JungKook acorda abruptamente, o coração acelerado e o suor gelado escorrendo pela sua testa. Seus olhos se arregalam enquanto ele tenta se recompor, ainda preso na lembrança vívida do pesadelo que acabara de ter. Ao seu lado, Ren, que dormia tranquilamente, se assustou com o movimento repentino.

— O que aconteceu? — Ren pergunta, a voz sonolenta e preocupada, enquanto se vira na cama para olhar JungKook.

JungKook tenta disfarçar, passando a mão pelo rosto com frustração.

— Foi só um pesadelo — Ele murmura, tentando afastar os pensamentos sombrios que ainda o assombravam.

Ren franze a testa, ainda não totalmente convencido.

— Sobre o que era? — Ele insiste, observando o semblante tenso de JungKook.

JungKook dá um leve sorriso, forçando a calma.

— Besteira. Não se preocupa com isso. Volta a dormir — Ele diz com um tom suave, mas decidido.

Ren, no entanto, não parece totalmente convencido. Ele se vira de lado e observa JungKook com preocupação.

— Não é a primeira vez que isso acontece, JungKook — Ele diz, o tom de voz baixo, mas firme.

JungKook se afasta, colocando as mãos na cabeça e suspirando. Ele se levanta da cama, indo em direção ao banheiro sem olhar para Ren.

— Vai voltar a dormir — Ele manda, mais para si mesmo do que para Ren, já se afastando da cama.

Ren, relutante, olha para o relógio, que já marcava mais de 03:00 da madrugada. Ele observa JungKook por um momento e então, com um suspiro, volta a se acomodar na cama, esperando que ele voltasse logo.

No banheiro, JungKook se vê diante do espelho, com o rosto pálido e os olhos cansados. Ele começa a lavar o rosto com água fria, tentando afastar a sensação de pesadelo que ainda o consumia. O pesadelo, a perda do primeiro paciente, o momento exato em que o coração dele parou, o som da máquina que não havia mais batido em resposta... JungKook se lembra dos rostos na sala, as palavras ditas, a sensação de impotência que o consumia, e, em particular, a presença de Kim InSu, sua residente e noiva, que tinha sido a grande causadora de tudo. O erro que ele cometera, a confiança traída e tudo que se seguiu àquela noite fatídica.

JungKook respira fundo, tentando afastar os fantasmas do passado. Ele não gostava de se lembrar do que aquilo havia causado em sua vida, o peso do que carregava. Mas não havia como evitar. Sempre voltava. Sempre o assombrava, especialmente nas madrugadas silenciosas como aquela.

Ele sai do banheiro e volta para a cama, se aproximando de Ren com um olhar determinado. Sem dizer uma palavra, ele o beija suavemente, acordando-o de um sono profundo. Ren abre os olhos devagar e, ao perceber o que estava acontecendo, um sorriso surgindo em seu rosto.

— Eu sei o que você quer — Ren diz com um sorriso travesso, já entendendo o motivo da visita de JungKook.

JungKook não responde, apenas puxa Ren para mais perto, precisando disso. Ele sabia que aquele momento, aquela sensação, poderia ser a única coisa capaz de apagar os ecos do pesadelo, de tirar os fantasmas de sua mente, mesmo que temporariamente. Ele precisava disso para esquecer, ainda que fosse por apenas alguns minutos.

O passado ainda o perseguia, mas por agora, naquele momento, ele tentava se perder na quietude da cama e no corpo de Ren. O resto do mundo não importava, nem os fantasmas, nem os arrependimentos. O que importava era aquele alívio momentâneo, a fuga.

**

JiMin estava a uma semana participando das sessões de fisioterapia e aquela seria sua última antes de voltar para o trabalho. O tornozelo, que antes parecia frágil e dolorido, já estava melhor. A cada dia, ele sentia a rigidez diminuindo, mas a recuperação ainda estava longe de ser perfeita. Ele sabia que seria desafiador voltar ao ritmo intenso das cirurgias e das longas jornadas no hospital, mas não podia mais adiar.

Na manhã da última sessão, ele entrou na sala de fisioterapia e encontrou Dr. Hyun esperando por ele, como sempre, com seu sorriso tranquilizador.

— Bom dia, JiMin. Como se sente hoje? — Perguntou Hyun, observando-o de perto.

JiMin sorriu, tentando esconder qualquer vestígio de preocupação.

— Melhor, muito melhor, na verdade. Acho que já estou pronto para voltar ao trabalho — Disse, com uma ponta de ansiedade na voz.

Hyun fez um gesto para que ele se sentasse na maca, dando início à sessão com um olhar atento.

— Eu sei que você está ansioso, mas lembre-se, a recuperação completa exige paciência. O importante é que, com o tempo, seu tornozelo vai ficar mais forte — Hyun aconselhou, enquanto começava os exercícios de alongamento e reabilitação.

JiMin sabia que Hyun estava sendo cuidadoso, mas não conseguia deixar de se sentir frustrado com a necessidade de ser tão paciente. Ele queria voltar a operar, a fazer parte da equipe de cirurgia, mas estava claro para ele que seu corpo ainda precisava de mais atenção.

A sessão prosseguiu de forma tranquila, com Dr. Hyun guiando os movimentos com precisão. A cada alongamento, JiMin sentia a dor diminuir um pouco mais, mas a rigidez ainda estava lá, como uma lembrança de como seu corpo estava frágil.

Quando finalmente terminaram, Hyun olhou para ele com um sorriso de aprovação.

— Está bem melhor do que quando começou. Agora, é só continuar os cuidados em casa. Evite se sobrecarregar no início, e logo estará de volta com tudo — Disse Hyun, enquanto JiMin se levantava da maca.

JiMin sorriu, agradecendo pela paciência de Hyun ao longo daquela semana de recuperação.

— Obrigado, Dr. Hyun. Vou seguir suas orientações. Eu só... preciso voltar ao meu trabalho logo — Disse, tentando disfarçar a ansiedade.

— Eu entendo. Mas lembre-se, o trabalho não vai a lugar nenhum. Cuide de si primeiro. Está liberado. — Hyun respondeu com um sorriso.

Após a despedida, JiMin caminhou pelos corredores do hospital, o som de seus passos ecoando enquanto ele pensava no próximo passo. Ele sabia que estava prestes a voltar à rotina intensa, mas a sensação de estar pronto o dominava.

No momento em que ele chegou ao seu quarto, estava ansioso para contar a JungKook que já poderia voltar ao trabalho. Enquanto pensava nisso, o som da porta se abriu e JungKook entrou, com sua expressão habitual de seriedade.

— Como foi a fisioterapia? — JungKook perguntou, seu olhar preocupado mas discreto.

JiMin sorriu, tentando transmitir confiança.

— Melhor do que eu esperava. Acho que já estou pronto para voltar — Respondeu, respirando fundo. Ele sabia que essa decisão não era apenas sobre ele, mas sobre as expectativas que seus superiores, e especialmente JungKook, tinham sobre ele.

JungKook o observou atentamente por um momento, parecendo pesar as palavras antes de falar.

— Temos algumas cirurgias programadas para amanhã. Se você se sentir confortável, pode voltar a nos ajudar na sala de cirurgia. Mas, como seu médico, preciso que seja honesto sobre como está se sentindo. Não podemos nos arriscar.

JiMin assentiu, agradecendo pela preocupação de JungKook. Ele sabia que JungKook queria o melhor para ele, mas a pressão de voltar logo à rotina estava pesando.

— Eu me sinto bem, mais confiante agora. Eu não quero ficar para trás — Disse JiMin, sentindo um misto de excitação e apreensão.

JungKook deu um pequeno sorriso, como se satisfeito com a resposta, mas ainda assim parecia cauteloso.

— Então, prepare-se. Amanhã, o trabalho continua — Disse ele, já se virando para sair.

JiMin ficou sozinho por um momento, sentindo o peso da decisão. Ele estava pronto para retomar sua vida, mas ainda havia aquele receio de que sua recuperação não fosse o suficiente. Mas, por enquanto, ele se focaria no que estava à frente: sua volta ao hospital, aos pacientes e à sala de cirurgia.

Enquanto se preparava para o próximo capítulo, ele respirou fundo e se deu conta de que, independentemente das incertezas, ele estava determinado a seguir em frente.

**

Dr. Ren estava no consultório, sentado em sua cadeira, pensativo. A luz suave que entrava pela janela parecia não aliviar a tensão que ele sentia. Seus pensamentos estavam longe, voltados para o pesadelo que JungKook tivera naquela noite e como ele estava lidando com aquilo. Ren sabia que, apesar de todos os esforços, JungKook estava lutando com os demônios do passado. Mas ele também sabia que seu namorado era teimoso e não aceitava facilmente ajuda externa.

A porta do consultório se abriu suavemente, e Dr. Jin entrou com seu sorriso característico, quebrando o silêncio.

— Ren, a cirurgia de separação dos bebês siameses está sendo marcada. ChanYeol pediu para seu residente participar. — Disse Jin, com uma expressão de leve preocupação.

Ren assentiu, desviando um pouco o olhar.

— Claro, será bom para o aprendizado. Essa cirurgia é uma oportunidade única, com certeza. — Respondeu, tentando esconder seu desconforto.

Jin olhou para ele com um olhar atento, notando que algo estava perturbando o amigo.

— Você parece preocupado. Não é sobre a cirurgia, é? Tem algo acontecendo com o seu... namorado secreto? — Perguntou Jin, com um sorriso brincalhão, mas com os olhos curiosos.

Ren suspirou, fechando os olhos por um instante.

— Ele tem muitos pesadelos. Isso está me deixando um pouco... distraído. — Disse Ren, sem conseguir esconder a preocupação em sua voz.

Jin ergue uma sobrancelha, desconfiado.

— Você poderia sugerir que ele vá até um psicólogo, tentar conversar um pouco sobre o que está acontecendo. Às vezes, ajuda. — Sugeriu, sempre pragmático.

Ren soltou uma risada nervosa, balançando a cabeça.

— Ele odiaria essa ideia. Sério, nem se eu tentasse. Ele não vai aceitar. — Disse, com um meio sorriso.

Jin, sempre insistente, não desistiu.

— E se você tentasse convencê-lo como médico? Você sabe como ele é, deve ser mais fácil. — Jin estava tentando brincar, mas havia uma ponta de preocupação por trás das palavras.

Ren parou por um momento, relutante, antes de deixar escapar.

— O problema é que ele também é médico... — Ren hesitou ao perceber o que tinha dito.

Jin arregalou os olhos, surpreso.

— O quê, seu namorado é médico? Ele trabalha aqui? — Perguntou, mais curioso agora.

Ren desconversou rapidamente.

— Bem, melhor voltarmos à cirurgia, certo? — Desviou a conversa, tentando mudar de assunto.

Jin, não convencido, insistiu.

— Vamos lá, Ren. Não adianta fugir. Só me diga: ele trabalha aqui? — Jin parecia genuinamente curioso.

Ren, percebendo que não poderia evitar, deu um suspiro frustrado.

— Ok, ok, ele trabalha aqui. Mas isso não importa agora. Vamos falar sobre a cirurgia — Disse Ren, tentando focar no trabalho, ainda sem querer expor demais sua vida pessoal.

Jin sorriu, satisfeito, e mudou de assunto, mas não sem antes lançar um comentário final.

— Bem, já que estamos falando de cirurgia, os bebês estão bem. A cirurgia de separação será crucial para a ciência. Uma verdadeira demonstração do que é possível quando se tem a habilidade e o conhecimento necessário — Disse Jin, com um tom sério, mas ao mesmo tempo admirado pela magnitude do procedimento.

Ren assentiu, com uma expressão focada.

— Sim, e eu pretendo encerrar minha pesquisa com o sucesso dessa cirurgia. Será uma prova para a comunidade médica de que é possível salvar os dois bebês. Eu realmente acredito nisso — Disse Ren, com paixão, como sempre demonstrando seu entusiasmo pela medicina.

Jin, com um sorriso sincero, olhou para Ren com respeito.

— Eu admiro sua paixão pela profissão, Ren. Isso é o que diferencia um bom médico de um grande médico. Continue assim. — Disse Jin, com um sorriso encorajador.

Ren sorriu de volta, grato pelas palavras de Jin, mas sua mente ainda estava ocupada com JungKook. Ele sabia que o apoio de Jin era importante, mas também sentia que precisava ser ele a ajudar JungKook a lidar com seus próprios fantasmas.

**

No centro cirúrgico, JiMin e YoonGi estavam de pé ao lado da mesa de operações, observando atentamente enquanto JungKook liderava uma delicada cirurgia de troca valvar minimamente invasiva. A atmosfera era tensa, mas repleta de concentração. JungKook, com a habilidade de um cirurgião experiente, manipulava os instrumentos com precisão enquanto instruía seus residentes.

— YoonGi, me diga, quais são as complicações mais comuns desse tipo de cirurgia? — Perguntou JungKook sem desviar os olhos do paciente.

YoonGi, com sua postura confiante e voz calma, respondeu imediatamente.

— Tromboembolismo, infecção no sítio cirúrgico e mau posicionamento da prótese, doutor.

JungKook assentiu, satisfeito, e então voltou sua atenção para JiMin.

— JiMin, quais são os passos principais dessa cirurgia? — Perguntou, observando o residente com um olhar avaliativo.

JiMin sentiu o peso da pergunta e tentou disfarçar o nervosismo. Suas mãos suavam sob as luvas, e ele respirou fundo antes de responder.

— Bem, primeiro, o acesso ao coração é feito através de uma pequena incisão intercostal... — Começou, mas sua voz tremia ligeiramente.

JungKook interrompeu, não com dureza, mas com firmeza.

— JiMin, mantenha a calma. Lembre-se, você é um médico. Qualquer erro seu pode ser fatal para o paciente. Respire e continue.

Aquelas palavras, apesar de duras, foram como um empurrão. JiMin respirou fundo novamente, recuperando o controle.

— Depois do acesso, o paciente é colocado em circulação extracorpórea. A válvula afetada é cuidadosamente removida, e a nova prótese é posicionada e fixada com suturas precisas. O fluxo sanguíneo é então restaurado e a função valvar é testada antes de encerrar o procedimento — Explicou JiMin com uma clareza que surpreendeu até a si mesmo.

Antes que pudesse continuar, YoonGi tentou intervir.

— Doutor, também é importante mencionar...

JungKook ergueu a mão, interrompendo YoonGi.

— Eu fiz a pergunta para JiMin. Ele está indo bem — Disse JungKook, com um tom que não deixava espaço para questionamentos.

JiMin sentiu um calor de orgulho percorrer seu corpo. O reconhecimento de JungKook significava muito para ele, especialmente em uma situação tão desafiadora. YoonGi, por outro lado, se calou, visivelmente desconfortável por ser cortado.

A cirurgia prosseguiu com JungKook fazendo mais perguntas, testando o conhecimento de ambos. Apesar do início nervoso, JiMin conseguiu responder a todas as perguntas com precisão, ganhando ainda mais a confiança de seu mentor.

Quando finalmente encerraram o procedimento, JungKook olhou para os dois residentes e disse:

— Bom trabalho. É assim que se aprende. Observando, ouvindo e, quando chegar a hora, agindo com precisão.

JiMin saiu da sala de cirurgia com um leve sorriso no rosto. Sentia que tinha dado um grande passo em sua jornada como médico, enquanto YoonGi, embora um pouco envergonhado, mantinha sua habitual postura séria.

