O Sangue

3 Mais um dia normal - Reescrito


Notas iniciais
Se você leu este captulo com o titulo de "atormentada em sonhos" então vc leu a primeira versão kkk porque eu meio q fiz outra... uma parte um pouco mais "comum" quase não teve preocupação de ninguém... e tudo isso.

A casa estava silenciosa, Lorena dormia tão profundamente, estava tão calma, tão no seu estado normal. Assim que seus pais chegaram, encontrando a casa em um caos estranhamente familiar, a mãe descera primeiro, o pai em seguida e logo depois o convidado que tinham trago para o aniversário da filha, eles ficaram preocupados. E então arrumaram algumas roupas e ligaram para a polícia, dizendo que um ladrão havia entrado na casa quebrando a porta blindada e atormentado sua filha, o que em parte não era mentira. Lorena estava encolhida debaixo da coberta, o quarto era pequeno, mas aconchegante, com cheiro de madeira e terra fresca. Não sabia onde estava, havia se esquecido depois que entrara no cômodo, se preocupando com coisas absurdas, pelo menos ela achava isso, mas aquele era seu quarto tinha certeza. Vez ou outra ela se remexia, lembrando-se do dia que tivera, há poucas horas ela estava em casa, agachada no chão com medo e pavor. Estava estressada. Agora que a calma a invadia, poderia até achar que tudo o que havia acontecido eram alucinações.

O banho a tinha relaxado, a sensação da água fervilhando em cima de sua cabeça, a limpando, sabendo que assim poderia parar de sentir um pouco de nojo de si mesma. Os cabelos desfiados estavam encharcados, parecendo lisos enquanto a água ainda escorria por eles, ela fechou os olhos para sentir-se ainda mais calma, talvez até um pouco melhor do que havia imaginado. Seus ombros continuaram enrijecidos, ela cerrou os dentes e olhou para o boxe de vidro escuro e embaçado pela fumaça.

Tocou os seus caninos com a ponta da língua só para ter certeza de que tudo era real, e que ainda continuava a ser uma pessoa normal, que tem problemas com estresse e cansaço demasiadamente enormes. Saindo do banheiro, da antiga casa de seus avós maternos, ficara sem conhecer o misterioso presente de aniversário, isso não a incomodava, ela adoraria a ideia de seu aniversário ser comemorado em um domingo, isso é se ainda tivesse clima para tal coisa. Sentindo calafrios pelo fato de casa ter uma grande entrada para correntes de ar, o inverno estava chegando, e mesmo que aquilo não importasse, ela se preocupava, alguma coisa a fazia se preocupar, alguma coisa que...

O corredor que levava aos quartos estava a sua frente, Ah como eu odeio estes benditos corredores!Porque em todos os lugares que vou sempre encontro um para me atrapalhar. Argh! A luz estava fraca, criando sombras de vários objetos em cima de uma mesinha no centro do mesmo, antes de seu quarto pensará ter visto a silhueta de Ronald, prendeu a respiração e girou o calcanhar, olhando agora para a porta de madeira pintada de verniz, que já começava a descascar dando um aspecto tenebroso para o lugar.

Entrou rápido, sem nem sequer olhar para trás e trancou-se girando a chave na fechadura e respirando fundo, a calma e a serenidade que costumava sentir quando vinha à casa de “férias” de seus avós, começava a se esvair do corpo bronzeado de Lorena. Ela não se sentia bem, desde o acontecimento devastador há poucas horas. Antes de deitar-se, e adormecer profundamente, examinou o quarto, olhou em todos os cantos possíveis, no caso debaixo da cama e até mesmo do lado de fora da janela, grudando sua face morna no metal gelado da grade de proteção, olhou pelas menores brechas que havia achado até se convencer de que nada entraria.

Mesmo que a ideia de segurança, não passa de apenas uma ideia, ela continuava apavorada, e hesitante, com medo de que se desse um passo encontraria com Ronald. Ela finalmente desistiu de pensar em coisas tolas e embrenhou-se nos lençóis e concentrou-se em dormir.

– As piores coisas acontecem durante um pesadelo. Então deseje que tenha bons sonhos esta noite. – ela disse baixinho, como citando alguma frase de algum livro, não era importante, queria poder desejar bons sonhos a si mesma, e esperava que tivesse.

A luz fraca da aurora iluminava o quarto, apesar de ainda estar cedo para o sol começar a nascer ele se recusava a ficar deitado, e por algum motivo ele também não queria deixar Lorena aproveitar ainda mais o seu cochilo. Não fazia muito tempo que havia adormecido, talvez umas três ou quatro horas, precisaria demais para recuperar suas forças, se bem que ela quase não as usara, a não ser para uma faxina geral, que no final não valeu de nada. Lorena resmungou ao perceber o quão burra tinha sido ao deixar a janela aberta, o sol já estava no seu posto, observando-a curioso.

