O Retorno do Guarda-roupa.
1 Capítulo 1 - O Guarda-roupa conta uma história.
Notas iniciais
Esta história aconteceu não faz muito tempo. Mas tempo o bastante, para que garotos ainda usassem roupas como as de pastores de igrejinhas, e meninas usassem vestidinhos como os de princesas. As crianças pareciam bem mais inocentes com quelas roupinhas. Mas não é este o verdadeiro assunto que pretendo contar. Então vamos ao que interessa:
No Brasil, moravam dois irmãos chamados Gabriel e Maria – Descendentes de ingleses. Enquanto voltavam para casa, depois de um dia chato na escola, Gabriel olhava cada janela do carro, prestando atenção no mundo a sua volta. Infelizmente o que ele viu, não lhe agradava nenhum um pouco. Viu as lixeiras das ruas vazias, enquanto o lixo se expandia pela calaçada. Viu os bebados brigando entre si, chamando palavrões. Viu os assaltantes levarem todo o dinheiro de uma pobre senhora que chorava.
Maria, porém,(que era quatro anos mais nova que Gabriel) não prestava atenção a essas coisas. Até que notou uma expressão diferente no rosto de seu irmão.
– Por que está chorando, Gabriel? – Perguntou ela.
Ele nada respondeu. Não tirou os olhos de uma praça, enquanto o carro não a ultrpassou.
– O que tem, menino? – perguntou também o motorista.
– Não é nada! — Respondeu Gabriel irritado. Mas a verdade foi que ele viu, sim, alguma coisa naquela praça. Uma coisa que o fez pensar que aquele mundo não tinha mais jeito. Que aquele mundo estava perdido.
Viu três rapazes, umas duas vezes maior que ele, agredindo de maneira bastante violênta, seus dois melhores amigos, que não tinham a mínima chance de se defender. Viu depois que os valentões pegaram um saquinho de biscoitos de um de seus amigos e alguns trocados do outro. Então Gabriel pôs-se a chorar (eu faria o mesmo se estivesse em seu lugar) por não poder ajuda-los e ter que ver toda aquela cena.
– Este mundo está cheio de coisas ruins. Eu queria tanto mudar isso – disse ele para si mesmo.
Ao chegarem em casa, os dois irmãos, viram a mãe radiante. Ela acabara de comprar um Guarda-roupa novo. Não era um guarda-roupa comum. Pois era muito antigo e ela ia usa-lo apenas para enfeitar uma sala vazia, onde ela pretendia guardar vários móveis antigos, para uma coleção.
– E veio direto da Inglaterra! É tão antigo que nem sei como ainda está de pé! — disse ela, que se orgulhava de ser descendente de ingleses – Oh! O jantar. Esqueci completamente. Que coisa, que coisa! – e correu para a cozinha.
Depois que a mãe se foi, as duas crianças não sentiram vontade de sair daquela sala, mesmo estando vazia, e sem nada pra fazer. As crianças sentaram-se no chão e fixaram os olhos no guarda-roupa. De repente elas estremeceram. Como se houvissem uma voz grave em meio o silêncio.
Então Maria correu para o guarda-roupa e adentrou nele. Gabriel quase não notou isso, pois começaram a aparecer imagens em sua mente – Assim como na de Maria, que já não se via mais – Como quando se ler uma história e você imagina os personagens fazendo o que é descrito.
Em sua mente apareceu uma terrivel feiticeira, bastante pálida. Em seguida quatro crianças entraram em um lugar diferente pela passagem de um guarda-roupa, e encontraram um inverno de cem anos. Depois as crianças lutaram com a feiticeira. E por fim, rugiu um leão. Depois de ver o leão, as imagens desapareceram como fumaça.
– O que faz aí, Maria? – gritou o menino.
Maria voltou correndo e gritando:
– Venha! Venha! Vamos brincar.
– Estou velho de mais para isso.
– Mas vai ser divertido. Podemos fingir que entramos em um mundo diferente. Onde há animais e árvores que falam, e seres que não existem neste mundo. Um lugar tão belo...
– E com tantas venturas... Sem muitos problemas... Um mundo chamado Nárnia, não é?
O que conteceu em seguida, foi uma maravilhosa brincadeira de criança, cheia de imaginação e aventuras. Brincavam que derrotavam a feiticeira, que viram em suas mentes e também que conhecera aquele mundo. Mas uma hora a brincadeira acabou. "BUM!" ouviu-se um barulho, que mais parecia uma canção triste. O barulho vinha de dentro do guarda-roupa.
– Será que pulamos tanto, que a madeira quebrou? – sugeriu Maria, afim de solucionar o problema.
– Não foi nada disso, Maria – respondeu-lhe Gabriel – Deixe-me ver...