**

Era hora do almoço, e JiMin estava no refeitório junto de seus amigos, TaeHyung e HoSeok. Eles conversavam descontraidamente enquanto JiMin se servia. Do outro lado do refeitório, ele viu JungKook entrar. O médico foi imediatamente abordado por Ren, que parecia falar insistentemente sobre algo. A expressão de JungKook era claramente de desinteresse, mas ele permaneceu educado, seguindo para a fila e pegando uma bandeja.

JiMin observou a interação de longe, incapaz de ouvir a conversa. JungKook se manteve calado enquanto Ren continuava a falar. Então, o celular de JungKook tocou. Ele atendeu rapidamente, trocando algumas palavras antes de entregar sua bandeja para Ren e sair apressado do refeitório, deixando o outro médico sozinho.

Pouco tempo depois, outra figura atraiu a atenção no refeitório. Kim InSu entrou, acompanhada por NamJoon, ambos vestindo jalecos impecáveis. Assim que os dois cruzaram a porta, uma onda de murmúrios se espalhou pelo refeitório. Médicos e enfermeiros cochichavam entre si, com olhares curiosos e até cautelosos.

JiMin olhou para os amigos, confuso.

— Quem são eles? — Perguntou TaeHyung, quebrando o silêncio.

— Aquela é Kim InSu, a filha do dono do hospital — Respondeu HoSeok em tom baixo, mas cheio de significado.

— A ex-noiva do Dr. Jeon JungKook? — TaeHyung arregalou os olhos, claramente interessado. — Meu Deus, eu nem sabia que ela tinha voltado. Vai ser interessante ver esse reencontro. As fofocas vão correr soltas essa semana, e eu vou ser o primeiro a contar para as enfermeiras.

— Por que ela voltou agora, depois de ter abandonado o JungKook no altar? — HoSeok questionou, franzindo a testa.

— Ele foi abandonado no altar? — JiMin perguntou, surpreso.

— Você não sabia? Saiu até nos jornais na época! Foi um escândalo.

— Eu morava em Busan e só me preocupava com os estudos — JiMin justificou. — Acabei perdendo essas histórias.

Enquanto isso, InSu e NamJoon avançaram para a fila, atraindo ainda mais atenção. Ren, que ainda estava próximo, encarou InSu com desgosto. O refeitório caiu em um silêncio expectante.

— O que você está fazendo aqui? — Ren perguntou, a voz carregada de desprezo.

InSu manteve a compostura, mas sua voz soava firme.

— Sou médica daqui também.

— Você foi embora há muito tempo. Não tem mais lugar aqui para você — Retrucou Ren, com dureza.

— Sempre haverá lugar para mim no hospital do meu pai — Respondeu InSu, com um sorriso que misturava ironia e confiança.

Ren soltou uma risada debochada.

— Nepotismo. Impressionante.

NamJoon, que estava ao lado da prima, interveio com leveza.

— Todos estão olhando. Por mais que eu ame uma entrada triunfal, prefiro não estar no meio dessas briguinhas.

Ren pegou sua bandeja e saiu, visivelmente irritado. O refeitório, antes em silêncio, voltou a se encher de cochichos assim que ele se afastou.

— Você sabia que não seria bem recebida por todos — NamJoon comentou, olhando para InSu.

— Não esperava que um velho amigo me tratasse assim — Respondeu ela, com um suspiro pesado.

Os dois seguiram para uma mesa, enquanto o burburinho no refeitório crescia. JiMin, por sua vez, tentava processar todas aquelas informações, sentindo que havia muito mais sobre JungKook e seu passado do que ele imaginava.

**

JungKook entrou no corredor da UTI Geral com passos apressados, avistando um homem mais velho vestido de clérigo. Era o Padre Yoon, uma figura familiar de seu passado no orfanato, onde muitos padres haviam cuidado dele.

— O que aconteceu com o Padre Lee? — Perguntou JungKook, a preocupação evidente em sua voz.

— Ele estava contando histórias bíblicas para as crianças quando desmaiou de repente — Explicou o Padre Yoon, com o rosto marcado pela apreensão. — Não fazia ideia de que algo tão grave pudesse acontecer.

— Vou entrar para verificar o estado dele. — JungKook assentiu.

— Faz tanto tempo que não vejo você, JungKook. Lamento que seja nessas circunstâncias — Comentou o Padre Yoon, suspirando.

JungKook apenas assentiu novamente e entrou na UTI. Lá, uma enfermeira o recebeu rapidamente e passou o relatório detalhado sobre o estado do Padre Lee.

— Já bipamos o novo neurocirurgião do hospital — Informou a enfermeira.

Pouco tempo depois, NamJoon chegou, trazendo com ele InSu. Ao vê-la, JungKook parou por um instante, surpreso, mas rapidamente retomou o foco. NamJoon foi direto para avaliar o paciente, ouvindo atentamente os detalhes passados pela enfermeira.

InSu abriu a boca para falar, mas NamJoon a interrompeu.

— Preparem a sala de cirurgia imediatamente. Este paciente precisa de intervenção urgente.

JungKook, ainda preocupado, perguntou:

— Qual é o diagnóstico?

— Ele tem um aneurisma que pode romper a qualquer momento. Se não for operado imediatamente, não sobreviverá — Respondeu NamJoon, sério.

— Preciso da permissão do responsável para prosseguir — Continuou ele.

— Eu resolvo isso. — JungKook saiu sem olhar para trás, passando direto por InSu enquanto seguia para falar com o Padre Yoon.

Enquanto isso, InSu se aproximou de NamJoon.

— Posso ajudar em algo? — Perguntou ela, tentando contribuir.

NamJoon a encarou brevemente antes de responder:

— É melhor você não ficar muito próxima a JungKook enquanto ele está lidando com algo tão sério. Ele precisa de concentração, e não de distrações do passado.

InSu suspirou, claramente desconfortável com a situação, mas sabia que NamJoon estava certo.

**

Na sala de cirurgia, o ambiente estava impecavelmente preparado, com o som constante dos monitores cardíacos preenchendo o silêncio tenso. JungKook, de avental estéril e máscara, observava de perto, sentindo uma ansiedade que há tempos não experimentava. Ele era apenas um espectador dessa vez, mas o peso da responsabilidade ainda recaía sobre seus ombros, especialmente com um paciente tão querido quanto o Padre Lee.

NamJoon começou a cirurgia com a equipe devidamente posicionada. Após a antissepsia da área e a colocação dos campos cirúrgicos estéreis, ele realizou uma craniotomia, um procedimento para acessar o cérebro. Usando um drill craniano, ele abriu uma janela óssea no crânio do lado onde o aneurisma havia sido identificado na tomografia.

Com a ajuda de um bisturi fino e uma pinça delicada, NamJoon fez uma incisão precisa na dura-máter, a membrana protetora que cobre o cérebro. Ele utilizou ganchos para mantê-la aberta, permitindo acesso ao local do aneurisma.

Com um microscópio cirúrgico, NamJoon localizou o aneurisma na artéria cerebral média. A protuberância preenchida de sangue pulsava perigosamente. O anestesista monitorava de perto os sinais vitais do paciente, enquanto NamJoon trabalhava com precisão.

Para evitar complicações, como o rompimento do aneurisma durante a manipulação, NamJoon utilizou clipes temporários para bloquear o fluxo sanguíneo na artéria afetada. Isso exigia rapidez, já que o cérebro não poderia ficar sem irrigação por muito tempo.

Com o clipador aneurismático, um instrumento delicado usado para essas cirurgias, NamJoon posicionou cuidadosamente um clipe de titânio na base do aneurisma. Isso isolou a protuberância do restante do sistema circulatório, prevenindo seu rompimento e garantindo que o sangue fluísse normalmente pelas artérias ao redor.

Após o clipe ser aplicado, NamJoon liberou o fluxo sanguíneo e verificou se o aneurisma estava completamente isolado, usando angiografia intraoperatória. Satisfeito com o resultado, ele irrigou o campo cirúrgico com solução salina para limpar o local.

A dura-máter foi suturada cuidadosamente com pontos finos, e a janela óssea do crânio foi recolocada e fixada com placas e parafusos de titânio. Por fim, a pele foi suturada com pontos subcutâneos, que deixaria uma cicatriz mínima.

NamJoon suspirou profundamente enquanto retirava as luvas. Ele olhou para JungKook, que observava silenciosamente.

— Foi um sucesso. Ele está fora de perigo agora, mas precisará de monitoramento na UTI nas próximas 48 horas — Anunciou NamJoon.

JungKook assentiu, sentindo um alívio percorrer seu corpo. O nervosismo dava lugar a uma leve gratidão pela competência de NamJoon. O passado ainda era um fantasma que pairava, mas, por enquanto, o presente havia sido salvo.

**

JiMin entrou no quarto de Kang Sun com passos suaves, mantendo o tom profissional, mas com empatia evidente. Sun ainda estava entubado, o monitor cardíaco emitia sons regulares, e sua irmã, Kang NaRi, estava sentada ao lado da cama, segurando sua mão e falando baixinho sobre sua rotina.

NaRi, percebendo JiMin, deu um sorriso tímido e levantou-se. JiMin explicou que estava ali para verificar o estado de Sun antes da extubação. Ele começou a avaliação detalhadamente:

JiMin verificou a pressão arterial, frequência cardíaca, saturação de oxigênio e temperatura.

Com o estetoscópio, ele escutou os pulmões para garantir que não havia obstruções ou sinais de infecção.

E examinou a resposta neurológica de Sun, testando os reflexos básicos para garantir que ele estava pronto para a retirada do tubo.

Para terminar, conferiu os ajustes no ventilador mecânico, verificando se Sun estava respirando espontaneamente com apoio mínimo.

— Seu irmão está progredindo bem, NaRi — Disse JiMin, com um tom tranquilizador. — Vamos iniciar a extubação em breve. Ele logo estará respirando sozinho.

NaRi, emocionada, perguntou:

— E quando ele vai acordar?

JiMin hesitou por um momento antes de responder com sinceridade:

— Não posso te dar uma previsão exata, mas ele está estável. Estamos otimistas.

JungKook entrou no quarto pouco depois, trajando seu avental impecavelmente branco e com uma expressão decidida.

— Já expliquei tudo para ela, doutor — Informou JiMin, com um aceno.

— Ótimo — Respondeu JungKook. — Vamos começar o procedimento em alguns minutos.

JiMin sugeriu que NaRi aproveitasse para comer algo enquanto eles ajustavam o quarto para a extubação. Relutante, ela recusou:

— Não quero sair do lado dele. — Olha para ele por um instante a sorri. — Sun ficará muito grato quando acordar e saber que foi atendido por médicos tão atenciosos, isso vai fazer ele confirmar que escolheu a profissão certa.

— Sun é estudante de medicina? Foi encontrado um livro na mochila dele. — JiMin pergunta.

— Primeiro ano de medicina na universidade de Seul. — Sorri orgulhosa.

— Também fui da universidade de Seul. — JiMin sorri.

— Também me formei pela universidade de Seul. — JungKook conta surpreendendo eles. — Agora a senhorita pode observar pela janela do lado de fora? — Pergunta JungKook, suavizando o tom. — Vamos cuidar bem dele aqui dentro.

NaRi suspirou concordando, despedindo-se brevemente do irmão antes de sair.

JiMin perguntou sobre YoonGi, curioso.

— Ele está na estação, tirando dúvidas com uma das enfermeiras — Respondeu JungKook, revisando os equipamentos.

— YoonGi, pedindo ajuda? Não imaginei — Comentou JiMin com um leve sorriso. — Achei que ele só ouvia o Dr. Jeon.

JungKook ignorou o comentário e deu as últimas orientações à equipe.

JiMin e JungKook posicionaram Sun de forma adequada, elevando a cabeceira da cama para 30 graus para facilitar a respiração. A equipe revisou todos os equipamentos de emergência, incluindo ventiladores portáteis e materiais de aspiração.

JungKook verificou novamente os reflexos de tosse e deglutição de Sun, assegurando que ele estava apto para manter as vias aéreas desobstruídas.

Antes de retirar o tubo, JiMin utilizou um sistema de sucção para remover secreções das vias aéreas, garantindo que o paciente respirasse confortavelmente após a retirada.

JungKook instruiu a equipe e, com delicadeza, removeu o tubo enquanto o paciente exalava, minimizando o desconforto.

Após a retirada, JiMin aplicou uma máscara de oxigênio no paciente para garantir suporte respiratório leve. Eles observaram Sun atentamente, verificando a saturação de oxigênio, frequência respiratória e sinais de esforço.

— Ele está respirando bem sozinho — Disse JungKook, satisfeito.

JiMin sorriu aliviado, limpando a testa levemente suada.

NaRi, que observava do lado de fora, enxugou uma lágrima de alívio ao ver que o irmão estava progredindo. JungKook fez um sinal com a cabeça, permitindo que ela entrasse novamente no quarto.

— Obrigada, doutores — Disse NaRi, emocionada.

JungKook assentiu, mas JiMin foi quem respondeu:

— Estamos aqui para ajudar.

Com isso, eles deixaram o quarto, permitindo que NaRi tivesse um momento a sós com o irmão.

**

ChanYeol, o cirurgião pediátrico, estava à frente da sala de reuniões, com imagens tridimensionais projetadas em uma tela de alta definição. Ao redor da mesa, a equipe médica reunida ouvia atentamente enquanto ele explicava o caso dos gêmeos siameses JiHoon e JiYul, unidos pelo crânio e pela coluna em uma condição extremamente rara.

— Estes são JiHoon e JiYul, conectados pelo crânio na região occipital e pela coluna desde a cervical até a vértebra T7 — Começou ChanYeol, apontando para as imagens projetadas. — Eles compartilham uma parte significativa das veias cerebrais, uma porção do tecido ósseo na base do crânio e estruturas neurais ao longo da medula espinhal. A separação será realizada em múltiplas etapas e exigirá precisão absoluta em todas as áreas envolvidas.

ChanYeol destacou as áreas de fusão com um laser.

— O maior desafio aqui é preservar a circulação cerebral e a integridade das conexões nervosas ao longo da medula espinhal. Vamos utilizar imagens tridimensionais em tempo real para guiar cada etapa do procedimento. O risco de hemorragias intracranianas, lesões na medula espinhal, paralisia e até óbito é altíssimo. A coordenação da equipe será essencial para o sucesso dessa operação.

ChanYeol continuou, detalhando o planejamento:

— Começaremos com a abertura do couro cabeludo e do osso craniano na região occipital para acessar os vasos compartilhados e as áreas de fusão óssea. Simultaneamente, outra equipe realizará a exposição da coluna cervical até a torácica, identificando cuidadosamente as vértebras conectadas. Isolaremos e redirecionaremos os vasos sanguíneos compartilhados no crânio utilizando técnicas de microcirurgia. Na coluna, vamos mapear as conexões nervosas compartilhadas usando monitoramento neurofisiológico contínuo. A preservação dessas estruturas é crucial para garantir a funcionalidade motora e sensorial. Usaremos uma serra ultrassônica para dividir o osso occipital, garantindo precisão e evitando danos ao tecido cerebral subjacente. Na coluna, a separação será feita com bisturis de alta precisão e estabilizadores temporários para proteger a medula espinhal durante o procedimento. Após a separação, reconstruiremos o crânio de cada criança com próteses personalizadas feitas em impressoras 3D e enxertos ósseos autólogos. Na coluna, utilizaremos placas de titânio e enxertos ósseos para estabilizar as vértebras de cada criança, assegurando alinhamento e funcionalidade.

ChanYeol fez uma pausa, observando o impacto das informações na equipe.

— Essa será uma das cirurgias mais complexas já realizadas neste hospital. O risco de complicações, como edema cerebral, infecções, paralisia ou mesmo óbito, é significativo. Quero que todos estejam cientes da responsabilidade que isso envolve.

