​O antigo salão de festas anexo à casa da piscina dos Pavanelli havia passado por uma transformação completa nos últimos dias. Letícia, determinada a apoiar o sonho da filha, contratou uma equipe para instalar espelhos do chão ao teto em uma das paredes, barras de apoio de madeira polida e uma caixa de som potente de última geração. O lugar havia se tornado o santuário de Elise.

​Era fim de tarde, e a luz dourada do sol poente atravessava as grandes portas de vidro, refletindo-se no piso vinílico claro. Ao som de uma melodia instrumental intensa, que misturava piano clássico com batidas eletrônicas profundas, Elise ensaiava. Ela seguia à risca o conselho que Lucian lhe dera na semana anterior: seus movimentos começavam contraídos, pesados, os braços puxando o ar como se estivessem carregando correntes — a representação exata de seus anos de solidão e rejeição no orfanato.

​Sentado no chão, de costas para uma das paredes espelhadas e com os joelhos dobrados, Lucian assistia a tudo. Ele segurava uma garrafa de água lacrada, mas seus olhos azuis não desviavam da ruiva nem por um segundo. Ele estava completamente encantado, hipnotizado pela forma como a fragilidade de Elise sumia quando a música começava. Ali, ela mandava no mundo.

​A música atingiu o clímax, e Elise executou uma sequência de giros rápidos, terminando com uma extensão de perna perfeita antes de se deixar cair de joelhos no chão, ofegante, o cabelo ruivo colado à testa pelo suor.

​Lucian imediatamente bateu palmas, um sorriso largo quebrando sua expressão séria habitual. Ele se levantou e caminhou até ela, estendendo a garrafa de água.

​— Se o professor Jean-Luc não te der a vaga na turma avançada depois de ver isso, eu quebro o nariz dele — brincou Lucian, a voz rouca cheia de admiração sincera.

​Elise aceitou a água, rindo entre as respirações arfantes. Ela bebeu um longo gole antes de olhar para ele.

​— Ficou bom mesmo? Você não está falando isso só porque é meu... — ela hesitou por uma fração de segundo na palavra — ...meu irmão de consideração?

​— Eu sou um bad boy ranzinza, Elise. Eu não elogio ninguém para ser legal — Lucian rebateu, aproximando-se e estendendo a mão para ajudá-la a se levantar. — A transição que você fez do começo triste para a parte rápida... ficou surreal. Dá para sentir a dor e a virada.

​Elise segurou a mão dele, impulsionando-se para cima. No entanto, o chão estava ligeiramente escorregadio por conta do suor e, ao se levantar, o pé dela derrapou. Lucian reagiu rápido, envolvendo a cintura dela com os dois braços e puxando-a contra o seu peito para evitar a queda.

​O impacto trouxe o silêncio de volta ao estúdio. Elise segurou nos ombros largos de Lucian, a respiração dele batendo contra o seu rosto. Eles ficaram ali, estáticos, os corações martelando no mesmo compasso acelerado. O desejo que Lucian tentava esconder nos últimos dias faiscou intensamente em seu olhar, e Elise engoliu em seco, sentindo uma eletricidade familiar percorrer sua espinha.

​— Obrigada... de novo — ela sussurrou, sem conseguir se afastar imediatamente.

​— Você precisa parar de cair perto de mim, baixinha — ele murmurou, a voz mais baixa, os dedos apertando de leve a cintura dela antes de, relutantemente, soltá-la quando ouviu os latidos do cachorro no jardim.

​A proximidade entre os dois tornou-se inevitável. No colégio, eles andavam colados. Lucian não permitia que ninguém se aproximasse com segundas intenções de Elise, e ela se tornara a única pessoa capaz de acalmar os momentos de mau humor do rapaz nos corredores.

​Na sexta-feira à noite, o grupo de amigos se reuniu em um pub voltado para adolescentes na zona sul da cidade. O lugar tinha uma pista de dança iluminada e um DJ local tocando remixes de pop e R&B. A mesa estava cheia: Enzo, Murilo, algumas meninas do comitê de boas-vindas e os dois Pavanelli.

