto grande porem não caiu.
-Você de novo? Porque não deixa minha família em paz? A bom, já sei “é o seu trabalho” – disse Gabriel com tom de insulto na voz.
-Bom, sim é meu trabalho, mas isso não quer dizer que não podemos ser amigos, eu tenho que executar uma tarefa, mas como eu percebi você não tem muitos amigos, eu posso te ajudar, conversar com você- falei tentando ser amigável.
-Como você acha que eu poderia ser amigo de uma pessoa que irá matar a minha família, eu achei que minha mãe iria morrer, e tudo seria culpa sua!- falou um pouco mais irritado
-Não eu não mato ninguém, eu apenas escolho quem vai morrer.
-Da na mesma, eu não vou fazer parte disso- falou menos bravo
-Mas Gabriel todo mundo irá passar por isso um dia, todo mundo irá morrer, eu, por exemplo, morri e hoje faço isso, escolhi ser assim pois não queria sofrer como todos os outros, ir para o inferno, já ouvi histórias daquele lugar, conheço umas pessoas que já estiveram lá, não gostaria de estar lá, nem mesmo a trabalho.
-Ser secretário é uma escolha? – Gabriel perguntou um pouco curioso
- Sim, quando uma pessoa tem certeza de que não irá para um lugar melhor, digamos “céu”, se sua morte foi proposital, o secretário pode te escolher pra trabalhar como ele, ou você pode recusar achando que foi uma pessoa boa e irá para o céu e essa pessoa vai para o inferno, e lá ela é submetida as mais terríveis torturas.
- É grande parte disso o outro secretario havia me contado- Gabriel terminou de falar e houve um silencio, até eu quebrá-lo
- Como eu dizia, porque não pula? É uma sensação muito boa, a final você esta em um sonho mesmo.
- Eu não sou um suicida, se é isso que esta insinuando.
- Eu não estou insinuando nada, apenas acho que não tem coragem- falando isso levantei correndo e pulei o parapeito e cai, quando estava chagando perto do chão desapareci.
Apareci novamente no hospital, e Gabriel continuava a dormir, com certeza estava decidindo se pulava ou não. Olhei para Suzane ela também estava dormindo, entrei no sonho dela também.
Ela estava em um lugar com muitas pessoas, um galpão, todos estavam conversando uns com os outros e ela estava sozinha no meio do galpão, a iluminação estava baixa, e um foco de luz vindo do nada, estava em cima dela, ela estava com um vestido muito claro e muito bonito, parecia muito com o de uma noiva o cabelo estava muito bagunçado, porem bagunçado de uma forma sexy, no rosto escorria a maquiagem por causa do choro incessante dela. Eu fui chegando perto, porem dei apenas dois passos, quando de repente uma pessoa a qual eu não conseguia ver o rosto, era apenas um borrão, sacou uma arma de algum lugar que eu não consegui ver, e começou a atirar nas pessoas, as pessoas não se assustavam apenas caiam mortas, e Susane também não, parecia que ela não estava vendo nada, e se estava, não estava reparando em tudo que estava acontecendo, fui chegando perto dela, e quando entrei no foco de luz ela se levantou por um salto e me abraçou e ao mesmo tempo o atirador sumiu e todos que estavam em volta sumirão e a luz ficou tão clara que eu tive de fechar os olhos, e quando abri estávamos em uma praça bem bonita com pessoas passando em volta e uma fonte, grama verde, pássaros, flores. Estávamos no canto da praça.
O abraço ainda não havia acabado, ela não me soltou e ainda abraçados ela disse:
-Senti tanto a sua falta, sabia que você voltaria, voltaria pra mim- me assustei pois eu havia aparecido apenas uma vez para ela, e nós nem tivemos muita comunicação,para ela sentir falta de mim – Eu senti tanto a sua falta, porque você se foi, eu não pude te visitar mais, ele me obrigou a me afastar de você ele disse que se eu fosse novamente te ver ele se separaria de mim, e eu não podia fazer isso, me desculpe, eu sinto muito à sua falta. Você sabe que eu teria te escolhido, que bom que você esta aqui.
- Susane eu não… que…? você esta me confundindo- falei sem entender
- O que você esta falando Gabriel? – você esta doido?
- Gabriel? Meu nome é secretário – fiquei muito confuso.