Ren, que acompanhava o caso desde o início, interveio com seriedade:

— A condição foi diagnosticada na 20ª semana de gestação. Quando explicamos os riscos à mãe, ela recusou a interrupção da gravidez e disse que esses meninos eram sua chance de ser mãe. Temos que fazer tudo ao nosso alcance para que ambos sobrevivam e tenham qualidade de vida.

Jin, apontando para as imagens, acrescentou:

— Este caso não é apenas uma questão de salvar vidas. Ele também abrirá caminhos para avanços significativos na neurocirurgia e nas abordagens de separação de siameses. Cada etapa será documentada para publicação em artigo científico que poderá redefinir futuros procedimentos.

NamJoon, com sua habitual serenidade, afirmou:

— Garantir a estabilidade dos dois pacientes durante um procedimento tão longo será um desafio. Minha equipe de anestesia está pronta para colaborar em todas as etapas.

Do outro lado da mesa,TaeHyung e BaekHyun estavam atentos. TaeHyung murmurou para BaekHyun:

— Isso será um marco na história da medicina. Estamos prestes a testemunhar algo grandioso.

BaekHyun assentiu com entusiasmo, mas também um toque de nervosismo:

— E fazer parte disso.

ChanYeol finalizou a reunião com palavras firmes:

— A cirurgia será realizada daqui a dois dias. Quero que todos revisem o plano e estejam preparados para qualquer eventualidade. O sucesso dessa operação não é apenas para JiHoon e JiYul, mas para sua mãe e para a comunidade médica como um todo. Vamos fazer história.

Com isso, a equipe deixou a sala ciente do desafio monumental à frente. A cirurgia representava não apenas um esforço técnico, mas um verdadeiro teste de habilidade, colaboração e humanidade.

**

Depois de um longo dia de trabalho, TaeHyung, HoSeok e JiMin decidiram relaxar em um restaurante próximo ao hospital. O lugar era aconchegante, com uma atmosfera tranquila e um aroma convidativo de comida recém-preparada.

HoSeok sorriu enquanto olhava ao redor.

— Eu costumava comer aqui antes de passar na residência. Sempre sentava nessa mesma mesa, olhava para o hospital pela janela e me perguntava quando seria minha vez de sair de lá usando um jaleco.

TaeHyung e JiMin riram da nostalgia.

— Esse é o discurso típico de um médico que acha que virou celebridade só por usar jaleco. — Provocou TaeHyung.

— Ah, mas você não entende o sentimento de conquista! — Rebateu HoSeok, rindo.

JiMin se ajeitou na cadeira, mudando de assunto.

— Hoje eu conheci a irmã do meu paciente, o Sun. Ele está muito melhor, aliás. Eu ajudei o Dr. Jeon na extubação e me sinto muito mais confiante no procedimento agora.

— Parece que o professor Jeon gosta mesmo de você, hein? — Comentou TaeHyung, piscando.

JiMin ignorou a provocação e continuou:

— Passei o resto do dia atendendo pacientes, e acreditem, até recebi uma cantada.

— Uma cantada? — HoSeok se inclinou curioso.

— Sim, de uma senhora cardiopata. Ela disse que vai voltar sempre só para ver o “médico bonitão”.

A mesa explodiu em risadas.

— E o que você respondeu? — Perguntou TaeHyung, segurando o riso.

— Só disse que a saúde dela era prioridade. — JiMin deu de ombros, sorrindo.

TaeHyung aproveitou a deixa para falar sobre sua própria experiência do dia.

— Bom, enquanto você estava sendo elogiado pelas pacientes, eu participei de uma reunião sobre a cirurgia de separação dos gêmeos siameses.

— Ah, eu ouvi falar disso. — Comentou HoSeok, franzindo o cenho. — Dizem que vai ser a cirurgia mais difícil e longa que o hospital já teve.

— É verdade, — Confirmou TaeHyung. — Vai ser algo grandioso.

JiMin parecia interessado.

— Queria poder assistir de perto, mas a CG está cheia de pacientes. Então, Tae, você vai ter que me contar tudo nos mínimos detalhes.

— Pode deixar. — TaeHyung sorriu, satisfeito com o interesse.

HoSeok, no entanto, balançou a cabeça.

— Eu não conseguiria assistir. Não me sinto confortável com crianças no hospital, ainda mais nesse tipo de caso.

TaeHyung riu, provocador.

— Então agradeça ao Dr. Jeon por não ter colocado você na pediatria.

— Eu teria desmaiado na primeira criança ferida que visse.

A mesa voltou a rir enquanto o garçom se aproximava para anotar o pedido.

— Como o HoSeok vai pagar a conta hoje, — Começou TaeHyung, com um sorriso travesso, — Eu vou pedir o prato mais caro do cardápio.

— Concordo, — JiMin disse, entrando na brincadeira. — Também vou pedir o mais caro.

HoSeok arregalou os olhos, indignado.

— Quando foi que eu disse que ia pagar a conta?

TaeHyung e JiMin se entreolharam antes de cair na gargalhada, já planejando o que pediriam.

**

YoonGi chegou ao restaurante, um local sofisticado e opulento, iluminado por lustres de cristal que refletiam delicadamente nas paredes revestidas com painéis de madeira escura. Mesas cobertas por toalhas de linho impecáveis estavam dispostas ao longo do salão, adornadas com arranjos florais minimalistas e velas discretas. O aroma de pratos requintados misturava-se ao leve som de um piano tocando ao fundo, criando uma atmosfera elegante.

Logo avistou sua mãe acenando para ele em uma das mesas maiores, cercada por outros convidados. Ele caminhou até lá com passos firmes e uma expressão neutra, cumprimentando a todos com um leve aceno de cabeça.

— Este é meu filho, Min YoonGi. — Anunciou o pai com entusiasmo, apresentando-o aos companheiros políticos do Partido Conservador. — Um médico brilhante.

YoonGi apenas inclinou a cabeça em sinal de respeito, sem dizer nada. Ele tomou seu lugar na mesa enquanto o pai e seus aliados discutiam estratégias de campanha com fervor. Gráficos e dados eram mencionados, enquanto brindes discretos celebravam o avanço nas pesquisas.

— As últimas pesquisas mostram que estamos praticamente com a eleição ganha, — Comentou a mãe, um sorriso orgulhoso iluminando seu rosto.

YoonGi, no entanto, permaneceu impassível.

— As pesquisas? Elas mostram o que a mídia quer. E a mídia, como todos sabemos, está do lado de quem paga mais. Essas informações podem ser facilmente manipuladas.

A sala ficou em silêncio por um momento, até que seu pai o repreendeu.

— YoonGi, isso não é lugar para falar desse jeito.

YoonGi o encarou, a voz carregada de frustração.

— E o hospital não era lugar para vocês interferirem no meu trabalho. Foi inadmissível falar com o diretor do hospital para me dispensar do plantão.

A mãe tentou intervir, a voz calma mas firme.

— O jantar era importante.

YoonGi se inclinou ligeiramente para a frente, a exaustão evidente em seus olhos.

— Meu trabalho é mais importante. Enquanto estamos aqui, jogando esses joguinhos políticos, que vidas vocês estão salvando?

— YoonGi! — O pai elevou a voz, repreendendo-o mais uma vez.

YoonGi levantou-se abruptamente, ajeitando o paletó.

— Não vou mais participar de nada relacionado às eleições.

— Isso já está acabando, — Disse o pai, tentando manter a calma. — Só preciso que você esteja presente durante o debate na televisão. Você é meu último filho, seu apoio é essencial.

YoonGi o encarou com frieza antes de responder:

— Infelizmente para você, pai, estarei de plantão dobrado. Já que, graças a vocês, tive que faltar ao de hoje.

Sem esperar resposta, ele deu meia-volta e saiu do restaurante, deixando para trás a mesa e o ambiente sufocante.

**

Saindo do hospital, JungKook caminhava ao lado do Padre Yoon, discutindo em voz baixa sobre o estado de saúde do Padre Lee. A conversa foi interrompida por Ren, que o chamou de longe. JungKook suspirou, olhando de relance para o amigo antes de se despedir rapidamente do Padre.

— Ei, JungKook! — Ren aproximou-se, sorrindo. — Que tal sairmos no fim de semana?

— Estarei ocupado, — Respondeu JungKook sem muito interesse.

— Eu sei que você estará de folga, por isso pedi folga também.

JungKook franziu o cenho.

— Não precisava fazer isso. Eu vou passar o final de semana na minha cidade natal, Busan.

— Ah, eu adoro Busan! — Disse Ren com entusiasmo.

— Não estou te convidando, Ren, e não vou ter tempo para você, — Retrucou JungKook, a voz fria.

O Padre Yoon o repreendeu com um sorriso paciente.

— Seja menos áspero com o rapaz, JungKook.

— Ele conhece meu temperamento, — Respondeu JungKook, sem alterar a expressão.

Ren riu, mas com um tom desafiador.

— Eu vou para Busan, mesmo que você não queira.

Antes que JungKook pudesse retrucar, duas figuras familiares apareceram do outro lado da rua. InSu e NamJoon vinham em direção a eles. NamJoon tentou segurar a prima, mas ela escapou, determinada, e foi diretamente até JungKook.

— Precisamos conversar, JungKook. Eu preciso te explicar tudo, — Disse InSu, a voz implorativa.

JungKook recuou um passo, os olhos endurecendo.

— Você não deveria ter voltado. Eu já esqueci que você um dia existiu e não quero ouvir nada de você.

Ren cruzou os braços, olhando para ela com desprezo.

— Ele já disse que não quer você por perto.

NamJoon tentou intervir, colocando-se entre os dois.

— Vamos nos acalmar.

InSu ignorou. Segurou o braço de JungKook, a voz embargada.

— Por favor, só me escute!

Do outro lado da rua, JiMin, TaeHyung e HoSeok saíam de um restaurante e pararam ao ver a cena.

— O que está acontecendo ali? — Perguntou HoSeok, curioso.

— Parece tenso. — Comentou TaeHyung.

Enquanto isso, Ren interrompia InSu com um tom mordaz.

— Você não tem nada a ver com isso.

InSu o olhou surpresa.

— Como assim?

Ren sorriu com amargura.

— Achou que ele ficaria esperando por você para sempre?

Os olhos de InSu se encheram de lágrimas, enquanto NamJoon, visivelmente desconfortável, tentava afastá-la.

— Vamos, InSu. Você não está bem. — Disse ele, puxando-a com delicadeza.

JungKook permaneceu imóvel, sem olhar para ela enquanto NamJoon a levava embora.

— Para sua informação, Ren, nós não estamos juntos. Nunca estivemos e nunca estaremos. Não se envolva nas minhas coisas. — Disse JungKook antes de se virar e sair com o Padre Yoon.

Do outro lado da rua, TaeHyung observava tudo com um sorriso divertido.

— As enfermeiras vão adorar essa fofoca.

JiMin, no entanto, cruzou os braços e o olhou com severidade.

— TaeHyung, você está proibido de contar o que vimos aqui.

— Ah, qual é! — Protestou ele, mas JiMin apenas balançou a cabeça, encerrando o assunto.

**

Na manhã seguinte, JiMin estava no hospital, preparando-se para um final de semana atípico. Com JungKook de folga, ele seria supervisionado por outro médico — o único disponível e sem residentes naquele ano: o neurocirurgião Kim NamJoon.

NamJoon o recebeu com um sorriso confiante.

— Nunca supervisionei um residente antes, mas pretendo te proporcionar a melhor experiência possível, a ponto de você desistir da CG e se juntar à neurocirurgia.

JiMin riu levemente, balançando a cabeça.

— Acho difícil. Não trocaria a CG por nenhuma outra especialidade.

NamJoon arqueou uma sobrancelha, brincalhão.

— Isso é um desafio? Eu vou te fazer mudar de ideia pela honra dos poucos neurocirurgiões do país.

Enquanto caminhavam pelos corredores, NamJoon começou a explicar o caso de um paciente que seria operado naquele dia.

— Nosso paciente tem um tumor no lóbulo esquerdo do cérebro. O plano é realizar a ressecção do tumor. E você, meu caro, vai me auxiliar na cirurgia.

JiMin parou, arregalando os olhos.

— Eu? Ajudar em uma cirurgia cerebral? Doutor, acho que não estou preparado para algo tão delicado.

NamJoon deu um sorriso autoconfiante, colocando uma mão no ombro dele.

— Você vai conseguir. Vai ter o melhor professor ao seu lado te orientando em cada passo.

— Ainda assim, não sei se consigo, — JiMin admitiu, sentindo o peso da responsabilidade.

NamJoon balançou a cabeça.

— Todo residente começa assim, achando que não é capaz. Mas confie em mim, JiMin. No futuro, você vai olhar para trás e perceber que hoje foi o dia em que começou a superar seus próprios limites. E, quem sabe, pode acabar sendo um neurocirurgião ainda melhor do que eu.

JiMin riu com nervosismo, mas não pôde evitar um sorriso pequeno diante da confiança do médico.

Enquanto eles se aproximavam da sala onde o paciente estava, NamJoon continuou detalhando o caso com calma: o histórico médico, os exames de imagem, e a estratégia cirúrgica. JiMin ouvia atentamente, absorvendo cada informação e tentando se preparar mentalmente para o que viria.

**

JungKook chegou ao orfanato com passos firmes, mas o coração leve. Assim que saiu do carro, foi recebido pelo Padre Im, que abriu um sorriso caloroso ao vê-lo.

— JungKook, seja bem-vindo de volta! — Disse o padre, aproximando-se com os braços abertos.

JungKook apertou sua mão, sorrindo de leve.

— É bom estar de volta, Padre Im. Faz tempo que eu não vinha aqui.

— Muito tempo, mas você sempre esteve presente através das suas doações. Venha, quero te mostrar o que fizemos graças a elas.

Enquanto andavam pelos corredores do orfanato, o Padre Im mostrava com orgulho as melhorias. Um novo dormitório com camas confortáveis, um pequeno campo de futebol para as crianças jogarem, e até uma sala de estudos equipada com computadores.

— Tudo isso só foi possível graças a você, JungKook. Não temos como agradecer o suficiente.

— Vocês já fizeram muito por mim, Padre. Este lugar é meu lar, só estou retribuindo.

No pátio, o som de risadas infantis ecoava. Um grupo de crianças brincava sob o sol, mas ao avistarem JungKook, largaram tudo e correram em sua direção.

— Hyung! Hyung! Você voltou! — Gritaram em coro, cercando-o animados.

— Olha só quem está aqui! — Brincou JungKook, abaixando-se para ficar na altura deles.

As crianças começaram a falar todas ao mesmo tempo, puxando-o pelos braços.

— Hyung, vem ver a horta que a gente fez!

— A gente desenhou no jardim, tá lindo, vem ver!

— Hyung, pega maçãs pra gente, por favor!

JungKook riu, levantando as mãos em rendição.

— Ok, ok! Um de cada vez. Vou ver tudo, prometo.

O resto do dia foi repleto de risadas e diversão. JungKook ajudou a colher maçãs, elogiou os desenhos no jardim e até entrou no campo de futebol para jogar com as crianças. Por um momento, enquanto observava o sorriso nos rostos delas, sentiu uma paz que há muito tempo não experimentava.

Ao final do dia, sentado na grama com as crianças ao redor, JungKook olhou para o céu. Ele sabia que não importava o que acontecesse fora dali, o orfanato sempre seria o lugar onde ele se sentia mais completo.

**

JiMin ajustou a máscara no rosto e olhou para o relógio da sala de cirurgia: cinco minutos desde o início do procedimento. NamJoon, posicionado na cabeceira do paciente, já havia feito a primeira incisão no couro cabeludo. Ele descrevia cada passo para JiMin enquanto trabalhava com precisão.

