O Ritmo do Coração
1 O Compassos do Recomeço
O salão de jogos do Orfanato Primavera costumava ser o lugar mais barulhento do prédio, mas naquela tarde de quinta-feira, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som suave da respiração de Elise.
Letícia Pavanelli observava pela fresta da porta de vidro. Como psicóloga da instituição, ela conhecia cada prontuário, cada trauma e cada olhar triste daquelas crianças. Mas Elise... Elise era diferente. Abandonada ali aos dois anos, sem um sobrenome para carregar na identidade, a garota de 16 anos mantinha um sorriso fácil que parecia desafiar a crueza da vida. E quando dançava, ela não era apenas uma menina sem passado; ela era a própria arte.
Ali, entre mesas de pebolim e sofás rasgados, Elise executava passos de balé contemporâneo. Os movimentos eram fluidos, expressivos, carregados de uma melancolia bonita. Ela girou, os pés descalços deslizando pelo chão batido, os braços desenhando no ar uma liberdade que o orfanato não podia dar.
Letícia sentiu o peito apertar. Uma certeza, que vinha amadurecendo há meses em seu coração, finalmente transbordou. Ela empurrou a porta devagar.
Elise parou o movimento na metade, assustada, ajeitando o cabelo desalinhado. O sorriso característico logo brotou em seus lábios, embora estivesse ofegante.
— Dra. Letícia! Desculpa, eu... eu sei que não devia estar usando o salão para isso, mas o pátio estava muito cheio.
Letícia sorriu, aproximando-se com passos calmos.
— Você não precisa pedir desculpas por expressar algo tão lindo, Elise. Você dança com a alma. É fascinante de ver.
— É a única coisa que me faz sentir que pertenço a algum lugar — a garota confessou, olhando para os próprios pés.
Letícia respirou fundo, segurando as mãos de Elise. O momento era aquele.
— Elise, você passou a vida inteira esperando por um lugar para pertencer. E eu passei os últimos meses percebendo que a minha casa está vazia demais sem você. Eu conversei com a direção, a papelada já estava em andamento... Eu quero saber se você aceita vir para casa comigo. Como minha filha.
Os olhos de Elise se arregalaram. O sorriso sumiu por um segundo, substituído por um choque puro, antes de voltar ainda maior, acompanhado de lágrimas que insistiam em cair.
— A senhora... está falando sério? Eu vou ter uma mãe? Uma família?
— Se você quiser, meu amor. Você quer?
Como resposta, Elise não usou palavras. Apenas se jogou nos braços de Letícia, um abraço apertado que selava o início de uma nova vida.
A viagem de carro até o casarão da família Pavanelli foi um misto de ansiedade e deslumbramento. Elise olhava pela janela como se o mundo tivesse ganhado novas cores. Letícia, por outro lado, sentia o estômago revirar levemente. Sabia que a parte mais difícil começaria agora: Lucian.
Assim que entraram na casa, a imponência da sala de estar deixou Elise paralisada na entrada, segurando sua única mochila de roupas.
— Fique à vontade, Elise. A casa é sua. Eu vou chamar o meu filho — disse Letícia, dando um beijo terno na testa da menina. — Lucian! Vem aqui na sala, por favor!
Segundos depois, passos pesados ecoaram pela escada de madeira. Lucian desceu. O cabelo bagunçado, os fones de ouvido pendurados no pescoço e a clássica jaqueta jeans escura denunciavam o ar rebelde, mas o olhar que ele direcionou à mãe era de pura atenção. Ao notar a presença de Elise, o cenho do rapaz se franziu instantaneamente.
— Que história é essa, mãe? Quem é ela? — Lucian perguntou, a voz firme, ignorando a etiqueta.
— Lucian, essa é a Elise. Eu a adotei. A partir de hoje, ela vai morar conosco e é sua irmã. Quero que a receba bem.
