O Ritmo do Coração
9 Máscaras e Provocações
O sol da manhã entrava pelas grandes janelas da cozinha, iluminando as várias revistas de moda e telas de celular espalhadas sobre a mesa de mármore. O baile de fantasia anual do Colégio Pavanelli seria em poucas semanas, e a casa já respirava os preparativos.
— Filha, olha essa de princesa medieval. O caimento azul-escuro combinaria perfeitamente com o tom do seu cabelo — sugeriu Letícia, apontando empolgada para a tela de seu tablet enquanto tomava um gole de café.
Elise riu, mordendo um pedaço de torrada.
— É linda, mãe! Mas não sei... Acho que todo mundo vai de princesa ou de super-herói. Eu queria algo que tivesse mais a ver comigo, sabe? Algo que me permitisse me mover bem se eu quisesse dançar.
Foi nesse momento que os passos pesados de Lucian ecoaram pela cozinha. Ele entrou vestindo uma regata preta e calça de moletom, com o cabelo bagunçado pelo sono. Ele caminhou até a geladeira, pegou uma jarra de suco e, antes de beber, olhou de relance para as imagens na mesa.
— Se você quer algo que combine de verdade, deveria ir de Christine Daaé, do Fantasma da Ópera — Lucian soltou a frase com a voz rouca matinal, encostando-se na bancada. — O figurino do espetáculo é clássico, tem aquela vibe de teatro, de dança... É a sua cara, baixinha.
Elise ergueu os olhos azuis, surpresa com a sugestão refinada do rapaz. Ela deu um sorriso de lado, mas logo suspirou, apoiando o queixo nas mãos.
— É uma ideia maravilhosa, Lucian. Mas tem um problema: eu seria uma Christine sem Fantasma. Ninguém me convidou para o baile ainda. Vou acabar indo sozinha.
Um silêncio breve se instalou na cozinha. Lucian deixou o copo de suco de lado, deu alguns passos lentos em direção à mesa e parou bem atrás da cadeira de Elise. Ele se inclinou levemente, com um sorriso enigmático que fez o coração da ruiva falhar uma batida.
— Que não seja por isso — Lucian sussurrou perto do ouvido dela, fazendo sua pele arrepiar. Em seguida, contornou a mesa e olhou diretamente para ela. — Eu sou o seu Fantasma, Elise. Eu vou com você.
Letícia bateu as mãos, soltando uma exclamação de alegria que cortou a tensão romântica que começava a se formar.
— Ah, isso é perfeito! Uma Christine e o Fantasma! Já vou ligar agora mesmo para a figurinista do teatro municipal e encomendar as duas roupas sob medida. Vocês vão parar o colégio! — comemorou a psicóloga, pegando o celular animadamente, enquanto os dois jovens trocavam um olhar intenso e cúmplice.
Mais tarde, no colégio, o clima era de pura descontração. O intervalo havia começado e o grupo de amigos estava reunido nas mesas externas do pátio, sob a sombra de uma grande árvore.
— Cara, eu juro para você que a minha fantasia de Gladiador vai ser a melhor — exclamava Enzo, gesticulando com um pedaço de pizza na mão. — Já comprei até a espada de plástico.
— Só espero que você use uma bermuda por baixo da saia de couro, Enzo. Ninguém quer ver suas pernas de saracura no meio da pista — ironizou Murilo, fazendo Elise e as outras garotas da mesa caírem na gargalhada.
A diversão, no entanto, foi interrompida abruptamente quando uma sombra se projetou sobre a mesa. Débora, a ex-namorada de Lucian e uma das principais líderes de torcida do colégio, parou ali. Ela usava o uniforme oficial do treino, os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo alto e os braços cruzados com uma expressão de puro desdém.
Vários alunos nas mesas próximas perceberam a aproximação e começaram a cochichar, pressentindo o drama.
— Ora, ora... Se não é a nova 'Pavanelli' — Débora disparou, a voz pingando veneno, olhando para Elise de cima para baixo. — Sabe, Lucian, eu achei que sua mãe tinha adotado uma irmã para você, mas pelo jeito ela trouxe uma coitada sem sal para sugar a sua popularidade.
Lucian se levantou da cadeira em um sobressalto, os olhos faiscando de raiva.
— Fica na sua, Débora. Ninguém te chamou aqui — ele rosnou, dando um passo à frente.
Mas Débora não se intimidou. Ela deu um passo em direção a Elise, ignorando Lucian.
— Você acha que engana alguém com essa pose de bailarina clássica fofa? Para mim, você não passa de uma garota dura, sem graça e sem sal. Não tem ritmo, não tem presença. Se eu fosse você, voltava para o buraco de onde saiu antes de passar vergonha naquele baile.