O menino entrou no guarda-roupa – que estava vazio – e logo avistou uma luz lá no fundo. Uma luz suave. Então ele avançou para ela.
Alguns minutos depois, vendo que o irmão não voltava, Maria foi ver o que acontecera. Viu e fez o mesmo que Gabriel.
Ao chegar na luz, viu que se encontrava em uma linda floresta coberta de neve, numa noite de luar. Os flocos de neve caiam, deixando a garota maravilhada com o que via – já que no Brasil não se neva em nenhuma estação do ano. Ela nunca tinha visto ou tocado na neve.
– Eu sabia que o guarda-roupa não estava mentindo! – gritou ela muito contente.
Olhou a sua volta e viu grandes montanhas ao sul. Um rio que corria lá longe a direita, e outro a esquerda, onde havia na margem uma casa de castor. E quando olhou para seu irmão, viu que ele olhava para algo no chão, que estava um tanto longe, lá no centro da floresta, onde a lua iluminava mais. Naquele lugar havia um lampão caido na neve, cuja a luz já não acendia mais.
– Foi isso que fez o barulho – disse Gabriel – Acabou de cair. E veja! Tem raizes na outra ponta. Era uma árvore.
– Oh! – surpreendeu-se Maria – Nunca vi esse tipo de árvore antes.
Gabriel andou até o lampião, agachou-se, e acariciou o tronco daquela árvore, percebendo logo que não era madeira.
– Isto é uma loucura! – exclamou ele, ainda acariciando o lampião – Parece tão real! Real demais para um sonho.
– Do que está falando? – perguntou Maria – É claro que não é um sonho! É tudo real. Será que não vê?
– Acho que estou percebendo que tudo é mesmo real. Pois esse frio não é nada pouco.
– Grrrrrrrr – ouviu-se em meio a mata de gelo.
– O que é isto? – assustou-se Maria – Gabriel!
Então uma enorme onça avançou para eles. Rugindo e amostrando os dentes e as garras. Parecia muito selvagem. Sim, não é nada comum deparar-se com onças na neve. Mas logo a frente vocês entenderão porque disto.
A onça arregalou seus grandes olhos verdes ao ver as crianças, mas apenas por um segundo. Depois deu um pulo para cima de Gabriel. Este pegou algo qualquer que encontrou no chão e atirou no felino. Foi algo pesado, pois a onça caiu na neve. Mas dois segundos depois já estava de pé e dessa vez foi para a presa mais fácil: Maria. Antes que a enorme onça chegasse até a menina, uma outra onça, maior ainda e muito bonita, apareceu. Pulou em cima do primeiro felino e começou uma briga, com patadas e garras enfiadas no coro. Arranhões foram surgindo, até que a primeira onça não aguentou e fugiu.
As crianças ficaram com mais medo desta onça que os salvou do que da outra. Pois viram como era forte lutando, e agora estavam de cara com ela.
– Pesso perdão por essa cena, filhos de Adão e Eva – disse a onça.
– Você não vai nos matar? – perguntou Gabriel, sem tirar os olhos, dos próprios olhos da onça. Acahava eles tão brilhantes, de um verde tão vibrante, que mesmo que tentasse, não conseguia desviar o olhar.
– Claro que não, senhor. Estou aqui para ajuda-los. Não estão com frio?
– Sim estamos! – Responderam as crianças.
– Então quer dizer que existe mesmo essa feiticeira? – perguntou Gabriel – Por isso que só há neve aqui?
– Oh! Existiu uma feiticeira a muito tempo. Muito antes do fim do mundo. Antes mesmo da Idade do Ouro de Nárnia. Isso aqui é só o inverno. Me acompanhem até minha casa e eu explicarei tudo a vocês.
– Talvez devessemos pegar alguns lençóis em casa, para que não sintamos tanto frio, enquanto visitamos a casa de nossa amiga – sugeriu Maria. E teria sido uma ótima idéia. Mas quando viraram-se, viram que a passagem pelo guarda-roupa já não existia mais.
– Eu arranjo uma pele de urso bem quentinha – disse a onça.
– Mas como vamos voltar para o nosso mundo? – perguntou Gabriel.
– Agora só há um jeito. Venham logo. Estamos perdendo muito tempo aqui fora.
As pobres crianças andaram por duas horas e meia com a onça, em silêncio, por instrução da mesma. Até que chegaram em uma enorme clareira, sem gelo algum. A relva era tão macia que Maria não aguentou e se deitou lá mesmo, bastante cançada. Perto das árvores que começavam a aparecer bem longe, havia uma caverna com uma luz forte saindo dela. De onde eles estavam, dava uma hora para chegar até lá.
– O que tem lá dentro? – perguntou Maria.
– Amigos – respondeu a onça.
Fale com o autor