O despertador tocou cedo demais para JiMin, mas ele não tinha escolha. Levantou-se com um suspiro, ainda sentindo o cansaço do primeiro dia de residência. Cada músculo do seu corpo protestava, mas ele sabia que precisava se apressar. O Kanbuk Hospital não esperava por ninguém.

Chegou ao hospital antes do sol nascer, o ar fresco da manhã ajudando a clarear sua mente. Vestiu o jaleco branco e ajustou o crachá no peito antes de se dirigir à sala de estudos. Como JungKook ordenara, o relatório precisava estar pronto, e JiMin passou parte da noite finalizando-o.

Ele estava revisando os últimos detalhes quando a porta se abriu bruscamente. JungKook entrou, impecável como sempre, os olhos analisando JiMin com frieza.

— Espero que tenha terminado o relatório — Disse, a voz baixa, mas firme.

JiMin entregou o tablet com o relatório finalizado, tentando esconder o nervosismo. JungKook leu em silêncio, cada página passando lentamente. Finalmente, ele olhou para JiMin.

— Não está ruim, mas ainda não é suficiente. Precisa ser mais detalhista — Disse, entregando o tablet de volta. — Hoje, quero que observe na sala de cirurgia. Nada de tocar em nada, apenas observe e aprenda.

JiMin assentiu, contendo a frustração.

**

A primeira cirurgia era delicada: uma reconstrução intestinal. JungKook preparava-se com a precisão de um mestre, enquanto os outros residentes e assistentes tomavam suas posições. JiMin ficou na lateral, olhando atentamente cada movimento.

— Incisão — Ordenou JungKook.

A enfermeira entregou o bisturi, e JungKook o segurou com firmeza. Cada corte era calculado, sem desperdício de movimento. JiMin observava, fascinado, tentando absorver cada detalhe.

— JiMin — Chamou JungKook de repente, sem tirar os olhos do paciente. — Explique o próximo passo.

Pegado de surpresa, JiMin hesitou, mas logo se recompôs.

— O próximo passo seria localizar e isolar a área afetada para realizar a ressecção do intestino danificado.

JungKook olhou brevemente para ele, os olhos avaliando.

— Corretíssimo. Pelo menos leu o suficiente.

O procedimento continuou, e JiMin se perdeu no ritmo meticuloso da cirurgia. Quando terminou, JungKook removeu as luvas e olhou para JiMin mais uma vez.

— A partir de amanhã, quero que comece a estudar os procedimentos de emergência. Cirurgia geral exige preparo constante.

**

Mais tarde, JiMin se encontrou com TaeHyung e HoSeok no refeitório. TaeHyung estava animado como sempre.

— JiMin! Como foi a cirurgia? O Dr. Jeon já elogiou você ou continua sendo aquele carrasco frio? — Brincou.

JiMin suspirou, exausto.

— Ele só disse que não está ruim, mas precisa melhorar.

— Bem, pelo menos não disse que foi péssimo! — Riu HoSeok.

TaeHyung olhou ao redor e abaixou a voz.

— Você viu? YoonGi não está no refeitório. Será que ele come no carro de luxo dele?

JiMin apenas balançou a cabeça, sem paciência para mais fofocas. Mas, no fundo, não conseguia deixar de pensar no que mais JungKook esperava dele. Ele sabia que precisaria provar, não apenas para o cirurgião, mas para si mesmo, que era capaz.

E amanhã seria outra batalha.

**

No refeitório, enquanto JiMin e HoSeok conversavam com TaeHyung, algo chamou a atenção de Tae. Ele viu BaekHyun e o Dr. ChanYeol entrando com suas bandejas, rindo de algo que pareciam compartilhar apenas entre eles. TaeHyung imediatamente acenou para os dois, chamando-os.

— BaekHyun! Dr. ChanYeol! Sentem-se com a gente! — Exclamou TaeHyung, animado.

BaekHyun sorriu ao ver TaeHyung e se aproximou, seguido por ChanYeol, que parecia relaxado e receptivo. Eles se sentaram à mesa, e TaeHyung rapidamente assumiu o papel de anfitrião.

— Esses são meus amigos! Este é JiMin, o residente do Dr. Jeon, e este é HoSeok, que está em cuidados paliativos.

ChanYeol sorriu calorosamente.

— Muito prazer. A Dra. JiHyo falou muito bem de você, HoSeok. Parece que você já se destacou no primeiro dia.

HoSeok corou, surpreso e lisonjeado.

— Ah, obrigado. Estou apenas tentando dar o meu melhor.

