O Ritmo do Coração
13 O Eco do Passado
O Orfanato Primavera mantinha o mesmo silêncio melancólico de sempre, mas, naquela tarde, os arquivos da diretoria ganharam uma visitante inesperada. A doutora Lucinda Clark, uma médica cirurgiã de renome internacional, com postura impecável e um semblante carregado de culpa oculta, folheava os registros antigos com as mãos trêmulas. Quando seus olhos pousaram na ficha de adoção de "Elise", o ar faltou em seus pulmões. Ali estava o novo endereço, o novo sobrenome: Pavanelli. Ela finalmente havia encontrado sua menina.
Na manhã do dia seguinte, a calmaria na mansão dos Pavanelli foi interrompida pelo toque firme da campainha. Letícia abriu a porta e deparou-se com uma mulher elegante, de olhos azuis expressivos — idênticos aos de Elise —, vestindo um sobretudo cinza-claro.
— Pois não? Em que posso ajudar? — Letícia perguntou, com sua habitual polidez.
— Você deve ser Letícia Pavanelli — Lucinda disse, a voz trêmula, mas firme. — Meu nome é Lucinda Clark. Eu sou a mãe biológica da Elise. Eu sei que a senhora a adotou, mas... eu precisei vir. Eu precisei abandonar a minha filha anos atrás, e quero contar tudo, mas imploro que seja com ela presente.
Letícia sentiu o impacto do golpe, mas manteve a postura. Sabia que aquele fantasma poderia aparecer a qualquer momento. Ela respirou fundo e caminhou até a base da escada.
— Elise! Querida, venha aqui na sala, por favor! — Letícia chamou, a voz suave, mas com um tom de urgência.
Elise desceu as escadas correndo, rindo e empurrando Lucian, que vinha logo atrás tentando roubar um beijo de bom dia. No entanto, assim que a ruiva pisou na sala e seus olhos cruzaram com os de Lucinda, o riso morreu. Houve um choque térmico no ambiente. Algo no fundo da memória de Elise, um estalo involuntário de quando tinha apenas dois anos, a fez saber, no mesmo segundo, que já conhecia aquela mulher.
— Sente-se, por favor, Elise — Letícia pediu, indicando o sofá.
Lucian, pressentindo o perigo e com o instinto de proteção totalmente ativado, sentou-se bem colado à namorada, segurando a mão dela com força.
Lucinda sentou-se na poltrona em frente, os olhos inundados de lágrimas ao ver a jovem linda que a filha se tornara. Ela juntou as mãos, buscando forças para despejar a verdade crua.
— Elise... eu sei que você não se lembra de mim, mas eu sou a sua mãe — Lucinda começou, a voz embargada. — E eu preciso que você saiba o motivo de ter te deixado naquele orfanato quando você tinha dois anos. Eu estava com o casamento marcado com um homem de uma família extremamente poderosa, mas você... você foi fruto de um caso que tive antes. O meu noivo descobriu.
Elise continuou estática, o aperto na mão de Lucian tornando-se doloroso.
— O acordo dele foi cruel — Lucinda continuou, uma lágrima solitária escorrendo pelo seu rosto. — Ou eu deixava você no orfanato e cortava todos os laços, ou ele não se casava comigo e deixava a minha família na miséria absoluta. Meu pai havia falido, minha mãe estava de cama, sofrendo com um câncer terminal e morrendo aos poucos. Eu só tinha a mim mesma para salvá-la, Elise. Eu tive que fazer uma escolha maldita. Eu casei. Mas eu deixei o meu coração, a minha Elise, sozinha naquele lugar.
Lucian soltou um estalo de língua, ríspido, travando a mandíbula.
— E por que voltou só agora? Passaram-se quinze anos! — Lucian disparou, a voz ríspida, os olhos azuis faiscando de raiva pela namorada.
— Porque o meu marido morreu há dois meses, em um acidente de carro horrível — Lucinda explicou, olhando desesperadamente para Elise. — Eu me vi livre daquele pacto de silêncio. Elise, por favor, me perdoe... Eu passei cada dia da minha vida sentindo a sua falta. Eu nunca esqueci você. Por escolha própria, eu nunca mais tive outros filhos, porque nenhuma criança no mundo poderia ocupar o seu lugar. Eu quero cuidar de você agora, quero te dar o amor que me foi roubado. Eu quero recuperar o tempo perdido.
O mundo parecia girar ao redor de Elise. A revelação de que não fora rejeitada por falta de amor, mas por uma barganha cruel de sobrevivência familiar, estilhaçou suas estruturas. Ela olhou para Lucinda, depois para Letícia, e por fim para Lucian.
— Eu... eu preciso pensar. Minha cabeça vai explodir — Elise balbuciou, a voz falhando.
