O Residente

1 O Residente




JiMin respirou fundo enquanto olhava pela janela da sala de espera dos residentes. O sol da manhã iluminava o imponente "Kanbuk Hospital", o mais renomado de Seul, onde ele iniciaria sua tão sonhada residência em cirurgia geral. O uniforme impecável, o estetoscópio novo pendurado no pescoço, tudo nele refletia o entusiasmo e a ansiedade do primeiro dia. Ele sabia que seria supervisionado pelo cirurgião Jeon JungKook, um nome conhecido entre os residentes, e mal podia esperar para conhecê-lo.


Enquanto aguardava, JiMin começou a se familiarizar com os outros residentes. Kim TaeHyung, de sorriso caloroso e cabelo desordenado, estava sentado ao seu lado, conversando animadamente sobre a cafeteria do hospital. Jung HoSeok, com uma energia contagiante, já tinha transformado a sala de espera em um pequeno show de histórias engraçadas. Mas foi a chegada de Min YoonGi que chamou mais a atenção de JiMin. Antigos colegas de classe, os dois tinham uma relação complicada. YoonGi era brilhante, o herdeiro de uma família rica e poderosa, nunca tinham sido amigos. O cumprimento entre os dois foi frio e polido.


De repente, o enfermeiro BaekHyun entrou apressado.


— O Dr.Jeon está em uma cirurgia de emergência e se atrasará para a apresentação. Vocês terão que esperar um pouco mais.


**


O ambiente estava tomado pela tensão. A iluminação fria refletia nos instrumentos cirúrgicos perfeitamente alinhados, e o som monótono dos monitores cardíacos era interrompido apenas pelo som firme das ordens de Jeon JungKook. Ele estava no meio de uma cirurgia delicada quando o paciente entrou em PCR (parada cardiorrespiratória).


— Parada cardíaca! — Anunciou uma enfermeira, sua voz soando urgente, mas sem pânico.


— Adrenalina, 1 mg, agora! — Ordenou JungKook, os olhos fixos no monitor que mostrava linhas desordenadas. Fibrilação ventricular.


Os enfermeiros ao redor ficaram tensos, mas JungKook permanecia calmo. Ele levantou as mãos ensanguentadas e pediu:


— Pás de desfibrilador, carreguem a 200 joules.


Os eletrodos foram aplicados rapidamente no peito do paciente.


— Afastem-se. — Sua voz era firme e autoritária. — Disparar!


O corpo do paciente deu um leve solavanco, mas o monitor permaneceu em linha reta.


— Vamos de novo. 300 joules. Disparar!


Outro choque, outro solavanco. Nada. JungKook não piscava, não demonstrava nervosismo.


— Massagem cardíaca. Trinta compressões, dois ventiladores.


Ele mesmo assumiu a massagem, as mãos pressionando com força e ritmo perfeito. Cada movimento parecia controlado, como se estivesse em uma dança precisa e mecânica, lutando pela vida do paciente.


Após alguns segundos, que pareceram eternos, o monitor emitiu um bip regular, depois outro.


— Ritmo normalizado! — Anunciou a enfermeira, aliviada.


O silêncio se rompeu com um suspiro coletivo, mas JungKook não parou.


— Estabilizem-no. Vamos fechar.


A equipe se movia como uma orquestra sob sua regência.


Enquanto suturava a incisão, a sala inteira sentia o peso da genialidade fria e calculada do Dr. Jeon JungKook. Ele limpou a testa com o antebraço e se virou para a equipe.


— Bom trabalho. Todos precisam estar prontos para isso. Qualquer um pode salvar uma vida, mas só quem mantém a calma faz isso direito.


Ele saiu da sala sem mais palavras, deixando atrás de si um rastro de silêncio e admiração.


JiMin, esperando ansioso na sala ao lado, nem imaginava que o homem que estava prestes a conhecer acabara de enfrentar a morte de frente — e vencer.


**

A porta se abriu com um rangido suave, e o som das passadas firmes de Jeon JungKook ecoou pela sala. Todos os olhares se voltaram para ele. Ainda vestindo o pijama cirúrgico manchado de suor e sangue, com a touca azul que cobria parte de seus cabelos escuros, ele parecia uma figura imponente. Seus olhos escaneavam a sala com uma intensidade quase avassaladora. JungKook tirou a touca lentamente, revelando fios desalinhados e uma expressão fria, mas calculadamente controlada.


— Sou o Dr. Jeon JungKook — Disse, sua voz firme e autoritária, preenchendo o ambiente. — Sejam bem-vindos ao Kanbuk Hospital.


Os residentes não conseguiam esconder o nervosismo e a admiração. Jung HoSeok, sempre animado, tentou quebrar o clima tenso:


— É uma honra finalmente conhecer o famoso Dr. Jeon. Sou Jung Ho...


