Notas iniciais
Aeee!!! Lancei mais um. Desculpem a demora e espero que gostem.

O menino acordou em um lugar iluminado apenas por algumas velas. Era uma sala circular. Ele estava no meio, acorrentado. Levantou a cabeça e viu seus braços pendurados, machucados. A criança olhou em volta um pouco tonta e viu uma grade no lugar de onde deveria haver uma janela, estava à noite. Tentou se soltar puxando seus braços, porém não adiantou, além de estar fraca, as correntes eram fortes, de aço. Seus lábios estavam secos, as unhas quebradas, e as mãos bastante judiadas, a direita roxa. Quando não aguentou mais ficar com a cabeça erguida deixou-a cair, viu seus pés, um deles estava quebrado, provavelmente por causa da queda, os joelhos ralados.

Ele levantou a cabeça novamente ao ouvir o barulho de algumas pessoas, estavam conversando e rindo, isso o deixou furioso. Um homem abriu a porta de ferro, grossa e enferrujada e colocou um prato de qualquer coisa próximo aos seus pés e olhou-o no fundo dos olhos tristes e desiludidos e disse algo:

- A ordem que eu tenho — uma voz maléfica, sussurrava — é que devo colocar a comida em sua boquinha, mas como já sabe matar, consegue se alimentar com os pés.

O homem saiu e fechou a porta, as trancas não terminavam.

Lu olhou para o prato, achou melhor não comer o que estava nele. Sua cabeça pendeu para o lado esquerdo, fechou os olhos e começou a lembrar da aldeia, via o matagal que havia em volta, os animais que latiam, miavam, cantavam, as crianças maltrapilhas que brincavam nos pneus velhos pendurados ou jogados perto de um trator antigo e quebrado. Lembrava das mulheres conversando sobre os atores das revistas que rasgadas que encontravam perto de um aterro sanitário próximo à aldeia. Percebeu que era uma vida pobre, triste, miserável, mas eram felizes. "Será que a liberdade é real?", pensou ele. "Será que tudo isso é real?".

Antes que formatasse mais um pensamento a porta foi aberta novamente, agora por um homem de meia idade, baixo, gordo, usava uma camisa amarela, calvo, dedos e pernas curtas, não era um anão, sua calça jeans estava com a braguinha aberta. Ele andou em direção à Lu, e com a mão ressecada e de dedos curtos levantou a face da criança, em seguida apertou suas bochechas contra o maxilar, fazendo com que o olhasse mais fundo em seus olhos, as narinas do homem estavam abertas, bufando.

- Você... Matou o nosso chefe... E realmente achou que iria fugir? — Gritava.

Lu não conseguia falar, as mãos do homem seguravam sua boca.

O homem soltou o rosto do garoto e começou a andar para a porta que havia aberto.

- Deixem-o aí! Amanhã ele vai trabalhar no minério!

Lu não podia acreditar no que acabara de ouvir, iria voltar a ser escravo, e dessa vez em um lugar pior, mais sujo, com mais possibilidade de adquirir doenças, porém não eram essas suas maiores preocupações, quem trabalhava no minério não voltava, dormia no relento e corria o risco de ser morto pelos índios que moravam lá perto. Normalmente os homens que iam para esse lugar voltavam ou muito doentes ou não voltavam. Ele pensava em qual lugar Miguel poderia estar, e fazendo o quê. Se perguntava se havia encontrado ajuda, ou se teria sido pego. Sua cabeça não parava de pensar no que iria acontecer. Tudo girava... de repente... desmaiou.

- Acorda muleque! Acorda!

O menino olhou ao redor e viu um cenário diferente, eram homens suados e sujos com enchadas em suas mãos, batendo nas pedras. Um deles estava chacoalhando a criança jogada na terra. Lu acordou, tentou colocar-se de pé, ficou surpreso ao conseguir, seu pé quebrado estava quebrado, porém com uma tala que o fazi ficar em pé, mas não retirava sua dor, ele mancava. O homem que o tratava de forma rude deu uma picareta para ele.

