​O grande auditório da Academia Corpo e Movimento estava mergulhado em uma penumbra imponente. No centro do palco, as luzes de LED desenhavam círculos dourados no chão de linóleo, enquanto na plateia, a banca de jurados — composta por Jean-Luc e mais dois coreógrafos renomados — anotava observações em suas pranchetas.

​Nos bastidores, o clima era de pura eletricidade. No camarim número quatro, Elise encarava o próprio reflexo no espelho cercado de lâmpadas brancas. Ela vestia um figurino leve de balé contemporâneo: um collant nude com uma saia de tule fluido em tons de azul e cinza, que imitavam fumaça. Suas mãos estavam geladas e ela tremia visivelmente. O coração batia tão forte que parecia ecoar nas paredes. A síndrome do abandono sussurrava em seus ouvidos, tentando convencê-la de que ela não era boa o suficiente para estar ali.

​Duas batidas leves na porta a tiraram do transe. Antes que ela pudesse responder, a porta se abriu e Lucian entrou. Ele usava uma camisa preta alinhada e tinha os cabelos levemente arrumados, um esforço claro para a ocasião. Ao ver o estado da ruiva, o sorriso dele sumiu, dando lugar a um olhar de profunda proteção.

​Lucian caminhou a passos firmes até ela e segurou suas duas mãos trêmulas, envolvendo-as com o calor das suas.

​— Ei, olha para mim — ele pediu, a voz rouca e calma acalmando o ambiente. Elise ergueu os olhos azuis, marejados de ansiedade. — Você está tremendo por quê?

​— Eu estou com medo, Lucian... — ela confessou, com a voz embargada. — E se eu errar o tempo da música? E se eu cair? E se eles acharem que eu sou só uma garota de orfanato tentando fingir que sabe dançar?

​Lucian soltou as mãos dela apenas para segurar o seu rosto com delicadeza, os polegares acariciando suas bochechas.

​— Escuta bem o que eu vou te falar: você não está fingindo nada. Você é a garota mais forte que eu já conheci na minha vida. Aqueles caras ali fora têm técnica, mas você tem alma. Você colocou a sua verdade nessa coreografia. Esquece os jurados, esquece o medo. Quando você pisar naquele palco, lembra de quem você é. Vai dar tudo certo, baixinha. Eu e a minha mãe estamos bem ali na primeira fileira torcendo por você.

​Elise sentiu as lágrimas recuarem, substituídas por uma onda de coragem que só ele conseguia injetar em suas veias. Ela deu aquele sorriso fácil, cheio de gratidão.

​— Obrigada por estar aqui.

​Lucian olhou para os lábios entreabertos dela. O magnetismo entre os dois cobrou o seu preço no silêncio do camarim. Ele inclinou o rosto devagar, o coração disparando, os lábios a milímetros dos dela. Elise fechou os olhos, esperando pelo toque. Mas, no último segundo, a voz de sua mãe ecoou na mente de Lucian: “Ela precisa de uma família... se as coisas derem errado, ela vai sentir que perdeu tudo de novo”.

​Com um esforço hercúleo, Lucian mudou a rota. Ele subiu o rosto milimetricamente e depositou um beijo demorado, terno e carregado de carinho na testa de Elise. Ao se afastar, ele deu um tapinha leve no ombro dela e abriu um sorriso confiante.

​— Agora vai lá. Eu espero que você seja gigante naquele palco.

​Ele piscou para ela e saiu do camarim. Dois minutos depois, a voz do assistente técnico ecoou pelo sistema de som dos bastidores:

​— Com vocês, Elise Pavanelli.

​O silêncio no auditório era absoluto quando Elise pisou no centro do palco. Ela respirou fundo, fechou os olhos e, quando as primeiras notas do piano começaram a ecoar, o medo desapareceu.

​A coreografia foi uma obra-prima de sentimentos. Elise começou no chão, os movimentos contraídos e ríspidos expressando a dor, a solidão e o vazio dos anos de orfanato. No entanto, quando as batidas eletrônicas profundas entraram na música, seu corpo se libertou. Ela flutuava pelo palco. Cada salto era uma declaração de independência; cada linha estendida mostrava a força de quem havia renascido.

​No clímax da música, Elise executou uma sequência perfeita e maravilhosa de rodadas no ar — grand jetés seguidos de piruetas velozes que faziam sua saia de tule desenhar uma tempestade azul no palco. Para o movimento final, a música cessou abruptamente com uma última nota de piano, e ela se deixou cair de joelhos no chão, com os braços estendidos para o alto e a cabeça inclinada para trás.

​Ofegante, com o suor brilhando sob os refletores e o peito subindo e descendo rapidamente, ela baixou o olhar para os jurados.

​Por três segundos, o teatro ficou em silêncio. Então, Jean-Luc se levantou da cadeira, batendo palmas lentamente, sendo seguido pelos outros dois jurados.