— Vamos começar pela incisão em forma de ferradura no couro cabeludo, preservando os vasos principais. Scalpel, JiMin.

JiMin entregou o bisturi imediatamente. NamJoon fez o corte curvo, afastando cuidadosamente o tecido até expor a calota craniana.

— Agora, precisamos realizar a craniotomia. Me passe o cranial perforator.

JiMin entregou o perfurador craniano com calma, tentando conter a tensão que sentia. NamJoon fez pequenos furos no crânio ao redor da área planejada e utilizou a serra craniana para conectar os pontos, removendo uma aba óssea.

— Essa parte é crucial. Vamos expor o cérebro com cuidado. Me passe o retractor.

JiMin entregou o retractor cerebral enquanto NamJoon afastava a dura-máter, expondo o tecido cerebral. Ele apontou para JiMin um monitor que mostrava as imagens do tumor obtidas pela ressonância magnética antes da cirurgia.

— O tumor está no lobo parietal esquerdo, próximo ao córtex sensorial. Precisamos evitar danos às áreas funcionais. Me passe a aspirador ultrassônico.

NamJoon começou a remover cuidadosamente o tumor com o aspirador ultrassônico, que fragmentava o tecido tumoral enquanto aspirava simultaneamente. Ele narrava cada movimento:

— Estamos removendo as bordas do tumor primeiro. Isso nos ajuda a delimitar melhor a área afetada.

JiMin observava atentamente, entregando os instrumentos conforme NamJoon pedia. Quando foi necessário, NamJoon pediu a pinça de microdissecção para separar o tumor dos tecidos cerebrais saudáveis.

— Me passe o bipolar cautery, JiMin.

Com precisão, NamJoon utilizou o cauterizador bipolar para coagular pequenos vasos sanguíneos, minimizando o sangramento enquanto removia o tumor. Ele pausava frequentemente para verificar o monitor de neuronavegação, garantindo que permanecia dentro dos limites seguros.

— Vamos para a última porção. Isso exige ainda mais atenção, pois estamos próximos a fibras importantes para o tato e a coordenação motora.

JiMin entregou o microscópio cirúrgico, ajustando-o para que NamJoon pudesse ter uma visão mais detalhada da área. NamJoon continuou com movimentos firmes, removendo os restos do tumor.

— Agora, verificamos se há resquícios com fluorescência. Me passe o corante fluorescente.

JiMin passou o corante que havia sido injetado antes da cirurgia para ajudar na identificação de qualquer tecido tumoral residual. NamJoon inspecionou cuidadosamente, satisfeito com a remoção completa.

— Tudo limpo. Vamos fechar. JiMin, me passe o fio de sutura.

NamJoon fechou a dura-máter com suturas finas, reposicionou a aba óssea com placas de titânio e parafusos e suturou o couro cabeludo.

— Muito bem, JiMin. Primeira vez auxiliando em uma neurocirurgia e você não vacilou.

JiMin sorriu, ainda sentindo o peso da responsabilidade. — Só segui suas orientações, doutor.

NamJoon riu, lavando as mãos ao final. — E é assim que se começa. Quem sabe daqui a uns anos você não esteja operando no meu lugar?

JiMin saiu da sala exausto, mas confiante de que aquela experiência havia ampliado seu conhecimento e habilidades.

**

Enquanto caminhavam em direção ao refeitório, NamJoon continuava a fazer perguntas a JiMin sobre a cirurgia.

— Então, JiMin, o que você achou da cirurgia de hoje? Como se sentiu ao auxiliar?

JiMin sorriu, ainda um pouco impressionado com a complexidade do procedimento.

— Foi uma experiência intensa. O tumor era mais delicado do que eu esperava, mas consegui seguir suas orientações, doutor.

NamJoon acenou com a cabeça, satisfeito.

— Isso mesmo, a neurocirurgia exige um raciocínio rápido e muita precisão. No entanto, você conseguiu entregar os instrumentos de forma impecável, o que é essencial.

Ao entrarem no refeitório, JiMin viu seus amigos já esperando na mesa. TaeHyung e HoSeok estavam animados, e logo fizeram espaço para NamJoon se juntar a eles. JiMin sentou-se ao lado de seus amigos, e TaeHyung, sempre curioso, não perdeu tempo em fazer perguntas.

— Então, NamJoon, qual a verdadeira razão de alguém querer se meter com neuro? Eu, no começo, até pensei em ser neurocirurgião, mas depois de passar noites virando o livro de cabeça para baixo, desisti.

NamJoon riu, se divertindo com a confissão de TaeHyung.

— Eu entendo. Neuro não é para todos. Mas, se você pensar bem, ela é uma das especialidades que mais interage com os desafios mais intrigantes do corpo humano. Pense na cirurgia dos gêmeos siameses. As possibilidades e a complexidade dos procedimentos... tudo tem um componente neuro muito forte.

JiMin, ouvindo isso, concordou com NamJoon, mas logo se calou ao notar a aproximação de InSu. Ela entrou no refeitório com passos firmes e cumprimentou educadamente todos os residentes antes de se sentar.

HoSeok, percebendo o ambiente um pouco mais tenso, sussurrou para JiMin:

— Olha só, a mesa está cheia pela primeira vez.

JiMin não pôde evitar um sorriso, tentando disfarçar a situação desconfortável. Porém, TaeHyung, como sempre, não conseguiu esconder a curiosidade.

— Dr.Kim ontem à noite nós vimos vocês na entrada do hospital, estavam discutindo?

— Não há nada de mais nisso, TaeHyung. São só desavenças. Não vale a pena perder tempo com isso.

InSu, porém, não conseguiu ficar calada. Ela se levantou irritada.

— “Não vale a pena”? Inacreditável. — Sai.

NamJoon coçou a cabeça, um pouco sem graça, vendo o clima ficar ainda mais pesado. HoSeok, sempre rápido com os assuntos, aproveitou a oportunidade para mudar o foco.

— Mudando de assunto, alguém aqui já sabe como vai ser a cirurgia dos gêmeos siameses? Como está o andamento?

A conversa tomou outro rumo, com todos se concentrando no futuro procedimento que estavam prestes a enfrentar.

**

InSu caminhava com passos silenciosos até o terraço do hospital, sentindo uma mistura de angústia e ansiedade. O vento suave balançava seu cabelo enquanto ela se aproximava de uma das áreas mais isoladas do hospital. Ao chegar, viu Ren, que estava de costas, contemplando o horizonte enquanto fumava. Quando ele ouviu o som de seus passos, virou-se lentamente, sem surpresa, como se já soubesse que ela viria.

Ela deu um sorriso forçado e comentou, com uma leve ironia na voz:

— Olha só, ainda é o nosso lugar. Mesmo que agora não estejamos aqui por motivos tão... amistosos como antes.

Ren olhou para ela com uma expressão fria, uma mistura de cansaço e frustração nos olhos. Ele deu um longo trago no cigarro antes de responder:

— Eu estou cansado dos seus joguinhos, InSu. Por que você voltou? O que está tentando conquistar?

InSu respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas. Seu sorriso vacilou antes de ela começar a falar:

— Eu voltei porque... preciso me redimir de todo o mal que causei a JungKook. Ele não merece a dor que o fiz passar.

Ren riu com uma ponta de escárnio, balançando a cabeça.

— Você o abandonou no altar, InSu. Você sabe o quanto foi humilhante para ele, não sabe? Ele virou piada não só no hospital, mas no país inteiro. E isso porque você, filha do diretor do hospital, você fez o que fez.

Aquela crítica bateu forte, e InSu ficou em silêncio por um momento, encarando o chão. Ela sabia que Ren estava certo, mas suas razões eram mais complicadas do que ele poderia imaginar.

— Eu tinha um motivo para ter feito aquilo, Ren. Eu... eu não sabia o que fazer. Não queria que ele me odiasse para sempre.

Ren olhou fixamente para ela, a raiva contida, mas ainda presente. Ele deu mais um trago no cigarro e, em seguida, soltou a fumaça lentamente.

— Não se aproxime de JungKook. Você não tem o direito de tentar se redimir dele, não depois do que fez. Não vai ser fácil para ele esquecer, e nem para mim, aliás.

InSu olhou para ele, sentindo uma dor crescente em seu peito. Ela queria, de todo coração, corrigir seus erros e, se fosse possível, reconquistar JungKook. Sua voz tremia, mas ela se manteve firme.

— Eu preciso tentar, Ren. Preciso conseguir o perdão dele, nem que isso me custe tudo.

Ren a encarou por um longo tempo, quase como se a estivesse avaliando. Por fim, balançou a cabeça com desdém.

— JungKook não perdoa fácil, e você deveria desistir disso. Volte para o seu lugar de onde você fugiu, e não tente mais se meter na vida dele. Você não pertence a ele mais.

InSu sentiu um aperto no coração, mas não deixou que ele visse o quanto aquilo a afetava. Quando ele se virou para sair, ela acendeu um cigarro, tentando encontrar alguma paz no que restava de seu orgulho. O cheiro da fumaça misturava-se ao vento, mas, apesar de tudo, seu olhar estava perdido no céu, como se buscasse respostas ou até mesmo algum tipo de consolo, sabendo que não poderia voltar atrás. A única coisa que restava era tentar seguir em frente, não importa o quanto fosse difícil.

**

Naquela manhã de domingo, JiMin decidiu começar o dia de forma diferente, dedicando algum tempo para se exercitar antes de ir ao trabalho. Seu apartamento era simples, mas aconchegante. As paredes eram pintadas em um tom claro, decoradas com quadros minimalistas. Uma pequena estante ao lado da televisão sustentava livros médicos e algumas plantas. A cozinha americana era funcional, com utensílios básicos e uma cafeteira que ele raramente usava. O quarto tinha apenas uma cama de solteiro, uma mesa com seu notebook, e uma janela com vista para a cidade. Apesar de modesto, o espaço refletia a praticidade e organização de JiMin.

Vestindo roupas de treino, ele seguiu para o parque mais próximo. O parque era espaçoso, com trilhas pavimentadas que serpenteavam por entre árvores altas e bem cuidadas. Um lago refletia o céu azul, enquanto crianças brincavam ao redor e idosos caminhavam calmamente. Flores coloridas decoravam canteiros próximos aos bancos, onde algumas pessoas se sentavam para conversar ou ler. Havia também um campo gramado onde outros se exercitavam. O local transpirava tranquilidade e energia ao mesmo tempo.

Enquanto dava algumas voltas pela trilha principal, JiMin notou uma mulher caída ao lado de uma bicicleta. Aproximando-se, viu que alguém já a ajudava a se levantar. Ele reconheceu a pessoa imediatamente: Hyun.

— Hyun? — JiMin chamou, enquanto se aproximava. Hyun, ao ouvi-lo, ergueu os olhos e ficou surpreso ao vê-lo ali.

— JiMin? Não sabia que você vinha a este parque. — Respondeu, com um sorriso.

— Estou tentando criar bons hábitos. — JiMin comentou, rindo.

— Essa foi a melhor ideia que você já teve. — Hyun brincou, enquanto ajudava a mulher a se levantar completamente.

— Está tudo bem? — JiMin perguntou à mulher, observando o joelho dela levemente ralado.

— Só um susto. Acho que passei por um buraco e perdi o equilíbrio. — explicou a mulher, com uma expressão de dor leve.

— Você deveria passar no hospital para limpar o machucado. Pode infeccionar. — aconselhou Hyun.

— Tem razão. Obrigada pela ajuda. — Agradeceu a mulher antes de pegar sua bicicleta e seguir cambaleando até sair do campo de visão.

Com a mulher fora de perigo, JiMin e Hyun começaram a caminhar juntos pelo parque.

— Fico feliz em saber que você está bem, JiMin. — Hyun comentou, olhando para ele. — Você vai trabalhar hoje?

— Sim, mas hoje é com o Dr. NamJoon. O Dr. Jeon está de folga — Respondeu JiMin, ajustando o ritmo dos passos.

— Folga? — Hyun franziu o cenho. — Estranho. O JungKook nunca tira folga. Ele é completamente viciado em trabalho.

— Talvez ele precisasse descansar. — JiMin deu de ombros.

Hyun o observou por um momento antes de perguntar:

— Como está sendo conviver com ele?

JiMin hesitou um pouco, mas sorriu.

— Ele está menos mal-humorado ultimamente. Tenho aprendido muito. Um dia, quero ser um médico tão bom quanto ele.

Hyun deu uma risada curta.

— Você será melhor. Confie em mim. A habilidade médica dele é incrível, mas a personalidade é uma merda.

Os dois riram juntos, compartilhando o momento leve.

Hyun mudou de assunto logo em seguida:

— Mas, vamos lá. Devemos correr um pouco. Só caminhar não conta como exercício físico.

— Tem razão. — JiMin concordou, ajustando os tênis.

Os dois começaram a correr pela trilha, as risadas ecoando entre os sons da natureza e as conversas ao redor.

**

JiMin chegou ao hospital pontualmente às 7h30 para iniciar seu turno. Antes de se dirigir ao consultório, decidiu passar no quarto de um paciente que ainda estava em coma. Assim que entrou, notou a irmã do paciente sentada ao lado da cama, como fazia todos os dias.

— Bom dia. — JiMin disse, esboçando um sorriso compreensivo. — Só passei para ver como ele está.

Ele verificou os parâmetros no monitor ao lado da cama e fez anotações em seu prontuário.

— Está tudo bem. Os sinais vitais estão estáveis, e Sun pode acordar a qualquer momento. Agora tudo depende dele — Explicou JiMin, olhando para a jovem.

— Vou esperar o tempo que for preciso — Respondeu a irmã, com determinação.

JiMin sorriu.

— Você é uma boa irmã.

Ela hesitou por um momento antes de perguntar:

— Você tem irmãos, doutor?

JiMin assentiu.

— Tenho um irmão mais velho. Ele mora em Busan, minha cidade natal.

— Meus pais também são de Busan. — Comentou ela, surpresa.

— Quem sabe um dia eu volte para lá. — Disse JiMin, pensativo.

— Talvez acabemos compartilhando o mesmo destino. — Respondeu ela, com um sorriso tímido.

Antes que pudessem continuar a conversa, ouviram uma batida na porta. NamJoon entrou, com um ar descontraído.

— Eu sabia que te encontraria aqui, JiMin.

JiMin olhou para o relógio e se desculpou imediatamente:

— Me atrasei. Desculpe, doutor.

— Está perdoado, mas só se me trouxer um café amanhã — Respondeu NamJoon, com um sorriso brincalhão.

— Está combinado — JiMin riu e pediu licença à irmã do paciente antes de sair com NamJoon.

Enquanto caminhavam pelo corredor, JiMin perguntou:

— Então, qual a programação de hoje?

— Consultório. Nada de cirurgias — Respondeu NamJoon, casualmente.

JiMin parou de andar e o olhou surpreso.

— Consultório?

— Sim. Você ainda não fez atendimentos no consultório?

JiMin balançou a cabeça, explicando:

— O Dr. Jeon começou diretamente com a prática.

NamJoon arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Claro que começou. Esse parece ser o estilo dele.

— É um bom método — Defendeu JiMin. — Ele acredita que aprendemos mais com a prática.

NamJoon sorriu levemente e respondeu:

— A prática é importante, mas uma boa teoria é o que faz a prática ser perfeita.

JiMin concordou com um aceno de cabeça, enquanto os dois seguiam para o consultório.

— Acho que hoje vou aprender um outro lado da medicina. — Comentou JiMin, tentando absorver a novidade com entusiasmo.