Lucian soltou uma risada ríspida, incrédula. Ele olhou para Elise dos pés à cabeça, fazendo a garota encolher os ombros, desconfortável.
— Você só pode estar brincando. Adotou uma garota? Assim, do nada? Sem nem me consultar?
— Nós já tínhamos conversado sobre a possibilidade de aumentar a família, Lucian. E a decisão final é minha. Só peço o seu respeito.
Lucian cruzou os braços, a mandíbula travada. Por trás da pose de bad boy, havia o ciúme e o medo de ser deixado de lado, sentimentos que Letícia lia perfeitamente, mas que ele jamais admitiria.
— Quer saber? Você faz o que quiser da sua vida. A casa é sua mesmo — ele disparou, a voz carregada de ironia. — Só não me pede para fingir que somos a família comercial de margarina.
Sem esperar resposta, Lucian deu as costas, marchando em direção à cozinha. Letícia suspirou, tocando o ombro de Elise.
— Me desculpe por isso, querida. Ele é um bom menino, só está assustado. Vá dar uma olhada no jardim dos fundos enquanto eu ajeito suas coisas no quarto, sim? O dia foi longo.
Elise assentiu com a cabeça, querendo apenas sair daquela zona de tensão. Ela caminhou até as portas de vidro que davam para o quintal e saiu.
O jardim dos Pavanelli era enorme, cercado por flores que ela nem sabia o nome e uma grama perfeitamente aparada. Elise caminhou até o centro do gramado, olhando para o céu do fim de tarde, encantada com a imensidão daquele espaço que agora fazia parte da sua realidade.
Enquanto isso, na cozinha, Lucian pegava um copo de água, mas seus olhos estavam fixos na janela. Ele observava a silhueta miúda da garota no jardim. Ela parecia tão frágil, mas ao mesmo tempo havia uma postura diferente nela. Irritado consigo mesmo pela curiosidade, ele largou o copo e caminhou até o jardim.
O som dos passos dele na grama fez Elise se virar rapidamente. Ela tensionou o corpo, esperando outra patada.
Lucian parou a dois metros de distância, as mãos enfiadas nos bolsos da calça.
— Então você é a garota do orfanato — ele começou, o tom de voz neutro, mas seco.
— Sou Elise — ela respondeu baixo, sustentando o olhar dele, apesar do nervosismo. — E eu não vim para roubar o seu lugar.
Lucian soltou um sopro de riso, sem humor.
— Meu lugar ninguém rouba, garota. Só acho bizarro. Minha mãe tem essa mania de querer salvar o mundo, e acho que você é o projeto da vez.
Elise sentiu uma pontada de orgulho ferido. Ela deu um passo à frente, o que surpreendeu o rapaz.
— Eu não sou um projeto. E não pedi para ser salva. Sua mãe me escolheu, e eu escolhi ela. Se você tem algum problema com isso, resolve com ela, não comigo.
Lucian ergueu as sobrancelhas. A timidez que ele achou que veria na menina tinha sumido, dando lugar a uma faísca de determinação. Ele deu meio passo à frente, diminuindo a distância.
— Pelo menos tem dentes — Lucian comentou, um meio sorriso cínico surgindo no canto dos lábios. — Só não fica no meu caminho, Elise. Eu tenho a minha vida, você tem a sua. A gente não precisa ser amigos.
— Por mim, tudo bem — Elise respondeu de imediato, cruzando os braços. — Não costumo forçar intimidade com quem não sabe ser educado.
Lucian a encarou por mais um segundo, avaliando o território. Aquela garota seria mais complicada de lidar do que ele imaginava. Sem dizer mais nenhuma palavra, ele deu meia-volta e entrou na casa, deixando Elise sozinha no jardim.
Ela soltou o ar que nem percebeu que prendia. O coração batia acelerado, não de medo, mas pelo desafio. A nova vida de Elise havia começado, e o ritmo dela seria ditado por passos complexos.
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