- Gabriel você não lembra de mim?
-Sim Susane eu lembro, falei com você a alguns dias, em outro sonho.
-Que sonho como assim, Gabriel você não esta lembrando de mim, tente se lembrar de mim, faça uma força, lembra por favor.
-Susane você esta sonhando, Susane acorde, acorde! – Susane desapareceu e tudo ficou preto e vazio então sai também.
Reapareci no hospital, Susane estava acordada chorando, não sabia porque ela estava chorando e nem porque havia falado aquelas coisas no sonho, eu já tinha falado com ela, e ela não tinha falado aquelas coisas,e porque ela havia falado aquilo? Eu estava muito confuso.
Cinco minutos depois Gabriel levou um susto, acordando em um pulo, interpretei que ele acabara de pular do parapeito da sacada.
-Que foi mãe? Tudo bem? Ta sentindo dor? – Gabriel perguntou assustado á mãe, ao vê-la chorando
-Estou bem, apenas um pesadelo- mentiu Susane- pode voltar a dormir, amor, amanha você volta para casa, eu já estou bem melhor, e você não pode faltar aula – sai do quarto e deixei os dois discutindo sobre o Gabriel voltar pro colégio, com certeza ele odiava aquele lugar, eu poderia ficar e ouvir o que eles estavam conversando mas eu preferi sair , estava muito confuso, porque Susane me abraçara daquela forma? E porque ela falou aquelas coisas? Será que ela se lembra de mim no passado? Eu não lembrava do meu passado, poderia ser que com ela eu conseguiria desvendar o que aconteceu antes da cirurgia, me esforcei , eu sabia que havia vivido um amor, os flashs que eu tinha da minha vida até os 22 anos, era isso, como ter certeza de que Suzane era meu amor? E do que adiantava saber? Eu estava morto e ela viva, impossível ficarmos juntos, eu sairia da casa em menos de quatro semanas.
Eu precisava esvaziar minha cabeça, eu teria que matar uma pessoa da família dela, quem sabe até mesmo ela.
Saindo do hospital fui direto para a praça que havia em frente, apesar de ser noite passava muitas pessoas, muitas delas chorando, outras sorrindo, umas sem expressão, naquela noite vi três secretários cumprimentei-os, como não somos muito de afetos não conversamos nada. Uma coisa que me chamou a atenção foi um ser que passou por mim, encapuzado com uma foice na mão, sabia que não era a morte pois eu já a havia visto e não se parecia nada com aquilo, eu cheguei mais perto, porem quanto mais chegava perto mais ele andava rápido, consegui o alcançar:
- Quem é você?- Perguntei curioso, porem a criatura não viu, apenas encostou um de seus dedos magricelos e com unhas sujas e com um anel muito bonito e limpo com uma pedra verde em cima, e então eu voei três metros para o lado, e cai na grama em frente o hospital. Eu vi que a criatura vinha em direção a entrada do hospital, eu segui, quando ele passou pela porta do hospital ela se abriu, eu me assustei, a porta não abre para seres do mundo inferior, ela não sente a nossa presença. Ele pegou o elevador e subiu até o andar onde ficava o quarto da Suzane parou de frente a porta e bateu, Gabriel atendeu e não viu nada, apenas um empurrão enorme que levou quando a coisa encostou nele, batendo a cabeça na janela ele desmaiou. Quando Susane viu seu filho caído ela berrou, e tentou levantar, mas não conseguiu, o maior susto viria a seguir, a coisa deu um passo para dentro do quarto e quando colocou o segundo pé no chão, Suzane abriu a boca para gritar porem não saiu som, lentamente a criatura foi chegando perto , cada vez mais perto e Susane estava desesperada, a criatura chegou a cabeça perto dela e então pude ver a sua boca com dentes podres e uma língua pontuda , então chegou a boca bem perto da dela. E então Susane parou de repente e pude ver uma coisa preta saindo de dentro dela, quando essa coisa parou de sair Susane desmaiou, e o quarto se quebrou como em uma explosão, não sobrou nem um piso inteiro as paredes racharam, as janelas quebraram, o teto se partiu no meio e o soro que estava no braço dela saiu e caiu no chão , da luminária uma luz se quebrou e a outra ficou piscando e então essa coisa pegou o elevador de volta e não vi mais o que era.
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