— E eu vou garantir que você aprenda bem. — Garantiu NamJoon, abrindo a porta do consultório para começarem o dia.

**

No consultório, NamJoon e JiMin receberam o primeiro paciente do dia, um senhor de 70 anos chamado Sr. Su, acompanhado de seu filho. Assim que se acomodaram, o filho começou a explicar a situação do pai, falando por ele em todas as ocasiões.

— Meu pai foi diagnosticado com Parkinson há cerca de dois anos, mas nos últimos meses parece que os tremores estão piores, e ele está tendo dificuldade para andar e até mesmo para se alimentar.

NamJoon ouvia com atenção, mas não escondia o leve desconforto. Ele se inclinou para o Sr. Su e fez uma pergunta direta:

— Sr. Su, o que o senhor sente mais dificuldade em fazer no seu dia a dia?

Antes que o idoso pudesse responder, o filho interrompeu:

— Ele mal consegue segurar os talheres, e o equilíbrio está péssimo.

JiMin percebeu a frustração de NamJoon e interveio com um sorriso educado:

— Senhor, vamos deixar seu pai responder. Isso faz parte da avaliação médica.

O filho olhou para JiMin, claramente desconfortável, mas se calou. NamJoon aproveitou a oportunidade e repetiu a pergunta.

— Sr. Su, o que o senhor sente mais dificuldade em fazer?

O idoso respondeu com uma voz trêmula:

— Segurar objetos pequenos... E... andar sem me sentir tonto.

NamJoon assentiu e começou a conduzir a anamnese, enquanto JiMin anotava tudo.

— Há quanto tempo os tremores começaram? — Perguntou NamJoon.

— Uns três anos, eu acho... Começou nas mãos e agora afeta os braços. — Respondeu o Sr. Su.

— Alguma dificuldade para falar ou engolir?

— Sim, às vezes é difícil... Parece que minha voz está mais fraca também.

— E quanto ao sono? O senhor consegue dormir bem?

— Não muito. Acordo várias vezes durante a noite.

— Alguma rigidez nos músculos ou dor ao se movimentar?

— Sim, especialmente nas pernas.

NamJoon concluiu as perguntas básicas e passou para o exame físico, avaliando o tônus muscular, a coordenação e a presença de rigidez ou tremores em repouso.

Após o exame, ele olhou para JiMin e perguntou:

— Qual seria o melhor tratamento para este caso?

JiMin pensou por um momento antes de responder, confiante:

— Eu recomendaria o uso de levodopa com carbidopa para melhorar os sintomas motores e talvez introduzir fisioterapia para ajudar na mobilidade e equilíbrio.

NamJoon assentiu.

— Essa é uma boa opção, mas não a melhor no momento. — Ele se voltou para o Sr. Su e explicou com clareza. — No caso do senhor, como os sintomas estão mais avançados, a levodopa continua sendo o pilar do tratamento, mas podemos considerar ajustar a dose ou adicionar um agonista de dopamina, como pramipexol, para controlar melhor os tremores e a rigidez. Além disso, um acompanhamento com fonoaudiologia seria crucial para melhorar a fala e a deglutição. Também sugiro iniciar terapia ocupacional para ajudá-lo a realizar atividades diárias com mais facilidade.

NamJoon olhou para JiMin com um sorriso leve.

— Concorda ou gostaria de acrescentar algo?

JiMin balançou a cabeça, admirado com a abordagem abrangente.

— Concordo totalmente. O senhor explicou tudo de forma muito clara.

Enquanto o Sr. Su e seu filho agradeciam pela consulta, JiMin não conseguiu evitar pensar em como NamJoon conduzia tudo com leveza e ao mesmo tempo tanta eficiência. Por um instante, ele se pegou considerando a ideia de mudar para neurocirurgia.

**

No final de uma consulta, HoSeok e a Dra. Park JiHyo ainda estavam no consultório. JiHyo revisava os relatórios da paciente que acabara de atender, uma mulher em estado avançado de câncer de intestino.

— Os medicamentos já não estão surtindo efeito. — Disse JiHyo, com um tom de resignação.

HoSeok ergueu o olhar, percebendo para onde aquela conversa estava indo.

— Quantas vezes... você já fez isso? — Ele perguntou, cauteloso, mas direto. — A eutanásia.

JiHyo manteve a calma, sem se abalar pela pergunta.

— Você é o primeiro residente que me viu realizando esse procedimento. Esse é um dos motivos pelos quais, geralmente, não gosto de ter residentes. — Respondeu ela, com franqueza.

HoSeok respirou fundo, tentando absorver aquela informação. Ele hesitou por um momento, mas finalmente falou:

— Eu... acho que entendo o que você está fazendo aqui.

JiHyo balançou a cabeça, séria.

— Não, você não entende, HoSeok. Você nunca esteve no lugar desses pacientes. Nunca viu alguém definhar dia após dia.

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Ela fez uma pausa, olhando pela janela como se buscasse força nas lembranças.

— Minha mãe teve câncer de colo do útero. Eu era jovem, ainda nem tinha entrado na faculdade de medicina. Vi ela sofrer até o último instante, sem dignidade, sem alívio. Quando ela finalmente morreu, eu prometi a mim mesma que, se tivesse o poder de evitar que alguém passasse por aquilo, eu faria.

HoSeok sentiu um aperto no peito ao ouvir aquilo. Ele sabia que JiHyo era uma médica excepcional, mas aquela revelação explicava tanto sobre a determinação e o olhar cansado dela.

— Sinto muito pela sua mãe... — Disse ele, com sinceridade. — Isso explica muita coisa. E, bom... você pode contar comigo.

JiHyo desviou os olhos da janela e olhou para HoSeok, um pequeno sorriso aparecendo em seus lábios.

— Eu já conto com você, HoSeok. Desde o momento em que decidi que você seria meu residente.

**

JungKook estava relaxado, assistindo a um filme com as crianças no orfanato, quando o Padre Im entrou na sala, interrompendo a sessão.

— JungKook, você tem uma visita — Informou o padre com um sorriso discreto.

JungKook franziu o cenho, surpreso. Não esperava visitas naquele lugar. Ele se levantou, despediu-se das crianças e seguiu o Padre Im até a sala de descanso. Ao entrar, ficou paralisado ao ver InSu.

Seu humor mudou instantaneamente. Seu olhar frio encontrou o dela, que parecia nervosa e ansiosa.

— O que você está fazendo aqui? — Ele perguntou, a voz carregada de desdém.

— Eu precisava me explicar, JungKook.

Ele deu uma risada seca.

— Você acha que depois de todos esses anos eu ainda quero ouvir suas explicações? Seu tempo acabou no dia em que me deixou. Aquela maldita carta foi o suficiente para mostrar o quanto você não se importava.

InSu abaixou a cabeça, tentando se segurar.

— Eu sei que não devia ter deixado só uma carta. Eu... Eu estava perdida, não sabia o que fazer.

JungKook estreitou os olhos, a raiva crescendo dentro dele.

— Você me traiu. Fez de mim um idiota diante de todos. E pior, me fez levar a culpa pela morte do seu amante.

— Eu nunca pedi que você fizesse isso! — Ela retrucou, um pouco mais firme.

— Claro que não pediu. Eu fiz porque estava apaixonado, como um completo idiota — Ele rebateu, sua voz elevando-se. Ele se virou para sair, a discussão claramente esgotando sua paciência.

— JungKook, espera! — Ela gritou, a voz tremendo. Ele parou, mas não olhou para ela.

Foi então que ela soltou as palavras que o congelaram no lugar.

— Quando fugi do casamento... eu estava grávida.

JungKook virou-se lentamente, os olhos arregalados de surpresa e incredulidade.

— O quê?

— Eu estava grávida, mas o filho não era seu. Era do Min GiSoo...

Antes que JungKook pudesse reagir, a porta da sala se abriu. Ren entrou, claramente ouvindo as últimas palavras de InSu. Ele parou, surpreso e furioso, seus olhos alternando entre JungKook e InSu.

— O que... está acontecendo aqui? — Perguntou Ren, sua voz carregada de tensão.

JungKook encarava InSu, as palavras dela ainda ecoando em sua mente. Ele sentia a raiva e o desgosto crescendo a cada segundo.

Ren, ainda parado na porta, olhava para ambos, tentando processar o que acabara de ouvir.

— Grávida? Do Min GiSoo? — Ren quebrou o silêncio, seu tom incrédulo e ácido. — Você realmente tem coragem de aparecer aqui e despejar isso?

InSu respirou fundo, mas seus olhos demonstravam culpa e cansaço.

— Eu precisava contar a verdade. Não posso continuar carregando isso sozinha.

JungKook deu uma risada curta e amarga, passando a mão pelos cabelos como se tentasse manter o controle.

— Verdade? Agora você decide que quer ser honesta? Depois de todos esses anos? Você arruinou a minha vida, InSu. Você fez de mim a chacota do hospital, me deixou com um peso que não era meu pra carregar. E agora aparece aqui pra me dizer que estava grávida de outro homem? — Ele balançou a cabeça, incrédulo.

Ren deu alguns passos à frente, posicionando-se entre os dois como se tentasse proteger JungKook.

— Você não devia estar aqui, InSu. Não depois de tudo o que fez. Não acha que já causou danos suficientes?

InSu olhou para Ren, depois para JungKook, com lágrimas nos olhos.

— Eu não vim para causar mais dor. Eu vim... para tentar consertar as coisas.

— Consertar? — JungKook riu, incrédulo. — Não há nada para consertar. Eu não sou mais aquele homem que você conheceu. E, sinceramente, agradeço por isso.

Ren olhou para JungKook, hesitando.

— Você quer que eu a tire daqui? — Perguntou Ren, a tensão em sua voz clara.

JungKook não respondeu de imediato. Ele respirou fundo, desviando o olhar de InSu.

— Não precisa. Ela já ouviu o que precisava. Agora, é melhor ir embora, InSu. E, por favor, não volte mais.

InSu hesitou, mas percebeu que não tinha mais nada a dizer. Antes de sair, ela olhou para JungKook uma última vez.

— Eu só queria o seu perdão.

JungKook a encarou, os olhos frios e duros.

— Perdão é algo que você não merece, InSu.

Ela engoliu em seco, deu meia-volta e saiu da sala, deixando Ren e JungKook sozinhos.

Ren olhou para o amigo, sua expressão preocupada.

— Você está bem?

JungKook riu, mas a amargura estava clara em sua voz.

— Estou acostumado a lidar com os fantasmas do passado. Só não esperava que um deles fosse aparecer aqui hoje.

Ren assentiu, mas ainda parecia tenso.

— Se precisar de alguma coisa... ou se ela aparecer de novo, me avise.

JungKook apenas balançou a cabeça e saiu da sala, voltando para onde as crianças esperavam por ele. Ele precisava de algo para afastar aquele turbilhão de pensamentos. Algo para lembrar que ainda havia pureza e inocência no mundo, mesmo que ele próprio não sentisse mais nada disso dentro de si.

**

InSu saiu do orfanato com passos rápidos, com ombros tensos, como se carregasse todo o peso do mundo. O rosto molhado pelas lágrimas. A discussão com JungKook e Ren ainda latejava em sua mente.

“Verdade? Agora você decide que quer ser honesta? Depois de todos esses anos? Você arruinou a minha vida, InSu. Você fez de mim a chacota do hospital, me deixou com um peso que não era meu pra carregar. E agora aparece aqui pra me dizer que estava grávida de outro homem?”

“Você não devia estar aqui, InSu. Não depois de tudo o que fez. Não acha que já causou danos suficientes?”

Ela abriu a porta do carro com um puxão brusco, e entrou, ligando o motor com mãos trêmulas.

O carro avançava pela estrada deserta, as luzes dos faróis iluminando a cortina de chuva à frente. As mãos de InSu apertavam o volante com força, os nós dos dedos brancos de tensão.

Ela mordeu o lábio, tentando conter os soluços que subiam pela garganta. InSu acelerou, ignorando o painel que marcava uma velocidade cada vez maior.

— Eu só queria… — sua voz se quebrou, e ela bateu a mão no volante. — Eu só queria que me perdoasse.

As lágrimas nublaram sua visão, mas ela não se importou. Foi então que viu tarde demais: uma curva fechada se aproximava rapidamente.

O carro derrapou no asfalto, os pneus escorregando como se não houvesse atrito. O som do motor rugindo se misturava ao grito de InSu, que tentou desesperadamente girar o volante. Mas era tarde demais. O carro bateu de frente com uma árvore.

O airbag disparou, jogando-a contra o banco com força. A dor foi imediata e esmagadora. O carro girou antes de parar, metade do veículo inclinada para fora da estrada.

InSu tentou abrir os olhos, mas tudo parecia borrado. Um líquido quente escorria por sua testa. A respiração era curta, cada movimento doía como se estivesse presa em um campo de espinhos.

— N-não… — Murmurou, tentando alcançar o celular com o braço que não parecia ferido. O esforço fez sua cabeça girar, a exaustão pesando mais do que qualquer coisa.

Então tudo escureceu.

**

NamJoon chamou o próximo paciente, um jovem de 24 anos que andava com dificuldade e carregava um olhar exausto. Após os cumprimentos iniciais, pediu para ele se sentar e começar a relatar seus sintomas.

— Faz alguns meses que estou com muita fraqueza nas pernas, doutor. No início, pensei que fosse só cansaço, mas agora mal consigo ficar em pé por muito tempo — Disse o paciente, enquanto JiMin anotava atentamente.

— Teve outros sintomas? — Perguntou NamJoon.

— Sim, algumas vezes sinto dormência nas mãos e até no rosto. E minha visão ficou embaçada algumas semanas atrás, mas depois voltou ao normal.

NamJoon fez uma série de perguntas para a anamnese, avaliando o histórico familiar, o surgimento dos sintomas e quaisquer fatores desencadeantes:

— Algum caso de doenças neurológicas na família?

— Não que eu saiba.

— Já teve febre, perda de peso ou alterações de apetite?

— Não.

— Fuma ou bebe?

— Não, nunca.

— Está tomando algum medicamento atualmente?

— Não.

NamJoon pediu para o paciente realizar alguns testes de reflexos e força muscular, enquanto explicava calmamente para JiMin o que observava:

— Percebe a dificuldade na coordenação motora e a fraqueza assimétrica? Isso é um sinal clássico de lesão neurológica.

JiMin interveio com curiosidade:

— E os episódios de visão embaçada, doutor? Poderia estar relacionado?

NamJoon assentiu.

— Sim, JiMin, muito provavelmente. É característico de lesões intermitentes no sistema nervoso central, como na esclerose múltipla.

JiMin continuou a tomar notas, enquanto NamJoon discutia o diagnóstico diferencial com ele.

— No caso dele, vamos solicitar uma ressonância magnética do cérebro e da medula espinhal para verificar possíveis lesões desmielinizantes, além de exames de sangue para descartar outras causas, como infecções ou deficiências vitamínicas.

Após orientar o paciente sobre os próximos passos e prescrever medicamentos para controlar os sintomas temporariamente, NamJoon encerrou a consulta. Ele virou para JiMin, que estava claramente interessado no caso.

— Você está gostando dos atendimentos no consultório, não é? — Perguntou NamJoon, sorrindo.

— Sim, doutor. Estou aprendendo muito com essas consultas.

NamJoon riu e elogiou:

— Você está no caminho certo, JiMin. Essa dedicação é o que faz a diferença.

