Gu Dae-yeong estava tão preocupado com o que poderia acontecer quando os policiais entrassem na igreja para fazer a inspeção, que mal conseguia comer. Ele balançava a perna esquerda nervosamente e sorvia desesperadamente o macarrão, quase sem respirar ou raciocinar muito sobre o que estava fazendo; tanto, que sequer percebeu que seu rosto já estava repleto do molho escuro do jajangmyeon. Enquanto comia, olhava fixamente para Baek Ji-sung.

O rapaz, por sua vez, permaneceu quase que o tempo todo grudado ao celular, dando ordens aos empregados da empresa do tio, enquanto aguardava pacientemente a emissão do mandado de busca. A autorização do Comissário para que ele acompanhasse o caso já havia chegado oficialmente à delegacia, como ele havia dito.

Dae-yeong nem de longe conseguiu disfarçar sua ansiedade. Foi praticamente impossível que os colegas do policial não notassem que havia algo de errado com ele.

- Tudo bem com o senhor, Detetive Gu. – perguntou um dos policiais mais novos, que também jantava ali na mesma mesa.

- Tudo bem. – respondeu ele, parando de chacoalhar a perna momentaneamente e exibindo um sorriso forçado, quase assustador, com os dentes e o rosto sujos com o molho escuro do macarrão.

- Tá meio sujo aqui. – disse outro dos policiais, apontando para o seu rosto e tentando ser educado, enquanto oferecia um guardanapo ao colega. Foi só aí que Dae-yeong percebeu a lambança que estava fazendo, parecendo uma criança.

- Oh, sim. Obrigado. – agradeceu, pegando o guardanapo.

- Pronto, senhores! – disse o capitão animadamente algum tempo depois, enquanto entrava no recinto, erguendo uma folha de papel em sua mão, como um troféu. – Nós já temos o mandado, então parem de comer, seus preguiçosos, e vamos trabalhar!

- Sim, senhor! – responderam em uníssono a maioria dos policiais presentes, largando suas refeições de lado e se levantado, empolgados, para obedecerem à ordem.

Será que o Songsak conseguiu entregar o bilhete para o Padre Kim?” era o único pensamento que rondava a cabeça do policial naquele momento. Ele não sabia o que iria acontecer quando eles chegassem lá, mas ele também acompanharia a equipe de investigação.

Enquanto eles seguiam para a igreja, os peritos forenses seguiam para a casa da Srta. Yoon.


*****

Já começava a anoitecer e Songsak acelerava o máximo que podia sua motinho de entregas de poucas cilindradas e cortava por entre os carros para tentar chegar o mais rápido possível ao seu destino, mas o trânsito parecia não querer colaborar. Havia um grande congestionamento devido a um acidente já bem próximo à igreja e ele acabou perdendo algum tempo para vencê-lo. Ele não fazia ideia de que se tratava o bilhete e muito menos imaginava que estava justamente apostando corrida contra a polícia. O congestionamento também atrapalharia um pouco os homens da lei, mas eles tinham sirenes e certamente iriam usá-las para abrir caminho.

Quando o entregador finalmente chegou, desceu de sua moto e correu para a igreja.

- Padre Kim! Padre Kim! – gritou ele, escancarando as portas duplas de madeira da catedral, mas a única coisa que conseguiu com isso, foi assustar o Padre Han, que era o único presente e acendia as velas do altar.

- Sonsgsak? – surpreendeu-se o jovem padre, interrompendo sua atividade momentaneamente. – Aconteceu alguma coisa?

- Padre Han, eu preciso entregar uma coisa para o Padre Kim. Onde ele está? É urgente!

- Eu acho que ele está na casa paroquial. – respondeu o sacerdote, ainda meio confuso.

- Obrigado, Padre Han! – agradeceu o tailandês, mal esperado Han Seong-gyu terminar a frase, e já saiu correndo para o lugar indicado.

Sem entender nada, o padre também largou o que estava fazendo e saiu correndo atrás do entregador. Deveria ser algo muito importante.


*****

- Padre Kim! Padre Kim! – ouviu Kim Hae-il seu nome ser chamado à distância. Primeiro ele pensou que estivesse ouvindo coisas, mas aos poucos o som foi se aproximando e ficando cada vez mais alto. Era quase impossível não reconhecer aquele sotaque único.

- É o Songsak? – se perguntou ao levantar da cadeira de balanço, que gostava de usar para relaxar. Assim que abriu a porta para ver o que estava acontecendo do lado de fora, deu de cara com o tailandês e quase trombou com ele.

- Ah, achei o senhor! – regozijou-se o rapaz, ofegante. O Padre Han chegou logo atrás, igualmente exausto.

- É, me achou. E por que você está gritando o meu nome por aí desse jeito, parecendo um maluco?

- É que… – precisou fazer uma pausa para respirar. – É que o Detetive Gu me pediu pra entregar um bilhete para o senhor o mais rápido possível.

Kim Hae-il ficou intrigado com a revelação e pegou o bilhete das mãos suadas do entregador. Desdobrou o papel e começou a apertar os olhos, fazendo uma careta. O Padre Han, que a essa altura já estava bebendo um copo d’água e oferecendo outro para Songsak, também ficou curioso com a expressão estranha do colega.

