O Sangue
4 Se preparando
Notas iniciais
As horas demoravam a passar e isso deixava Lorena aflita, sentia um aperto no coração que não sabia como explicar, tinha se retirado da sala há quase meia hora, o telefonema de Cassie havia sido uma hora antes, ela já deveria estar perto. Jogou-se na cama e encolheu-se na bagunça de lençóis e cobertores, tentando ficar no controle de seus próprios pensamentos. Que iam e vinham em direções descoordenadas, incitando-a ainda mais a pensar coisas e mais coisas terríveis que poderiam estar acontecendo com Cassie. Mordeu o lábio e sentiu a sua pressão aumentar, passos no corredor e um bocejo forcado e olhou em direção a porta aberta de seu quarto e desejou que a tivesse trancado, fechou os olhos fingiu dormir, os passos pararam, bem diante de sua porta e depois voltaram mais uma vez a ativa indo para o final do corredor. Porta do banheiro foi fechada.
Levantou-se da cama, e passou rapidamente pelo corredor, seguiu para a direita onde havia uma porta dos fundos e uma porta sob seus pés, porão e fundos da casa. Qual escolher? Lorena optou por deixar sua curiosidade mais inquieta e consumidora, saindo pela porta de metal, pesada e enferrujada, que rangeu ao ser removida de seu local de descanso. Com o celular no bolso traseiro de sua bermuda, pegou as chaves da porta e as levou no outro bolso. Foi caminhando por entre galhos secos e algumas plantas que faziam cócegas em seus pés, ela calçava uma sandália aberta, presa com uma fita em seu tornozelo, o que não ajudava muita coisa. A brisa do quase inverno chegava com rapidez a suas narinas, ela inspirava com satisfação, adorava o cheiro de eucalipto e pinheiros, concentrou-se em andar, evitou passar pela rua em frente à casa que estava a poucos instantes e cortou caminho pelo terreno “abandonado” logo a sua frente, passou pelo arame farpado, tomando cuidado para não se cortar e se agilizou na caminhada, as arvores eram mais fechadas naquele terreno, seu avô vez ou outra ainda fazia uma limpeza e retirava todas as ervas daninhas, mas aquele lugar não era visitado a tempos.
– Ah! – ela quase gritou, colocou a mão por cima da boca, fazendo com que o som saísse abafado. – Odeio aranhas. Argh! – ela disse limpando seu rosto, e passando a mão pela sua regata a limpando, esperando que não tivesse a má sorte de ter uma aranha em sua roupa. Escutou galhos sendo amassados e passos vindos em sua direção, apressou-se mais para escapar do emaranhado de plantas e começou a agitar os braços quando os galhos que julgava quase sem vida começarem a lhe prender, não deixando que escapasse.
O cachorro começou a latir logo atrás de Lorena, ela suspirou aliviada, esperando um pouco que seu coração se acalmasse. Saindo um pouco mais a frente passando por mais uma cerca de aramas, ela estava na rua de terra vermelha, uma pequena estrada por onde os moradores do local usavam como rota principal. Aquela pequena avenida interligava todas as outras ruas ou buracos sem saída, conhecia aquele lugar como a palma de sua mão. Não se perderia facilmente. Caminhando pela rua, com o celular vibrando no bolso, tocando música que escolhera para sua mãe, Truble era a sua música menos favorita, por isso escutava raramente quando sua mãe ligava. Olhou em volta em busca do cão que a tinha deixado com medo, mas não havia nenhum vestígio do mesmo, subindo rua acima, ela atendeu ao telefone celular e revirou os olhos ao ouvir sua mãe gritar.
– Porque você saiu sem avisar! Lorena! Volte logo. – ela falou com a voz ríspida e com um tom alterado, estava preocupada com a filha.
– Mãe, não se preocupe, eu irei à vendinha aqui perto, eu volto em casa em menos de meia hora. Eu prometo. – falou Lorena com o seu tom de psicóloga, sempre fingia estar calma enquanto a mãe discutia com ela, e isso sempre funcionava, tinha um efeito tranqüilizante.
– Mas Lorena...
– Nada de “mas”! Eu volto, não vou demorar, não é como se fossem me atacar nem nada. – ridicularizou Lorena, mas não surtiu nenhum efeito em sua mãe.
– Vá logo, Marconi e seu pai querem dar um passeio, mas só o farão quando você voltar e Cassie chegar. Então se apresse. – logo do outro sinal da linha ficou mudo, sua mãe havia desligado. Continuando sua caminhada, ela dobrou na esquina e avistou a vendinha, com o nome de “Pães e especiarias.” Sorriu com isso, fazia um bom tempo que não falava com Trevor, um amigo de infância.
Enquanto caminhava, conseguia escutar a agitação das folhas enquanto o vento se arrastava por elas, era como se estivessem se preparando, deixando o ambiente adequado para um filme de terror, iguais aos de Hollywood. Lorena tremeu, e olhou pára trás, por reflexo olhou para os lados ao mesmo tempo, uma casa aparecia ao seu lado direito, vidros quebrados, portas arrancadas das dobradiças, e gotas de sangue na madeira. Respirou fundo com o coração agitando-se dentro de seu peito, pedindo em seus pensamentos: Pare de olhar, vire-se! Não sei se agüento tanto suspense de uma vez só. Não teve tempo para escutar o que seu corpo lhe dizia, viu de relance um par de olhos vermelhos, afastados da luz do sol, encolhidos no escuro, como duas bolinhas de gude de neon.