— Não perguntei seu nome — Cortou JungKook, sem sequer desviar o olhar do tablet que o enfermeiro BaekHyun acabara de lhe entregar.


O sorriso no rosto de HoSeok desapareceu, substituído por uma expressão constrangida. BaekHyun, por outro lado, parecia acostumado com o comportamento de JungKook, entregando o tablet sem hesitação e lançando um olhar simpático aos residentes.


JungKook começou a falar, sem rodeios:


— Vocês serão divididos por alas. Não estão mais na universidade onde vocês podem fazer o que querem. Aqui, salvamos vidas. Não há espaço para erros.


Ele ergueu o tablet e começou a ler os nomes:


— Kim TaeHyung, UTI pediátrica. Você será residente do Dr. Park ChanYeol.


TaeHyung sorriu, aliviado e animado. BaekHyun acrescentou com entusiasmo:


— Eu também trabalho na UTI pediátrica. Será um prazer ter você por lá, TaeHyung.


— Obrigado! — TaeHyung respondeu, animado, e piscou para BaekHyun, que sorriu.


— Jung HoSeok, cuidados paliativos.


HoSeok fez uma careta, cruzando os braços.


— Eu queria trabalhar na UTI geral... com o senhor, Dr. Jeon.


JungKook ergueu o olhar lentamente, seus olhos penetrantes encontrando os de HoSeok.


— Escolhi pessoalmente onde cada um ficaria, com base nas suas menores notas na prova de seleção. Se quiser mudar isso, prove que pode fazer melhor. Todos mudarão de ala após a prova de final de semestre. Têm dois anos para se tornarem bons o suficiente.


HoSeok engoliu em seco, murmurando algo inaudível.


— Min YoonGi — Continuou JungKook. — Cirurgia geral. Você tem um currículo acadêmico impecável, e foi escolhido diretamente pelos superiores para esta área. É o único realmente qualificado para a cirurgia geral.


YoonGi, com seu rosto impassível, apenas assentiu.


Por fim, JungKook olhou para o tablet mais uma vez.


— Park JiMin.


JiMin sentiu o coração acelerar. Ele estava tão nervoso que mal ouviu o que JungKook disse a seguir. TaeHyung cutucou seu braço, murmurando:


— Ei, ele disse cirurgia geral.


JiMin, assustado, piscou algumas vezes e olhou para JungKook.


— Desculpe... poderia repetir?


O silêncio caiu na sala. JungKook o encarou, um olhar frio e cortante que fez JiMin se encolher.


— Cirurgia geral — Repetiu JungKook devagar, a voz carregada de desdém. — Você será meu residente, junto com Min YoonGi.


JiMin desviou o olhar, envergonhado.


— Não desvie o olhar quando eu estiver falando com você, Park JiMin — advertiu JungKook, com voz dura. — Sua nota foi a mais baixa em cirurgia geral. Isso significa que você terá que se esforçar muito mais do que qualquer outro aqui. Eu não tolero falhas, nem fraquezas. Se quer sobreviver a esta residência, terá que se tornar o melhor. Não espero nada menos.


JiMin sentiu o rosto arder de vergonha. Mas naquele momento, ele fez uma promessa silenciosa: provar que era digno de estar ali, mesmo que custasse tudo.


**

O hospital Kanbuk estava em plena atividade. O som dos passos apressados, dos monitores cardíacos e das conversas abafadas preenchia os corredores brilhantemente iluminados. JiMin e YoonGi caminhavam lado a lado, ambos segurando tablets que exibiam os prontuários detalhados dos pacientes. Pararam em frente ao grande painel eletrônico que mostrava as cirurgias do dia.


YoonGi estava calado, concentrado, os olhos fixos na lista de procedimentos. Sua expressão era impassível, quase fria, como se nada ao redor pudesse desviá-lo do foco. JiMin, por outro lado, não conseguia parar de observar tudo. O painel luminoso, as enfermeiras passando rapidamente com pranchetas, o cheiro inconfundível de antisséptico que impregnava o ar. Ele sentia o peso da responsabilidade se instalar sobre seus ombros. Era ali que vidas seriam salvas — ou perdidas.


JiMin ainda estava perdido em seus pensamentos quando sentiu a presença de JungKook se aproximando. O cirurgião-chefe parou ao lado deles, a postura impecável e o olhar frio como sempre.


— Min YoonGi — Chamou, a voz firme. — Vá até o quarto do Sr. Lee. Certifique-se de que ele esteja estável antes de ser encaminhado para a cirurgia cardíaca.


— Sim, doutor — Respondeu YoonGi sem hesitação, girando nos calcanhares e saindo rapidamente.


JiMin observou YoonGi partir, impressionado com a obediência e a rapidez. Mal teve tempo de perguntar sobre o que faria quando JungKook se voltou para ele.


