O Rosário De Nyahzi

3 Capítulo 2 - As Seis da Morte


Os muros da cidade já estavam abaixo. O fogo lambia os casebres de madeira com avidez, sedento por destruição. Os civis gritavam, corriam com alguns pertences valiosos em mão. Alguns queimavam vivos, suas lamúrias perdendo-se no ar. Eriel correu com Luse e uma Nupie ainda em transe para a floresta de Eori. Pretendia deixar o cavalo real em liberdade após pegar seus suprimentos e partir a pé. Correu com a mestiça e o humano em seu encalço para a floresta. Eriel parou de repente. Hesitou por um momento, tentando lembrar-se onde deixara o cavalo. O fogo vinha das entranhas da terra e lambia as roupas elegantes do mago, que protegia Nupie e Luse com seu próprio corpo. Virou a oeste, onde o fogo era mais brando, e correu em direção à árvore de carvalho onde amarrou o equino. Encontrou-a sem muitas dificuldades, mas o cavalo não estava lá.

Eriel olhou para o chão e arfou. Seu rosto perdeu a cor e suas pernas tremeram. O animal de porte do rei jazia no chão. Sua cabeça pendia do corpo e havia muito sangue ao seu redor.

— O que... – Nupie engoliu em seco. – O que é isso?

— Um dos melhores cavalos reais. Morto – Eriel respondeu.

Uivos cortaram o silêncio entre eles. Passos pesados se aproximavam deles. Um gigantesco animal com aproximadamente trinta metros de altura e que lembrava uma mistura de um lobo cinzento com um leão gigante entrou no campo de visão dos três.

— Não pode ser. Não pode ser um rashllon. Diga-me que é uma brincadeira da minha mente cansada – ele cerrou os olhos. Respirou fundo e os abriu novamente.

O animal estava perto. Arreganhou os dentes para o mago, que arfou.

— Temos que ir. – ele anunciou.

Empurrou Nupie e Luse para sua frente e gritou para que corressem. A mestiça forçava suas pernas dormentes a continuarem se movendo. Vamos, Nupie, ela pensou. Você não pode fraquejar agora.

O vento forte fazia seus cabelos atacarem com força seu rosto pálido. O ar entrava por suas narinas queimando suas vias respiratórias. Seu pulmão ardia, mas ela não ousava parar de correr nem por um instante. Ela permitiu-se lançar um olhar rápido para Luse. Ele estava ofegante, assim como ela. Respirava com dificuldade e parecia assustado. Virou rapidamente seu olhar para Eriel, que estava logo atrás dela. O mago agitava seu cajado – madeira negra, uma pedra anil brilhava intensa na extremidade superior –, lançava esferas de luz que Nupie não fazia ideia do que eram, numa tentativa de afugentar o rashllon, mas nada conseguia impedir o gigantesco animal de seguir em seu encalço. Ela cerrou os olhos enquanto corria, já quase automaticamente. Fique para trás, Nupie pensou. Fique para trás, fique para trás, maldito!

Um ganido lamentável cortou o ar e fez a mestiça abrir seus olhos instantaneamente. Olhou para o animal, agora preso entre vários galhos grossos que antes não estavam ali. Ela engoliu em seco.

— Continuem correndo! – Eriel esbravejou. – Não sei o que houve ali, mas não vai segurá-lo por muito mais.

O mago tomou a dianteira e guiou os dois por mais algumas milhas. Ainda podia sentir o calor do fogo vindo de Anaea, e agradeceu por não ter de lidar com mais este problema. A floresta naquele ponto ao sul estava úmida e fresca. Uma brisa brincava com seus cabelos cinzentos. O canto dos pássaros cortava o silêncio entre eles. Eriel virou a oeste, na direção de Castarya. Já participara de muitas expedições pela floresta a mando do rei, portanto conhecia cada árvore, trilha e extremidade. Procurava uma árvore em especial: a cerejeira sem frutos e com a raiz demasiado grossa e áspera que saltava do subsolo – para voltar a ele metros depois – que criava uma toca escura e segura. Ali eles poderiam ter abrigo durante a noite, que insolente já se aproximava.

Caminharam por longos minutos. Nupie estava estranhamente exausta. Suas articulações doíam, seus pulmões ardiam e sua cabeça girava. Avistou a toca deformada criada pela raiz da árvore e sorriu. Olhou para Luse e arfou. Ele tinha sangue no rosto. Um corte fundo fora feito abaixo de sua bochecha direita e um filete escarlate ali assistia.