Levantou-se e ergueu os braços esticando os músculos, escutou barulhos vindos da cozinha e adiantou-se para sair do quarto e ao menos lavar o rosto. Sua roupa estava amassada, havia vestido uma blusa de seu irmão, e uma bermuda que achava ser dele também, estavam meio largas, porque apesar de ele ser seu irmão mais novo, compartilhavam quase a mesma altura e ela começava a suspeitar que o irmão ganhara um pouco de corpo. Ao entrar no banheiro e observar a claridade que já entrava pela janela, ela viu seu rosto além de marcado por seus fios de cabelo e pelo travesseiro, tinha manchas em um dos ombros, talvez tivesse batido em algum lugar, mas resolveu ignorar, hoje vestiria uma blusa sua que cobriria o tom arroxeado que aquela região tinha ganhado.

Escovou os dentes, e tomou um banho rápido, para poder se sentir ainda mais limpa, seu corpo estava dolorido mais do que no dia anterior. Saiu assim que escutou uma voz familiar, Marconi e de seu irmão Junior, o som do motor de seu velho calhambeque desligou, e a porta foi fechada. Aliviada por saber que seu irmão estaria ali, ela se apressou para vê-lo. Andou pelo corredor e esbarrou na mesinha no meio dele, gemeu baixinho, e pegou seu celular que tinha caído, com o visor ligado, percebeu que tinha seis chamadas não atendidas de Cassie. E mais uma estava a caminho, a música Just one Yesterday começou a tocar baixinho e aumentando conforme se aproximava e do clímax. Ela deslizou o dedo na tela e atendeu.

– Porque você não me atendeu?! – Cassie estava histérica.

– Desculpe. – Lorena falou calma.

– Ah querida, você não sabe o que aconteceu! – ela começava a dizer coisas sem coerência e então soou o nome de Ronald. – Isso mesmo, dizem tê-lo visto matar uma família inteira igual a um serial Killer, por pouco não foi à casa do Marconi, foi em direção a sua.

– O que?! – Lorena caminhou até o final do corredor virando-se a esquerda para a sala de estar, e viu seus pais sentados na mesa com Junior e Marconi. Na sua frente tinha um sofá de três lugares, diante a uma televisão de quarenta e duas polegadas de tubo. Conectada ao DVD e ao micro system, Junior veio em sua direção e sorriu meio tímido, a abraçou, enquanto ela continuava a escutar o que Cassie dizia. Beijou o topo da cabeça do irmão e ele fez um gesto obsceno com as mãos e ela sorriu e piscou para o irmão, enquanto acenava para seus pais e Marconi.

– Olha, estou na casa dos meus avós, você ainda se lembra onde fica? – Lorena desviou-se do sofá e viu a bancada da cozinha feita de granito, com o seu café da manhã preparado.

– No caminho de onde Judas perdeu as botas e no inicio do fim do mundo? É acho que lembro sim. – Lorena revirou os olhos e mordeu um pedaço de sua torrada.

– Venha prá cá, meus pais tem uma surpresa para mim, não quero curtir a essa sem você.

– Surpresa? Surpresa foi você ainda ter continuado viva! Ah como eu te amo, minha branquela... Estou indo para o fim do mundo. O que eu não faço por você? – ela riu baixinho e do outro lado da linha Lorena a escutou pegar as chaves do carro da mãe, um gol de duas portas acinzentado, pequeno o bastante para as duas. Cassie perdera o pai há quase sete anos, ela e Lorena se conheciam a apenas seis, mas isso era o suficiente para ela saber que o pai de Cassie havia sido ótimo em sua função. Ela morava nas proximidades de Sand Lakes Provincial Park, um lugar que ela julgava ser um dos melhores do mundo, mas como Lorena ainda não conhecia, esperava por uma oportunidade para ir com sua amiga.

– Calma moçinha! Já avisou sua mãe? Aposto que doutora Logan iria odiar ver filha sair tão cedo de casa. – falou Lorena bebericando seu chocolate quente.

– Não se preocupe com isso, ela foi visitar parentes lá onde Judas se perdeu e não encontrou as botas e virou na esquina com o mundo acabou, já era, pode voltar. — ela riu um pouco, a voz dela meiga e doce, podia-se notar um pouco de sotaque canadense em suas palavras. Lorena adorava estas piadinhas que a amiga fazia, sentia-se confortável em saber que existia uma pessoa mais louca que ela. – Já entrei no carro, escuta só. – ela bateu a porta do carro. – agora, passarei no mercadinho do Erivaldo, e comprarei batatas fritas enlatadas e potes de sorvete, para encher minha amiga de gorduras e guloseimas.

