Oh Yo-han estava entediado atrás do balcão da loja de conveniências. O horário do jantar, que era um dos mais movimentados, já tinha passado e não havia mais muitos clientes na loja, então ele aproveitava o momento de tranquilidade para estudar um pouco mais sobre seu assunto favorito: o cosmos. Entre um cliente e outro, ele alimentava não somente seu corpo rechonchudo, mas também o seu cérebro.

Enquanto lia, ele escutou a sineta da porta tocar, indicando que um cliente havia entrado e voltou sua atenção para atendê-lo, mas qual não foi sua surpresa, ao ver que quem entrava, era o seu amigo Songsak, todo estabanado, com um bebê num dos braços e várias bolsas e sacolas no outro.

- Me ajuda aqui, Yo-han. – pediu o entregador.

Imediatamente o atendente saiu de trás do balcão e correu para aliviar o amigo do peso das sacolas, mas continuou curioso com a cena inusitada que presenciava.

- Ué, o restaurante chinês agora está fazendo entrega de bebês também? Virou cegonha? – brincou o atendente.

- Ha-ha, muito engraçado. – respondeu Songsak, agora aliviado, por já poder segurar a menina com as duas mãos.

- Mas agora, falando sério. O que você está fazendo com essa criança? – perguntou Yo-han.

- Pra falar a verdade, nem eu sei. – revelou o entregador. – O Padre Kim me pediu pra vir aqui correndo e disse que eu precisava esconder ela. Eu só não sei bem porque… Tem algum lugar onde a gente pode ficar?

- Bom… tem a salinha de descanso dos funcionários ali atrás… mas você não tá fazendo nada de ilegal, né, Songsak? – perguntou o atendente, disposto a ajudar, mas achando toda aquela situação bastante suspeita.

- Não sei… Talvez… – revelou Songsak, com uma dúvida bem genuína, depois de entender que estava literalmente fugindo da polícia.

- Olha, se eu me der mal por sua culpa, eu te mato!

- Bom, Yo-han, eu tô aqui porque o Padre Kim pediu. Acho que ele não faria nada ilegal… faria?

Eles se entreolharam com sérias dúvidas, pois conheciam bem o Padre Kim e já o haviam ajudado antes com alguns servicinhos levemente ilegais, então sabiam que era bem provável que estivessem sendo envolvidos em mais algum rolo do padre, mas sabiam também, que se esse fosse mesmo o caso, o padre certamente teria um bom motivo.

- Se fosse qualquer outro padre, eu diria que não, mas como é o Padre Kim, não dá pra ter muita certeza…

- Verdade. Mas vamos esconder ela, antes que alguém a veja. O Padre Kim, disse que alguém viria pra ajudar, então vou esperar. – decidiu-se o entregador a ir até o fim, como havia se comprometido a fazer.

- Tá bom. Vem comigo.

Meio ressabiado, o atendente levou o amigo e a bebê para a salinha de descanso dos empregados da loja de conveniência e logo voltou para o seu posto de trabalho, atrás do balcão, junto à caixa registradora, mas não conseguiu disfarçar que estava apreensivo.

Uma meia hora depois, a ajuda prometida pelo padre finalmente chegou. Era a Promotora Park, que entrava disfarçadamente, usando um lenço amarrado na cabeça, máscara cobrindo a boca e óculos escuros. Yo-han quase não a reconheceu. Só se deu conta de quem era, quando a mulher veio falar com ele.

- Yo-han, eles chegaram? – cochichou ela, enquanto olhava desconfiadamente por cima dos óculos para todos os lados, principalmente para a rua.

O atendente não tinha muita certeza do que ela queria dizer, mas imaginou que ela se referia ao Songsak e à criança.

- A senhora está falando do Songsak e da…

- Shhh! – disse ela, colocando o dedo indicador sobre a boca do rapaz, não permitindo que ele terminasse a frase.

- Chegaram? – perguntou ela novamente.

- Sim. Eles estão ali atrás, na salinha.

- Ok. – disse ela, já levantando o tampo dobrável do balcão e invadindo a área de trabalho de Yo-han para chegar até ao local indicado.

- Espera aí, Srta. Park! Você não pode ir entrando assim. – disse ele, com medo de que alguém a visse entrando, mas por sorte, nada aconteceu. O lugar estava mesmo vazio.

- Ah, vocês estão bem, graças a Deus! – disse ela, aliviada, ao ver que Songsak tinha conseguido chegar são e salvo até lá com a menina.

- Olá, Sra. Promotora. Foi o Padre Kim que te mandou aqui?

- Foi. Ele me ligou e pediu para que eu viesse correndo para cá. Eu vim para levar a menina. Você me ajuda a levar as coisas dela para o carro, Songsak?

- Sim, senhora. Mas, será que a senhora poderia nos dizer o que está acontecendo?

- Agora nós não temos tempo. A polícia pode aparecer a qualquer minuto, então temos que dar o fora o mais rápido possível. Eu te explico no caminho.

- Eu vou também? – perguntou o entregador, confuso, achando que sua participação em tudo aquilo já tivesse acabado ali.

- É claro. Ou você acha que, por acaso, eu consegui uma cadeirinha de bebê para por no carro em menos de meia hora? Alguém tem que segurar ela enquanto eu dirijo.

- Oh, sim. É verdade. – concordou o entregador, porque realmente fazia sentido. Não tinha como deixar a pobrezinha sozinha no carro.

Havia uma outra porta na salinha, que dava diretamente para a rua, e foi por ela que eles saíram, sem ter que passar por dentro da loja novamente. Eles partiram rapidamente, enquanto Yo-han os observava pela vidraça da loja, se mordendo de curiosidade para saber o que estava acontecendo. A primeira coisa que faria ao terminar seu expediente seria correr para igreja. Não era justo eles o envolverem na história, sem contar toda a fofoca. Era quase um pecado.