Prendeu a respiração por um segundo, e esfregou as têmporas e piscou algumas vezes, os olhos haviam sumido, escutou um grunhido vindo da casa, ela estremeceu e voltou a andar. Só pode ser coisa da minha cabeça, isso... Alucinações! Depois de ontem eu acho que estou começando a ver coisas e a escutar. Lembrou-se do cachorro, e em como o som dele havia cessado repentinamente. Um garoto estava a olhando ao longe, sentando em uma cadeira de madeira antiga, ele descascava um tipo de estaca, ele mesmo a estava fazendo. Mordia um pedaço de capim e distraído com a desconhecida deixou a faca cair.
– Trevor! – Lorena gritou tentando esconder seu medo momentâneo, e assumiu uma postura animada. Ele entreabriu os lábios, ainda confuso reconhecendo os cabelos castanhos e a voz doce, que eram como melodia para seus ouvidos. Sorriu largo e levantou-se da cadeira, apressado para abraçar sua amiga.
– Você desapareceu pequena. – disse ele a abraçando apertado, e inspirando o perfume que só ela possuía para ele era como se cheirasse rosas selvagens.
– Eu cresci um pouco, desde a última vez que me viu, você não acha? – Lorena riu um pouco, enquanto Trevor a soltava meio sem graça por estar sujo de terra. Ele limpou as mãos na bermuda surrada, e agitou seus cabelos lisos, o sorriso dele era contagiante, ele irradiava a felicidade que sentia, e isso fez com que Lorena se sentisse acolhida e segura.
– Talvez, continua com um metro e sessenta? Ou deu uma espichada? – ele riu a acompanhado de volta a vendinha, onde trabalhava e era dono. Trevor morava sozinho desde os quinze anos, seu pai foi caçar uma noite e não voltou, levaram o caso a policia e eles o deram como desaparecido e esqueceram o caso na gaveta, a mãe de Trevor morreu quando o garoto nasceu, gravidez de risco por já ter uma idade avançada. A vida dele era solitária, se isso tivesse acontecido com Lorena, talvez ela tivesse desistido de viver a anos, mas ele estava ali, firme e forte, sem nenhum rancor ou desejando a vingança daqueles que mataram seu pai. Ele tinha certeza de que o pai havia sido morto, por monstros peludos maiores que os homens e ferozes como lobos, mas era só uma história, certo? Uma história que os pais contavam para as crianças dormirem, e que pelo o que Lorena começava a suspeitar as histórias se tornaram realidade.
Porque estou pensando nestas coisas? Vamos lá, eu queria um amigo, agora tenho um! Anda. Eu consigo, é só conversar ignorar o meu aniversário e pronto. Vamos evitar o assunto. Ela mordeu o lábio e adentrou o estabelecimento simples e convidativo. Sentou-se no banco de madeira e ajeitou-se ali, observando seu amigo, notando o quanto havia crescido, ele era um mês mais novo que ela, aparentava já ter experiência e ter vivido muito até chegar onde está.
– O que você manda? – disse ele passando para trás do balcão, e lavando as mãos em um balde pequeno, o lugar era aberto, tinham duas janelas amplas com grandes de metal puro, novas e recém pintadas, tinha três mesas dentro do recinto e um portão de metal, idem as grades, o portão estava aberto somente de um lado e o outro tampando o sol, preso por uma barra de ferro, que descia do portão para um furinho no chão, o balcão começava logo adiante do lado esquerdo abria-se uma entrada pequena, onde Trevor tinha que se encolher para passar, devido ao seu tamanho e músculos que possuía.
Ela ficou em silencio por um tempo, e Trevor notou uma ruguinha entre suas sobrancelhas, ela era igual à mãe, não havia quem não diziam como eram parecidas em suas manias e nas poucas singularidades que tinham até na maneira como agiam. Ele sorriu um pouco, e apoiou os dois braços no balcão de madeira.
– Sabe, você continua a mesma, quer dizer que não esconde nada de mim, pequena. – ele pegou uma flanela de sua cintura e secou as mãos, jogando o pano sujo nos ombros. Lorena brincou com os dedos, queria fazer aquela pergunta, mesmo que seus pais não a deixassem tocar no assunto, precisava saber. Preciso confirmar, não posso estar louca.
– Só ando um pouco estressada. – ela falou dando de ombros e levantou-se indo em direção a janela logo ao seu lado. Ela apoiou-se no parapeito com os cotovelos e fechou um pouco os olhos. – Você acredita em vampiros? – ela riu um pouco e virou-se para trás, vendo a tempo o rosto incrédulo de Trevor com a pergunta, ele riu e arqueou as sobrancelhas, vendo a seriedade do rosto da amiga, engoliu seco. – Sei que parece uma completa maluquice, fico imaginando como seria se eles existissem. – ela suspirou e Trevor se endireitou.
– Talvez, mas se existissem não confiaria neles, nem se quer teria contato. Vampiros, sangue? Sabe. – ele riu sem graça, e pegou um pacote de batatas fritas e jogou para Lorena que pegou no ar.
– Obrigada, mas. – ela ia falar mais alguma coisa, Trevor sorriu a encorajando, ele também pegou um pacote para si e o abriu.
– Precisamos de carboidratos, se formos conversar sobre vampiros. – ele passou pela portinhola e saiu dando um pequeno gemido. – Preciso aumentar este troço, me sinto um velho a cada vez que passo por ela.
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