O Ritmo do Coração

11 Sob a Máscara da Paixão



​O quarto de Elise estava imerso em uma atmosfera de puro encantamento. Diante do espelho de corpo inteiro, a jovem ajustava as dobras do seu vestido de Christine Daaé. O figurino, feito sob medida em cetim branco e tule, tinha um corpete estruturado que desenhava sua silhueta de bailarina e uma saia volumosa que flutuava a cada passo. Seus cabelos ruivos estavam presos em um meio-preso sofisticado, com cachos perfeitos caindo pelas costas, e a pulseira de prata com o pingente de bailarina brilhava em seu pulso. Ela parecia ter saído diretamente dos palcos do século XIX.

​A porta do quarto abriu-se sem um ruído. Pelo reflexo do espelho, os olhos azuis de Elise encontraram os de Lucian.

​A respiração da garota falhou. Lucian estava simplesmente perfeito como o Fantasma da Ópera. Ele vestia uma calça de alfaiataria preta, uma camisa social branca de gola alta e um colete de veludo escuro. Sobre os ombros, uma capa preta de cetim dava o tom dramático do personagem, mas o ápice era a meia-máscara branca que cobria o lado direito de seu rosto, destacando ainda mais a intensidade do seu olhar azul e o desenho de seus lábios.

​Lucian caminhou lentamente até parar logo atrás dela, olhando para o reflexo dos dois no espelho. A diferença de altura e o contraste entre o branco puro do vestido dela e o preto imponente do traje dele criavam uma imagem digna de uma capa de livro.

​— Caramba, baixinha... — Lucian quebrou o silêncio, a voz saindo mais grave e rouca que o normal. — Eu sabia que você ia ficar bonita, mas você está... espetacular. Parece uma pintura.

​Elise virou-se devagar, ficando de frente para ele, os corações de ambos já ditando um ritmo acelerado. Ela estendeu a mão, tocando de leve a borda da máscara dele.

​— Você também não está nada mal, Pavanelli. O papel de Fantasma misterioso caiu muito bem em você. Está lindo.

​— É a sua presença que melhora o cenário — ele respondeu, com um meio sorriso que desarmou completamente a garota.

​Quando os dois desceram as escadas de madeira, Letícia já os esperava na sala de estar, segurando uma máquina fotográfica profissional. Ao ver os dois juntos, a psicóloga levou a mão à boca, visivelmente emocionada.

​— Meu Deus... Vocês estão perfeitos! Parecem dois atores de Hollywood — Letícia exclamou, com os olhos brilhando. — Fiquem bem juntinhos ali perto da lareira, por favor. Preciso registrar esse momento!

​Lucian passou o braço firmemente pela cintura de Elise, puxando-a contra o seu corpo, enquanto ela apoiava uma das mãos no peito dele. O flash da câmera disparou várias vezes, imortalizando a cumplicidade que transbordava em cada olhar.

​— Prontinho! Agora vão, antes que cheguem atrasados — Letícia disse, guardando a câmera.

​Elise pegou sua pequena bolsa sobre o aparador e caminhou na frente em direção à porta. Aproveitando o breve segundo de distração da garota, Letícia segurou o braço de Lucian com firmeza, puxando-o para um canto reservado do corredor. O rapaz olhou para a mãe, esperando uma bronca ou um aviso de última hora, mas o semblante da psicóloga era de pura compreensão e afeto.

​— Filho, escuta o que eu vou te dizer — Letícia sussurrou, olhando bem no fundo dos olhos dele. — Eu passei os últimos dias pensando muito. Eu vi como vocês se olham, vi o que aconteceu na cozinha. O amor não é um erro, Lucian. Por isso, esta noite... eu quero que você apenas viva. Esqueça as regras, esqueça o que o mundo pensa, esqueça por algumas horas que ela carrega o nosso sobrenome. Apenas seja o homem que ela precisa. Viva essa noite.

​Lucian arregalou os olhos levemente, o impacto daquelas palavras reverberando em seu peito. Ele percebeu o que a mãe estava fazendo: ela estava lhe dando o alvará definitivo para ser feliz, a permissão para se declarar.

​— Obrigado, mãe — ele respondeu com a voz embargada, dando-lhe um beijo na bochecha antes de correr para alcançar Elise.

​O ginásio do Colégio Pavanelli havia sido transformado em um salão gótico vitoriano, com lustres de cristal falsos pendurados no teto, fumaça artificial e uma iluminação purpurina que dava um tom mágico ao ambiente.