— Park JiMin, vá para a sala de estudos. Deixei uma planilha para você analisar.


JiMin franziu a testa, confuso.


— Não vou participar da cirurgia cardíaca?


JungKook o encarou por um momento que pareceu uma eternidade, seus olhos cravados nos de JiMin.


— Não. Você só entrará na sala de cirurgia depois que estudar a planilha, analisar cada caso cirúrgico e me trazer um relatório detalhado. Até lá, não quero vê-lo próximo de nenhuma sala de operação.


Antes que JiMin pudesse protestar, JungKook já estava se afastando com passos decididos, deixando-o ali, incrédulo. A sensação de humilhação queimava em seu peito, mas ele sabia que não tinha escolha.


Suspirando, JiMin seguiu em direção à sala de estudos. Assim que abriu a porta, seus olhos se arregalaram. Sobre a mesa havia uma pilha colossal de folhas, cadernos de anotações e gráficos. A planilha que JungKook mencionara não era uma simples lista, mas uma montanha de dados.


Ele se aproximou lentamente, pegou a primeira folha e começou a ler. Tratava-se de um caso complexo envolvendo cirurgia cardíaca, detalhando cada procedimento, medicamentos utilizados e possíveis complicações. JiMin deixou o tablet de lado e sentou-se.


— Parece que vou passar o dia inteiro aqui — Murmurou para si mesmo.


Mesmo sentindo a frustração crescer, ele sabia que não podia falhar. Esse era o Kanbuk Hospital, e ele faria o que fosse necessário para provar que pertencia àquele lugar, mesmo que significasse enfrentar horas intermináveis de estudos.


**

JiMin estava mergulhado nos relatórios, seus olhos cansados passando por gráficos detalhados e notas médicas complexas. As horas haviam passado, e ele mal percebeu o tempo escorrer. Ainda havia uma pilha considerável de papeis pela frente quando um som inquietante ecoou pelo corredor. Eram passos apressados e murmúrios ansiosos. Algo estava acontecendo.


Ele se levantou, os músculos rígidos pela falta de movimento, e abriu a porta. Do outro lado do corredor, um homem de meia-idade tropeçou e caiu pesadamente no chão. Em questão de segundos, ele começou a convulsionar.


Sem pensar, JiMin correu até o paciente, ajoelhando-se ao lado dele.


— Senhor! Pode me ouvir? — Perguntou, embora soubesse que não haveria resposta imediata.


As convulsões sacudiam o corpo do homem violentamente. JiMin rapidamente girou o paciente para o lado, tomando cuidado para manter as vias aéreas desobstruídas, evitando que ele se machucasse.


— Vamos, respire... — Murmurou, mantendo a calma enquanto seus dedos checavam o pulso, que estava fraco, mas presente.


Uma enfermeira se aproximou apressada, ajoelhando-se ao lado de JiMin. Era uma mulher experiente, com mãos ágeis e olhos determinados.


— Boa iniciativa, doutor — Disse ela. — Vamos mantê-lo de lado até a maca chegar.


JiMin assentiu, o coração acelerado.


— Ele já estava assim quando chegou?


— Não, ele estava consciente até agora. Deve ter sido uma crise súbita — Explicou a enfermeira enquanto segurava a cabeça do paciente com cuidado.


O som de rodinhas se aproximando anunciou a chegada da maca. Com a ajuda da enfermeira, JiMin cuidadosamente posicionou o paciente sobre ela.


— Cuidem dele na emergência. Provavelmente precisará de exames neurológicos completos — Disse JiMin, enquanto a equipe levava o homem embora.


Enquanto observava a maca desaparecer pelo corredor, JiMin percebeu que seu coração ainda batia forte. Mesmo fora da sala de cirurgia, a vida de alguém havia estado em suas mãos, e ele agirá por instinto. Um pequeno vislumbre do que significava ser um médico de verdade.


Voltou para a sala de estudos, o cansaço pesando sobre ele, mas agora havia uma nova determinação em seus olhos. Ele precisava continuar estudando, continuar se preparando, porque no Kanbuk Hospital, qualquer momento podia ser crucial.


**

JiMin ainda estava concentrado, os olhos pesados pelo cansaço, quando a porta da sala de estudos se abriu de repente. Ele ergueu a cabeça e encontrou JungKook parado ali, impecavelmente arrumado, a expressão dura e inabalável como sempre. Sem preâmbulos, ele cruzou os braços e entrou, fechando a porta atrás de si.


— Soube do seu pequeno feito no corredor — Começou JungKook, a voz baixa, mas carregada de autoridade. — Salvando o paciente em convulsão sem supervisão.


JiMin sentiu uma pontada de orgulho, mas foi rapidamente substituída por surpresa quando JungKook continuou.