– Não precisa exagerar, estou bem. – ela olhou para a bancada, com biscoitos recheados e algumas balinhas de goma, a torrada já havia acabado, durante a conversa que tinha tido até naquele momento, comera cinco com manteiga e um enorme pedaço de queijo.

– Isso não é exagero, você precisa sobreviver em meio a esta selva! Pelo amor, não se preocupa mais consigo mesma? Ou é isso ou você começa a falar gírias e sabe se lá o que mais. – Lorena sorriu largo e se esquecendo dos outros pousou o cotovelo na bancada e usou a mão como um encosto apoiando seu queixo sobre ela.

– Você tem toda razão tenho que comer coisa de gente, aproveite isso e traga o seu biquíni novo, iremos a alguma cachoeira quando você chegar. – Lorena sentou-se no banco ao seu lado.

– Claro! Isso vai ser demais, agora... – ela fez uma pausa e suspirou – Eu sinto muito lhe dizer isso, mas seu amorzinho aqui vai ter que desligar. Beijos! – ela falou colocando a chave na ignição e a girando, Lorena escutou o motor falhar uma vez e depois outra. – Ou minha mãe compra um carro novo... Ou vou ter que usar o método antigo...

– E qual seria? – Lorena perguntou com ar debochado, sabendo qual seria a resposta.

– Bike! Pelo amor... Em Sand Lakes era o que eu mais fazia! Como acha que consegui estas lindas belezinhas? – disse referindo-se a suas panturrilhas e pernas. Eram finas e alongadas, embora ela fosse mais velha que Lorena um ano, a mentalidade poderia ser comparada a do seu irmão mais novo que tem apenas quatorze anos.

– Quem sabe assim você não entra em forma? Vive dizendo que esta gorda. – Lorena revirou os olhos.

– É quem sabe. – ela fez uma voz fanha e riu de si mesma. – Mas sabe o que é, a minha mãe fala que sou linda – ela suspirou baixinho com ar de indignação – Mas eu sei o segredo dela! Mães têm a obrigação de iludir os filhos.

– Talvez, agora acho que você tem mesmo que fazer a Fionna pegar no tranco. Vamos lá garota você consegue! Nós te amamos. – Lorena fingiu torcer e continuou rindo da situação.

– Fionna, por favor! Vamos lá! Só mais uma tentativa! – ela girou a chave e Fionna não resistiu depois de ser tão amada, e resolveu ajudar Cassie só um pouquinho.

– Viu? Só precisava de elogios. Beijos Cassie, agora suma e só me ligue quando estiver aqui no portão do quase fim do mundo. – Cassie concordou e ambas desligaram o telefone.

– Mas que conversa longa... Pensei que não iria acabar nunca! – resmungou Junior. – Já estava ficando entediado de tanto escutar vocês. – ele revirou os olhos e se largou ainda mais sobre o sofá confortável.

– Mãe, onde está a minha surpresa? – perguntou Lorena ao deixar a bancada e levar consigo alguns pratos sujos para a pia.

– Está dormindo. Ele preferiu ir para o porão, disse que estava cansado e que era melhor dormir por lá. Eu achei estranho. Querido será que todas as pessoas de Contagem são assim? Preferem porões ao invés de camas macias? Isso dá medo. – ela falou se encolhendo um pouco, o marido colocou um de seus braços envolta da esposa e sorriu.

– Você já deu uma pista, não deveria. – ele revirou os olhos, e Marconi sorriu.

– Isso tudo é um complô contra mim? Todos vocês sabem de alguma coisa e não querem me contar! – fingiu estar revoltada com a ideia de todos saberem quem seria o misterioso. Poderia ser qualquer um de seus antigos amigos, poderia ser também o seu primeiro namorado. Não que ela não sentia nada mais por ele, claro que o amou de verdade, mas a ideia de ser ele o cara que estava sob seus pés a incomodava. Notou a maneira que sua mãe brincava com os dedos, e o jeito em que à ruguinha de preocupação entre suas sobrancelhas aparecia vez ou outra, mostrando que hesitava e que devia indagar-se mentalmente sobre perguntar se a filha estava bem, como fora à noite dela ou se ela não queria ir dar um passeio e evitar completamente o assunto. Mas a decisão já tinha sido tomada, todos evitariam ao máximo, ignorariam quaisquer perguntas que ela fizesse ou se tocasse na ferida aberta colocariam um antialérgico e voltariam ao seu “normal”.

Notas finais
Não se esqueçam dos comentários! Quero saber cada opinião suas sobre os capítulos! Sejam francos em cada um deles! Beijos seus lindos... ♥