​Assim que entraram, o grupo de amigos os avistou. Enzo estava vestido de gladiador romano (com a prometida bermuda por baixo da saia) e Murilo usava uma fantasia impecável de Sherlock Holmes.

​— Olha só! O casal da noite chegou! — Enzo gritou sobre o som da música pop que ecoava pelas caixas, estendendo a mão para um "high-five" com Lucian. — Vocês apelaram demais nessas fantasias, cara. Estão humilhando os meros mortais.

​— Ficou excelente a composição — Murilo elogiou, ajeitando sua lupa de brinquedo. — A Christine e o Fantasma. Inteligente.

​Nas horas seguintes, a diversão foi absoluta. Eles brincavam na roda de dança, rindo das fantasias improvisadas dos outros alunos. O maior alívio para Elise foi perceber que o colégio inteiro — desde os atletas até as líderes de torcida que agora eram suas colegas de esquadrão — a havia aceitado por completo. Ela não era mais a órfã invisível do Orfanato Primavera; ela era Elise Pavanelli, parte da realeza daquela escola.

​Por volta da meia-noite, o DJ mudou drasticamente a frequência do salão. As luzes coloridas diminuíram, dando lugar a um tom azulado e íntimo, e uma melodia romântica, lenta e profunda começou a ecoar. Os casais começaram a se aproximar na pista.

​Lucian, que estava ao lado de Elise, virou-se para ela. Ele tirou a máscara branca do rosto, revelando por completo a intensidade de seu semblante. Ele estendeu a mão para ela.

​— Me dá a honra dessa dança, Christine? — ele pediu, com os olhos fixos nos dela.

​— Claro, meu Fantasma — ela respondeu, colocando a mão na dele.

​Eles caminharam até o centro da pista. Lucian envolveu a cintura dela com as duas mãos, puxando-a para tão perto que não havia espaço para o ar entre eles. Elise apoiou os braços ao redor do pescoço dele, descansando a cabeça em seu peito por alguns segundos enquanto se moviam lentamente no ritmo da canção.

​Foi quando Lucian quebrou o silêncio, a voz saindo pesada e carregada de uma urgência que ele não conseguia mais conter.

​— Elise... eu preciso te dizer uma coisa. E se eu não disser agora, sinto que vou sufocar.

​Ela ergueu o rosto, encarando-o, o coração dando um salto.

​— O que foi, Lucian?

​— Minha mãe conversou comigo antes de a gente sair de casa. Ela me mandou esquecer tudo por hoje. E ela tem razão. Eu passei semanas tentando me convencer de que o que eu sinto por você é carinho de irmão, tentando seguir as regras para não quebrar a nossa família... Mas é mentira. Eu estou completamente apaixonado por você, Elise. Desde o dia em que te vi dançando naquele salão de jogos, você jogou um feitiço em mim. Eu sinto desejo por você, sinto amor, sinto tudo. Eu não quero ser só o seu irmão. Eu quero ser o seu homem.

​O impacto da declaração foi tão forte que Elise sentiu o oxigênio faltar em seus pulmões. Suas bochechas queimaram, e uma mistura de euforia e pânico a dominou. Sem conseguir responder de imediato em meio à barulheira do ginásio, ela soltou-se dos braços dele, segurando a saia do vestido, e correu em direção às portas de saída de emergência do salão.

​— Elise! Espera! — Lucian chamou, correndo atrás dela.

​Elise empurrou a porta de ferro, saindo para o pátio lateral do colégio, que estava deserto e iluminado apenas pela lua cheia. O ar frio da noite bateu em seu rosto. Ela parou perto de uma pilastra, ofegante, com a mão no peito, tentando processar a imensidão do que tinha acabado de ouvir.

​A porta se abriu novamente e Lucian apareceu. Ele caminhou até ela a passos largos, com uma expressão de ansiedade e medo de tê-la assustado.

​— Elise, me desculpa se eu passei dos limites... Eu só precisava que você soubesse...

​Ele não conseguiu terminar a frase. Elise deu dois passos rápidos à frente, eliminando qualquer distância entre eles. Ela segurou o colarinho da camisa dele com as duas mãos e se impulsionou para cima, colando seus lábios nos dele.

​O beijo aconteceu como uma explosão represada por meses. Foi um toque carregado de paixão, amor e uma urgência desesperada. Lucian soltou um gemido baixo contra a boca dela, envolvendo a cintura de Elise com os braços e erguendo-a levemente do chão, aprofundando o beijo com uma intensidade que fez o mundo ao redor desaparecer. A língua dele encontrou a dela em um ritmo perfeito, selvagem e ao mesmo tempo protetor.

