O Retorno - A Jóia da Rainha - (Livro 1)
6 Segurança! Segurança!
Notas iniciais
Quando contou os motivos da suspensão para seu pai, ele riu e lhe disse ‘’Parabéns’’.
Ela seria suspensa do dia seguinte, sexta-feira. Então teria três dias para pensar nas coisas boas da vida sem ninguém na sua cabeça.
Realmente, os três dias foram calmos. Seu pai trabalhou na sexta-feira e no sábado consertando o Museu de Arqueologia da USP, os estragos nem foram tantos, porém destruíram a peça principal da exposição egípcia: Uma tampa de sarcófago. Picharam um olho de Hórus nela e ela precisou ser restaurada por uma enorme equipe de arqueólogos e artistas. Além de ter tido seu vidro de proteção quebrado.
A sexta-feira de Victoria foi baseada em ler. Entrou no seu Twitter e ficou procurando alguém que escrevesse boas fictions. Leu três, e quando acabou já era noite, decidiu baixar algumas músicas e assistir um pouco de televisão. Passava uma matéria sobre a invasão do museu, disse que os suspeitos não deixaram nenhuma pista e que a polícia os procurava incessantemente.
Victoria acordou tarde no sábado, havia passado horas conversando com Lucca via WhatsApp, ele parecia ser um menino muito mais legal do que aparentava, porém era extremamente tímido. Após acordar, foi até a cozinha, onde a faxineira lavava a louça:
— Bom dia — disse.
— Bom dia! Fiz ovos para o café da manhã, devem ter esfriado, mas se quiser me entregue que eu os esquento no fogão para você. — respondeu.
‘’O que deu nessa mulher?’’, pensou Victoria, aceitando os ovos. A faxineira se chamava Raquel, era parda, não muito alta, tinha cabelos com escova progressiva e era sorridente. Victoria nunca tinha falado muito com ela, apenas coisas como ‘’Ponha as camisetas aqui, deixe que eu as guardo’’ ou ‘’Já estou saindo, para não te atrapalhar’’, além de bom dia e obrigado. Afinal, não era por sofrer preconceito que precisava tratar mal as pessoas.
— Seu pai saiu para terminar as últimas coisas no museu, disse para você se arrumar que ele quer te levar ao shopping. — completou a faxineira.
— O.k; Obrigado — respondeu Victoria, e continuou comendo.
Subiu para o seu quarto, vestiu um vestido com meia-calça e colocou um sobretudo e depois calçou seus coturnos. Pegou sua bolsa, colocou o celular e depois sua lista de livros para comprar, que ela sempre carregava consigo, afinal, nunca se sabe quando vai a uma livraria. O próximo livro de sua lista era ‘’As Memórias de Cleópatra — A Filha de Ísis’’, irônico, o Egito estava tomando conta de sua vida.
Foi esperar seu pai no jardim, era agosto e estava muito frio. E Victoria amava ficar fazendo fumaçinha com a boca. Estava olhando os poucos passarinhos voarem por cima de sua cabeça, quando um pousou um uma enorme árvore que havia na casa do vizinho. Entre as casas, havia cerca-viva, e essa era formada de murtas (1) que constantemente eram aparadas pelos jardineiros. A árvore cresceu por entre as murtas e seus galhos pareciam enormes braços. De repente, ao olhar para baixo, Victoria se assustou, dois olhos lhe observavam por entre as murtas. Assustada, ela correu para casa e fechou a porta, era mais fácil seu pai entrar e lhe buscar.
Dali alguns minutos o carro de seu pai estacionou na garagem, logo entrava pela porta:
— Oi filha! Dormiu bem? Raquel lhe avisou sobre o shopping não é?
— Sim, pai.
— Ótimo, vou lá em cima trocar de roupa, pois estou cheirando à múmia. — os dois riram.
Logo saíram de casa, seu pai havia decidido levá-la ao Shopping Bourbon do bairro de Vila Pompéia. Era o shopping preferido de Victoria, por causa de sua livraria que era enorme.
