O Retorno - A Jóia da Rainha - (Livro 1)
4 Apedrejada
Victoria estava tão mal que não lembrava o que aconteceu. Apenas acordou no dia seguinte em sua cama com um bilhete na mesa de cabeceira ‘’Fui conversar com sua mãe, o café está posto na mesa para você, a faxineira está aí, qualquer coisa me liga. Beijo, Papai.’’.
Naquela noite não sonhou nada. Sua cabeça estava chocada demais para isso.
Desceu as escadas para tomar o café, as aulas haviam começado havia dez minutos, ela não se importou. Chegaria para o segundo período. Teria que ir a pé, pois não tinha carona nem dinheiro para um táxi.
Andava que nem um zumbi. Estava acabada.
— Vai terminar logo. Você conseguirá concluir os objetivos. — disse a faxineira.
Victoria a encarou. Surpresa.
— Como?
— A profecia Atlanti se concluirá, o real juízo se proporá, e a escolhida os humanos salvará...
Aquilo era muito para a cabeça de Victoria, que subiu as escadas rapidamente. Se vestiu, pegou sua bolsa e saiu em direção à escola. A pé, ela levaria em torno de meia hora para chegar.
Decidiu esquecer a loucura que estava sua vida por apenas um momento. Pegou o iPod e ligou uma música que havia descoberto outro dia no YouTube: Exotic, da Pryianka Chopra, com participação de Pitbull. Victoria não gostava das músicas que tocavam nas rádios, eram sempre repetidas, ela gostava de ser diferente, conhecer músicas novas, assim descobriu diversos cantores.
Estava distraída subindo a rua que dava na escola quando passou uma Porsche Cayenne em alta velocidade, e o passageiro atirou uma coisa dura nela.
— Vai arranjar o que fazer! Maldito! — gritou Victoria.
Agachou-se para descobrir o que havia lhe acertado: Uma pedra. Quem tacaria uma pedra numa pessoa? Jogou a pedra no chão e continuou andando. Sentiu sua mão molhada e virou-a para ver o que era: Sangue. Tomou um susto, teria a pedra te machucado? Limpou a mão num lenço e olhou-a. Nada. A pedra não tinha a machucado. Com um pulo, deu a volta e foi buscar a pedra.
Victoria achava que nunca tinha se assustado tanto até ver o outro lado da pedra. Um olho de Hórus estava pintado nela, à sangue. Victoria ficou imóvel por alguns instantes. Quem teria coragem de fazer isso? ‘’Isso não é coisa que se faça com um pedestre, brincadeiras de mau gosto’’. Pegou a pedra e embrulhou-a no lenço, para caso encontrasse seu dono, ‘’devolvesse’’.
Continuou andando até a escola com aquilo na cabeça. E de repente ouviu uma voz que quase fez seu coração sair pela boca:
— Oi! — disse Lucca.
— Ah! Oi! Desculpa, você me pegou de surpresa.
Lucca riu. — Desculpe eu, por chegar assim do nada.
— Você não estava na aula?
— Perdi o ônibus.
— Entendi... Olhe, me desculpa por ontem — disse ela — tive um dia realmente pesado.
— Eu entendo... Aquela menina, Isabela, ela é muito esquisita.
— Ela é uma vaca, isso sim.
Lucca riu de novo. — A tarde ela ficou me irritando perguntando como eu escapei de virar pedra.
— Ai...
— Não ligue. Afinal, por que te chamam de Medusa?
— Não sei, apenas pegou. A outra vaca, Juliana Maldotti, começou a me chamar assim... Não sei se você percebeu, mas as pessoas... Me evitam.
— Mas por quê? Você é como qualquer outra! Digo, pessoa.
— Não sei, as pessoas apenas não gostam de mim.
— Eu gosto.
Victoria corou, ficou quieta. Um silêncio tomou conta. Chegavam ao portão da escola.
— Acho que te chamam de Medusa por que qualquer um congela olhando seus olhos... São lindos.
Victoria corou de novo. — Obrigada...
Victoria seguiu para a sala de espera em silêncio com Lucca. Acabou descobrindo que os dois eram da mesma sala. Na espera, ele se divertia com um joguinho que havia baixado em seu celular. Victoria não havia reparado muito nele, agora viu que ele era um garoto bonitinho até: Alto, olhos esverdeados, cabelos lisos bagunçados e não muito magro nem gordo.
— Você gosta de esportes? — perguntou ela.
— Assisto. Não posso praticar.
— Por quê?
Ele levantou a manga de seu braço esquerdo, que Victoria não havia reparado. Tinha uma prótese de silicone de antebraço, e acima do cotovelo, uma enorme cicatriz.
— Oh. O que foi isso?
—Um acidente.
— Oh...
Uma lágrima escorria no rosto do garoto.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, só um mal pensamento.
O sinal bateu. Lucca limpou a lágrima e subiu as escadas em direção à aula de química com Victoria. Sentaram-se juntos. Victoria se sentia culpada por tê-lo feito chorar, mesmo não sabendo o porquê. Segurou sua mão:
— Me desculpe.
— Não foi nada. — ele sorriu, tinha um lindo sorriso.
E eles assistiram à aula de química de mãos dadas. Ela estava sem graça de dar a mão para ele. Mas ele era seu primeiro amigo, que não era seu pai. Então aquela carência de anos ali se manifestou. Ele apertou a mão dela, sem se manifestar. E assim ficaram.
Finalmente o dia estava melhorando.
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