​Quando uma música de ritmo envolvente e batidas marcantes começou a tocar, Enzo se inclinou na direção de Elise.

​— E aí, Pavanelli nova? Me dá a honra dessa dança? Quero ver se você é tudo isso que o Lucian gaba — Enzo chamou, brincalhão.

​Antes que Elise respondesse, Lucian se levantou da cadeira de um salto, pegando o copo de refrigerante dela e deixando na mesa.

​— Tira o olho, Enzo. A primeira dança é minha — Lucian anunciou, com um tom de autoridade que fez Murilo soltar uma risadinha abafada.

​— Cara, você é muito ciumento! Deixa a garota respirar — Enzo reclamou, levantando as mãos em sinal de rendição.

​Lucian ignorou o amigo, pegou Elise pela mão e a puxou para o centro da pista de dança. Assim que entraram no ritmo da música, o contraste sumiu. Elise começou a se mover com a fluidez do contemporâneo adaptado ao pop, e Lucian, surpreendendo a todos, acompanhava o ritmo dela com uma postura confiante de street dance. Eles dançavam em perfeita sintonia, os corpos se aproximando e se afastando em uma coreografia natural. Lucian a girou, puxando-a de volta para perto, os olhos fixos nos dela, alheios ao resto do mundo.

​De volta à mesa, o grupo os observava. Uma das garotas, chamada Camila, comentou em voz alta:

​— Gente, não dá. Olha o jeito que eles se olham. Eles são o casal mais lindo desse colégio. Sem condições.

​— Pois é — Enzo concordou, cruzando os braços e suspirando de leve. — O Lucian nunca olhou para nenhuma menina daquele jeito. Ali tem coisa.

​Quando a música terminou e os dois voltaram para a mesa, rindo e trocando confidências, Camila não se aguentou:

​— Vocês dois precisam assumir logo que estão namorando. Todo mundo na pista estava olhando! Vocês combinam demais como casal.

​Elise sentiu as bochechas corarem imediatamente. Ela olhou para Lucian, que rapidamente assumiu sua carranca defensiva, embora o coração estivesse batendo forte.

​— Vocês estão viajando na maionese — Lucian cortou de imediato, pegando seu copo. — A Elise é minha irmã. Minha mãe adotou ela, esqueceram?

​— É, gente — Elise completou, forçando um sorriso fácil para disfarçar o incômodo com a mentira necessária. — Nós somos apenas irmãos de alma. O Lucian só é protetor demais.

​Murilo apenas ajeitou os óculos, olhando para o amigo com um semblante de "eu sei a verdade".

​O fim da noite chegou, e a viagem de volta para casa foi silenciosa, mas não um silêncio desconfortável. Era o silêncio de quem compartilhava um segredo grande demais para ser dito em voz alta.

​Assim que estacionaram na garagem da casa e desligaram o motor, as luzes automáticas do jardim se acenderam, iluminando o interior do carro. Nenhum dos dois fez menção de tirar o cinto de segurança imediatamente.

​— Você mentiu bem lá no pub — Lucian comentou, olhando para o volante, a voz carregada de uma seriedade repentina.

​Elise virou o rosto para ele, os olhos azuis expressivos na meia-luz.

​— Eu disse o que a sua mãe queria que a gente dissesse, Lucian. E o que o colégio precisa ouvir. Nós somos irmãos perante a lei, não somos?

​Lucian virou o rosto lentamente, encontrando o olhar dela. A distância entre os dois bancos parecia pequena demais. Ele estendeu a mão, tocando suavemente a bochecha dela com o polegar, sentindo a pele macia de Elise.

​— Perante a lei, sim — Lucian sussurrou, aproximando o rosto milimetricamente. — Mas nós dois sabemos que, quando a música toca e a gente está sozinho... a história é outra.

​Elise não recuou. Ela apenas assentiu levemente com a cabeça, os lábios se entreabrindo antes de ela se afastar com cuidado e abrir a porta do carro.

​— Vamos entrar. Está esfriando — ela disse com a voz trêmula.

​Eles caminharam juntos até a porta principal, ombro a ombro, unidos por uma cumplicidade proibida que crescia a cada passo, a cada ensaio e a cada mentira contada para o mundo.