ChanYeol voltou-se para JiMin, com uma expressão curiosa.

— Agora, você, JiMin... Estranho que JungKook não tenha mencionado que tem um novo residente sob sua supervisão.

BaekHyun cutucou ChanYeol de leve, mas o doutor apenas riu.

— Não se preocupe — Continuou ChanYeol, descontraído. — Vai precisar de muita paciência com JungKook. Ele não é exatamente conhecido pelo melhor temperamento.

BaekHyun suspirou, lançando um olhar compreensivo a JiMin.

— JungKook não é fácil de lidar, é verdade. Mas ele não é uma pessoa ruim. Só é... exigente demais.

JiMin sorriu, um pouco mais aliviado, mas sem deixar de lembrar do peso das palavras de JungKook mais cedo.

— Parece que vou ter um longo caminho pela frente — Comentou JiMin, brincando.

ChanYeol deu uma risada calorosa.

— E nós estaremos por aqui para rir de cada momento.

A mesa inteira riu, e JiMin se sentiu um pouco mais leve. Mesmo que seu dia com JungKook tivesse sido difícil, pelo menos tinha encontrado bons amigos no meio do caos.

**

Na penumbra tranquila da sala de descanso dos médicos, JungKook entrou, os passos firmes e silenciosos. Estava buscando um momento de paz, mas parou ao ver uma figura familiar deitada em sua cama, completamente à vontade. Dr. Ren, com o jaleco meio aberto, parecia não ter nenhuma preocupação no mundo.

Cruzando os braços, JungKook franziu o cenho.

— O que você está fazendo aqui a essa hora, Ren?

Dr. Ren abriu os olhos lentamente, um sorriso preguiçoso nos lábios.

— Não tenho pacientes agora.

JungKook bufou.

— É mesmo? Porque vi o Dr. Jin atendendo um grupo de grávidas sozinho enquanto você está aqui, deitado como se estivesse de férias.

Ren se sentou lentamente, ainda com aquele ar de despreocupação.

— Estou aqui para ajudar você a relaxar. Afinal, ontem à noite, não fomos até o fim…

JungKook revirou os olhos, a irritação claramente estampada em seu rosto.

— Estamos no trabalho, Ren. Não seja tão leviano.

Mas Ren se levantou, desabotoando lentamente o jaleco. Seus olhos fixos em JungKook tinham uma mistura de provocação e desejo.

— Relaxar também faz parte do trabalho, sabia?

Ele estava prestes a tocar JungKook quando o bip de emergência de JungKook soou, preenchendo a sala com o som insistente e urgente. Sem hesitar, JungKook deu um passo para trás, já se movendo para a porta.

— Emergência. Preciso ir.

Sem olhar para trás, JungKook saiu rapidamente, deixando Ren ali, sozinho e frustrado, com a tentativa de sedução interrompida mais uma vez.

**

A emergência estava em plena atividade quando JungKook chegou ao setor, as portas automáticas se abrindo com um bip agudo. O caos era evidente: um adolescente de aparência desarrumada estava sentado no canto da sala, tremendo e chorando descontroladamente. JiMin estava ao lado dele, falando com uma voz suave, tentando acalmá-lo.

— Eu não queria... eu só peguei o carro por um momento — Soluçava o garoto. — Foi um acidente, eu juro!

JiMin colocou a mão no ombro do adolescente, a voz firme, mas compassiva.

— Você está seguro agora. Vamos cuidar de tudo. Respire fundo.

JungKook se aproximou rapidamente. O olhar clínico varreu o ambiente, focando em JiMin.

— O que aconteceu? — Perguntou com firmeza.

JiMin se levantou, mantendo a calma.

— Ele pegou o carro do pai sem permissão e atropelou um ciclista. O rapaz está em estado grave, mas YoonGi e as enfermeiras estão estabilizando-o para a cirurgia.

JungKook assentiu e fez um gesto para uma das enfermeiras.

— Chame a assistente social imediatamente. Esse garoto vai precisar de suporte.

Virando-se para JiMin, JungKook deu uma ordem clara:

— Venha. Vamos para a sala de cirurgia.

JiMin arregalou os olhos por um instante, surpreso por finalmente ser chamado para uma operação real, mas não hesitou. Seguiu JungKook, ambos apressados, trocando o jaleco por os trajes cirúrgicos.

**

A sala de cirurgia estava em silêncio absoluto, exceto pelo som das máquinas monitorando os sinais vitais do paciente. A situação era crítica. O jovem atropelado apresentava múltiplas fraturas e lesões graves: uma fratura de fêmur, outra de tíbia, ombro deslocado e, o mais urgente, um pneumotórax causado pela perfuração de três costelas quebradas.