​Quando finalmente se separaram por falta de ar, suas testas continuaram coladas, as respirações misturando-se no ar frio.

​— Eu também te amo, Lucian — Elise sussurrou, com os olhos brilhando cheios de lágrimas de felicidade. — Eu sempre te amei.

​Lucian sorriu, beijando o topo do nariz dela. Ele pegou a mão de Elise, entrelaçando seus dedos com firmeza.

​— Vamos para casa. Agora.

​A viagem de volta foi um borrão de ansiedade e olhares cúmplices. Quando entraram no casarão dos Pavanelli, a casa estava completamente escura e em silêncio; Letícia já havia ido deitar, respeitando o espaço que havia prometido ao filho.

​Eles subiram as escadas em silêncio, de mãos dadas, mas em vez de ir para o quarto de hóspedes, Lucian a guiou diretamente para o seu próprio quarto. Ele fechou a porta atrás de si e trancou-a com chave, mergulhando o ambiente na penumbra iluminada apenas pela luz azulada da lua que entrava pela janela de vidro.

​Lucian virou-se para ela, desfazendo-se da capa preta, que caiu no chão. Ele caminhou até Elise, tocando as fitas do corpete do vestido dela com os dedos trêmulos.

​— Elise... você tem certeza disso? — ele perguntou, a voz saindo em um sussurro tenso, o respeito misturando-se ao desejo avassalador. — Eu não quero pressionar você a nada.

​Elise deu um passo à frente, cobrindo as mãos dele com as suas. Ela olhou bem no fundo dos olhos azuis de Lucian, sem nenhum medo, apenas com a entrega total de quem havia encontrado o seu lugar no mundo.

​— Eu nunca tive tanta certeza de nada na minha vida, Lucian — ela confessou, a voz mansa e firme. — Eu... eu nunca estive com ninguém antes. Eu sou virgem. Mas se a minha primeira vez for com você, sei que vai ser perfeita. Eu quero que seja você.

​O peito de Lucian inflou de uma ternura indescritível. Saber que ela estava entregando algo tão precioso a ele o fez tratá-la como a joia mais valiosa do mundo.

​Com extrema lentidão e carinho, Lucian desfez os laços do vestido branco, deixando que o tecido escorregasse pelo corpo de Elise, revelando sua pele alva na penumbra. Ele a pegou no colo com cuidado e a deitou no centro de sua cama de casal.

​Lucian deitou-se logo em seguida, cobrindo o corpo dela com o seu de forma leve para não pesar. Seus lábios encontraram os dela novamente em um beijo calmo, doce, que foi ganhando intensidade à medida que as mãos dele exploravam as curvas finas de sua cintura e costas, provocando arrepios na garota.

​— Eu vou ser gentil, meu amor... Eu prometo — ele sussurrou contra a pele do pescoço dela, distribuindo trilhas de beijos ardentes pela sua clavícula.

​Elise arranhou de leve os ombros largos de Lucian, entregando-se ao calor daquele momento. Cada toque dele afastava qualquer lembrança de dor ou solidão que ela já tivesse sentido na vida. Quando o momento da entrega final chegou, Lucian uniu seus corpos com uma lentidão extrema, movendo-se com um cuidado infinito, focado apenas no prazer e no conforto dela. Elise soltou um suspiro sibilado, cravando os dedos nas costas dele, sentindo uma dor breve ser substituída por uma onda avassaladora de prazer, plenitude e conexão.

​Eles dançaram juntos naquela cama no ritmo mais intenso e bonito que já haviam criado: o ritmo do amor verdadeiro e sem barreiras.

​Horas mais tarde, a madrugada já se despedia. No quarto silencioso, Elise estava deitada com a cabeça apoiada no peito nu de Lucian, a respiração calma e Compassada indicando que ela havia pego no sono. O lençol cobria os dois.

​Lucian continuava acordado, acariciando os cabelos ruivos dela com uma das mãos, enquanto a outra segurava o pulso esquerdo de Elise, onde a pulseira de bailarina repousava. Ele olhou para o teto, sentindo uma paz e uma felicidade que nunca havia experimentado antes.

​Ele sabia que o dia seguinte traria desafios, conversas e o julgamento do mundo lá fora. Mas ao olhar para a garota ruiva dormindo pacificamente em seus braços, o capitão do time sorriu para a escuridão. Eles tinham o alvará da mãe, tinham o amor um do outro e, a partir daquela noite, nada no mundo seria capaz de parar o compasso que unia os seus corações. Ele fechou os olhos e, finalmente, adormeceu.