Enquanto eles saíam do consultório, NamJoon começou a compartilhar histórias de sua experiência nos Estados Unidos:

— Sabe, uma coisa que sinto falta do hospital em que trabalhei lá é essa energia dos residentes. Nos EUA, tudo é muito técnico, muito objetivo. Aqui, sinto que há mais coração, mais paixão pelo trabalho.

JiMin, curioso, perguntou:

— E era muito diferente de trabalhar aqui?

NamJoon refletiu por um momento.

— Algumas coisas são parecidas, como o estresse e as longas jornadas. Mas lá eles valorizam muito o currículo internacional. Se você tiver a oportunidade de trabalhar fora, JiMin, será um diferencial enorme.

JiMin sorriu, pensativo.

— É uma meta para o futuro. Seria incrível aprender com outras culturas e trazer isso para minha prática.

NamJoon assentiu, satisfeito.

— E você vai chegar lá, tenho certeza.

Eles se despediram no corredor, com NamJoon seguindo para o refeitório e JiMin indo ver seu paciente novamente.

**

TaeHyung estava na UTI pediátrica, sentado em uma cadeira próxima à incubadora dos gêmeos siameses. Ele observava atentamente os bebês enquanto fazia anotações no prontuário. Seu olhar era cuidadoso, mas carregava uma preocupação difícil de esconder.

BaekHyun, um colega residente, aproximou-se com uma bandeja de comida na mão e deu um leve toque no ombro de TaeHyung.

— Tae, já deu, né? Você precisa comer alguma coisa. É hora do almoço.

TaeHyung balançou a cabeça, recusando.

— Não posso. Não quero sair do lado deles enquanto a mãe não volta do trabalho.

BaekHyun suspirou, sentando-se na cadeira ao lado.

— É triste ver o quanto essa mulher está se esforçando. Trabalhando o dia inteiro para pagar as contas do hospital sozinha... e ainda por cima como mãe solteira.

TaeHyung franziu a testa e olhou para o colega.

— Ela não tem nenhum familiar que possa ajudar?

BaekHyun deu de ombros, com um semblante resignado.

— Pelo que ouvi, ela não mantém contato com ninguém da família desde que decidiu criar os gêmeos sozinha. Parece que eles não aceitaram muito bem a situação.

TaeHyung desviou o olhar para os bebês e falou com firmeza:

— Ela deveria estar aqui agora, com eles. Não no trabalho.

BaekHyun cruzou os braços, encostando-se na cadeira.

— Infelizmente, ela não tem escolha.

TaeHyung ficou em silêncio por alguns segundos, pensando. Então, perguntou:

— E a assistente social? Não pode tentar encontrar algum doador para cobrir as despesas?

BaekHyun soltou uma risada curta, mas sem humor.

— Olha, isso é bem difícil. Filantropos não aparecem do nada. Mas tem um que costuma ajudar muito aqui no hospital.

TaeHyung ergueu as sobrancelhas, curioso.

— Quem?

BaekHyun sorriu levemente.

— O chamam de "Bom Amigo". Ele faz doações anônimas regularmente. Graças a ele, vários pacientes conseguem cobrir os custos. Mas, nesse caso, as despesas são muito altas. E, para piorar, boa parte das doações já foi usada por outros pacientes.

TaeHyung mordeu o lábio inferior, claramente frustrado.

— E se fizéssemos uma campanha na internet? Poderíamos arrecadar fundos.

BaekHyun imediatamente balançou a cabeça.

— Isso é uma opção, mas tem que partir da mãe, não de nós. Como médicos, não podemos cruzar essa linha, Tae. Além disso, você precisa se concentrar no lado profissional. Envolver-se emocionalmente demais pode atrapalhar seu desempenho na cirurgia amanhã.

TaeHyung suspirou, deixando a caneta cair no colo.

— Eu sei, Baek, mas é difícil não se envolver quando você vê a luta dessa mãe e a situação desses dois pequenos.

BaekHyun deu um tapinha no ombro dele antes de se levantar.

— Sei que você se importa, Tae. E é por isso que você vai ser um excelente cirurgião. Mas agora, vá comer alguma coisa. Amanhã você vai precisar estar 100%.

TaeHyung hesitou, olhando novamente para os bebês. Depois de um longo momento, ele se levantou, deixando o bloco de notas sobre a mesa.

— Tá certo. Vamos.

Enquanto eles caminhavam em direção ao refeitório, TaeHyung não conseguia tirar os gêmeos e a mãe da cabeça.

**

TaeHyung entrou no refeitório e avistou JiMin e HoSeok já sentados, comendo e conversando. Ele se dirigiu à fila para pegar a comida, e foi lá que deu de cara com YoonGi. Esperava uma de suas típicas grosserias, mas, para sua surpresa, YoonGi parecia visivelmente abatido, como se tivesse algo pesado nos ombros.

TaeHyung não conseguiu deixar de perguntar.

— Você tá bem?

YoonGi, com a expressão cansada, levantou os olhos, um pouco surpreso pela pergunta.

— Sim, só... tive dificuldade para dormir.

TaeHyung, com um suspiro, concordou.

— Insônia é uma droga.

A fila seguiu em silêncio por um tempo, até que TaeHyung, quebrando o gelo, perguntou com um tom curioso.

— E com que médico você anda trabalhando ultimamente, já que o JungKook tá de folga?

YoonGi deu de ombros, claramente sem muita vontade de falar sobre o assunto.

— Estava na obstetrícia com o Jin... Não aguento mais ouvir ele falando sobre a cirurgia dos siameses e os possíveis resultados da pesquisa. A empolgação do Jin me irrita. Não gosto de obstetrícia. E aquelas mulheres grávidas... só ficam reclamando.

TaeHyung franziu a testa, surpreso com a dureza nas palavras de YoonGi.

— Por que você é tão radical assim?

YoonGi olhou para ele, um sorriso irônico curvando os lábios.

— Eu só falo o que os outros não têm coragem de falar.

TaeHyung balançou a cabeça, um pouco incomodado com a sinceridade ácida do colega.

— Talvez você devesse ser um pouco mais cuidadoso com o que fala.

YoonGi riu baixinho, sem mais nada para acrescentar.

— Eu só sigo os conselhos de Dr. Jeon.

Enquanto TaeHyung ainda refletia sobre a conversa, seus olhos se fixaram no fundo da cantina. De canto de olho, ele viu NamJoon entrando acompanhado de Jin. Os dois estavam conversando e rindo, parecendo completamente à vontade. A imagem fez TaeHyung pensar que, apesar de todas as suas diferenças, o que ele e YoonGi tinham em comum era que ambos estavam afastados de JungKook por um motivo ou outro.

**

NamJoon e Jin se acomodaram na mesa da cantina, ainda conversando animadamente sobre as semelhanças e coincidências entre suas vidas. O clima descontraído entre eles refletia o quanto haviam se aproximado nos últimos tempos, especialmente durante os atendimentos que compartilharam no hospital.

Jin, com um sorriso brincalhão, comentou:

— Você também tem aquele hábito de ficar arrumando as coisas no consultório, né? Como se tudo fosse uma questão de organização universal. É engraçado como eu também faço isso.

NamJoon riu, concordando.

— Sim, sempre tento manter tudo no seu devido lugar. Acho que, por mais caótico que o trabalho seja, a organização me ajuda a manter a mente tranquila. Você sabe como é, né?

Jin assentiu, refletindo sobre o que NamJoon disse.

— Exato. Eu também sinto que, ao organizar as coisas, sinto um controle sobre o que está acontecendo ao meu redor. Mas sabe, eu fico impressionado como, apesar das nossas diferenças, temos tantos hábitos em comum.

NamJoon olhou para ele, pensativo.

— Acho que é isso que torna as amizades mais interessantes. Quanto mais você conhece alguém, mais percebe que, no fundo, todos têm suas peculiaridades, mas também encontram pontos de conexão.

Jin sorriu, sentindo-se confortável na conversa.

— É verdade. Como aquele momento quando percebemos que ambos somos do tipo que prefere uma boa noite de descanso a uma noite de festa. E que todos os nossos colegas de trabalho podem até nos achar um pouco "sérios" demais, mas é só porque preferimos estar focados.

NamJoon assentiu, gostando da conversa fluida.

— Exatamente. Acho que não somos tão diferentes de outros médicos, só temos um foco maior nas coisas que realmente importam. E, de algum modo, nos complementamos.

Os dois continuaram conversando, cada vez mais relaxados, enquanto o ambiente ao redor continuava a ser preenchido pelos sons da cantina. Para NamJoon e Jin, aquele era um momento raro de pausa, onde o trabalho e as responsabilidades ficavam de lado e a amizade poderia se expandir.

**

Após o almoço BaekHyun caminhava pelos corredores do hospital com passos firmes, mas a preocupação era evidente em seu semblante. Parou diante da porta da assistente social, respirou fundo e bateu duas vezes antes de girar a maçaneta.

— Entre! — A voz familiar de Su ecoou do outro lado.

Ao abrir a porta, ele encontrou a senhora Su sentada atrás de sua mesa, cercada por pilhas de documentos. Apesar da idade avançada, sua postura era firme, e o olhar gentil escondia a exaustão de anos dedicados ao serviço social.

— BaekHyun! — Ela exclamou, com um sorriso acolhedor. — A que devo a honra?

Ele sorriu de volta, um gesto breve, mas sincero, antes de fechar a porta atrás de si.

— Senhora Su, preciso de sua ajuda — Começou, aproximando-se da mesa. — É sobre os gêmeos siameses, JiHoon e JiYul.

Ela arqueou uma sobrancelha, interessada, e gesticulou para que ele continuasse.

— A mãe deles não tem condições de arcar com os custos do tratamento, muito menos da cirurgia de separação. Pensei que talvez você pudesse entrar em contato com o "Bom Amigo". Ele já ajudou tantos casos aqui…

Su suspirou, tirando os óculos e esfregando os olhos cansados.

— BaekHyun, você sabe que eu faria qualquer coisa por esses pacientes, mas o "Bom Amigo" já fez muitas doações este mês. Ele financiou três cirurgias de alto risco além de muitas outras.

Ele inclinou-se levemente, com os olhos cheios de determinação.

— Eu sei disso, senhora Su, mas esses meninos... Eles têm uma chance real de sobrevivência com essa cirurgia. A mãe deles fez tudo que podia até agora, mas está além das forças dela. Por favor, apenas tente. Explique o caso para eles.

Su observou o jovem enfermeiro à sua frente, lembrando-se do quanto ele havia amadurecido desde que começou a trabalhar no hospital. Seu coração se apertou ao ver a sinceridade em sua expressão.

— BaekHyun… — Ela começou, hesitante, mas cedeu diante de sua insistência. — Tudo bem. Vou entrar em contato com ele e explicar a situação. Mas não posso prometer nada.

Ele sorriu, aliviado.

— Já é mais do que o suficiente. Obrigado, senhora Su. Eu sei que vai fazer o melhor.

Ela assentiu, vendo-o se levantar para sair.

— BaekHyun — Chamou antes que ele alcançasse a porta. — Não perca essa determinação. É isso que faz de você um enfermeiro excepcional.

Ele sorriu de lado e saiu, carregando consigo a esperança renovada de que havia uma chance para JiHoon e JiYul.

**

Nas primeiras horas daquela manhã, quando a cidade ainda despertava, JungKook e Ren chegaram ao hospital. O ambiente estava envolto em um silêncio quase absoluto, quebrado apenas pelo som de passos firmes ecoando pelos corredores. A cirurgia de separação dos gêmeos siameses marcaria aquele dia.

Ren caminhava ao lado de JungKook, mas estava visivelmente inquieto, mantendo-se calado por mais tempo do que o habitual.

— O que foi? — JungKook perguntou, notando a expressão preocupada no rosto de Ren.

Ren suspirou profundamente antes de responder:

— Só estou apreensivo. Não sabemos se a cirurgia vai mesmo acontecer hoje. Todo mundo está tão confiante, mas eu... Não consigo me acalmar.

JungKook lançou-lhe um olhar firme, mas tranquilo.

— Ren, eu entendo sua preocupação, mas não deixe isso tomar conta de você. A preparação é fundamental, e nós fizemos tudo que podíamos até agora. Confie na equipe, e principalmente em si mesmo.

Ren não respondeu, apenas desviou o olhar para o celular, esperando ansiosamente por qualquer notícia que pudesse confirmar que a cirurgia seria realizada.

JungKook, percebendo o gesto, estendeu a mão e tirou o celular das mãos dele.

— Ficar olhando para isso não vai ajudar. Confie em mim, a cirurgia vai acontecer.

Ren ergueu os olhos para ele, ainda cético.

— E como você pode ter tanta certeza?

JungKook não respondeu de imediato, apenas apontou com o queixo para o fim do corredor, onde BaekHyun vinha correndo na direção deles, visivelmente animado.

— Porque BaekHyun está vindo aí.

Quando BaekHyun alcançou os dois, sua respiração estava ofegante, mas o sorriso em seu rosto era inconfundível.

— Acabei de sair da sala da senhora Su. O "Bom Amigo" cobriu todas as despesas! — Anunciou com entusiasmo. — Ren, vai se aprontar. Está tudo certo para a cirurgia.

Ren piscou, processando as palavras, antes de soltar um suspiro aliviado.

— Finalmente! Obrigado, BaekHyun.

BaekHyun deu um tapinha no ombro dele antes de se afastar, deixando os dois sozinhos.

JungKook voltou a olhar para Ren, seu tom agora mais leve.

— Está vendo? Eu disse que a cirurgia seria feita. Agora, vá se preparar.

Ren assentiu, a tensão em seus ombros começando a diminuir.

— Tem razão. Obrigado, JungKook.

JungKook apenas deu um pequeno sorriso antes de se afastar com passos firmes.

**

Ren entrou no quarto onde os gêmeos estavam, encontrando a mãe ao lado das incubadoras. Ela segurava delicadamente o vidro de uma delas, enquanto os olhos marejados transmitiam uma mistura de amor e preocupação. Para sua surpresa, Jin já estava lá, explicando o procedimento com sua calma habitual.

— Como eu estava dizendo, a cirurgia será longa e extremamente delicada, mas temos uma equipe altamente qualificada. O Dr.Kim e Dr.Park liderará o procedimento, e estaremos auxiliando em todo o processo — Jin dizia, enquanto a mãe assentia silenciosamente, apertando as mãos para conter a ansiedade.

Ren se aproximou, cruzando os braços enquanto esperava Jin terminar. Quando ele finalizou, Ren acrescentou:

— Além disso, como parte da nossa pesquisa, estamos utilizando técnicas inovadoras para a reconstrução craniana e da coluna. Pode ter certeza de que estamos empregando o que há de mais avançado na medicina.

A mãe ergueu os olhos para Ren, a esperança brilhando por trás das lágrimas.

— Isso significa que eles terão uma vida normal?

Ren hesitou por um momento, mas respondeu com sinceridade:

— Nosso objetivo é garantir que eles tenham a melhor qualidade de vida possível. Ainda haverá desafios durante a recuperação, mas estamos confiantes no sucesso da cirurgia.

Ele fez uma pausa antes de acrescentar, em um tom tranquilizador:

— E pode ficar tranquila, o nome deles será preservado em toda a pesquisa. A identidade dos seus bebês não será divulgada.

Jin concordou, ajustando os óculos enquanto apontava para os papeis sobre a mesa.

— Tudo isso já está especificado no termo de consentimento que você assinou anteriormente. É importante que saiba que estamos comprometidos com o melhor resultado possível.

A mãe passou os olhos rapidamente pelos bebês nas incubadoras antes de se virar novamente para eles. Sua voz era trêmula, mas cheia de determinação.

— Eu confio em vocês. Sei que fiz a escolha certa ao trazê-los aqui. Por favor, salvem os meus filhos.

