O Ritual
5 Mudei de endereço
Os dias que se passaram não foram os melhores do resto da minha vida. Não, eu não estou querendo ser melodramática nem nada, mas quando se está destinada a morte aproveitar os últimos dias não seria nada ruim.
Pela primeira vez em toda minha vida eu fui visitar o túmulo da minha mãe. Não sei se você sabe, mas bruxas não são enterradas como os humanos comuns costumam fazer. Quando uma bruxa morre tem todo um rito para preparar e fazer a magia voltar para o lugar de onde veio. Tudo volta para a terra no fim. Do pó ao pó.
O cemitério das bruxas, digamos assim, era mais afastado de onde ficavam as casas, mas era um lugar muito bonito. Em frente a toda lápide crescia uma árvore, que nasce do corpo queimado da bruxa morta. Minha mãe formou um Ipê, mas estava com as folhas caídas e os galhos secos, como se estivesse mal cuidada. Acho que minha avó não tem visitado muito minha mãe ultimamente, e isso foi algo que me intrigou um pouco.
Os dias foram passando e agora faltava apenas uma semana para o ritual e eu ainda não fazia ideia de como iria conseguir me salvar com nenhuma magia. Pensei em fugir.
Eu havia aprendido alguns feitiços simples e agora era o momento de usa-los. Lancei um feitiço do sono em minha avó, um feitiço silenciador no meu quarto e pulei a janela. Comecei a correr e senti a liberdade me consumindo, eu estava feliz. Minha felicidade durou pouco. Minha avó era velha e com certeza jamais me alcançaria em uma disputa de velocidade, mas não posso negar que ela tinha um poder de telecinese espetacular. Senti minhas pernas subindo para o ar e meu corpo sendo lançado para o chão.
— Inocente criança, você realmente acreditou que eu seria enganada por um mero feitiço do sono? Você conseguiu ser ingênua a esse ponto? — ela soltou aquele riso maléfico — Agora, já que você queria fugir da casa em que vive, não é para lá que irá retornar.
Ela me carregou com o poder da mente por toda a vila, eu me senti um fantoche. Eu não queria mais viver ali, mas para onde ela estava me levando?
— Onde a senhora vai me largar vovó? Me largar para viver sozinha?
— Não, obviamente que não. Você acha que sou boba o suficiente para te deixar?
O caminho que estávamos seguindo era longo, e eu comecei a reconhece-lo. Nós estávamos indo em direção ao cemitério.
— Aqui é sua nova casa minha querida — eu odiava aquele sorriso sarcástico — Sua nova morada nessa última semana.
Nos aproximamos da lápide de minha mãe. Era ali que eu iria passar minha última semana de vida.Como se não pudesse piorar, para garantir que não houvesse mais nenhuma tentativa de fuga, minha avó construiu uma corrente mágica que me prendeu na árvore pelo tornozelo.
— Eu venho te trazer alimento e água, e apenas isso.
— Prefiro ficar aqui do que dentro da mesma casa que você — eu estava mentindo para mim mesma quando disse essas palavras.
— Ótimo, porque é aqui mesmo que você vai ficar. Até mais ver.
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