- Começa a bater naquele lado lá, ó! — Apontou para a rocha humida e preta.

Lu falou meio grogue:

- Mas... o que é isso?

- É o minério meu fio! Bate lá, ó!

O garoto, sem muita noção do que estava fazendo se dirigiu para a pedra e começou a bater, fraco. Um outro menino que estava ao seu lado batendo na pedra pegou a picareta de suas mãos e bateu na pedra com força, abrindo um buraco no minério.

- É assim que se bate! Se bater mais fraco você não vai conseguir nada, apenas chamar a atenção dos homens armados que virão te castigar!

O menino era mais velho, alto, moreno... na verdade uma cor parecida com bronze, uma pele reluzente, viva, os cabelos curtos, corpo magro e os olhos caramelizados, a boca sadia, lábios carnudos. Sua roupa estava estragada, era branca no início, porém com o trabalho se tornou mesclada, um pouco de preto com branco e amarelo, ele estava sujo, as mão calejadas por causa do trabalho, usava uma calça jeans suja e rasgada, mais comprida que ele, cansado.

- Obrigado! Qual seu nome?

- Rodrigo. O seu?

- Lu.

- Nome estranho... por que Lu?

- Você não é o primeiro que me diz isso... qual sua idade?

- Dezesseis.

- Parece mais velho.

- É o minério, ele te deteriora e você nem percebe. Por causa desse lugar eu já peguei tuberculose e tifo. Quase morri.

- Hum... e como é que se sai daqui?

- Morto. Não há outra forma, quem vem para o minério não pode mais ter contato com o resto do grupo, nós somos ratos, transmitimos doenças perigosas, contaminamos a comida e os habitantes da aldeia. Mas mudando de assunto... eu nunca te vi aqui, você é novo?

- Mais ou menos. Eu era da aldeia, mas consegui fugir com um outro garoto, o Miguel.

- E como veio parar aqui?

- Na floresta que tem do outro lado da aldeia ficamos encurralados, mas de alguma forma o Miguel conseguiu fugir, eu fiquei. Acordei em um galpão acorrentado e então o novo chefe me falou que eu viria para cá, e... bom... aqui estou.

- Por que "novo chefe"?

- Eu assassinei o antigo.

Rodrigo ficou imóvel, colocou o dedo indicador direito nos lábios e pediu para que o garoto ficasse quieto, se aquilo fosse pronunciado em um tom mais alto poderia ser um problema. Apesar de serem escravos, alguns homens recebiam dinheiro para vigiar os outros, eles viviam no meio dos escravos, porém suas famílias eram poupadas e o dinheiro era enviado para elas. A morte do homem que fazia isso era um risco para os corruptos, quem quer que fosse governar a aldeia, os mineradores etc., poderia terminar com essa parceria.

Lu entendeu o recado e segurou a picareta novamente, ainda mancando começou a bater na pedra, dessa vez com mais força. Os pedaços voavam. Alguns batiam em seu corpo e o machucavam. Havia muita fumaça no local do trabalho, o barulho dos caminhões era intenso e por todos os lados encontrava-se homens armados com espingardas e outras armas pesadas. Todos trabalhavam em um buraco, porém o local era parecido com uma cratera, os caminhões subiam uma trilha para o topo. Nada era simétrico, havia morros e áreas planas, tudo de pedra, de vem em quando caía um rocha do alto e atingia um operário. Muitos morriam em acidentes todos os dias. Por sorte o local onde Lu trabalhava era distante da rota dos caminhões e das rochas que caíam, porém o veneno era igual. Havia contato com esgoto, ratos infectados, fumaça contaminada, e até a chuva era ácida, devido aos produtos químicos que eram lançados ao ar naquele lugar, tudo contribuía para a morte.

- Há quanto tempo você está aqui?

- Há doze anos. Me trouxeram para cá desde pequeno. Minha morreu e meu pai foi banido da aldeia pelos próprios moradores. Só sobrou esse lugar para nós.

- Como você não morreu?