Ren e Jin trocaram um olhar de cumplicidade antes de Ren se aproximar e colocar uma mão no ombro dela.

— Vamos fazer o nosso melhor, eu prometo.

Jin sorriu levemente para a mãe antes de se despedir, deixando Ren no quarto para finalizar qualquer detalhe. Ren ficou em silêncio por alguns segundos, observando os bebês e a mãe. Quando ela voltou a encarar as incubadoras, ele disse suavemente:

— Você é uma mãe incrível. Eles têm muita sorte de ter você ao lado deles.

A mulher sorriu fraco, ainda emocionada, enquanto Ren se retirava do quarto. Ao sair, ele lançou um último olhar para os bebês, determinado a garantir que aquela cirurgia fosse um sucesso absoluto.

**

A sala de cirurgia estava envolta em um silêncio tenso. Enfermeiros e médicos finalizavam os preparativos enquanto o ambiente era preenchido pela expectativa do desafio à frente: a separação de gêmeos siameses interligados pelo crânio e pela coluna. TaeHyung estava num canto da sala, os olhos fixos nos monitores, sentindo a ansiedade pesar em seus ombros.

BaekHyun verificava os equipamentos pela última vez, enquanto NamJoon e ChanYeol repassavam os passos do procedimento em voz baixa. Ren e Jin, com pranchetas em mãos, estavam atentos para documentar cada detalhe que seria crucial para a pesquisa científica.

Finalmente, os bebês chegaram, já sedados, e foram colocados cuidadosamente na mesa cirúrgica. Todos na sala trocaram olhares tensos. ChanYeol deu um passo à frente e, com um tom motivador, disse:

— Este é o maior desafio de nossas carreiras, mas também a maior oportunidade de mudar vidas. Trabalhamos juntos, com foco e precisão. Vamos começar.

NamJoon assumiu a liderança e iniciou a incisão inicial na pele ao redor do crânio compartilhado. O primeiro passo era separar o tecido mole, removendo cuidadosamente os vasos sanguíneos superficiais conectados entre os dois bebês.

— Cuidado com os capilares aqui. Precisamos minimizar qualquer perda de sangue — NamJoon avisou, enquanto ChanYeol cauterizava os vasos menores.

Com as camadas superficiais expostas, a equipe avançou para a separação do tecido ósseo. Utilizando um craniótomo, NamJoon trabalhou meticulosamente para dividir o crânio, acompanhando as imagens 3D obtidas no planejamento pré-operatório.

A parte mais delicada começou quando chegaram ao tecido cerebral interligado. Com o auxílio de um neurocirurgião, a equipe identificou as áreas compartilhadas e mapeou os vasos cerebrais com um doppler intraoperatório.

— Precisamos preservar ao máximo as áreas funcionais individuais — O neurocirurgião explicou.

A separação do tecido cerebral foi feita com bisturis ultrassônicos, reduzindo o risco de danos. Pequenas veias foram cauterizadas e reconstruídas com enxertos vasculares. Quando um dos bebês apresentou queda na saturação, ChanYeol interveio rapidamente:

— Aumentem o fluxo de oxigênio e ajustem os líquidos!

Após estabilizarem os sinais vitais, prosseguiram para a reconstrução. As áreas expostas do cérebro foram cobertas com enxertos de duramáter, e as partes ósseas do crânio foram reconstruídas utilizando próteses personalizadas.

O próximo desafio era a separação da medula espinhal compartilhada. Esse passo exigiu extrema precisão, já que qualquer erro poderia resultar em paralisia permanente. Utilizando um microscópio cirúrgico, ChanYeol, agora na liderança, identificou cada nervo e cuidadosamente os dividiram.

Para reconstruir a coluna de cada bebê, utilizaram hastes de titânio e enxertos ósseos retirados das pernas dos próprios pacientes. A reconstrução da pele foi feita com enxertos adicionais, enquanto a equipe neonatal monitorava os sinais vitais constantemente.

Após 18 horas de cirurgia, os bebês estavam separados e estabilizados. A sala inteira irrompeu em aplausos contidos, a tensão dando lugar a um alívio esmagador.

ChanYeol tirou a máscara cirúrgica e olhou para NamJoon, exausto, mas satisfeito.

— Um esforço incrível. Parabéns a todos.

TaeHyung, que havia observado tudo pela tela, sentiu as lágrimas escaparem enquanto via os gêmeos sendo levados para incubadoras individuais. Ren e Jin se aproximaram de NamJoon para discutir os próximos passos da recuperação e documentar os resultados.

Do lado de fora, a mãe dos gêmeos aguardava ansiosamente, e quando recebeu a notícia, desabou em lágrimas de alívio e gratidão. O hospital havia testemunhado um marco na medicina, e cada membro da equipe sabia que aquele dia seria lembrado para sempre.

**

A sala de cirurgia estava iluminada, com todos os equipamentos ajustados para a décima cirurgia do longo dia. JiMin estava exausto, mas não deixava transparecer, atento aos movimentos precisos de JungKook, que liderava o procedimento.

O paciente era um jovem diagnosticado com apendicite aguda, necessitando de uma apendicectomia de emergência. JiMin entregava os instrumentos conforme solicitado, enquanto JungKook começava a incisão laparoscópica, explicando cada etapa para seu residente.

— Qual é a principal complicação de uma apendicite não tratada, JiMin? — Perguntou JungKook, enquanto manuseava o bisturi com firmeza.

— Peritonite, que pode evoluir para sepse se não tratada a tempo — Respondeu JiMin, confiante.

JungKook assentiu, satisfeito.

— Certo. E qual é o marcador inflamatório que geralmente está elevado nesses casos?

— A proteína C-reativa e os leucócitos também ficam aumentados no hemograma — JiMin respondeu, mas hesitou.

JungKook corrigiu suavemente.

— Isso está correto, mas não se esqueça do desvio à esquerda nos neutrófilos. É um sinal clássico.

Enquanto corrigia JiMin, JungKook utilizava o trocater para criar o espaço necessário no abdômen e visualizar melhor a região inflamada. Ele apontou para a tela, mostrando o apêndice inchado.

— Veja aqui. Qual é o próximo passo, JiMin?

— Isolar o apêndice e utilizar o grampeador cirúrgico para removê-lo, preservando a base do ceco — JiMin respondeu, enquanto entregava o grampeador.

JungKook deu um leve sorriso, apreciando o progresso de JiMin.

— Muito bem. Agora, o que devemos observar após a remoção?

JiMin hesitou por um segundo, mas respondeu:

— Possíveis sinais de perfuração ou abscesso, além de garantir que não haja sangramento no local.

JungKook corrigiu novamente.

— E também avaliar a integridade da base do ceco. Não se esqueça disso.

Enquanto trabalhavam, JungKook quebrou a tensão da sala com uma pergunta inesperada.

— Então, como foi seu fim de semana na neurocirurgia?

JiMin, que estava focado, respondeu:

— Foi esclarecedor e interessante ver o método de ensino do Dr. NamJoon. Ele tem uma abordagem diferente, mais descontraída, mas muito eficaz.

JungKook sorriu de canto.

— Quero um relatório completo sobre o que aprendeu na neurocirurgia.

JiMin resmungou, cansado.

— Já tenho muitos relatórios...

JungKook lançou um olhar de provocação.

— Se prefere, pode trocar com YoonGi e ficar no atendimento clínico amanhã.

JiMin não respondeu, focado em passar o próximo instrumento.

JungKook finalizou a cirurgia com a sutura do local da incisão, mantendo seu tom sério.

— Amanhã será um dia dedicado aos relatórios. Quero detalhes sobre cada cirurgia. YoonGi ficará comigo nas próximas, e depois avaliaremos vocês dois em conjunto.

Enquanto terminavam, JungKook acrescentou:

— Considere isso como uma revisão para a prova que fará para continuar na residência.

JiMin assentiu, sabendo que aquele era o método de JungKook para preparar seus residentes, mesmo que fosse exaustivo.

**

O celular de JiMin vibrou em suas mãos enquanto ele estava na sala de descanso. Olhou para a tela e viu o nome de sua mãe piscando. Estranhamente, ao atender, a voz que o cumprimentou não era a de sua mãe, mas sim a de seu irmão, JiHyun.

— JiMin... — A voz de JiHyun veio carregada de uma calma tensa, algo que imediatamente causou um nó no estômago de JiMin. Ele se endireitou na cadeira, sentindo seu coração acelerar. — Nossa mãe teve um infarto.

As palavras soaram como um golpe. O mundo ao seu redor parecia se desvanecer por um momento, mas JiMin forçou-se a focar.

— O quê? Como ela está? — A voz de JiMin estava trêmula, a preocupação tomando conta de cada sílaba. Ele queria mais informações, queria entender o que estava acontecendo, mas as palavras estavam dificultando sua respiração.

JiHyun fez uma pausa antes de responder, como se estivesse processando a situação.

— Ela está sendo bem atendida, mas foi sério. O cardiologista já está com ela. Não queria que você soubesse agora, JiMin... para você não se preocupar, você está tão ocupado. Ela pediu para não contar.

JiMin sentiu o peso das palavras de seu irmão. A vontade de estar ao lado de sua mãe era avassaladora, mas também sabia que seu irmão estava tentando protegê-lo, talvez tentando aliviar sua carga.

— Nunca vou estar ocupado demais para minha família! — Respondeu JiMin, a voz firme, mas a dor e o medo visíveis. — Eu vou para Busan, agora. Vou falar com o JungKook e ir imediatamente.

JiHyun, com a calma de sempre, respondeu:

— Não precisa se preocupar, JiMin. Já é tarde, você não vai conseguir chegar até lá hoje. Ela está bem acompanhada aqui, no hospital.

Mas as palavras de JiHyun não foram suficientes para acalmá-lo. O relógio marcava 23:51, e o impulso de estar ao lado de sua mãe era incontrolável.

— Eu vou assim mesmo. Vou me preparar e pegar o primeiro trem amanhã. — A decisão já estava tomada, e JiMin, sem esperar mais explicações, desligou o telefone. O som do clique na linha ecoou em sua mente enquanto ele olhava para o relógio, sabendo que mais uma vez sua família precisaria dele.

JiMin desligou o telefone com a mente turbilhonando, sentindo uma onda de preocupação tomar conta de seu corpo. Seu irmão havia falado de maneira tão calma, mas a gravidade das palavras o deixou inquieto. Sua mãe tinha tido um infarto, e embora JiHyun tivesse dito que ela estava sendo bem cuidada, JiMin não conseguia ignorar o impulso de ir até ela.

Ele olhou para o relógio, que marcava 00:51, e sabia que não podia esperar até o dia seguinte. Sem pensar duas vezes, ele levantou-se da cadeira, pegou seu celular e saiu da sala de descanso.

O hospital estava mais silencioso naquela hora, e os corredores vazios refletiam seu estado de espírito. Ele se dirigiu diretamente à sala de JungKook, sem tempo a perder. Ao entrar, viu o supervisor sentado, revisando alguns documentos.

— JiMin, você ainda está por aqui? — Perguntou JungKook, levantando os olhos para o residente.

JiMin não perdeu tempo.

— Minha mãe teve um infarto. Eu preciso ir para Busan.

JungKook imediatamente se levantou, a expressão ficando séria.

— Ela está estável?

— Está sendo acompanhada por um cardiologista, mas eu preciso vê-la. — JiMin respondeu rapidamente, a tensão no corpo evidente.

JungKook pensou por um momento e então disse, com firmeza.

— Entendo, JiMin. Você pode ir, claro. Não vou impedi-lo. Mas, se puder, avise-nos sobre qualquer atualização.

JiMin assentiu com gratidão, mas ainda sentia uma ansiedade crescente dentro de si.

— Vou me preparar para ir amanhã pela manhã.

JungKook fez um gesto de compreensão.

— Vá, e cuide da sua mãe. O trabalho aqui vai esperar.

JiMin deu um suspiro de alívio e se preparou para sair, ainda sentindo o peso da situação.

— Obrigado, doutor. Eu volto o mais rápido possível.

JungKook olhou para ele com uma expressão de apoio.

— Cuide de você também, JiMin. A sua saúde é tão importante quanto a dela.

Com um último olhar, JiMin saiu apressado, determinado a estar ao lado de sua mãe o quanto antes.

**

Na manhã seguinte, JiMin acordou com o som suave da neve caindo lá fora, cobrindo a cidade com seu manto branco. Ele se sentia um pouco perdido, como se o ano tivesse passado em um piscar de olhos. O frio da manhã parecia complementar essa sensação de pressa que o dominava. Ele se apressou em se arrumar, ainda com a mente preocupada, e seguiu para a estação de metrô para comprar a passagem para Busan.

Ao chegar na estação, foi surpreendido com a notícia de que todas as viagens haviam sido canceladas devido à neve intensa que havia caído na cidade. O desânimo tomou conta de JiMin enquanto ele olhava a tela da estação, constatando que não havia alternativa para seguir viagem. Com um suspiro frustrado, ele pegou seu celular e ligou para seu irmão, JiHyun.

A voz de JiHyun soou do outro lado da linha, tranquila e reconfortante, como sempre.

— O que aconteceu, JiMin? — Perguntou JiHyun, percebendo a tensão na voz do irmão.

— A viagem para Busan foi cancelada. — JiMin explicou, o tom de preocupação evidente. — Eu não sei o que fazer. Estava planejando sair hoje, mas a neve adiantada está atrapalhando tudo.

JiHyun, sempre pragmático, respondeu com serenidade:

— Não se preocupe. Não vale a pena se estressar com isso agora. Vai trabalhar e depois tenta de novo. Vai dar tudo certo.

Mas JiMin não podia esperar. Seu instinto de querer estar com sua mãe em Busan era mais forte que qualquer outra coisa. Com um impulso, ele desligou a ligação e, em um ato impensado, pegou seu celular novamente, digitando o número de JungKook. Não sabia bem por que, mas foi a primeira pessoa que lhe veio à mente.

O telefone tocou algumas vezes antes de JungKook atender, sua voz calma, mas curiosa:

— JiMin, aconteceu alguma coisa para você me ligar?

JiMin hesitou por um momento, antes de responder, um pouco nervoso:

— Na verdade, eu... Eu preciso de um favor. Não tenho carro e todas as viagens estão canceladas por causa da neve. Eu queria saber se você poderia me dar uma carona até Busan. Eu sei que é pedir muito, mas... Eu pensei que talvez você pudesse me ajudar.

Houve uma breve pausa do outro lado da linha, e JiMin começou a se arrepender de ter ligado. Mas então, a voz de JungKook soou, mais séria:

— Mande a localização da estação onde você está. Eu vou te pegar lá.

JiMin ficou surpreso com a resposta rápida e direta de JungKook, mas a gratidão tomou conta dele.

— Obrigado, doutor. Sério, muito obrigado. — Ele disse com sinceridade.

JungKook desligou sem mais palavras, e JiMin rapidamente mandou a localização da estação. Enquanto aguardava, ele sentiu um alívio. Sabia que a viagem até Busan ainda seria longa e cheia de obstáculos, mas, ao menos, tinha uma maneira de chegar lá. O gesto de JungKook, ainda que inesperado, fez com que JiMin se sentisse um pouco mais tranquilo, mesmo com o peso da situação de sua mãe ainda pairando sobre ele.

**

JungKook chegou à estação, buzinando suavemente para chamar a atenção de JiMin. Ele olhou pela janela e viu JiMin saindo rapidamente, com o rosto parcialmente coberto pela neve que ainda caía, mas sem esconder o sorriso de gratidão.