— O que é isso, Luse? – ela perguntou, a voz trêmula. – No seu rosto.

— Na minha bochecha? – ele questionou. Ela assentiu. – Um galho – ele deu de ombros. – Não o vi.

Nupie suspirou de alívio. Estava tão focada em manter suas pernas se movendo que mal prestara atenção no amigo.

— Entrem na toca – Eriel ordenou. – Instalem-se. Fiquem atentos a qualquer ruído. Vou rondar o perímetro e procurar algo para comermos quando a manhã chegar. Não saiam daí.

Nupie e Luse entraram na toca, que era maior do que podiam imaginar. Os dois couberam lá dentro e havia espaço para Eriel. O silêncio preenchia o ar escasso ali dentro. Não ousavam fazer um ruído que pudesse atrair o rashllon. Após alguns minutos, Nupie começou a ficar agitada. Queria descansar, mas a descarga de adrenalina fora tão grande que ela não conseguia ficar parada por muito tempo. Arrastou-se para fora da toca fazendo o mínimo de ruído possível.

— Nupie! – Luse sussurrou, os olhos castanhos quase saltando de suas órbitas. – O que está fazendo?

— Preciso de ar – ela disse, as pontas dos cabelos verdes acumulando folhas pequenas, que foram rapidamente retiradas por ela.

— Eriel disse para não sairmos daqui! – o humano esticou a mão para tentar puxá-la, mas era tarde. A mestiça já estava de pé e longe de seu alcance.

— Luse, meu caro amigo. Você me conhece desde que nasci, praticamente – ela direcionou a ele um sorriso. – Sabe como eu sou.

— Imprudente e inconsequente, eu sei – bufou.

— Isso é você quem está dizendo – Nupie mandou a ele uma piscadela atrevida. – Vou só dar uma volta. Nunca cheguei tão longe na floresta. Quando terei semelhante oportunidade?

Ela deu passos tímidos para longe da toca. Lembrou-se de Anaea. O fogo consumindo tudo o que conhecia. Apoiou-se na árvore mais próxima quando a onda de vertigem a atingiu. Sentiu as lágrimas chegarem aos seus olhos, mas as afastou. Lembra-se da última vez que chorou?, ela pensou. Exato. Chorou por ter se machucado no treino de espadas e arrancou risadas de todos. Chamaram-te de fraca, lembra? Ela mirou a fina cicatriz alva perto do cotovelo. Prometeu que nunca mais iria chorar. Nupie, você cumpre suas promessas.

Desencostou-se da árvore prontamente e iniciou uma caminhada lenta. No chão repousavam algumas folhas amarronzadas e secas que faziam ruídos sob os pés de Nupie. Passo após passo ela se distanciava do olhar repreensivo de Luse. Embrenhava-se cada vez mais na floresta sem dar-se conta. A noite começara a cair. A floresta apagava-se na escuridão silenciosa. A agonia tomou conta da mestiça. Desesperada, ela tentou lembrar-se por onde veio, mas não prestara atenção suficiente no caminho monótono para recordar com clareza. Tenho que achar o caminho de volta, pensou. Mas como?

Nupie mal conseguia enxergar, contudo foi bruscamente retirada de sua batalha interna contra o pânico por uma luz safira repentina. Deve ser Eriel, ela pensou com um sorriso aliviado estampado no rosto. Estou a salvo. Correu na direção da luz que exponencialmente aumentava e seu sorriso se apagou. Seis maquiavélicos fantasmas de forma feminina formavam um círculo numa pequenina clareira. Os espectros recitavam algo numa língua que Nupie nunca ouvira e tampouco podia entender. Virou-se para a floresta tentando ser o mais silenciosa possível. Talvez elas não tenham me visto, pensou, otimista. Se eu não fizer nem um ruído talvez...

— Volte aqui – a voz de um dos espectros soou imponente. Nupie considerou fugir, mas lembrou-se que estava perdida e não conseguia enxergar na escuridão da floresta. – Vire-se.

Contrariada, Nupie obedeceu. Trincou o maxilar e encarou os fantasmas. Era uma visão horripilante: seus rostos eram deformados e apodrecidos. Seus cabelos eram pobremente distribuídos em suas cabeças ovais. As seis usavam um vestido folgado branco de cetim. Elas desfizeram o círculo e aproximaram-se de Nupie, os olhos vazios com um brilho cruel. A mestiça endureceu os músculos enquanto os espectros encurtavam ainda mais o espaço que as separava.

