O Ritmo do Coração
8 O Palco da Alma
O grande auditório da Academia Corpo e Movimento estava mergulhado em uma penumbra imponente. No centro do palco, as luzes de LED desenhavam círculos dourados no chão de linóleo, enquanto na plateia, a banca de jurados — composta por Jean-Luc e mais dois coreógrafos renomados — anotava observações em suas pranchetas.
Nos bastidores, o clima era de pura eletricidade. No camarim número quatro, Elise encarava o próprio reflexo no espelho cercado de lâmpadas brancas. Ela vestia um figurino leve de balé contemporâneo: um collant nude com uma saia de tule fluido em tons de azul e cinza, que imitavam fumaça. Suas mãos estavam geladas e ela tremia visivelmente. O coração batia tão forte que parecia ecoar nas paredes. A síndrome do abandono sussurrava em seus ouvidos, tentando convencê-la de que ela não era boa o suficiente para estar ali.
Duas batidas leves na porta a tiraram do transe. Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu e Lucian entrou. Ele usava uma camisa preta alinhada e tinha os cabelos levemente arrumados, um esforço claro para a ocasião. Ao ver o estado da ruiva, o sorriso dele sumiu, dando lugar a um olhar de profunda proteção.
Lucian caminhou a passos firmes até ela e segurou suas duas mãos trêmulas, envolvendo-as com o calor das suas.
— Ei, olha para mim — ele pediu, a voz rouca e calma acalmando o ambiente. Elise ergueu os olhos azuis, marejados de ansiedade. — Você está tremendo por quê?
— Eu estou com medo, Lucian... — ela confessou, com a voz embargada. — E se eu errar o tempo da música? E se eu cair? E se eles acharem que eu sou só uma garota de orfanato tentando fingir que sabe dançar?
Lucian soltou as mãos dela apenas para segurar o seu rosto com delicadeza, os polegares acariciando suas bochechas.
— Escuta bem o que eu vou te falar: você não está fingindo nada. Você é a garota mais forte que eu já conheci na minha vida. Aqueles caras ali fora têm técnica, mas você tem alma. Você colocou a sua verdade nessa coreografia. Esquece os jurados, esquece o medo. Quando você pisar naquele palco, lembra de quem você é. Vai dar tudo certo, baixinha. Eu e a minha mãe estamos bem ali na primeira fileira torcendo por você.
Elise sentiu as lágrimas recuarem, substituídas por uma onda de coragem que só ele conseguia injetar em suas veias. Ela deu aquele sorriso fácil, cheio de gratidão.
— Obrigada por estar aqui.
Lucian olhou para os lábios entreabertos dela. O magnetismo entre os dois cobrou o seu preço no silêncio do camarim. Ele inclinou o rosto devagar, o coração disparando, os lábios a milímetros dos dela. Elise fechou os olhos, esperando pelo toque. Mas, no último segundo, a voz de sua mãe ecoou na mente de Lucian: “Ela precisa de uma família... se as coisas derem errado, ela vai sentir que perdeu tudo de novo”.
Com um esforço hercúleo, Lucian mudou a rota. Ele subiu o rosto milimetricamente e depositou um beijo demorado, terno e carregado de carinho na testa de Elise. Ao se afastar, ele deu um tapinha leve no ombro dela e abriu um sorriso confiante.
— Agora vai lá. Eu espero que você seja gigante naquele palco.
Ele piscou para ela e saiu do camarim. Dois minutos depois, a voz do assistente técnico ecoou pelo sistema de som dos bastidores:
— Com vocês, Elise Pavanelli.
O silêncio no auditório era absoluto quando Elise pisou no centro do palco. Ela respirou fundo, fechou os olhos e, quando as primeiras notas do piano começaram a ecoar, o medo desapareceu.
A coreografia foi uma obra-prima de sentimentos. Elise começou no chão, os movimentos contraídos e ríspidos expressando a dor, a solidão e o vazio dos anos de orfanato. No entanto, quando as batidas eletrônicas profundas entraram na música, seu corpo se libertou. Ela flutuava pelo palco. Cada salto era uma declaração de independência; cada linha estendida mostrava a força de quem havia renascido.
No clímax da música, Elise executou uma sequência perfeita e maravilhosa de rodadas no ar — grand jetés seguidos de piruetas velozes que faziam sua saia de tule desenhar uma tempestade azul no palco. Para o movimento final, a música cessou abruptamente com uma última nota de piano, e ela se deixou cair de joelhos no chão, com os braços estendidos para o alto e a cabeça inclinada para trás.
Ofegante, com o suor brilhando sob os refletores e o peito subindo e descendo rapidamente, ela baixou o olhar para os jurados.
Por três segundos, o teatro ficou em silêncio. Então, Jean-Luc se levantou da cadeira, batendo palmas lentamente, sendo seguido pelos outros dois jurados.
