O Ritmo do Coração
10 O Espelho das Almas
O fim de tarde trazia uma brisa mansa que balançava as cortinas de linho da sala de jantar dos Pavanelli. Quando a porta principal se abriu, o som das risadas de Lucian e Elise invadiu a casa, quebrando a calmaria habitual.
Na cozinha, Letícia terminava de dispor a mesa do lanche com o carinho de sempre. Havia um bolo de chocolate ainda morno, com a calda brilhante escorrendo pelas laterais, uma jarra de suco de manga bem gelado e uma saladeira cheia de morangos e uvas verdes — as frutas favoritas dos dois.
— Que alegria é essa que dá para ouvir lá da calçada? — Letícia perguntou, sorrindo ao ver os dois entrarem na cozinha empurrando-se de leve, com as bochechas coradas e os olhos brilhando.
— Mãe, você não tem noção do que aconteceu hoje no colégio! — Lucian começou, jogando a mochila em uma cadeira vaga e já puxando um pedaço de bolo. — A Elise simplesmente destruiu a Débora. No meio do pátio. Para todo mundo ver.
Elise sentou-se à mesa, soltando uma risada tímida, mas orgulhosa.
— Não foi bem assim, Lucian... Ela me provocou, eu só respondi à altura.
— Ah, foi exatamente assim! — Lucian interrompeu, servindo um copo de suco de manga para ela e sentando-se ao seu lado. — A Débora foi crescer para cima dela, dizendo que a Elise era dura e sem sal. Sabe o que a baixinha fez, mãe? Subiu na mesa do refeitório, ligou o som e deu um show de dança urbana que deixou o colégio inteiro de queixo caído. A Débora saiu quase chorando de humilhação.
Letícia arregalou os olhos, surpresa, mas logo um sorriso orgulhoso e divertido desenhou-se em seus lábios. Ela olhou para a filha adotiva, servindo-lhe uma porção de morangos.
— Você fez isso, Elise? Que coragem, minha filha!
— E tem a melhor parte, tia Letícia... Quer dizer, mãe — Elise corrigiu-se rapidamente, o coração aquecido pela palavra. — A Larissa, que é a capitã das líderes de torcida, viu tudo. Ela me chamou para entrar no esquadrão principal na hora. Eu aceitei. O treino começa amanhã.
Letícia deu a volta na mesa e envolveu os ombros de Elise em um abraço terno, dando-lhe um beijo nos cabelos ruivos.
— Parabéns, meu amor! Eu fico tão feliz em ver você conquistando o seu espaço e mostrando a sua força. Você merece brilhar em todos os palcos daquele colégio.
Enquanto Elise agradecia, o celular de Lucian começou a vibrar intensamente no bolso da jaqueta. Ele tirou o aparelho e olhou para a tela, franzindo o cenho.
— É o treinador de futebol — Lucian anunciou, levantando-se. — Ele deve querer alinhar as jogadas para o amistoso de sexta. Já volto.
O rapaz caminhou a passos largos em direção às portas de vidro e saiu para o jardim dos fundos. Através do vidro, era possível vê-lo andando de um lado para o outro na grama, gesticulando com as mãos enquanto conversava ao telefone, a postura firme de capitão do time evidente em cada movimento.
Na cozinha, o silêncio se instalou por alguns segundos. Elise mudou sua postura na cadeira. Seus olhos azuis fixaram-se na silhueta de Lucian lá fora, acompanhando cada passo dele com uma intensidade profunda, o lábio inferior sendo pressionado levemente pelos dentes. Havia uma mistura de admiração, carinho e um brilho sofrido naquele olhar.
Letícia, com sua sensibilidade apurada de mãe e psicóloga, observou a filha. Ela percebeu o exato momento em que a guarda de Elise baixou. A forma como a garota olhava para o irmão não era fraterna. Era o olhar de uma mulher apaixonada.
Com cuidado, Letícia sentou-se na cadeira que Lucian havia acabado de deixar vaga, bem ao lado de Elise. Ela colocou a mão suavemente sobre a da jovem, fazendo com que Elise despertasse de seu transe e desviasse o olhar do jardim, assustada.
— Ele é um bom menino, não é? — Letícia começou, a voz mansa, quase um sussurro.
Elise engoliu em seco, sentindo as bochechas esquentarem.
— É sim. Ele... ele tem sido incrível comigo, mãe. O melhor protetor que eu poderia pedir.
Letícia suspirou de leve, olhando nos olhos azuis da garota, buscando a verdade que já conhecia.
— Elise, querida... Nós duas somos mulheres. E eu também sou psicóloga, lembra? Eu conheço os olhares. Sei ler o que o corpo fala quando a boca tenta calar. O que está acontecendo entre você e o Lucian?
O peso da pergunta fez o sorriso de Elise sumir. Os dedos dela começaram a brincar nervosamente com a pulseira de bailarina no pulso esquerdo. Ela olhou para a mesa, sentindo os olhos marejarem, antes de criar coragem para encarar Letícia.
— Eu sinto sim algo muito forte por ele, mãe — Elise confessou, a voz trêmula, mas firme na honestidade. — Eu tentei lutar contra isso, juro que tentei. Sei o que a senhora me disse aquela noite, sei o que a lei diz... Mas quando ele está perto, o ritmo do meu coração muda. Ele me enxerga de verdade, me protege, me faz sentir especial de um jeito que ninguém nunca fez.
Uma lágrima teimosa escorreu pelo rosto de Elise. Ela segurou a mão de Letícia com força, o desespero de uma garota que temia perder tudo transbordando em suas palavras.
— Mas eu juro pela minha vida, mãe, que eu nunca vou fazer nada para acabar com esta família. A senhora me tirou daquele orfanato, me deu um lar, um nome, um futuro. Eu prefiro que o meu coração quebre em mil pedaços do que causar qualquer problema entre você e ele. Eu vou guardar isso para mim. Vou ser a irmã que ele precisa, eu prometo.
Letícia ouviu tudo em silêncio, sentindo o peito apertar. Como mãe, ela queria proteger o castelo de calmaria que havia construído; como psicóloga, ela sabia que sentimentos daquela magnitude não podiam ser simplesmente trancados em uma gaveta sem que causassem estragos mais tarde.
Ela olhou para o jardim através do vidro e viu Lucian rindo de algo que o treinador dissera, mas seus olhos, mesmo à distância, desviavam constantemente para a janela da cozinha, buscando a ruiva.
Letícia respirou fundo, sentindo o peso da realidade. Não adiantava colocar regras ou tentar erguer barreiras invisíveis. A paixão já havia atingido os dois de forma avassaladora, e agora, aquela família estava prestes a dançar em um terreno perigoso e desconhecido.
— Ah, minha querida... — Letícia disse baixo, limpando a lágrima no rosto de Elise com o polegar. — O amor não é algo que a gente consiga controlar com promessas. Só me promete uma coisa: que vocês vão ter cuidado com o coração um do outro.
Antes que Elise pudesse responder, o som da porta de vidro se abrindo anunciou a volta de Lucian, e as duas rapidamente disfarçaram, voltando a focar nos doces sobre a mesa, enquanto o segredo continuava a pulsar silenciosamente entre elas.
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