Chegando lá, decidiram ir almoçar primeiro: Victoria decidiu comer fast-food mesmo, enquanto o pai foi à outro restaurante e pediu um filé ao molho de mostarda. Sentados à mesa, começaram a conversar:
— Filha, desculpe não ter dado para nos falarmos tanto, mas saiba que estou orgulhosíssimo de você pelo que fez na escola. Pelo menos agora demonstraram mais respeito. E eu não ligo se você foi suspensa. — ele deu uma piscadela.
— Tudo bem, pai. — e olhou para a cadeira ao lado, sua mãe costumava sentar naquele lugar sempre que se sentavam em qualquer restaurante — E a mamãe... Está bem?
— Bom... Sim. Teve apenas um ataque de nervos aquele dia, havia discutido com o reitor da Universidade, mas nada demais.
— Ouvi ela falando que me odeia — Victoria encarou a bandeja, havia acabado de comer — e sobre ódio humano, e se entendi direito, algo sobre Atlântida? —olhou para o pai, curiosa.
— Bom... É... — o pai queria fugir do assunto — Ela estava estressada. Quer ir comprar um livro?
Victoria bufou. O que estavam escondendo dela? Ela tentou ignorar e foram até a livraria. Onde Victoria comprou o livro que queria sobre Cleópatra.
— Uma grande rainha. — disse o pai. Victoria assentiu.
Decidiram passear pelo shopping após o pai comprar um livro para ele também. Victoria parou em uma loja de roupas, havia amado um cinto que o manequim vestia, deixou seu pai esperando sentado numa banco à porta e entrou:
— Olá, será que você teria um cinto daqueles do manequim na vitrine? — perguntou ela à vendedora.
— Não temos. — respondeu a vendedora, grossa.
— E vocês não vendem o do manequim? — perguntou.
— Até vendemos, mas não para você. — terminou a vendedora.
Victoria fez a mesma cara que Juliana depois de seu discurso de desculpas. Quem aquela mulher achava que era para falar com ela daquele jeito?
— Tudo bem, encontro em outra loja, boa tarde para você. — disse, irônica. ‘’Tomara que seja demitida’’, pensou.
Ricardo, percebendo a tristeza da filha, perguntou o que havia acontecido, e Victoria lhe contou.
O pai ficou furioso, e entrou na loja com a filha:
— Filha, olhe ali os cintos! — ele apontou para uma arara.
— Mas a vendedora... — gaguejou Victoria.
— Oi, quero falar com sua gerente — disse Ricardo à outra vendedora.
Logo chegou uma mulher alta, com cabelos presos num rabo, e vestida elegantemente, assim como todas as vendedoras da loja. Porém tinha um ar de superioridade que lhe tornava um tanto mesquinha.
— Olá, — disse Ricardo — queria fazer uma reclamação.
— Pois não; — disse a gerente.
— Minha filha acaba de ser maltratada por uma vendedora que lhe disse que não tinha um produto que vocês têm e ainda por cima foi grossa com ela.
— E qual seria o produto?
— Aquele cinto que está exposto naquela arara. — terminou Ricardo.
No exato momento, Victoria experimentava o cinto.
— Ahm... Eu estou só experimentando para ver se realmente fica bom. — disse Victoria.
— Segurança! Segurança! — gritou a gerente — Aquela garota está nos furtando!
Dois homens-montanha apareceram, e pegaram Victoria e Ricardo pelos braços.
— Mas têm outras clientes experimentando também! — protestava Ricardo — Ela não está te furtando!
A gerente chegou perto de Victoria antes que os seguranças lhe jogassem para fora, tomou o sinto e lhe disse, baixinho:
— É um cinto lindo... Porém ele ficou horrível com você vestindo ele. Nunca mais ouse vir em minha loja.
Victoria congelou, nem se deu conta de que havia sido jogada no meio do corredor do shopping.
— Vamos embora, filha — disse seu pai, pegando-a pelo braço.
No caminho de volta ao estacionamento, passando por uma petshop, Victoria viu quem estava lá dentro... Sim, os Maldotti. ‘’Eles me perseguem!’’, pensou Victoria.
Os irmãos estavam comprando um animal incomum, Victoria viu de relance uma caixinha transparente com buracos, e lá dentro, uma aranha. ‘’Quem quer ter uma aranha?’’, pensou Victoria, mas logo deixou isso para lá. ‘’Tomara que ela te pique, vadia’’, concluiu.
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