O Ritmo do Coração
5 Confissões na Penumbra
A madrugada já havia silenciado a casa dos Pavanelli. O relógio no corredor marcava pouco mais de duas da manhã quando o silêncio do quarto de Elise foi quebrado por um estalo suave. A maçaneta girou devagar e a porta se abriu, revelando a silhueta alta de Lucian contra a luz fraca do corredor.
Elise, que estava acordada olhando para o teto, sobressaltou-se de leve na cama, puxando a coberta até o queixo.
— Lucian? — ela sussurrou, a voz rouca pelo sono iminente. — O que foi? Aconteceu alguma coisa com a sua mãe?
Sem pedir licença ou dizer uma palavra inicial, o rapaz entrou. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza e estava descalço. Com a naturalidade de quem já se sentia confortável ali, ele caminhou até a cama de casal, puxou o edredom e deitou-se de costas ao lado dela, cruzando os braços atrás da cabeça e fitando o teto escuro, decorado pelas sombras das árvores do jardim que dançavam lá fora.
Elise piscou, surpresa com a invasão repentina, mas não se moveu. Havia uma calmaria melancólica na postura dele que afastava qualquer sensação de ameaça.
— Eu não consigo dormir — Lucian começou, a voz saindo em um tom baixo, quase um murmúrio confidencial. — Minha cabeça está barulhenta demais hoje.
Elise relaxou o corpo, soltando o cobertor e virando o rosto de lado para olhar o perfil dele na penumbra. A luz da lua filtrava pelas frestas da cortina, desenhando os traços marcantes do rosto do rapaz.
— E você achou que o meu quarto era o calmante ideal? — ela brincou de leve, tentando quebrar o gelo.
Lucian soltou um sopro de riso, sem desviar os olhos do teto.
— Talvez seja. Você tem uma energia silenciosa, Elise. Mesmo quando está rindo, parece que tem um mundo inteiro aí dentro que ninguém consegue tocar.
O silêncio voltou a reinar por alguns instantes, denso e reflexivo. Lucian mexeu a cabeça de lado, virando-se para encará-la. O olhar rebelde e cínico que ele exibia nos corredores da escola havia sumido por completo; em seu lugar, havia uma curiosidade genuína e uma vulnerabilidade que ele raramente mostrava a alguém.
— Posso te fazer uma pergunta? — ele pediu, a voz ainda mais baixa.
— Depende. Qual?
— Como é... sabe... ser sozinha? — Lucian soltou a pergunta de uma vez, medindo as palavras para não soar ofensivo. — Como é crescer sem um sobrenome, sem saber de onde você veio? Como é ser uma órfã?
Elise engoliu em seco. A pergunta era direta, crua, do tipo que a maioria das pessoas evitava por medo de feri-la. Mas vindo de Lucian, parecia apenas uma busca por entender a realidade dela. Ela se virou totalmente de lado, apoiando a cabeça em uma das mãos, o olhar se perdendo nas sombras do quarto enquanto as memórias do Orfanato Primavera vinham à tona.
— No começo, quando você é muito criança, você não entende direito — Elise começou, a voz mansa, carregada de uma maturidade precoce. — Você acha que o orfanato é o mundo inteiro e que todas as crianças vivem daquele jeito. Mas aí você vai crescendo. Começa a ver os casais visitando o lugar nos fins de semana. Você vê eles olhando para você, avaliando se você é inteligente o suficiente, bonita o suficiente, quieta o suficiente... É como ser um produto em uma prateleira, esperando que alguém te escolha.
Lucian ouvia com atenção absoluta, a mandíbula levemente contraída.
— E quando o tempo passa e ninguém escolhe? — ele perguntou, sentindo um aperto incômodo no peito.
— Quando você faz dez, doze, quatorze anos, você percebe que ficou invisível — Elise deu um sorriso triste, daqueles que doíam de olhar. — Os adotantes querem bebês, Lucian. Ninguém quer adotar o histórico médico, os traumas ou a rebeldia de um adolescente. Ser órfã é viver com uma sensação constante de rejeição crônica. Você acorda e dorme sabendo que as pessoas que deveriam ter te amado em primeiro lugar no mundo simplesmente decidiram que você não valia o esforço. É um vazio que não dá para explicar. É um eco dentro do peito.
Lucian engoliu em seco, sentindo o peso daquelas palavras. Ele, que sempre tivera tudo — o sobrenome de uma família influente, uma casa enorme, o amor incondicional da mãe —, de repente se sentiu pequeno diante da imensidão da dor que aquela garota carregava com tanta leveza no dia a dia.
— E como você conseguia sorrir daquele jeito? Todos os dias? — ele questionou, genuinamente intrigado. — No primeiro dia em que te vi, você estava dançando no salão de jogos e parecia... flutuar acima de tudo isso.
Elise olhou para o próprio pulso, onde a pulseira de bailarina que ele lhe dera brilhava discretamente.
— Por causa da dança. Quando eu coloco os pés no chão e começo a me mover, o eco para. A solidão vira movimento. Eu não preciso de um sobrenome ou de um passado quando estou dançando, porque naquele momento, eu sou dona do meu próprio corpo e do meu próprio ritmo. A dança foi a única coisa que nunca me abandonou.
Lucian estendeu a mão timidamente pelo lençol, os nós dos seus dedos roçando suavemente a pele da mão dela. Foi um gesto de puro conforto, desprovido de qualquer segunda intenção.
— Você não está mais sozinha, Elise — ele disse, a voz firme, carregada de uma promessa silenciosa. — Minha mãe escolheu você, e... eu também escolhi. Você tem o nosso sobrenome agora. E se o mundo tentar te fazer se sentir invisível de novo, eu faço questão de barulho suficiente para todo mundo te notar.
Elise sentiu as lágrimas arderem nos cantos dos olhos, mas as segurou, abrindo um sorriso largo, o mais caloroso que já havia direcionado a ele.
— Obrigada, Lucian. Significa muito vindo de você.
— Não esquenta — ele respondeu, voltando a olhar para o teto, mas sem afastar a mão da dela. — Só não vai achando que vou ser fofinho assim amanhã de manhã no colégio. Tenho uma reputação de bad boy para manter.
Elise soltou uma risada abafada contra o travesseiro.
— Seu segredo está guardado comigo, Pavanelli.
Eles continuaram ali, deitados lado a lado, conversando sobre amenidades em sussurros até que o cansaço finalmente vencesse Elise. Quando a respiração da ruiva se tornou pesada e compassada, anunciando que ela havia pego no sono, Lucian se virou devagar. Ele a observou dormir por alguns minutos, o rosto sereno contrastando com a intensidade do que haviam compartilhado.
Com cuidado para não acordá-la, ele se levantou da cama, ajeitou o edredom sobre os ombros dela e depositou um beijo quase imperceptível no topo de sua cabeça ruiva.
— Boa noite, maninha — ele sussurrou para o silêncio, antes de sair do quarto e fechar a porta, sentindo que, no final das contas, o mundo dele também havia acabado de ganhar um novo sentido.
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