JungKook, com os olhos focados e as mãos firmes, tomou o bisturi.

— Vamos começar estabilizando o tórax. Precisamos tratar o pneumotórax primeiro ou ele não vai sobreviver à cirurgia — Declarou com calma, mas firmeza.

JiMin, posicionado ao lado, estava concentrado, entregando os instrumentos conforme as instruções.

— Clamp — Pediu JungKook. JiMin entregou rapidamente, observando o cirurgião agir com precisão cirúrgica, inserindo o tubo torácico para drenar o ar acumulado no pulmão.

O silêncio tenso foi interrompido por um bip mais lento e regular no monitor cardíaco. O pulmão do paciente começava a descomprimir.

— Está estabilizando — Disse uma das enfermeiras, aliviada.

JungKook assentiu, mas não diminuiu o ritmo.

— Agora vamos para o fêmur. JiMin, descreva a situação da fratura.

JiMin respondeu, a voz firme, mas o coração acelerado.

— Fratura exposta do fêmur direito. Precisamos alinhar o osso e fixar com haste intramedular para evitar perda de mobilidade.

— Ótimo. Prepare o fixador externo enquanto realinhamos o osso — Ordenou JungKook. — YoonGi, monitore o sangramento — Pediu, sem perder a concentração.

O tempo parecia se estender enquanto a equipe trabalhava incansavelmente. A cirurgia seria longa e exaustiva, mas cada etapa era crucial. Com o fêmur realinhado e fixado, passaram à tíbia, depois ao ombro deslocado. A tensão estava em cada movimento, mas JungKook não hesitou.

Finalmente, após horas de cirurgia, JungKook removeu as luvas ensanguentadas e olhou para JiMin.

— Você fez um bom trabalho, JiMin. Mas lembre-se, essa foi apenas a primeira batalha.

JiMin sentiu o peso daquelas palavras, mas também um orgulho silencioso. Havia sobrevivido à primeira cirurgia com JungKook. E sabia que muitas outras viriam.

**

JiMin saiu da sala de cirurgia exausto, mas com um sorriso genuíno no rosto. Era sua primeira cirurgia de politrauma e, apesar da tensão, sentia-se orgulhoso do que havia aprendido e realizado. Encontrou TaeHyung e HoSeok na sala de descanso, ambos com expressões exaustas, mas diferentes. TaeHyung estava sentado no sofá, mexendo distraidamente em um copo de café frio, enquanto HoSeok parecia mais reflexivo do que abatido.

JiMin, ainda animado, se aproximou e começou a contar:

— Vocês não vão acreditar! Foi uma cirurgia de politrauma, fratura de fêmur, tíbia, costelas quebradas… eu estava tão nervoso, mas deu tudo certo! JungKook me colocou para ajudar e, cara, eu não sabia que podia aprender tanto em uma só cirurgia.

Esperou um comentário animado de TaeHyung, mas o amigo apenas assentiu vagamente, sem tirar os olhos do copo. JiMin franziu o cenho, percebendo o silêncio estranho.

— Tae, está tudo bem?

TaeHyung suspirou, a voz baixa e amarga.

— Perdi um paciente hoje... uma criança de dez anos. Pneumonia severa. A mãe não tinha dinheiro para pagar o tratamento antes de chegar ao hospital. Quando finalmente conseguiu, já era tarde demais.

A empolgação de JiMin murchou imediatamente. O peso das palavras de TaeHyung caiu como uma pedra no ambiente. HoSeok, que estava sentado ao lado, soltou um suspiro profundo.

— O sistema de saúde é falho — Disse HoSeok, balançando a cabeça. — Colocar dinheiro acima da vida das pessoas... é desumano. Mas, Tae, você precisa entender que, infelizmente, vai ver isso mais vezes do que gostaria.

TaeHyung passou a mão pelo rosto, visivelmente frustrado.

— Não quero me acostumar a ver crianças morrerem. Isso é errado.

JiMin colocou a mão no ombro de TaeHyung, tentando oferecer algum consolo.

— Você fez tudo o que podia, Tae. A culpa não é sua.

TaeHyung ergueu o olhar, os olhos brilhando com uma tristeza contida.

— Eu sei, mas isso não torna as coisas mais fáceis.

O silêncio tomou conta da sala, cada um absorvendo o peso da realidade que enfrentavam. Ali, no início da jornada médica, todos sabiam que ainda haveria muitas vitórias, mas também muitas perdas.