— Ande para frente, mocinha – uma dela falou, mostrando os dentes podres e amarelados, prestes a desprenderem-se da gengiva.

Nupie a encarou por alguns breves segundos. Forçou seus pés a se moverem, passo após passo. Quando a mestiça atingiu o centro da clareira, o mesmo espectro que ordenou que ela andasse fez um sinal para que ficasse ali.

— Ora, ora – uma delas lentamente disse. – O que temos aqui? Uma sielah?

— Creio que não seja problema seu – Nupie direcionou a ela um sorriso perverso.

O espectro gargalhou alto. A menina não se intimidou; ao contrário, sentiu-se desafiada.

— Creio que não sabe quem somos. Se soubesse, não ousaria levantar a voz para qualquer uma de nós – ela disse.

— Não, não sei – admitiu. – E, sinceramente, não me importo.

O avantesma estreitou os olhos. O ruído de seus maxilares trincando chegou aos ouvidos de Nupie, que sorriu brevemente para si mesma.

— Vou nos apresentar a você, criatura mesquinha – ela tinha asco em sua voz. – Nós somos as Seis da Morte.

— Seis da Morte? – a menina questionou, a voz com resquícios de zombaria.

— Nós julgamos as almas e a mandamos para o Submundo ou para o Paraíso – o espectro ignorou a pergunta de Nupie, que escutava sem demonstrar muito interesse. – Cada uma de nós julga um quesito. Fomos nomeadas de acordo com estes quesitos, já que não podemos lembrar nossos nomes de corpo. Meu nome é Crueldade. Estas são Benevolência, Altruísmo, Deslealdade, Malevolência e Integridade.

— Prazer – Nupie zombou.

Crueldade rosnou. Projetou o braço para frente e o materializou, a fim de agarrar o pescoço da mestiça. Benevolência gargalhou.

— Faça a pirralha pagar! – Altruísmo incentivou.

Crueldade ergueu Nupie, que se debatia, tentando livrar-se. O espectro ria com prazer.

— Mate-a e poderemos julgá-la e condená-la ao Submundo! – Deslealdade comemorou.

O rosto da mestiça começou a perder a cor. Nupie estava fraca. Pensou em sua espada, mas não tinha ideia de onde ela estava. Num movimento brusco, Crueldade jogou-a no chão, agarrando a mão que segundos antes estava enroscada no pescoço de Nupie. Estava vermelha e continha hematomas, uma fumaça negra saia dos ferimentos. Crueldade olhou incrédula para Nupie.

— O que é isto? – Crueldade perguntou, mirando o pescoço da mestiça.

Ela agarrou o colar que Nupie carregava fielmente. Era um rosário. Suas bordas eram metálicas e o interior, cristalino. Era simples, mas estonteante. Crueldade soltou um grito e seu rosto contorceu-se de horror.

— É uma Delas! – ela estremeceu e afastou-se de Nupie. – É uma Delas!

— Você tem certeza, Crueldade? – Integridade questionou, franzindo o cenho.

— Veja por si própria! – ela esbravejou.

Integridade materializou seu braço direito e agarrou uma Nupie sorridente e orgulhosa pelos ombros. Apenas fitou a cruz que lucilava no peito da mestiça. Lentamente retirou a mão de Nupie, que as encarou com confiança, por mais que não estivesse entendendo a reação das Seis da Morte.

— Se a Deusa souber que encostamos um dedo em uma Delas... – Benevolência engoliu em seco.

— Vamos sair daqui de uma vez! – exclamou Crueldade. – Antes que Ela nos veja.

E assim, as Seis da Morte desapareceram, deixando apenas uma tímida fumaça esverdeada como rastro. Nupie suspirou de alívio e sorriu. É melhor eu encontrar a toca de uma vez, a mestiça pensou, o cenho franzido. Com certeza não será agradável dormir por aqui com rashllons a solta.

Preparava-se para se embrenhar pela floresta quando soou em seus ouvidos uma voz familiar.

— Nupie! – a voz exclamava, com um pingo de preocupação.

Eriel!, Nupie pensou suspirando audivelmente, o semblante exibindo seu alívio. Desta vez tenho certeza que ele. E correu para a fonte da voz, que estava a poucos metros a sua frente.

Notas finais
Não gosto muito desse capítulo KKKKKKK Enfim...