— Magnífico, Elise — Jean-Luc disse, com a voz ecoando pelo microfone. — Você não apenas dançou, você nos contou uma história. Sua técnica é excelente, mas sua entrega é rara. Seja muito bem-vinda à Academia Corpo e Movimento. A vaga na turma avançada é sua.
O sorriso de Elise explodiu em seu rosto. Sem conseguir conter a euforia, ela agradeceu com uma reverência rápida e correu para a lateral do palco, descendo as escadas correndo.
Letícia já a esperava de braços abertos no corredor técnico.
— Você foi maravilhosa, minha filha! Que orgulho! — Letícia exclamou, chorando e apertando a ruiva em um abraço materno.
Assim que se soltou da mãe, Elise olhou para Lucian, que estava logo atrás com os braços abertos e um sorriso gigante no rosto. Sem pensar duas vezes, ela pegou impulso e pulou nos braços dele. Lucian a segurou pela cintura, tirando os pés dela do chão e girando-a no ar enquanto ela ria alto, com o rosto colado ao dele.
— Eu te disse que você ia conseguir, baixinha — ele sussurrou perto do ouvido dela, apertando-a contra si por mais tempo do que o protocolo de "irmãos" exigia.
Mais tarde, a comemoração mudou-se para a cozinha dos Pavanelli. A mesa estava cheia de caixas de pizza de quatro queijos e calabresa, e o clima era de pura festa. Eles riram, relembraram os passos e conversaram até que o relógio marcasse meia-noite.
Letícia, visivelmente cansada, limpou as mãos em um guardanapo e se levantou da mesa.
— Bom, meus amores, o dia hoje foi cheio de emoções fortes e o coração desta mãe já está velho — brincou a psicóloga, dando um beijo na testa de cada um. — Juízo os dois. Não fiquem acordados até tarde. Parabéns de novo, Elise. Boa noite.
— Boa noite, mãe — disseram os dois em coro.
Assim que ficaram sozinhos, o silêncio da noite voltou a se impor. Eles arrumaram a cozinha rapidamente e decidiram ir para a sala de TV. Lucian ligou o serviço de streaming e escolheu um romance clássico que Elise queria assistir.
Eles se acomodaram no grande sofá de canto. Elise puxou uma manta de lã para cobri-los e, de forma natural, deitou a cabeça no ombro largo de Lucian. O rapaz passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais perto. Na tela, o casal do filme trocava juras de amor sob a chuva, mas a verdadeira cena acontecia no sofá.
Em determinado momento, Elise ergueu a cabeça para comentar sobre o filme, e seus olhos encontraram os de Lucian. A distância sumiu de novo. A respiração de Elise falhou ao sentir a mão dele subir suavemente pelo seu pescoço, o polegar dele traçando a linha de sua mandíbula. O clima estava perfeito, a casa estava vazia, e o desejo nos olhos azuis do rapaz era evidente. O beijo era inevitável.
Mas o fantasma da promessa e do medo de machucá-la falou mais alto na mente de Lucian. Ele engoliu em seco, travou o maxilar e, quebrando o clima com um esforço doloroso, desviou o olhar para a TV, deslizando a mão suavemente para o cabelo dela, apenas acariciando os fios ruivos.
— O filme está... está interessante — ele disfarçou, a voz saindo mais grave do que o normal.
Elise sentiu uma pontada de frustração misturada com carinho. Ela percebia o conflito interno dele, mas decidiu respeitar o espaço. Ela voltou a apoiar a cabeça no peito dele, ouvindo os batimentos cardíacos acelerados e descompassados de Lucian, que denunciavam a mentira de seu corpo.
Não demorou muito para que o cansaço da audição vencesse a garota. Os olhos de Elise pesaram e ela adormeceu ali mesmo, aninhada nos braços dele.
Lucian esperou que o filme terminasse. Com cuidado para não despertá-la, ele passou um braço por baixo dos joelhos dela e o outro pelas costas, levantando-a do sofá sem esforço. Ele subiu as escadas devagar, entrou no quarto de Elise e a deitou na cama com extrema delicadeza. Puxou o edredom até os ombros dela, protegendo-a do frio da noite.
Ele ficou parado ali por um minuto, observando o rosto sereno da nova irmã. Curvando-se, ele depositou mais um beijo carinhoso na testa dela.
— Durma bem, minha bailarina — sussurrou.
Lucian caminhou até o próprio quarto, fechou a porta e se jogou na cama de casal. Ele cobriu os olhos com o braço, mas a mente era uma tempestade. O perfume de morango do cabelo dela parecia impregnado em suas roupas. Os pensamentos na ruiva, no quase-beijo e na barreira que os separava torturaram sua mente por longos minutos até que, finalmente, o cansaço o venceu, e ele adormeceu, embalado pelo ritmo da garota que havia mudado sua vida por completo.
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