O Risco Da Liberdade
1 Quem é Você?
Notas iniciais
– Acorda! Acorda!
– Hã?! O que...
– Sssshhhhiiiiuuu! Eles estão vindo!
– Quem? Do que você está falando?
– Cala a boca!
Os passos das pessoas na parte de cima do lugar onde estávamos eram amedrontadores, pareciam Vikins andando com cavalos no chão, mas eram só homens.
– Quem são eles?
– Homens!
Eu não sabia quem era a pessoa que estava ao meu lado, só sabia que algo ruim estava acontecendo, e que nós estávamos nos escondendo. Para falar a verdade eu não fazia ideia de quem era e de como fui parar naquele local escuro, me lembro apenas de ter visto algumas luzes e em seguida desmaiar, ouvi gritarem algo antes de que isso acontecesse, mas não sei o que era...
Depois de um tempo os passos pararam, os homens estavam sobre nós, porém não haviam nos visto, eu estava mais preocupado em saber o que estava acontecendo do que sobre o caráter daquelas pessoas, eu não sabia nem qual era o meu caráter, estava sem memória, perdido, sozinho, aliás, para não ser ingrato eu estava com um desconhecido tão perdido quanto eu, decidi perguntar:
– Quem são eles?
– Cala a boca! Se nos ouvirem e...
De repente o chão abriu e vimos alguns olhos curiosos nos olhando, pude ver um dos homens, ele era grande, gordo e com cabelos pretos, mas não percebi mais detalhes, nem prestei atenção nas roupas que usava. Antes que eu pudesse dizer alguma palavra o garoto que estava comigo me puxou e saímos correndo pelo vão que havia naquele buraco, ainda estava escuro e eu não consegui ver a fisionomia do menino, mas ele era raquítico, e muito rápido, não conseguia acompanhá-lo. Nós descemos uma escada, aquilo parecia ser um sobrado ou coisa parecida, pois após virarmos a esquerda depois do último degrau eu pude ver alguns fios de luzes por meio de tábuas rachadas, um lugar a princípio horrível!
Corremos por mais alguns metros e encontramos uma porta de madeira velha, antes entramos por uma abertura na parede que deu acesso ao saguão onde estávamos, tudo estava escuro e o garoto não sabia para onde ir, até que eu vi a porta por onde sairíamos. O grande problema daquele imenso objeto era que não havia maçaneta e para abrí-lo seria necessário possuir algo parecido com um pé-de-cabra, mas naquela sala nós não econtrávamos. O menino começou a chutar a porta, parecia desolado. Eu não sabia o que estava acontecendo, o motivo de estarmos fugindo daqueles homens, apenas segui alguém que estava debaixo do assoalho de algo que parecia uma casa.
– Quem é você?
– Não interessa, eles estão chegando!
– Pára de chutar essa porta e me responde! Eu nem te conheço! Fala, quem é você?
O menino virou para mim e me segurou pela gola da camiseta, finalmente consegui ver um pouco de sua fisionomia, era branco, cabelo raspado, sua idade era entre dez e doze anos, suas roupas estavam sujas e seu rosto também, a camiseta era branca e estava de shorts azul um pouco rasgado, seus olhos estavam furiosos e vermelhos, e as mãos que me seguravam possuíam alguns machucados de soco, provavelmente porque brigou com alguém.
– Você é um desgraçado! Me trouxe até aqui falando que poderíamos fugir e agora me diz que não sabe quem eu sou?!
– Mas... — eu estava amedrontado — eu realemente não sei o que está acontecendo, não lembro de...
– Vai para o inferno! Aqueles animais estão atrás de nós e por isso vamos morrer! Você consegue entender isso? Se ao menos conseguíssemos voltar para a aldeia...
– Que aldeia?
O garoto me largou e voltou a chutar a porta, porém as coisas começaram a ficar piores a partir do momento que foi possível ouvir os passos dos homens que corriam atrás da gente, não sabíamos o quão próximos estavam, mas estavam próximos. Eu finalmente encontrei alguma coisa, na verdade uma passagem em uma das paredes laterais do saguão, era um buraco estreito, nós éramos pequenos e conseguiríamos passar, eu o chamei:
– Garoto! Encontrei uma passagem, vai você e vê aonde vai dar!
Ele não pensou duas vezes, na verdade me olhou com uma cara que indagava a minha atitude, pois de certa forma eu o estava usando como isca, se aquele buraco dessa para um penhasco ele morreria, porém não havia como recusar aquela chance. Ele entrou e não voltou, em seguida, mesmo com medo, pulei também e não voltei.
Caímos... deslizamos por uma espécie de túnel de esgoto que nos jogou em um terreno sujo, o menino estava na margem todo molhado me esperando, agora o enxergava, aliás não era muito diferente do que vira anteriormente, dessa vez pude apenas conferir a cor de seus olhos, cinzas, estranho, mas eram cinzas.
Nós corremos em direção a aldeia que eu não sabia onde ficava e nem o que era, apenas fomos, eu o segui, porém não trocamos uma palavra até encontrarmos um bosque demasiadamente macabro à nossa frente.
– Ótimo! Estamos perdidos! — Disse ele.
– Não estamos, não! Você não sabe onde é?
– Como você tem coragem de fazer essa pergunta?! Esqueceu que saímos da aldeia porque você falou que podíamos fugir, que lá fora as coisas eram melhores!
– Fugir do quê? Eu não sei do que você está falando!
– Fugir da escravidão! Da escravidão! Nós vivemos em um regime escravo! Somos escravos! Fazemos o que aqueles animais querem que façamos!
– Mas...
– Cala a boca! Você acabou com a minha vida!
Seus olhos encheram de lágrimas, eu estava estático, não conseguia imaginar o quanto era perigosa aquela fuga, e me dei conta de que minha situação não era muito boa também, sabia que em um palácio eu não vivia, mas também não sabia onde morava. Entrei na floresta e comecei a seguir uma trilha que encontrei dez metros depois, o garoto... que eu não sabia o nome me seguia de cabeça baixa, sem esperança, chutava uma pedra ou outra e riscava as árvores.
– Por que você faz isso?
– Isso o quê?
– Riscar as árvores, se eles vierem por esse caminho vão descobrir a trilha que seguimos.
– Não, eles não vão seguir esse caminho. Pensam que nós nos escondemos na casa. E eu risco as árvores para sabermos por onde voltar caso a gente não encontre a aldeia.
– E se não formos para a aldeia?
– Como assim?
– Para que lado a aldeia fica?
– Leste.
– Estamos indo para o Norte, em direção ao sol.
– Por que indo por essa direção?
– Eu não sei, sempre ouvi dizer que no Norte é onde as coisas mais bonitas moram.
– Que sonhador! Eu vou para o Leste.
– Você não vai chegar à aldeia.
Ele parou, e me olhou com indagação. A resposta que eu dei não era tão difícil de entender, se nós fomos até a casa pelo Leste e saímos de lá pelo Norte, significa que para chegar à aldeia, teríamos que passar pela casa e talvez sair pela porta que não conseguimos abrir, aliás, eu também não sabia como conhecia todo aquele procedimento. Expliquei a situação ao garoto que agora me acompanhava, ele concordou depois de gritar mais quinhetas palavras, e então acampamos após caminharmos uns dois quilômetros pelo Norte próximo a um rio que encontramos.
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