- Não sei. Fiquei doente três vezes. A primeira foi uma doeça comum, sarampo, quase morri, mas fiquei bem. A segunda foi turbeculose, quase morri também, mas melhorei. A terceira foi turbeculose novamente, essa não foi tão grave.

- E seu pai?

- Morreu faz três anos de tuberculose.

- Você tinha doze anos. Deve ter sido difícil.

- Foi, mas foi melhor para ele também. Ficar nessa vida de escravo não vale a pena. Queria ter morrido antes.

As batidas na pedra continuavam, o assunto se desenvolveu e conversaram durante todo o expediente, que aliás, era muito longo, eles começavam às sete da manhã e iam até às vinte horas. Paravam cerca de meia hora para almoçar, alguns homens caíam de exaustão, outros como Rodrigo, estavam tão acostumados a rotina que apenas ficavam exaustos, mas sem despencar.

O dia acabou. Rodrigo foi dormir em uma cabana velha que alguns homens criaram para que as crianças e os menores de idade não dormissem no relento. Lu o seguiu. Lá havia outros garotos menores que dormiam. Lu deitou no chão. Rodrigo deitou perto dele, porém com uma distância aproximada de um metro. Ambos se olharam.

- Você acha que nunca vamos sair daqui?

- Sim. Desculpa ser sincero, mas é que eu estou aqui há tanto tempo que... não acrdito que possamos fugir, é impossível.

- Pensávamos assim na aldeia, mas eu e o Miguel fugimos.

- E agora você está aqui novamente.

Lu pensou.

- Qual sua idade Lu?

- Quanto você acha que eu tenho?

- Doze.

- Nossa... eu pareço ser tão novo assim?

- Bastante.

- Eu tenho quatorze.

Rodrigo ficou paralisado, não acreditava que aquela criança de meio metro de altura já tinha quatorze anos, parecia algo inimaginável. Ele deu um sorriso leve de incredulidade e surpresa. Olhou para o teto e colocou os braços atrás da cabeça, pensando. Imaginava como seriam as estrelas, e como seri apoder ver uma árvore em pé, sem estar cortada, como sempre vira. Devido a grande quantidade de fumaça que era lançada ao ar o céu naquela região era denso, escuro, nebulado, jamais vira uma estrela de forma límpida.

- Quatorze anos... — Disse ele balançando a cabeça desacreditado.

Os dois ficaram em silêncio durante algum tempo, até que Rodrigo perguntou algo:

- Você já namorou?

- Como assim?

- Você já se relacionou amorosamente com alguém? Quero dizer... já beijou alguém?

- Não. Eu nunca tive essa oportunidade. Na aldeia havia muitas pessoas enfermas e eu me relacionava mais com adultos, então nunca beijei ninguém. E você, já?

Eles sussurravam.

- Não. Aqui também só tem adultos e nunca encontrei alguém mais ou menos da minha idade.

Ambos se olharam. Os olhos brilhavam. A feição de carinho que Rodrigo demonstrava, fazia com que Lu não tirasse os olhos daquele olhar cativante, a pele do garoto adquiria uma cor bronzeada, dourada com a luz que a vela emitia. Rodrigo se aproximou de Lu, colocou sua mão esquerda em sua face, o outro menino se assustou um pouco e colocou sua mão direita na mão de Rodrigo indicando que iria retirá-la, porém desistiu no último momento, a força que faria para retirar a mão do menino de seu rosto afroxou-se e apenas repousava nos dedos largos de Rodrigo. O mais velho aproximou seus lábios dos de Lu e selou-os aos dele. Foi um beijo demorado, macio, romântico... Os lábios deles se separaram e Rodrigo olhou o menino, sua mão ainda repousada na face macia do mais novo, mexeu em sua orelha e em seguida teve sua mão retirada por Lu que virou-se e dormiu.

Lu estava arrependido, talvez não, apenas assustado, nunca havia feito isso e quando fez foi com alguém que conhecera há algumas horas. Sim, estava assustado, pensativo, dormiu. Rodrigo sem muita escolha fechou os olhos e repassou a cena em sua cabeça durante alguns minutos, feliz, contente, em seguida dormiu.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Aguardem o próximo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.