- O que foi, Padre Kim? É algo grave?

- Não tenho certeza… Não consigo decifrar esses garranchos! Se aquele idiota queria me mandar um bilhete, pelo menos escrevesse direito, pelo amor de Deus! Por que ele não telefonou? – perguntou, irritado, tirando o aparelho celular do bolso da calça, na intenção de ligar para o policial e dar-lhe uma bela bronca, mas logo entendeu o porquê de ter recebido um bilhete à moda antiga. – Ah… Está desligado… A bateria acabou… – foi obrigado a reconhecer, sem graça.

Os outros dois homens também tentaram ler o bilhete e tiveram que concordar com Kim Hae-il. A caligrafia realmente era das piores. Gu Dae-yeong escreveu tão rápido para não chamar a atenção dos outros policiais, que não prestou muita atenção na qualidade da escrita. Juntos, os três tentaram decodificar a mensagem que deveria ser importante.

- Essssconder Ma-ma-ria. Esconder Maria. Isso. – leu Songsak. – Quem é Maria? – perguntou em seguida, mas não obteve resposta.

- Poliiicia ch-cheirando. – continuou Hae-il.

- Não, Padre Kim. Polícia chegando. – corrigiu o Padre Han.

- Ah é, polícia chegando. – concordou Hae-il com a correção do colega. – Chegando com mandato. Não. Mandado. Mandado de busca.

Esconder Maria. Polícia chegando com mandado de busca.” – concluíram a frase, animados por terem conseguido decifrar o mistério, mas sem se dar conta imediatamente do que aquilo queria dizer.

- “Esconder Maria. Polícia chegando com mandado de busca”?! – repetiram depois os dois padres, assustados, quase gritando, quando finalmente entenderam a importância da mensagem.

- A polícia tá vindo aí! Precisamos tirar a Maria daqui! Irmã Kim!!!!! – berrou Hae-il pela freira.

Ao ver o desespero dos padres, Songsak ficou sem entender nada.

- O que foi, Padre Kim? Por que tanto escândalo? – disse a freira, vindo saber porque estavam gritando o seu nome.

- A polícia está vindo. Pega a Maria e todas as coisas dela. Precisamos tirar tudo daqui antes que eles cheguem.

- Mas como assim? Por que a polícia estaria vindo para cá? Ai, Senhor, será que eles descobriram alguma coisa?

- Não faço a mínima ideia, irmã, mas o Detetive Gu mandou um bilhete pelo Songsak avisando.

- Ah, oi, Songsak. Não tinha te visto aí. – cumprimentou a freira ao finalmente ver o rapaz perdido ali no meio dos padres.

- Oi, irmã. – devolveu o cumprimento com um aceno e um sorriso, ainda sem entender nada.

- Songsak, você vai ter que ajudar. – resolveu Hae-il naquela hora.

- Mas é claro, Padre Kim. – concordou o rapaz, sempre solícito. – Mas… ajudar com o quê?

- Vem comigo.

O entregador seguiu o padre e finalmente conheceu o motivo de tanto desespero.

- Oh, uma menininha! Oi, menininha. – disse ele sorrindo e acenando para a pequena, que estava deitada na cama, chupando sua chupeta e chacoalhando seu bichinho de pelúcia.

- Pega ela e leva pra… leva pra… leva pra loja de conveniência! Isso! Leva ela pra lá, correndo. Pede ajuda pro Yo-han. Não podemos deixar que a polícia encontre ela aqui. Pelo menos, por enquanto. Depois eu explico. – disse o padre, apressadamente.

- Tá bom. – concordou o rapaz, sem nenhum questionamento. – Vem cá, menininha. Vem com o titio Songsak Tekaratanapeuraseoteu.

- É, Maria. Vai com o titio Songsak Tekar… Tekara… Vai com o titio Songsak! – disse Hae-il, desistindo de repetir o sobrenome complicado do entregador e ajudando a colocar menina em seu colo.

A garotinha estranhou um pouco o novo rosto um pouco mais bronzeado do que os que ela já estava acostumada e começou a chorar, mas logo parou. Songsak tinha jeito com crianças, afinal ele tinha oito irmãos, sendo seis deles mais novos que ele.

- E o que a gente faz com as coisas dela? – perguntou a freira.

- Você consegue carregar essas coisas também, Songsak? – perguntou o padre, olhando para os braços fortes do rapaz.

Tinha duas bolsas e uma sacola com as coisas que eles haviam comprado, mais aquelas que a Promotora Park havia trazido. Por sorte, não eram tantas coisas assim.

- Consigo sim, padre. Coloca aqui no meu outro braço. – disse ele, levantando o braço, como se fosse um gancho, para que pudessem pendurar as sacolas nele. Embora ele não exercesse mais a função de guarda-costas há um bom tempo, fazia questão de se manter sempre em forma. Carregar tudo aquilo não seria um grande problema para ele.

- Perfeito! Agora desparece daqui. Rápido! Daqui a pouco alguém vai lá ajudar você. Obrigado, irmão Songsak. – agradeceu o padre.

O entregador se sentiu orgulhoso por Hae-il tê-lo chamado de “irmão” e saiu sorridente e apressado, decidido a cumprir mais aquela missão, carregando a menina num braço e as sacolas no outro.