O Risco Da Liberdade
2 A Floresta
Notas iniciais
Acordei no dia seguinte com o barulho da corrente do rio que estava forte, o menino que acampou comigo havia dormido na parte de trás da árvore que utilizamos como encosto, mas ao olhar para onde ele supostamente estava não encontrei ninguém e nada. Levantei um pouco preocupado com a situação, porém de qualquer forma precisava despertar e me dirigi ao rio para lavar o rosto e tomar água, em seguida comecei a procurar frutas para comer e no meio do caminho encontrei alguns passos de pés descalços, fiquei mais tranquilo, pois imaginei que seriam do garoto, aliás, me perguntava toda hora qual era o nome dele, por algum motivo não havia me dito e fazia questão de escondê-lo. Trombei.
- Ei! Toma cuidado! — Era o esquentadinho.
- Desculpa! Eu não te vi!
- Já lembrou quem você é?
- Não.. e qual é o by Browse to Save\">seunome?
- Lu.
- Lu?! Quem é que chama Lu nesse mundo? — Dei gargalhadas.
- A tua mãe desgraçado!
- Des...
- Nem fala! Estou cansado de ouvir você falar isso toda hora! E por acaso, o seu nome é Miguel.
Não trocamos mais palavras até o fim da manhã, Lu ficou na parte de trás da árvore em que dormimos, e quando o sol estava mais forte decidimos voltar a caminhar em direção à qualquer lugar que até o momento nenhum de nós sabia onde era. Levamos algumas frutas na minha camiseta e andamos perto da margem do rio para bebermos água quando necessário.
Durante a caminhada o garoto não olhava para mim, a todo o momento parecia me culpar pelo que estava acontecendo, e se o que falou fosse verdade, de fato eu era responsável por aquela situação, mas se nós éramos escravos, até o momento estávamos livres e, portanto, não foi tão ruim assim.
- Por que você quer voltar para a aldeia?
- Tenho... — houve alguns segundos de silêncio — uma irmã e uma mãe lá. Preciso ajudá-las. Você não se lembra de nada mesmo, deveria tentar fazer uma volta a...
Antes de terminar a frase um tiro acertou a árvore que estava à frente de Lu, eu me abaixei e o puxei para longe da margem. Deram outros tiros e não pararam. Pedaços das árvores voavam quando as balas as atingiam, era assustador. Tentava encontrar um esconderijo, mas a mata já era um lugar que teoricamente onde poderíamos nos proteger, porém era apenas teoricamente. Eu me arrastei até um tronco caído do meu lado esquerdo e apontei para o garoto que se jogou atrás do objeto orgânico.
- Fica quieto! Eles provavelmente vão nos seguir.
- Você acha?!
- Não é hora para ironia!
Os tiros cessaram, ao menos três homens estavam atrás de nós, ouvimos passos por vários lados, de vez em quando eles atiravam, talvez pensassem que éramos nós, e isso queria dizer que não iriam nos capturar e sim nos matar. Entrei em desespero ao pensar na possibilidade de morte, porém algo me intrigava, não era possível que queriam a nossa morte por apenas fugirmos da aldeia escrava, fizemos alguma coisa e Lu estava escondendo.
- O que fizemos?
- Como assim?
- Nós pegamos algo deles? Batemos em alguém? Ouvimos alguma coisa? O que fizemos enquanto estávamos naquela casa? — Eu o chacoalhava.
- Nada... não fizemos...!
- Fala! Se tiver algo para falar, fala!
- Matamos!
- Hã?! Quem? Quer dizer, por quê?
- O chefe da aldeia. Ele não é o chefe. É o carrasco, é quem comanda os homens que estão atrás de nós.
- E por que nós o matamos?
- Eu... você não aceitou, eu o matei. Pensei que se fizesse isso nós ficaríamos livres. O problema foi que depois que eu fiz isso, você começou a discutir comigo, e então eu te empurrei. Você bateu a cabeça em uma cadeira do cômodo que estávamos e desmaiou. Os homens ouviram os barulhos e vieram verificar o que havia acontecido. Eu precisa me esconder e te esconder, e por sorte encontrei no assoalho um puxador que para a minha surpresa era uma portinhola que dava acesso por toda a casa, provavelmente para que o carrasco pudesse fugir quando fosse necessário. Peguei seu corpo e joguei no buraco, em seguida eu entrei.
Estava estático. Não sabia como reagir. O garoto ao meu lado era um assassino e os homens atrás de nós também. Porém não havia tempo para pensar no que eu havia descoberto, os homens estavam se aproximando e precisávamos fugir. Vi um clareira poucos metros adiante. Apesar de ser algo muito exposto talvez fosse uma boa forma de fugir, havia a possibilidade dos assassinos não nos perseguir devido ao fato de não ser um bom lugar para se esconder. Talvez eles imaginassem que não correríamos para aquela direção.
Puxei o menino e começamos a correr, porém os homens nos viram e atiraram em nossa direção. As balas acertavam as árvores e vários pedaços delas voavam, uma das balas passou muito próxima a mim. Quase fui atingido. Ao chegarmos à clareira não houve tempo para pensar, nós despencamos. Não vimos que havia um penhasco após aquela parte aberta. Eu me choquei com uma rocha antes de alcançar o rio. Afundei.
Estava zonzo. Abri meus olhos e estava nadando. Enxergava pouca coisa. Tudo estava embaçado. Procurei Lu, não o encontrei. De repente os homens apareceram no topo do penhasco e começaram a atirar, em mergulhei para fugir dos tiros, quando abri meus olhos debaixo da água encontrei um corpo, era Lu, estava inerte, porém havia a possibilidade de estar vivo. O sangue manchava a água, peguei o corpo e o levei para a margem do rio perto de uma pedra, era um ponto cego para os atiradores. Senti o pulso do menino, seus batimentos estavam fracos, fiz respiração boca-a-boca em Lu, porém ele não respondia, depois massageei seu coração, não houve resposta. Enquanto tentava reanimá-lo ouvi um barulho de algo que caiu na água, aliás, foram dois, achei estranho, porém continuei tentando fazê-lo acordar, quando olhei para trás vi os homens que nos perseguiam. Um deles era o gordo que havia visto na casa, e o outro era tão magro que parecia passar fome, tinha cabelos castanhos e longos que iam até o final do pescoço, muito maltratados, seus olhos eram fundos e usava roupas sujas, tinha um olhar frio.
Percebi que não conseguiria reanimar Lu. Não podia mais ficar lá. Abandonei o corpo inerte do garoto e me escondi em uma fenda que havia nas pedras, observei os homens chegando ao corpo e o pegando, o levando para longe. Como um último sinal de violência o magrelo atirou em direção às pedras tentando me acertar, mas atirou para uma direção totalmente oposta. Minha preocupação era com Lu, ele tinha pulso, mas não fora reanimado, não sabia se iria sobreviver, ou se já havia morrido.
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