O Rosário De Nyahzi
2 Capítulo 1 - A mestiça e o humano
Notas iniciais
A lâmina serrilhada passou a centímetros da face da lépida menina de cabelos esverdeados e vestes negras. Ela saltou para trás e, com uma velocidade impressionante, desferiu um golpe atroz contra seu adversário, que prontamente defendeu-se com as costas de sua espada. Ele, por sua vez, mantinha um sorriso zombeteiro direcionado à menina. O choque do aço resultou em faíscas. Sorriram vorazmente um para o outro.
— Vou acabar com você, Nupie – o humano vociferou.
— Somente se eu não acabar com você primeiro, Luse, querido – ela riu com asco.
Estavam prontos para uma nova série de ataques quando algo chamou a atenção de ambos.
— O que vocês estão fazendo?! – gritou uma voz conhecida.
Eles descaíram suas espadas e se olharam travessos. Encararam a nascente da voz – uma janela oval de vidro azulado de uma pequenina casa de madeira sem muitos detalhes – e constataram suas suspeitas. Os cabelos da mulher eram cor de labaredas, alaranjados, quentes. Seus olhos possuíam um tom singular e acastanhado. A mulher era corpulenta, via-se pela sua face rechonchuda. Usava brincos de ouro puro e um colar de prata, uma pequena cruz cristalina usada como pingente. Era Myahne. Seu rosto estava vermelho e contorcido de raiva. Ela abriu a porta de sua casa com violência.
— O que eu já lhe disse, Nupie, sobre lutar fora da Academia?! – exclamou, chamando a atenção dos civis que passavam por ali.
— Mas, mamãe... – Nupie tentou justificar, mas foi interrompida.
— Eles estavam apenas se divertindo – um homem de cabelos grisalhos e vestes rubras que observava de longe se aproximou, apoiando-se em seu cajado negro.
— Como? Se divertindo? – Myahne gritava, os olhos esbugalhados. Ele mantinha um sorriso zombeteiro para a sielah.
— Estavam brincando – disse, a voz calma. Virou-se para os travessos e lhes mandou uma piscadela atrevida. – Me chamo Eriel. Venho de Castarya.
— Sou Nupie – a garota logo disse, a mão direita estendida, esperando para um aperto amigável.
Eriel analisou-a enquanto envolvia sua mão delicada com a firmeza de suas próprias. Tinha compridos e retos cabelos esverdeados como safiras. Sua pele era clara feito gelo, suave como algodão. Seus olhos eram duas piscinas de mercúrio, intensos, ágeis e astutos. Ela era pequena e delicada, suas configurações corporais eram delgadas. O humano ao lado de Nupie pôs as mãos gentis nos ombros dela e mirou Eriel com desconfiança. Era um garoto pálido com olhos cor de amêndoa. Seus cabelos castanhos claros roçavam em seu pescoço magro. Ele era demasiado alto e seu corpo era feito um galho de árvore. Suas vestes eram surradas e seus calçados produziam um ruído estrondoso quando eram forçados ao chão coberto por um tapete de folhas avermelhadas.
— Luse – o jovem disse com firmeza. Eriel sorriu e estendeu sua mão direita ao humano, que a apertou, o olhar ainda pousado em suas feições.
A multidão havia se dissipado e ali só restavam Nupie, Luse, Eriel e, obviamente, Myahne.
— Nupie, vamos para casa – a mãe ordenou, o semblante transparecendo sua insatisfação.
— Claro – ela disse com falso interesse. – Luse, Eriel, juntem-se a nós.
— Será um prazer – os dois responderam num uníssono.
Myahne bufou. Virou-se e começou a curta caminhada até sua morada, a barra de seu vestido de cetim lilás fazendo voltas em suas pernas grossas. Eriel deu passos rápidos para acompanhá-la.
— Sua filha tem talento – ele comentou.
— Sim, eu sei – Myahne bufou uma vez mais. – Não gosto que Nups treine fora da Academia.
— Nupie toma cuidado. Estive observando por alguns minutos.
— Diga de uma vez o que quer com a minha filha – a mãe exclamou irritada. – Onde já se viu, um homem desta idade observar uma menina!
— Oh, não! – ele gargalhou audivelmente. – Não me entenda errado, por favor. Estava observando a batalha. Eles têm movimentos muito avançados. E não sou tão velho quanto pareço, tenho trinta anos.
Ela olhou com espanto para Eriel.
— Apenas? Eu diria pelo menos quarenta e cinco! – Myahne exclamou. Pegou da barra de seu vestido as chaves da casa e a encaixou na fechadura.
— Oh, não! – ele sorriu afetuosamente. – Muitos dizem que é devido ao cabelo grisalho.
A sielah girou a maçaneta e deu passagem para Eriel, Nupie e Luse. Entrou, trancou a porta e correu para a cozinha, a fim de preparar um delicioso chá de Vhaz – uma planta nativa da floresta de Eori. A casa não era muito diferente das outras que Eriel já visitara ali: o teto e o piso eram revestidos de madeiras claras, as paredes eram creme. Tinha poucos móveis, apenas uma mesa de madeira negra – para contrastar com o piso e parede – e quatro cadeiras igualmente cromatizadas; um sofá rubro e gasto, mas realmente confortável, suave, sutil; duas poltronas do mesmo tecido do sofá e alguns pares de prateleiras brancas que comportavam porta-retratos, em sua maioria de Nupie.