— Neve adiantada, não é? — JiMin comentou assim que entrou no carro, fechando a porta atrás de si. — Nunca imaginei que isso ia acontecer agora.

JungKook deu de ombros enquanto pegava a mochila de JiMin e a colocava no banco de trás do carro.

— Mudanças climáticas, não tem como escapar. — Ele disse, sem demonstrar muito entusiasmo sobre o assunto, enquanto ligava o carro e começava a dirigir.

JiMin sorriu levemente, grato pela ajuda.

— Obrigado pela carona, doutor. Eu realmente não sabia o que faria. Desculpe pelo incômodo, sei que era para você estar descansando agora…

JungKook lançou um olhar rápido para ele, os olhos focados na estrada, mas com um tom quase tranquilo em sua voz.

— Já estou acostumado. Sua mãe não pode esperar muito para ver o filho. Isso vale mais que qualquer outro compromisso.

JiMin sorriu, um pouco tocado, e olhou pela janela, observando a neve que parecia não ter fim.

— Certeza que está tudo bem em deixar os pacientes para vir até aqui? — Ele perguntou, quebrando o silêncio, enquanto tentava relaxar um pouco.

JungKook olhou para ele brevemente antes de responder, a voz firme e decidida.

— YoonGi é competente. Ele consegue dar conta das consultas. — Ele disse, sem hesitar. — Eu confio no trabalho dele.

JiMin riu suavemente, imaginando a cena.

— Aposto que YoonGi deve adorar essa “liberdade”. Deve estar adorando ser o responsável.

JungKook deu um sorriso discreto, os olhos focados na estrada, mas com uma expressão de leve diversão.

— A teoria leva à prática de forma perfeita, JiMin. É só questão de confiar.

JiMin balançou a cabeça, como se estivesse refletindo sobre o que JungKook havia dito. Depois, com um sorriso pensativo, comentou:

— Você e o Dr.Kim são meio parecidos, não é? Sempre com esse jeito calmo, tranquilo, como se nada pudesse abalar.

JungKook lançou um olhar rápido para ele, um leve sorriso tocando seus lábios.

— Eu e NamJoon? Não sei. Mas talvez seja a confiança em tudo o que fazemos. — Ele respondeu, com um tom suave, quase filosófico, enquanto seguia pela estrada coberta de neve.

JiMin ficou em silêncio por um momento, refletindo sobre as palavras de JungKook, sentindo que a viagem até Busan seria mais longa do que imaginava, mas agora, de alguma forma, mais suportável.

**

Após três horas de viagem, com a neve ainda caindo suavemente e cobrindo a paisagem ao redor, JungKook decidiu parar em um posto de gasolina para abastecer. Ele estacionou o carro próximo às bombas e desligou o motor.

— Vá comer algo no mercado enquanto eu cuido disso. — JungKook sugeriu, olhando para JiMin, que esfregava as mãos para espantar o frio.

JiMin assentiu, mas não disfarçou o desconforto com a baixa temperatura ao sair do carro. JungKook, notando o gesto, pegou um casaco que estava no banco de trás, junto à bagagem de JiMin, e o entregou.

— Vista isso antes que congele. — Ele disse com uma expressão séria, mas um tom quase cuidadoso.

— Obrigado. — JiMin sorriu, vestindo o casaco por cima do que já usava. A camada extra de roupa parecia aliviar o frio imediatamente.

Ele seguiu para o mercadinho do posto, que estava praticamente vazio. Passou pelos corredores rapidamente e pegou dois pacotes de shin ramyun. Depois de pagar no caixa, foi até o micro-ondas para prepará-los. Enquanto a comida esquentava, ele olhou pela janela, vendo JungKook terminar de abastecer o carro. A postura sempre impecável dele parecia se manter mesmo na simplicidade da ação.

JiMin levou os dois ramyun prontos para a pequena bancada disponível no mercadinho e começou a comer. Não demorou muito para JungKook entrar, sacudindo a neve dos ombros antes de se sentar ao lado dele.

— Você gosta de comida apimentada? — JiMin perguntou, entregando um dos ramyun para JungKook.

— Posso suportar. — JungKook respondeu, pegando os hashis e começando a comer.

O silêncio caiu entre os dois por um momento, preenchido apenas pelo som do vento lá fora e do barulho das tigelas. JiMin olhou para JungKook e perguntou hesitante:

— Não tem mesmo problema você estar aqui comigo e não no hospital?

JungKook ergueu o olhar para ele, a expressão tranquila.

— Não. Não há nenhuma cirurgia marcada antes das 15:00. — Ele respondeu de forma prática, voltando a comer.

JiMin apenas assentiu, sentindo-se um pouco mais à vontade, mas o silêncio foi novamente quebrado por JungKook.

— Durante a madrugada, a equipe de enfermagem me informou que Sun acordou. — JungKook disse de forma casual, mas direta.

A reação de JiMin foi instantânea. Seus olhos se iluminaram e, sem pensar, ele se levantou e abraçou JungKook, um gesto cheio de alívio e alegria. Porém, assim que percebeu o que tinha feito, JiMin rapidamente se afastou, visivelmente constrangido.

— Desculpa, eu me empolguei... — Ele murmurou, abaixando o olhar.

JungKook apenas sorriu de canto, algo raro, mas genuíno.

— Também estou feliz por Sun. Conversei com a irmã dele antes de ir buscar você. — Ele disse, tentando tranquilizá-lo.

JiMin ainda sorria, embora agora mais contido.

— Gostaria de voltar antes que Sun tenha alta... — Ele comentou, quase como um pedido tímido.

JungKook balançou a cabeça, a voz firme, mas gentil.

— Por enquanto, preocupe-se apenas com sua mãe. O resto pode esperar.

JiMin assentiu, voltando a comer enquanto sentia um misto de gratidão e respeito por JungKook.

**

TaeHyung estava encostado na parede ao lado do vidro que separava a UTI neonatal do corredor, os olhos fixos nos dois pequenos berços onde JiHoon e JiYul, agora separados, descansavam. O ambiente era silencioso, exceto pelo som distante de passos e conversas. Ele não conseguia evitar o leve sorriso no rosto, aliviado e emocionado com o sucesso da cirurgia.

HoSeok aproximou-se com passos calmos, notando o amigo perdido em pensamentos.

— A notícia já se espalhou pelo hospital. Todo mundo está animado e aliviado que deu certo. — Ele disse, parando ao lado de TaeHyung.

TaeHyung virou-se para ele, os olhos ainda brilhando com emoção.

— Os médicos estão reunidos, discutindo a cirurgia para quase finalizarem a pesquisa. — Ele suspirou, olhando de volta para os bebês. — Estou aliviado, HoSeok. Muito.

HoSeok deu um sorriso caloroso antes de perguntar:

— E a mãe? Onde está?

— Foi descansar um pouco. Eu prometi que ficaria aqui observando os bebês. — TaeHyung respondeu, cruzando os braços.

HoSeok inclinou a cabeça ligeiramente.

— Então, vou ficar aqui com você. É minha pausa do trabalho, afinal.

— Não precisa, HoSeok. — TaeHyung balançou a cabeça.

— Insisto. — HoSeok sorriu, firme.

TaeHyung acabou cedendo, relaxando os ombros.

— Quando eles foram finalmente separados, meu coração quase saiu pela boca. Não consegui respirar direito até tudo estar terminado. — Ele confessou, a voz carregada de sinceridade.

— Imagino. — HoSeok respondeu, sorrindo de leve.

TaeHyung soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Ainda não acredito que uma cirurgia tão complexa aconteceu bem na minha frente.

HoSeok olhou para ele com um brilho de orgulho.

— Nada é impossível para os médicos do Kanbuk. — Ele disse com um tom ligeiramente diferente, que TaeHyung percebeu imediatamente.

TaeHyung franziu as sobrancelhas, virando-se totalmente para HoSeok.

— Tem algo que você queira compartilhar, HoSeok?

HoSeok hesitou, desviando o olhar para o vidro, como se procurasse uma resposta nos berços ao longe.

— Não posso contar.

TaeHyung cruzou os braços, inclinando-se para mais perto.

— Sabe que pode confiar em mim, não sabe? Tudo bem, sou um pouco fofoqueiro, mas nunca contaria um segredo de um amigo.

Para reforçar sua promessa, TaeHyung segurou a mão de HoSeok com firmeza.

HoSeok respirou fundo, parecendo querer falar, mas seus olhos se desviaram para o final do corredor, onde Dr. JiHyo passava conversando com o tutor de um paciente. Ele suspirou, soltando a mão de TaeHyung gentilmente.

— Confio em você, mas não hoje. — Disse, dando um leve sorriso antes de se despedir.

Sem dizer mais nada, HoSeok seguiu em direção a JiHyo, deixando TaeHyung parado, intrigado e curioso sobre o que o amigo tanto escondia.

**

JiMin e JungKook estacionaram o carro na frente do hospital de Busan. O clima frio e a longa viagem ainda pairavam no ar, mas a ansiedade de JiMin era palpável.

— Muito obrigado por me trazer. Você já pode voltar para Seul, não quero te atrasar mais. — JiMin disse, enquanto descia do carro com sua mochila.

— Vou ficar por alguns minutos. Não se preocupe comigo. — JungKook respondeu, tranquilo.

Eles entraram no hospital, que, apesar de ser o maior de Busan, não se comparava ao imponente Kanbuk. JiMin foi direto à recepção, onde pediu informações sobre o quarto de sua mãe. A recepcionista indicou o número e o andar, e os dois seguiram para lá sem trocar muitas palavras.

Ao entrar no quarto, JiMin parou na porta, aliviado ao ver sua mãe sentada na cama, rindo enquanto jogava cartas com a paciente ao lado.

— Omma! — JiMin suspirou, finalmente relaxando.

A mãe dele virou-se, surpresa, mas logo abriu um sorriso caloroso.

— JiMin? O que você está fazendo aqui?

— Você teve um infarto, como eu não viria? — Ele se aproximou, pegando as mãos dela. — Eu fiquei muito preocupado.

— Não precisava, querido. Eu estou bem. Você devia estar trabalhando!

Ela olhou além de JiMin e viu JungKook parado próximo à porta. Um sorriso curioso surgiu em seu rosto.

— Ah, finalmente você trouxe seu namorado para me conhecer. — Disse, orgulhosa.

JiMin ficou vermelho na hora, balançando as mãos nervosamente.

— Omma, não é isso! Este é o Dr. Jeon, meu supervisor na residência.

— Oh! — Ela colocou a mão no peito, olhando para JungKook. — Desculpe-me, doutor.

— Não precisa se desculpar. — JungKook sorriu suavemente. — É bom vê-la tão bem.

— E eu estou mesmo. — Ela respondeu, animada.

— Onde está JiHyun? — JiMin perguntou, procurando pelo irmão.

— Eu o despachei para a lanchonete. Ele já deve estar voltando.

Uma enfermeira entrou no quarto naquele momento para checar as pacientes. JiMin, instintivamente, aproximou-se.

— Como estão os marcadores cardíacos dela? Os níveis estão estáveis?

A enfermeira o encarou, confusa com as perguntas técnicas.

— Somos médicos. — JungKook explicou, quebrando o silêncio.

A enfermeira, ainda um pouco envergonhada, respondeu às perguntas de JiMin rapidamente antes de sair do quarto.

Pouco depois, JiHyun entrou segurando um saco com lanches e um café nas mãos.

— Finalmente você chegou! — JiHyun abriu um sorriso antes de abraçar JiMin.

— Eu senti sua falta. — JiMin disse, emocionado.

— Também senti a sua. — JiHyun respondeu, afastando-se um pouco. Ele olhou para JungKook e sorriu. — Então, finalmente desencalhou, hein?

— Ele é meu supervisor! — JiMin exclamou, sentindo o rosto queimar.

— Que tipo de supervisor leva um residente para outra cidade? — JiHyun provocou.

— Eu também sou de Busan. — JungKook respondeu calmamente.

JiHyun inclinou a cabeça, curioso.

— Talvez a gente já tenha se esbarrado. Somos da mesma idade, não?

— Provavelmente não. Eu cresci no orfanato. Não saía muito de lá. — JungKook disse, com um tom neutro.

O quarto ficou em silêncio por um instante, a tensão do assunto pairando levemente.

— Vou deixá-los à vontade. — JungKook disse, saindo do quarto com discrição.

A mãe de JiMin, que ouvira tudo, esperou a porta fechar antes de se virar para o filho.

— Por que você ainda não agarrou aquele homem? Ele é o homem mais bonito que já vi. Mais bonito que seu pai, com certeza.

— Omma! — JiMin exclamou, escondendo o rosto. — Eu não tenho tempo para isso.

— Assim você vai morrer sozinho. — JiHyun zombou.

— Você também não namora! — JiMin rebateu, apontando o dedo para o irmão.

— Isso porque eu sou bom demais para as mulheres de Busan. Talvez eu devesse me mudar para Seul.

JiMin bateu na cabeça de JiHyun, repreendendo-o.

— E quem cuidaria da nossa mãe?

— Eu não preciso de nenhum de vocês por perto! — A mãe de JiMin disse, fazendo um pequeno drama. — Vão viver suas vidas e me deixem aqui sozinha, com minhas cartas!

JiMin riu, abraçando-a com carinho, enquanto JiHyun revirava os olhos, mas sorria junto.

**

JungKook andava pelos corredores do hospital, os passos firmes e o semblante sério. Enquanto caminhava, uma porta se abriu próxima a ele. Por instinto, ele olhou para dentro do quarto e, em um breve segundo, viu alguém que não esperava encontrar: InSu, deitada na cama de um quarto particular.

Ele parou imediatamente, processando a imagem. Olhou ao redor e viu uma enfermeira saindo do quarto.

— Enfermeira. — Ele chamou, o tom firme. — A paciente daquele quarto... o que aconteceu?

A mulher o olhou, hesitando por um momento.

— O senhor é parente dela?

— Sou um amigo. — JungKook respondeu rapidamente, o olhar fixo no rosto da enfermeira.

Ela suspirou, ajustando a prancheta que segurava.

— Ela sofreu um acidente. Está com uma leve concussão, mas, no geral, está bem. Recusou-se a ligar para qualquer parente ou conhecido. Disse que não queria preocupar ninguém.

JungKook apenas assentiu, agradecendo antes de entrar no quarto.

InSu estava deitada, a cabeça apoiada no travesseiro e os olhos fixos no teto. Quando ouviu a porta se abrir, virou o rosto e ficou surpresa ao vê-lo.

— JungKook...?

Ele fechou a porta atrás de si, cruzando os braços enquanto a encarava.

— O que você estava esperando que acontecesse ficando aqui sozinha, sem contatar ninguém?

InSu abaixou o olhar, desconfortável.

— Eu tentei... mas desisti de ligar.

JungKook bufou, os olhos brilhando com um misto de irritação e preocupação.

— Se você não ligar para alguém, eu mesmo vou informar ao seu pai.

— Não! — Ela exclamou, sentando-se na cama rapidamente. — Por favor, não faça isso. Não quero preocupá-lo.

JungKook a analisou de cima a baixo, observando cada detalhe.

— Você quebrou algum osso?

— Não. — Ela balançou a cabeça. — Foi só uma pequena concussão.

Ela tentou sorrir, mas o desconforto era evidente.

— Estou feliz que você esteja aqui. — InSu disse suavemente, os olhos fixos no rosto dele. — Mas... por que você está aqui?

JungKook desviou o olhar, evitando a pergunta.

— Isso não importa. Ligue para alguém. Caso contrário, eu mesmo tomarei essa responsabilidade.

Sem esperar pela resposta dela, ele se virou e saiu do quarto, fechando a porta atrás de si com firmeza.