O Ritmo do Coração
6 A Coreografia dos Sentimentos
A tarde de quarta-feira começou com um misto de ansiedade e realização. Letícia havia tirado o turno da tarde de folga do consultório apenas para levar Elise até a prestigiada Academia de Dança Corpo e Movimento. O espaço era imenso, com paredes espelhadas, barras de madeira polida e um piso de linóleo perfeito.
Após preencherem a papelada da matrícula, o diretor e professor principal, um homem de postura impecável chamado Jean-Luc, aproximou-se delas com uma prancheta em mãos.
— Seja bem-vinda, Elise Pavanelli — Jean-Luc disse, com um sotaque suave e um sorriso acolhedor. — Letícia me falou muito sobre o seu talento bruto. Mas, como você está entrando no meio do semestre letivo, temos uma regra rígida. O seu teste de nivelamento será em exatamente duas semanas.
Elise engoliu em seco, sentindo as mãos gelarem.
— Duas semanas? E o que eu preciso apresentar?
— Um número de balé contemporâneo único. Criado por você, dançado por você — Jean-Luc explicou, olhando-a nos olhos. — Não quero passos decorados de internet, Elise. Quero ver a sua identidade na coreografia. Se passar, entra direto para a turma avançada.
Assim que chegou em casa, Elise correu para o quarto. A pressão de criar algo do zero em quatorze dias pesava em seus ombros. Ela se jogou na cama de casal, pegou o notebook e começou a rolar freneticamente por dezenas de vídeos de bailarinas profissionais, buscando inspiração em músicas, giros e expressões. Ela estava tão concentrada que nem ouviu a porta se abrir.
— Se continuar encarando a tela desse jeito, seus olhos vão derreter — a voz rouca de Lucian ecoou no quarto.
Elise deu um leve sobressalto. Lucian caminhou até a cama e, com a intimidade que vinha construindo, sentou-se bem perto dela, cruzando as pernas e esticando o pescoço para olhar os vídeos de dança contemporânea.
— O que é isso? Maratona de dança? — ele perguntou, pegando um cacho do cabelo ruivo dela e soltando em seguida.
Elise soltou um suspiro frustrado, fechando um pouco a tela do notebook.
— Meu teste na academia é em duas semanas. O professor Jean-Luc disse que eu preciso apresentar um número contemporâneo único. Meu. Mas eu olho para essas profissionais e sinto que tudo o que eu tentar criar vai parecer uma cópia barata. Estou travada, Lucian. Não sei o que colocar nessa dança.
Lucian franziu o cenho, mudando sua postura. Ele estendeu a mão e fechou o notebook dela por completo, forçando-a a olhar para ele.
— Elise, você está procurando a resposta no lugar errado — ele começou, a voz baixa e surpreendentemente madura. — Essas profissionais têm técnica, mas você tem algo que o dinheiro delas não compra: uma história real.
— Como assim?
— Usa a sua vida, baixinha — Lucian disse, aproximando-se um pouco mais, os olhos azuis fixos nos dela. — Coloca na coreografia a dor do abandono aos dois anos. O peso dos anos em que você ficou naquela prateleira do orfanato, achando que ninguém nunca ia te escolher. Transforma essa solidão em passos pesados, ríspidos. E depois... depois você muda o ritmo. Mostra o alívio e o amor que você sentiu quando a minha mãe te adotou. E bota aí também... o carinho que você sente por mim. O quanto a gente se conectou nesses últimos dias. Usa tudo.
Elise ouvia cada palavra com o coração martelando no peito. A sensibilidade dele a pegou totalmente de surpresa. Sentindo uma onda avassaladora de gratidão e afeto, ela não pensou: apenas se jogou nos braços dele, circulando o pescoço de Lucian em um abraço apertado, colando seus corpos.
— Obrigada... você é incrível — ela sussurrou contra o pescoço dele.
Lucian retribuiu o abraço, segurando-a pela cintura fina. Quando Elise se afastou lentamente para olhá-lo, o clima no quarto mudou drasticamente. A respiração de ambos se tornou curta. O rosto de Lucian estava a milímetros do dela. Os olhos dele desceram para os lábios entreabertos de Elise, e ela, hipnotizada, inclinou o rosto para frente. Os lábios quase se tocaram, a eletricidade entre os dois sendo quase palpável.
Clack.
O som da maçaneta girando fez os dois se separarem em um solavanco. Letícia entrou no quarto trazendo uma bandeja com dois copos de suco e alguns biscoitos.
— Meninos, eu trouxe um lan... — Letícia parou no meio do quarto.
A atmosfera pesada, o rosto corado de Elise e o nervosismo explícito de Lucian, que tentava ajeitar o cabelo olhando para a parede, não passaram despercebidos pela psicóloga. Letícia disfarçou o choque, colocou a bandeja na mesa de cabeceira e sorriu de forma contida.
— Só vim deixar um lanche. Não treinem até tarde, ok? — ela disse, saindo e fechando a porta em seguida.
Mais tarde, por volta das dez da noite, Lucian estava em seu quarto, jogando videogame sem prestar muita atenção na TV. Três batidas firmes na porta o fizeram pausar o jogo. Letícia entrou, com uma expressão séria e maternal que ele conhecia bem. Ela fechou a porta atrás de si e se sentou na ponta da cama do filho.
— Lucian, precisamos conversar de forma muito franca — Letícia começou, sem rodeios.
O rapaz largou o controle, sentindo o estômago dar um nó.
— Sobre o que, mãe?
— Sobre você e a Elise — a psicóloga foi direta, o tom de voz misturando amor e firmeza. — Eu vi o que quase aconteceu no quarto dela mais cedo. Filho, preste muita atenção. A Elise passou a vida inteira sendo rejeitada. Ela foi adotada por nós, ela recebeu o nosso sobrenome. O que ela precisa agora, mais do que tudo no mundo, é de uma estrutura familiar sólida. Ela precisa de uma mãe e de um irmão. Se vocês dois se envolverem romanticamente, e as coisas derem errado — porque vocês são jovens —, essa casa vai se transformar em um inferno para ela, e ela vai sentir que perdeu a família de novo. Seria muito melhor se vocês nunca tivessem nada. Entendeu?
Lucian sentiu uma onda de calor subir pelo pescoço. Ele cruzou os braços, assumindo sua postura defensiva clássica.
— Você está viajando, mãe. Não tem nada acontecendo. Eu amo a baixinha... como irmã. Eu só estava ajudando ela com a coreografia. Pode relaxar, eu sei o meu lugar.
Letícia o observou por alguns segundos, medindo a sinceridade dele. Ela suspirou, levantou-se e acariciou o ombro do filho.
— Eu confio em você, meu amor. Só quero proteger vocês dois. Boa noite.
Quando a porta se fechou e Lucian ficou sozinho na penumbra de seu quarto, a máscara caiu. Ele desabou na cama de solteiro, cobrindo o rosto com as duas mãos. As palavras da mãe ecoavam, mas a mentira que ele tinha acabado de contar queimava em sua garganta.
"Como irmã", ele tinha dito.
Mas ao fechar os olhos, a única coisa que Lucian conseguia ver era o formato dos lábios de Elise a milímetros dos seus. O perfume de sabonete dela parecia impregnado em seus lençóis. Ele tentou focar na raiva, na rebeldia, em qualquer coisa, mas a verdade nua e crua se impôs: o sentimento que estava crescendo dentro dele não tinha nada a ver com fraternidade. Era desejo. Um desejo intenso, proibido e avassalador pela garota que agora carregava o seu próprio sobrenome.
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