Notas iniciais
Sumário de palavras: (1) Esquife: Tampa de um sarcófago. (2) Ghostface: Relacionado ao rosto do assassino dos filmes de terror da franquia ''Pânico''.

O dia estava sendo ótimo. Até a hora da saída.

Victoria estava saindo do prédio da escola conversando com Lucca quando viu, do outro lado da avenida, uma Porsche Cayenne. A mesma que havia tacado a pedra. E quem estava entrando nela? Sim, os irmãos Maldotti.

Victoria se irritou, pegou a maldita pedra e atirou em direção ao carro, que saia. A pedra não acertou o carro, e sim o muro de vidro da empresa que existia em frente à escola.

***

— Ficou louca? — disse Maria, a orientadora pedagógica da escola, após os seguranças da escola e da empresa levarem-na para sua sala.

— Não! Eles tacaram a pedra em mim.

— Quando?

— Hoje... Eu vinha para a aula e jogaram a pedra em mim!

— Hmm, vejo pelo diário que chegou atrasada. Enquanto eles já estavam aqui. Então como jogaram a pedra em você?

— Não sei quem foi, mas foi no carro deles!

— Mocinha, pare de mentiras. Você será advertida arcará com os prejuízos. E você pedirá desculpas aos Maldotti amanhã.

— Não!

—Não me faça te suspender. — terminou a orientadora.

***

— Ah filha...

— Pai, foram eles, eu juro!

— Acredito em você... Mas era apenas uma pedrinha, filha!

— Apenas uma pedrinha? Claro, uma pedrinha do tamanho da palma da minha mão com um olho de Hórus pintado à sangue. Normal, acontece sempre; Chovem pedras assim.

— Pare com essa ironia... E... Olho de Hórus?

— Sim. Pintado à sangue.

—Filha, acho que... Precisamos conversar...

— Pai! Não estou ficando louca!

— Não é isso...

Nisso o celular de Ricardo tocou.

— É o meu amigo Felippo... Aquele italiano que cuida do museu de arqueologia da USP... — atendeu — Alô... Sim, sou eu... Como assim arrombado? Picharam as antiguidades egípcias? O esquife (1)? Ah meu Deus... Estou indo. — desligou.

— Tá saindo?

— Tenho que sair. Desculpe filha. Invadiram o museu, preciso avaliar os danos.

Ricardo se levantou, buscou uma jaqueta e saiu, deixando Victoria sozinha em casa.

***

O dia seguinte foi aquilo que Victoria chamaria de humilhação total.

Chegou à escola tentando se esconder nas sombras. Nem ferrando pediria desculpas aos Maldotti. Quem sabe, não a vendo, a orientadora esquecesse?

Passou-se a aula de biologia, educação física (que Lucca ficou assistindo), química e geografia... O dia estava acabando, ainda haviam esperanças. Era só conseguir sobreviver às duas aulas de matemática que faltavam.

Começou a primeira aula, Victoria notou que Juliana lhe dava um sorriso sarcástico. Mas nada aconteceu.

Durante a metade da segunda aula o pior aconteceu: A orientadora Maria apareceu na porta. Victoria gelou, tentou escorregar na cadeira, não olhava na direção da porta nem que lhe pagassem. A orientadora havia mesmo esquecido. Não fosse um detalhe infeliz:

— Orientadora Maria! Tudo bom com você? — disse Juliana do fundo da classe — Preciso conversar com você sobre a apresentação de final de ano. Posso ir na sua sala depois? — e terminou com um sorriso de felicidade, virado para Victoria.

‘’Se algum deus de qualquer religião um dia existiu, me proteja pelo amor de você.’’, pensou Victoria.

— Claro, Juliana. — respondeu a orientadora — Mas, espere, tinha algo mais a fazer aqui. Posso entrar professor? — o professor deu passagem à orientadora, Juliana só não pulou de alegria no fundo da sala porque a carteira lhe impedia, Igor estava rindo maliciosamente. — Professor, posso chamar uma aluna aqui? Precisamos terminar um trato. — O professor, não sabendo do que se tratava, assentiu. — Senhorita Fortuna, pode se dirigir aqui à frente por favor? — virou-se para Victoria. Que corou.

— Tenho opção? — disse, baixo.

— Ontem tivemos um incidente de muito mau gosto aqui na escola, e Victoria deve desculpas aos irmãos Maldotti. Por favor, querida.

Os irmãos sorriam tanto no fundo da sala que pareciam um elástico prestes a estourar.

— Não vou fazer isso. — respondeu Victoria, furiosa.

— O que foi, Medusa? — gritou Igor do fundo da sala, a sala se desfez em risadas, Lucca encarava a cena, parecia entender o que Victoria estava passando.

— Senhor Maldotti, por favor! — exclamou a orientadora. A sala se silenciou. — Vamos, Fortuna.

Apesar de tudo, durante esse meio tempo, Victoria havia conseguido pensar numa desculpa de emergência.

— Bom, classe, — começou — A orientadora me pediu para vir aqui na frente, ao invés de nós conversarmos à sós com os Malsdotes, ops, Maldotti, pois ela também quer que eu me desculpe publicamente de todos os danos que eu venho causado à essa classe sem cérebro. Bom, me desculpem, acho que não me encontro no nível de vocês, juro que tentarei — disse Victoria, que sentiu que aquele era o acontecimento gota d’água e começou a colocar tudo para fora —E principalmente porque ontem fui usar os poderes de Medusa que vocês mesmos me arranjaram, tentando devolver uma pedra que eles tacaram em mim e acertando a vidraça da empresa em frente à escola. Bom, me desculpem por tentar apedrejar vocês Maldotti. Bom, pensem o lado bom, a Medusa estava boazinha até, ao invés de empedrar vocês, apedrejou. — disse Victoria, sabia que não falava nada com nada, estava falando seus pensamentos — Juro que não se repetirá. — E deu um sorriso tão forçado que quase estourou suas bochechas.

— Para minha sala, Fortuna, agora! Pegue seu material e vamos. — disse a orientadora, furiosa.

Victoria pegou seus materiais e se dirigiu à porta da sala, atrás de Maria.

— Desculpe o inconveniente, professor. — disse ao professor, que olhava, atônito, a aluna. Em seguida olhou para os Maldotti, o sorriso havia se desfeito numa boca de Ghostface (2). Lucca sorria como um bebê.

Victoria foi suspensa, mas valeu a pena.

Notas finais
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