​— Magnífico, Elise — Jean-Luc disse, com a voz ecoando pelo microfone. — Você não apenas dançou, você nos contou uma história. Sua técnica é excelente, mas sua entrega é rara. Seja muito bem-vinda à Academia Corpo e Movimento. A vaga na turma avançada é sua.

​O sorriso de Elise explodiu em seu rosto. Sem conseguir conter a euforia, ela agradeceu com uma reverência rápida e correu para a lateral do palco, descendo as escadas correndo.

​Letícia já a esperava de braços abertos no corredor técnico.

​— Você foi maravilhosa, minha filha! Que orgulho! — Letícia exclamou, chorando e apertando a ruiva em um abraço materno.

​Assim que se soltou da mãe, Elise olhou para Lucian, que estava logo atrás com os braços abertos e um sorriso gigante no rosto. Sem pensar duas vezes, ela pegou impulso e pulou nos braços dele. Lucian a segurou pela cintura, tirando os pés dela do chão e girando-a no ar enquanto ela ria alto, com o rosto colado ao dele.

​— Eu te disse que você ia conseguir, baixinha — ele sussurrou perto do ouvido dela, apertando-a contra si por mais tempo do que o protocolo de "irmãos" exigia.

​Mais tarde, a comemoração mudou-se para a cozinha dos Pavanelli. A mesa estava cheia de caixas de pizza de quatro queijos e calabresa, e o clima era de pura festa. Eles riram, relembraram os passos e conversaram até que o relógio marcasse meia-noite.

​Letícia, visivelmente cansada, limpou as mãos em um guardanapo e se levantou da mesa.

​— Bom, meus amores, o dia hoje foi cheio de emoções fortes e o coração desta mãe já está velho — brincou a psicóloga, dando um beijo na testa de cada um. — Juízo os dois. Não fiquem acordados até tarde. Parabéns de novo, Elise. Boa noite.

​— Boa noite, mãe — disseram os dois em coro.

​Assim que ficaram sozinhos, o silêncio da noite voltou a se impor. Eles arrumaram a cozinha rapidamente e decidiram ir para a sala de TV. Lucian ligou o serviço de streaming e escolheu um romance clássico que Elise queria assistir.

​Eles se acomodaram no grande sofá de canto. Elise puxou uma manta de lã para cobri-los e, de forma natural, deitou a cabeça no ombro largo de Lucian. O rapaz passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais perto. Na tela, o casal do filme trocava juras de amor sob a chuva, mas a verdadeira cena acontecia no sofá.

​Em determinado momento, Elise ergueu a cabeça para comentar sobre o filme, e seus olhos encontraram os de Lucian. A distância sumiu de novo. A respiração de Elise falhou ao sentir a mão dele subir suavemente pelo seu pescoço, o polegar dele traçando a linha de sua mandíbula. O clima estava perfeito, a casa estava vazia, e o desejo nos olhos azuis do rapaz era evidente. O beijo era inevitável.

​Mas o fantasma da promessa e do medo de machucá-la falou mais alto na mente de Lucian. Ele engoliu em seco, travou o maxilar e, quebrando o clima com um esforço doloroso, desviou o olhar para a TV, deslizando a mão suavemente para o cabelo dela, apenas acariciando os fios ruivos.

​— O filme está... está interessante — ele disfarçou, a voz saindo mais grave do que o normal.

​Elise sentiu uma pontada de frustração misturada com carinho. Ela percebia o conflito interno dele, mas decidiu respeitar o espaço. Ela voltou a apoiar a cabeça no peito dele, ouvindo os batimentos cardíacos acelerados e descompassados de Lucian, que denunciavam a mentira de seu corpo.

​Não demorou muito para que o cansaço da audição vencesse a garota. Os olhos de Elise pesaram e ela adormeceu ali mesmo, aninhada nos braços dele.

​Lucian esperou que o filme terminasse. Com cuidado para não despertá-la, ele passou um braço por baixo dos joelhos dela e o outro pelas costas, levantando-a do sofá sem esforço. Ele subiu as escadas devagar, entrou no quarto de Elise e a deitou na cama com extrema delicadeza. Puxou o edredom até os ombros dela, protegendo-a do frio da noite.

​Ele ficou parado ali por um minuto, observando o rosto sereno da nova irmã. Curvando-se, ele depositou mais um beijo carinhoso na testa dela.

​— Durma bem, minha bailarina — sussurrou.

​Lucian caminhou até o próprio quarto, fechou a porta e se jogou na cama de casal. Ele cobriu os olhos com o braço, mas a mente era uma tempestade. O perfume de morango do cabelo dela parecia impregnado em suas roupas. Os pensamentos na ruiva, no quase-beijo e na barreira que os separava torturaram sua mente por longos minutos até que, finalmente, o cansaço o venceu, e ele adormeceu, embalado pelo ritmo da garota que havia mudado sua vida por completo.