Alguns garotos do time de futebol americano que passavam por perto soltaram um "Ih, puxa vida!". Elise sentiu o sangue ferver. A humilhação pública era algo que ela não toleraria mais. Aquela não era mais a menina indefesa do orfanato.
Com uma calma assustadora, Elise se levantou da cadeira. Ela olhou para Débora com um sorriso frio e desafiador.
— Dura? Sem sal? — Elise repetiu em tom baixo. — Acho que você está me confundindo com o seu próprio reflexo, Débora.
Sem hesitar, Elise pegou o celular de Enzo que estava em cima da mesa. Com alguns toques rápidos, ela conectou o aparelho via Bluetooth na caixa de som portátil que os meninos usavam no pátio. Uma batida de R&B lenta, sexy e extremamente envolvente começou a ecoar pelo pátio.
Antes que qualquer pessoa pudesse protestar, Elise apoiou a mão no ombro de Murilo e, com a agilidade de quem tinha o controle total do próprio corpo, subiu em cima da mesa de madeira do refeitório.
O pátio inteiro silenciou. Centenas de olhos se voltaram para ela.
Quando a batida principal da música dropou, Elise começou a se mover. Não era balé clássico; era uma coreografia de dança comercial e urbana, misturada com movimentos contemporâneos extremamente sensuais e bem estruturados. Ela desceu até o chão em um movimento fluido, jogando o cabelo ruivo para o lado com uma atitude avassaladora, e subiu mantendo o olhar cravado em Débora. Cada movimento de seus quadris e braços seguia o ritmo perfeito da música, exalando uma confiança e um sex appeal que ninguém sabia que ela escondia.
— Caramba... — Enzo balbuciou, quase deixando a pizza cair, com os olhos arregalados.
— Ela está destruindo... — murmurou Murilo, empurrando os óculos, chocado com a performance.
Lucian estava completamente estático ao pé da mesa. Ele sentia a boca seca e o coração martelando no peito. Ver Elise dançando daquela forma, tão livre e provocante, o deixou totalmente enfeitiçado, tomado por um desejo que quase o fez perder o fôlego.
Ao terminar a sequência com um giro rápido e uma pose final impecável, agachada na ponta da mesa, a música parou. O pátio explodiu em gritos, aplausos e assobios dos alunos de todas as turmas.
Débora estava com o rosto completamente vermelho de raiva e humilhação. Suas mãos tremiam.
— Isso... isso é ridículo! Uma exibicionista! — Débora gritou, mas sua voz foi abafada pelas vaias dos alunos. Sem aguentar a vergonha, ela deu meia-volta e saiu batendo o pé, marchando para longe dali.
Elise pulou da mesa com leveza, aceitando o celular de volta das mãos de um Enzo ainda em transe. Foi quando uma garota de cabelos escuros e postura imponente se aproximou. Era Larissa, a capitã absoluta do comitê das líderes de torcida e a garota mais influente do colégio.
Larissa bateu palmas devagar, olhando para Elise com admiração genuína.
— Garota, eu não sei onde você estava escondida, mas aquela loira aguada da Débora finalmente teve o que merecia — Larissa disse, com um sorriso aberto. — Nós estamos precisando de alguém com essa flexibilidade, ritmo e atitude no nosso esquadrão principal. Elise Pavanelli, você quer entrar para as Líderes de Torcida? A vaga é sua se você quiser.
Elise olhou para Lucian, que ainda tentava se recuperar do transe, e depois para os amigos que assentiam freneticamente com a cabeça, incentivando-a. Ela sorriu o seu sorriso mais brilhante.
— Eu aceito, Larissa. Vai ser um prazer.
— Ótimo! O treino começa amanhã — Larissa piscou e se afastou.
Enzo se jogou no ombro de Lucian, rindo alto.
— Cara! O Lucian é o capitão do time de futebol e agora a irmã dele é a nova estrela das líderes de torcida? Meu irmão, essa combinação vai dar o que falar nessa escola toda!
Lucian finalmente olhou para Elise, aproximando-se dela enquanto os outros alunos ainda comentavam o show. Ele deu um meio sorriso orgulhoso, embora seus olhos ainda carregassem a intensidade do feitiço que ela havia jogado sobre ele.
— Você não cansa de surpreender, não é, baixinha? — ele disse em tom baixo.
— Eu só estava mostrando o meu ritmo, Fantasma — ela piscou para ele, pegando sua mochila. A hierarquia daquele colégio havia acabado de mudar, e os dois estavam no topo dela.
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