— Não deveria se orgulhar. Você me desobedeceu. Como residente, não pode checar nenhum paciente sem a supervisão do médico-chefe. Nesse caso, eu.


JiMin sentiu o rosto esquentar, indignado. Levantou-se da cadeira, encarando JungKook.


— E YoonGi? Ele estava sozinho atendendo um paciente também! Qual é a diferença?


JungKook inclinou a cabeça ligeiramente, os olhos estreitando-se com algo que parecia uma mistura de exasperação e paciência forçada.


— A diferença, Park JiMin, é que sou eu quem toma as decisões aqui. E se YoonGi estava sozinho, é porque sei que ele faria a coisa certa. Diferente de você.


Aquelas palavras foram como uma faca cravada no orgulho de JiMin.


— Você não me conhece — Rebateu JiMin, os olhos brilhando com um misto de raiva e frustração.


JungKook deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles, e, por um momento, o ar ficou pesado.


— Não, ainda não conheço. Mas não se preocupe, JiMin. Teremos muito tempo para isso.


A tensão pairava no ar, mas JungKook, imperturbável, deu um passo para trás, adotando novamente a postura fria e profissional.


— E até lá, você não sairá desta sala até terminar o relatório. Não vou tolerar outro ato de insubordinação.


Com isso, ele se virou e saiu, deixando JiMin sozinho, com o coração batendo forte e a cabeça fervendo de emoções conflitantes. Enquanto a porta se fechava, JiMin se deixou cair de volta na cadeira, respirando fundo. Ele sabia que precisaria lutar muito mais do que esperava para provar seu valor — e, de alguma forma, estava decidido a vencer.


**

O dia finalmente chegara ao fim, e JiMin sentia o corpo pesado pelo cansaço. Ao sair do hospital, encontrou TaeHyung e HoSeok conversando animadamente perto da entrada. O sorriso nos rostos deles era contagiante, e JiMin se aproximou, deixando-se levar pela leveza do momento.


— Foi incrível! — TaeHyung exclamava. — A UTI pediátrica é agitada, mas o Dr. ChanYeol é tão paciente. E o BaekHyun… eles são como um casal dos sonhos!


HoSeok riu.


— Parece que você teve um dia muito bom, Tae.


— E você, HoSeok? — JiMin perguntou.


— Cuidados paliativos são intensos, mas recompensadores — Respondeu ele, com um sorriso sereno. — Mas agora preciso ir. Tenho um compromisso.


Eles se despediram, e JiMin ficou com TaeHyung. Enquanto isso, YoonGi passou por eles sem sequer olhar para trás, entrando em sua BMW luxuosa. TaeHyung fez uma careta.


— Ele nem se ofereceu para dar carona! Que rude! — Resmungou, agarrando o braço de JiMin. — Vamos para o ponto de ônibus juntos.


JiMin não contestou, deixando-se ser guiado enquanto ouviam o som dos carros passando e as luzes de Seul começavam a se acender. TaeHyung parecia cheio de energia.


— Você não faz ideia! — TaeHyung continuou, animado. — Ouvi durante o almoço que o Dr. Jeon era noivo da filha do dono do hospital, mas ela foi embora de repente. Dizem que foi um escândalo.


JiMin balançou a cabeça, já impaciente.


— Tae, você devia se concentrar no trabalho, não em fofocas.


— Ah, qual é! — TaeHyung revirou os olhos. — Eu adoro fofocas. São meu passatempo favorito. Mas e você? Como foi seu dia com o famoso Dr. Jeon?


JiMin hesitou antes de responder.


— Foi… bom.


TaeHyung parou e o encarou, claramente não acreditando.


— Não foi, não é? Conta logo.


Suspirando, JiMin explicou tudo: a pilha de relatórios, o sermão que levou e como JungKook parecia ter um favoritismo claro por YoonGi. TaeHyung ouviu com atenção, balançando a cabeça.


— Ah, isso faz sentido. Ouvi que YoonGi é de uma família rica. Aposto que aquele carro caro só confirma isso.


O ônibus de TaeHyung chegou, interrompendo a conversa.


— Nos vemos amanhã, JiMin! Ah, tenho mais fofocas pra te contar depois! — Disse TaeHyung, embarcando no ônibus com um sorriso.


JiMin ficou ali, observando o ônibus partir, suspirando em exaustão. Quando pensava em ir embora, algo chamou sua atenção: ao longe, JungKook passou dirigindo um carro preto, com alguém ao lado no banco do carona. JiMin estreitou os olhos, curioso, mas o veículo desapareceu rapidamente na estrada.


Ele deu de ombros, colocando as mãos nos bolsos. Ainda havia muito sobre JungKook que ele não entendia, mas uma coisa era certa: o dia seguinte prometia ser tão desafiador quanto aquele.