Eriel sentou-se no sofá puído ao lado da menina e do humano.
— Diga-me, Nupie, qual é sua raça? – ele mostrou seu evidente interesse.
— Sou uma sielah – ela sorriu, o olhar vago. Então, piscou como se acordasse atônita de um sono profundo. – Perdão. Sou mestiça.
Eriel arqueou uma sobrancelha e Nupie explicou:
— Desde muito pequena sou chamada de Sielah. Isso ás vezes me confunde – a menina deu de ombros. – E você?
— Sou um mago – ele sorriu para si mesmo.
— Pensei que fosse apenas uma profissão – a mestiça estreitou os olhos, mirando o chão.
— Não. Ser mago não é uma escolha. Quando você descobre sua magia, você abdica de tudo – havia pesar em sua voz, como se relembrasse um passado difícil.
— Mas qual era sua raça antes de virar, você sabe, mago? – Luse indagou, as sobrancelhas unidas formando uma linha tênue.
— Era como você, Luse. Humano – ele deu um sorriso fraco. – Mas isso faz parte do meu passado, e não é dele que vim tratar.
— O que faz aqui então? – questionou uma Myahne desconfiada, levando em mãos uma bandeja de madeira negra com flores ressecadas como adorno. Em cima dela havia três xícaras de porcelana com dragões avermelhados perfeitamente desenhados e cromatizados.
— Vim até Anaea a pedido de meu rei – o mago revelou. Aceitou educadamente uma xícara de chá de Myahne, que entregou outra para Luse. A última ela manteve para si. Nupie, ao sentir o aroma do chá, fez uma careta.
— Não sei como consegue desgostar de chá, Nupie – a mãe repreendeu.
— É fácil – Nupie zombou. Virou-se, então, para Eriel. – O que veio procurar por aqui?
— É confidencial – ele disse em tom sério. – Mas creio que já encontrei. Já percorri todas as casas de Anaea, mas acho que já encontrei o que preciso.
— E você não pode ao menos dar-me uma dica? – a mestiça piscou em olhos repetidamente, fingindo ingenuidade. Um fantasma de sorriso passou pelo rosto do mago.
— Sim, posso. Mas depois que conversar um pouco em particular com sua mãe.
Ela bufou e cruzou os braços. O encarou por alguns breves segundos, esperando que ele mudasse de opinião, o que não aconteceu.
— Vamos, Luse – Nupie disse, carrancuda, puxando o amigo pelo pulso com violência.
Depois que ambos saíram de vista, apenas foi ouvido o estrondo da porta se batendo. Eriel lançou um sorriso tímido para a corpulenta Sielah, agora ao seu lado ocupando o espaço livre no sofá. Myahne tinha uma expressão confusa. O mago pigarreou baixo.
— Fiquei curioso pela história de Nupie – ele disse, sem delongas. – O modo, vejamos, estranho que ela confundiu sua raça não me soou normal.
Myahne suspirou e lançou a Eriel um olhar encharcado em pesar.
— Nups é mestiça – sua voz era dura. – É fruto de uma sielah e um humano. Seu pai era um adúltero, por mais que eu não soubesse. Quando soube que eu esperava uma filha, ele fugiu. Tentei contatá-lo de todas as maneiras, mas não consegui encontrá-lo. Criei Nupie numa tentativa de eliminar todos os traços de seu pai de dentro dela. Pedi para chamarem-na de sielah, mas nada mudará o fato que ela é mesmo uma mestiça.
Myahne tinha lágrimas grossas presas em seus cílios. Do decote de seu vestido ela retirou um lenço de seda vermelho e o passou nos olhos, enxugando as gotículas. Eriel sentiu-se desconfortável. Ficava sem reações quando exposto a emoções alheias. Trabalhava rotineiramente com a razão, portanto a emoção ficara de lado.
— Obrigado, Myahne – ele disse tentando confortá-la, as mãos em seus ombros largos. – Vou chamá-los de volta.
Gritou os nomes da mestiça e do humano e em questão de segundos ele pôde sentir um onda de calor repentina o atingir com força. Nupie e Luse caminhavam um tanto emburrados para a sala quando Eriel saltou do sofá e pressionou seu rosto fino contra a janela. Seus olhos esbugalharam e ele arfou.
— Fogo – ele disse com pressa. – A cidade está sendo queimada!
Nupie estava paralisada. Fogo, ela pensou. Imagens randômicas inundavam sua mente. Uma voz viril repetia a mesma frase: Do fogo ela foi criada e pelo fogo ela perecerá. Eriel, com os olhos perturbados, puxou Nupie e Luse pelo pulso para fora da casa. Myahne foi atrás deles, agarrou os ombros do mago e virou-o para ela.
— Salve-a – a sielah disse com firmeza. – Salve Nupie.
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