O Ritmo do Coração

12 Sol de Primavera e Promessas



​A luz dourada do início da manhã inundava a cozinha dos Pavanelli, trazendo consigo uma sensação de recomeço. O som suave do café passando na cafeteira misturava-se ao chiado do bacon na frigideira. Elise, vestindo uma camisa de botão cinza de Lucian que ficava enorme nela, mexia os ovos com uma espátula, cantarolando uma melodia qualquer.

​Lucian aproximou-se por trás, descalço e sem camisa. Ele envolveu a cintura dela com os braços, puxando-a contra o seu peito e depositando um beijo demorado na curva do seu pescoço, fazendo a ruiva rir e encolher os ombros.

​— Desse jeito você vai fazer os ovos queimarem, Pavanelli — ela brincou, virando o rosto de lado.

​— Não ligo para os ovos — Lucian sussurrou, a voz ainda rouca de sono. Ele segurou o queixo dela delicadamente e a virou por completo, selando seus lábios em um beijo profundo, calmo e cheio de saudade da noite que haviam compartilhado.

​Elise retribuiu com a mesma intensidade, esquecendo completamente da frigideira, os dedos se entrelaçando nos cabelos bagunçados dele.

​— Cof, cof... Acho que o nível de açúcar dessa cozinha passou dos limites permitidos por lei.

​O som da voz de Letícia fez os dois se separarem rapidamente. A psicóloga estava parada na entrada da cozinha, vestindo um robe elegante, segurando uma xícara vazia e exibindo um sorriso radiante, daqueles que iluminavam o ambiente.

​Elise sentiu as bochechas corarem instantaneamente, ajeitando a camisa grande, enquanto Lucian apenas coçou a nuca, dando um meio sorriso sem jeito.

​Letícia caminhou até a mesa, deixando a xícara, e olhou para os dois com profundo afeto.

​— Eu fico imensamente feliz em ver vocês dois assim, com os corações em paz e sem máscaras — Letícia começou, o tom de voz terno, antes de mudar para uma expressão fingidamente severa, estreitando os olhos. — Mas prestem bem atenção: eu dei o meu alvará porque conheço o sentimento de vocês. Se vocês inventarem de brigar, terminar e transformar essa casa em um cenário de drama de novela, eu mesma bato nos dois com um cabo de vassoura. Entendido?

​Lucian soltou uma gargalhada alta, puxando Elise pelo ombro para perto de si.

​— Pode guardar a vassoura, dona Letícia. Esse risco você não corre mais.

​— Acho bom — Letícia piscou para a filha. — Agora andem logo com esse café, porque o dia está lindo demais para ficar trancado em casa.

​O termômetro marcava uma temperatura perfeita quando o carro de Lucian estacionou perto da orla da praia da cidade. O mar estava calmo, pintado em tons de azul-turquesa sob um céu sem nuvens.

​Elise e Lucian caminharam pela areia carregando uma esteira e uma bolsa térmica. Ela usava um biquíni sob uma saída de praia leve e segurava firmemente a mão dele. Não demorou muito para que avistassem um guarda-sol familiar mais adiante. Enzo e Murilo já estavam instalados ali, acompanhados de Larissa e Camila.

​— Olha lá se não é o casal real! — Enzo gritou de longe, acenando com os óculos de sol na mão.

​Lucian e Elise se aproximaram, cumprimentando a todos, e se sentaram na esteira. A brisa do mar trazia o cheiro de sal e protetor solar.

​— Pessoal, a gente tem uma coisa para contar para vocês — Elise começou, olhando para Lucian com um sorriso cúmplice. Ela ergueu a mão esquerda, que estava firmemente entrelaçada à dele. — Nós estamos namorando oficialmente.

​Houve um segundo de silêncio, seguido por uma reação que os dois definitivamente não esperavam. Enzo soltou uma risada ruidosa, jogando a cabeça para trás.

​— Ah, não brinca! Jura? Que surpresa chocante! — Enzo ironizou, fingindo um espanto teatral que fez as meninas rirem.

​— Vocês achavam mesmo que enganavam alguém? — Murilo interveio, ajeitando o boné e dando um gole em seu refrigerante. — Desde o primeiro dia em que a Elise pisou naquele colégio, o Lucian parecia um cão de guarda. E depois daquela dança na sorveteria e do show na mesa do refeitório? Cara, até os casais da ficção têm menos química que vocês.

​— É verdade, Elise — Larissa concordou, ajeitando o biquíni. — O colégio inteiro já comentava. Vocês demoraram até demais para assumir o que todo mundo via de longe.

​Lucian balançou a cabeça, rindo do deboche dos amigos, mas apertou ainda mais a mão de Elise.

​— Tudo bem, vocês venceram. Mas agora é oficial. Podem tratar a minha namorada com o respeito que a nova estrela das líderes de torcida merece.

​O resto do dia passou entre mergulhos no mar, conversas descontraídas, Enzo tentando jogar frescobol e pagando mico na areia, e muitas risadas. Elise olhava ao redor e sentia que, pela primeira vez na vida, todas as peças de seu quebra-cabeça haviam se encaixado. Ela tinha uma mãe, amigos leais e o amor de sua vida ao seu lado.

​A noite caiu trazendo o silêncio aconchegante de volta à casa dos Pavanelli. No quarto de Lucian, a TV estava ligada em um volume quase inaudível, servindo apenas como som de fundo.

​Os dois estavam deitados na cama de casal, cobertos por um edredom macio. Elise estava com a cabeça apoiada no peito de Lucian, desenhando círculos imaginários com a ponta dos dedos na pele dele, enquanto ele acariciava seus ombros de forma suave.

​— Sabe de uma coisa? — Elise quebrou o silêncio, a voz sonolenta e divertida. — Eu ainda não superei o Enzo dizendo que minhas pernas pareciam de saracura no dia em que me viu dançar.

​Lucian soltou uma risada baixa, fazendo o peito vibrar sob a cabeça dela.

​— O Enzo não tem moral nenhuma para falar de pernas, Elise. Você já viu as pernas dele usando aquela saia de gladiador no baile? Pareciam dois palitos de dente segurando uma batata.

​Elise riu alto, escondendo o rosto no pescoço dele.

​— Bobo! Não fala assim do seu amigo. Mas falando sério... Você estava muito assustador como Fantasma da Ópera. Eu quase acreditei que você ia me sequestrar e me levar para os porões do colégio.

​— Se o sequestro incluísse te trazer para essa cama e te ter nos meus braços assim todos os dias, eu teria feito isso logo na primeira semana — Lucian respondeu, mudando o tom de voz para algo mais profundo e romântico. Ele ergueu o queixo dela, fazendo-a olhar em seus olhos azuis. — Você mudou tudo por aqui, baixinha. Eu era um idiota ranzinza que não ligava para nada. Hoje, eu só consigo ligar para o seu sorriso.

​Elise sentiu os olhos marejarem com a declaração. Ela se inclinou e depositou um beijo terno e demorado nos lábios dele, um toque que carregava a certeza de um amor que havia superado todas as barreiras.

​— Eu te amo, meu Fantasma — ela sussurrou.

​— Eu te amo mais, minha bailarina — ele respondeu.

​Eles se ajeitaram na cama, Elise colando suas costas no peito de Lucian, e ele envolvendo-a em um abraço protetor, encaixando seus corpos perfeitamente sob o edredom. Não demorou muito para que as pálpebras pesassem e o cansaço do dia de sol vencesse os dois. Eles adormeceram juntos, embalados pelo som da respiração um do outro, prontos para viverem os próximos capítulos da linda história que estavam escrevendo.