Ela soltou a mão de Lucian abruptamente, levantou-se e correu em direção ao jardim, trancando-se no estúdio de dança anexo à piscina. Lucian tentou ir atrás, mas ela bateu a porta de vidro e passou a chave por dentro, recusando-se a deixar até mesmo ele entrar. Ela precisava do seu próprio silêncio.
A noite chegou fria e pesada. Lucinda já havia ido embora, deixando seu contato e uma promessa de esperar o tempo que fosse necessário.
Por volta das nove da noite, Elise finalmente saiu do estúdio e entrou na casa principal. Letícia estava na cozinha, guardando algumas louças com um semblante preocupado. Elise aproximou-se lentamente, com os olhos inchados pelo choro.
— Mãe... — Elise chamou baixinho.
Letícia virou-se e abriu os braços, acolhendo a filha em um abraço apertado.
— Eu quero te agradecer por tudo, de verdade — Elise sussurrou contra o ombro de Letícia. — Você me deu um lar quando eu não tinha nada. Mas... eu preciso conhecer a minha mãe biológica. Eu preciso ir com ela, saber de onde eu vim, entender o resto da minha história. Ela está voltando para o Reino Unido na semana que vem, e quer que eu vá morar com ela lá. Eu preciso disso, mãe... Quero muito que você me entenda.
Letícia engoliu o nó na garganta, acariciando o rosto da ruiva. Como mãe, doía ver o passarinho voar para tão longe, mas como psicóloga, sabia que aquela busca pela identidade era vital para Elise.
— Tudo bem, minha filha. Eu entendo perfeitamente — Letícia disse, com um sorriso triste, mas acolhedor. — A sua história tem muitas páginas, e você tem o direito de ler todas elas. Eu sempre estarei aqui para você.
Mais tarde, no quarto de Lucian, a atmosfera estava carregada de eletricidade estática. Elise estava sentada na beirada da cama de casal, olhando fixamente pela janela de vidro, onde a lua cheia iluminava o jardim.
A porta abriu-se com violência. Lucian entrou, com os punhos cerrados e o rosto transformado pelo ódio e pelo desespero de quem estava prestes a perder o que mais amava.
— Que história é essa que a minha mãe me contou? — Lucian começou, a voz alterada, ecoando pelas paredes do quarto. — Você enlouqueceu, Elise? Você vai embora do Brasil? Vai morar no Reino Unido com uma mulher que te jogou num depósito de crianças por dinheiro?
Elise levantou-se, tentando manter a calma, embora as lágrimas já estivessem descendo.
— Não fala assim, Lucian! Você ouviu a história dela, ela fez isso para salvar a mãe que estava morrendo! Eu preciso disso, tenta entender! Eu passei a vida inteira sem saber quem eu era, olhando para o espelho e vendo um vazio. Eu preciso saber de onde veio o meu sangue, preciso entender o meu passado para conseguir viver o meu futuro!
— E o nosso futuro? — Lucian deu um passo à frente, gritando, a dor transbordando em cada palavra. — E tudo o que a gente viveu aqui? A nossa noite, o nosso namoro, as promessas que a gente fez na praia? Tudo isso não vale nada para você? Você prefere uma desconhecida do que a mim?
— Não distorce as coisas! — Elise gritou de volta, a voz embargada. — Eu te amo! Mas isso é sobre a minha vida, sobre a minha identidade! É algo que eu preciso fazer por mim mesma! Se você me ama de verdade, você deveria me apoiar, e não me fazer escolher entre o meu passado e você!
Lucian soltou uma risada ríspida, amarga, o mecanismo de defesa de bad boy ranzinza assumindo o controle total para esconder o coração que estava quebrando em pedaços. Ele deu as costas para ela, passando a mão pelo cabelo com força, antes de virar-se com o olhar mais frio que já havia direcionado a ela.
— Quer saber? Faz o que você quiser — Lucian rosnou, a voz destilando veneno e desespero. — Vai pro Reino Unido, some da minha vida. Vai se foder, Elise! Eu não preciso disso. Eu não preciso de uma garota que desiste da gente na primeira oportunidade. Eu não preciso de você!
O impacto daquelas palavras foi como uma bofetada no rosto de Elise. O "vai se foder" e a rejeição explícita de Lucian rasgaram a última camada de sua estabilidade emocional. Ela cobriu a boca com a mão, soltando um soluço alto de dor, e correu para fora do quarto dele, batendo a porta com força.
Lucian ficou sozinho na penumbra, o peito subindo e descendo rapidamente. Ele chutou a estrutura de madeira da cama com toda a sua força, soltando um grito de puro ódio e dor que ecoou pela casa silenciosa. O ritmo que antes os unia havia se quebrado da pior forma possível, deixando apenas os ruídos de uma briga feia e o rastro de dois corações completamente destruídos.
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