O Ritmo do Coração

2 Ruídos e Silêncios




​A manhã seguinte começou com o aroma de café fresco e o som abafado de talheres na cozinha dos Pavanelli. Sentado à mesa, Lucian mexia no celular com uma expressão entediada, enquanto Letícia terminava de servir o café. Elise entrou timidamente no cômodo, vestindo uma roupa simples, mas limpa. Ela se sentou na ponta da mesa, mantendo as costas eretas — um hábito involuntário de seus anos de dança.

​Lucian mal ergueu os olhos do aparelho, mantendo-se em um silêncio pesado. Letícia, percebendo a tensão, sorriu para a garota e colocou um prato de rabanadas à sua frente.

​— Dormiu bem, Elise? — perguntou Letícia, com a voz suave.

​— Sim, dona Letícia. A cama é muito confortável. Obrigada — Elise respondeu, com seu sorriso fácil, embora contido.

​— Que bom, querida. Porque o seu dia vai ser cheio. Hoje vou resolver a sua matrícula em uma escola de balé contemporâneo aqui perto. Já andei pesquisando e o professor é excelente.

​Os olhos de Elise brilharam instantaneamente. Ela parou com a xícara de leite na metade do caminho.

​— Sério? Eu... eu vou poder dançar de verdade? Com aulas?

​— Claro que vai. O seu talento não pode ficar escondido naquele salão de jogos — Letícia piscou para ela, antes de se virar para o filho. — E tem mais uma coisa, Lucian. A Elise começa a estudar na semana que vem. Consegui uma vaga para ela no mesmo colégio que você, no terceiro ano.

​Lucian finalmente largou o celular na mesa, o som estalando no vidro. Ele olhou para a mãe, a mandíbula levemente travada, mas segurou o impulso de reclamar na frente da garota. Em vez disso, apenas empurrou a cadeira para trás e se levantou.

​— Tanto faz — ele deu de ombros, pegando a mochila no chão. — Faz o que você quiser, mãe. Só não espera que eu leve ela pela mão até a sala de aula. Estou indo.

​Sem se despedir de Elise, ele saiu batendo a porta da frente.

​O pátio do Colégio Pavanelli — que por ironia do destino levava o sobrenome da família fundadora de seus tios — estava lotado quando Lucian chegou. Perto dos armários, seu grupo de amigos já o esperava. Estavam ali o Enzo, sempre com uma jaqueta de time e uma bola nos dedos, e o Murilo, o cérebro sarcástico do grupo.

​— E aí, Pavanelli! Achei que ia perder o primeiro tempo — Enzo cumprimentou, dando um soco de leve no ombro de Lucian. — Que cara é essa? Parece que viu um fantasma.

​Lucian abriu o armário com força excessiva, jogando alguns livros lá dentro.

​— Pior do que isso. Minha mãe resolveu virar santa de vez.

​Murilo, que estava encostado na parede ajustando os óculos, semicerrou os olhos, curioso.

​— Como assim? O que a tia Letícia aprontou agora?

​— Ela adotou uma garota do orfanato. Uma morta de fome que não tem nem sobrenome — Lucian disparou, a voz carregada de uma frustração que ele mal conseguia esconder. — E a melhor parte? Ela vai estudar aqui a partir da semana que vem. No nosso ano. Agora, além de aguentar o falatório da minha mãe em casa, vou ter que bancar o irmão certinho e protetor no meio do corredor.

​Enzo soltou uma gargalhada alta, chamando a atenção de duas meninas que passavam.

​— Não brinca! O bad boy da escola agora tem uma irmãzinha para cuidar? Cara, eu quero muito ver você carregando a mochila dela e expulsando os caras de perto.

​— Cala a boca, Enzo — Lucian rosnou, fechando o armário com um estrondo. — Não vou carregar mochila de ninguém. Ela que se vire.

​— Cara, relaxa — Murilo interveio, com um sorriso de lado. — Mas o Enzo tem razão. Se ela for minimamente bonita, os caras do time vão cair matando. E você vai ter que decidir se bate neles por ciúmes de irmão ou se deixa o circo pegar fogo.

​— Ela é só uma garota esquisita que fica dançando pelos cantos — Lucian resmungou, começando a caminhar em direção à sala. — Por mim, ela pode sumir no meio desse colégio. Não estou nem aí.

​A noite chegou trazendo uma calmaria fria para a casa. Passava das onze horas quando Lucian desceu as escadas descalço, vestindo apenas uma calça de moletom cinza. Ele estava sem sono e com o estômago reclamando.

​A cozinha estava iluminada apenas pela luz embutida acima do fogão, criando um ambiente de sombras suaves. Lucian abriu a geladeira, pegou uma jarra de suco e se serviu, encostando-se na bancada de mármore enquanto bebia direto do copo.

​Foi quando ouviu passos extremamente leves. Se não estivesse tudo em silêncio, não teria escutado.

​Elise entrou na cozinha. Ela usava um pijama de algodão grande demais para ela e estava com os cabelos ruivos presos em um coque frouxo. Ao ver Lucian ali, ela parou abruptamente na porta, os dedos das mãos se entrelaçando.

​— Ah... desculpa. Eu não sabia que tinha alguém aqui — ela sussurrou, fazendo menção de dar meia-volta.

​— Eu não mordo, garota — Lucian disse, a voz consideravelmente mais baixa e rouca por conta do horário. Ele deixou o copo na bancada. — Veio assaltar a geladeira?

​Elise relaxou os ombros milimetricamente, percebendo que o tom dele não era agressivo como o da manhã, apenas cansado.

​— Só vim beber água — ela respondeu, caminhando até o filtro.

​Ela pegou um copo de vidro e o encheu. O único som na cozinha era o fluxo da água. Lucian a observava. Sem a postura defensiva do jardim ou a timidez da mesa de café, Elise parecia apenas... uma menina tentando se adaptar a um mundo que claramente não era o dela.

​— Minha mãe me disse que você começa na escola na segunda-feira — Lucian quebrou o silêncio, cruzando os braços.

​Elise bebeu um gole da água e se encostou no lado oposto da bancada, mantendo uma distância segura.

​— É. Ela me falou. Estou com um pouco de medo, para ser sincera. Nunca estudei em um lugar tão grande.

​— O colégio é um ninho de cobras — Lucian disse, direto, mas sem maldade. — Mas se você ficar no seu canto e não ligar para o que os outros falam, sobrevive.

​Elise olhou para ele, os olhos azuis refletindo a luz fraca da cozinha. Ela deu um daqueles sorrisos fáceis que pareciam desarmar qualquer ambiente.

​— Obrigada pelo conselho. Vou tentar lembrar disso.

​Lucian desviou o olhar, incomodado com a facilidade com que ela sorria para ele, mesmo depois de ele ter sido um idiota mais cedo. Ele pegou seu copo vazio e o colocou na pia.

​— Só não fica achando que a gente vai almoçar junto na cantina. Como eu disse, você tem a sua vida e eu tenho a minha.

​— Eu sei, Lucian — ela respondeu calmamente, colocando seu copo na pia também. — Eu sei me cuidar sozinha. Fiz isso a vida inteira. Boa noite.

​Ela passou por ele, deixando um rastro suave de perfume de sabonete de bebê. Lucian ficou parado na cozinha por alguns segundos, olhando para a porta por onde ela havia saído. Havia algo naquela garota que ele não conseguia decifrar, e isso o irritava profundamente.