**

Naquela noite, JiMin recebeu a notícia de que ficaria de plantão com JungKook. Aquele paciente politraumatizado ainda estava sob vigilância, e a cirurgia realizada horas antes exigia acompanhamento constante. O hospital estava agitado, mas, mesmo assim, JiMin sentiu uma certa adrenalina, como se finalmente estivesse imerso no tipo de trabalho pelo qual se preparou durante toda a sua formação.

JungKook, com sua postura sempre séria, já estava ao lado da mesa de trabalho quando JiMin entrou na sala de plantão. O ambiente estava mais silencioso que o habitual, uma calmaria antes da tempestade. O monitor cardíaco do paciente mostrava sinais estáveis, mas o perigo ainda era iminente.

YoonGi estava ao lado da cama do paciente, monitorando os sinais vitais e conferindo os resultados dos exames. Quando o olhar de JiMin encontrou o dele, o mais velho deu uma leve inclinação de cabeça, um gesto rápido e profissional.

— Vou me retirar agora — YoonGi disse, pegando seu jaleco e se preparando para sair.

JiMin, ainda em processo de adaptação à dinâmica do hospital, não pôde deixar de sentir curiosidade. Ele se aproximou, um pouco hesitante.

— YoonGi, você vai embora? O paciente ainda precisa de monitoramento, não vai ficar mais tempo?

YoonGi parou por um momento, virando-se lentamente para encará-lo. Seus olhos eram impenetráveis, como sempre, mas algo na forma como ele respondeu fez JiMin sentir um calafrio.

— Tenho coisas a fazer. Não é mais minha responsabilidade agora. — Sua voz foi fria e distante.

JiMin, incomodado, insistiu:

— Mas o que pode ser mais importante que o paciente?

YoonGi suspirou, seu olhar já começando a se distanciar.

— Você vai aprender que temos responsabilidades diferentes. Cada um de nós tem seu papel, JiMin. Não somos amigos, então não faça perguntas pessoais. Não vamos ser amigos.

JiMin ficou parado por um instante, absorvendo a dureza na resposta. Não era a primeira vez que YoonGi mostrava ser distante, mas essa frase era mais pesada do que qualquer outra.

Antes que pudesse retrucar ou tentar entender melhor, YoonGi já estava se afastando, saindo da sala com um passo firme. JiMin ficou ali, o olhar fixo nas costas de YoonGi, um misto de confusão e frustração tomando conta dele.

Ele olhou para JungKook, que continuava focado no monitor, ignorando o ocorrido. O peso das palavras de YoonGi ainda ecoava em sua mente, mas ele sabia que teria que se concentrar no trabalho e na responsabilidade que tinha naquele momento. O paciente exigia atenção constante, e sua relação com YoonGi, por mais desconfortável que fosse, teria que esperar.

**

O plantão avançava lentamente, e a única luz na sala vinha das telas do monitor e dos documentos que JungKook revisava com precisão. O paciente ainda estava em um estado delicado, e ambos estavam concentrados em garantir que sua recuperação fosse possível.

JiMin, sempre buscando aprender mais, aproveitou o momento em que JungKook se afastou para dar uma olhada nos exames do paciente. Com a cabeça cheia de perguntas, ele finalmente se virou para JungKook, que estava observando os monitores com atenção.

— Dr. Jeon... Qual é o prognóstico dele? O paciente ainda está muito crítico?

JungKook olhou para JiMin, sem desviar o olhar do paciente, antes de responder de forma direta, mas séria:

— O prognóstico é incerto. A fratura do fêmur e da tíbia são graves, mas nada que não possamos lidar com a cirurgia. O pneumotórax foi controlado, mas se ele não responder bem aos antibióticos e a respiração não melhorar, a situação pode se complicar. Vamos monitorar de perto, e se houver qualquer alteração, precisamos agir rapidamente.

JiMin assentiu, compreendendo a gravidade da situação, mas ainda sentindo a pressão de ser responsável por esse paciente ao lado de JungKook. Ele se aproximou um pouco mais, curioso sobre uma informação que o estava incomodando desde que entrou no plantão.

— E quanto aos familiares dele? Já conseguimos entrar em contato?

JungKook respirou fundo, ainda observando os sinais vitais no monitor.

— Não. Não encontramos nenhum documento de identificação dele até agora. É como se ele estivesse sem nome, sem histórico. Não sabemos de onde ele veio, quem são seus pais ou responsáveis. Por isso está sendo difícil contatar a família. O hospital está tentando localizar alguma informação, mas até agora nada.

JiMin franziu a testa, pensativo.

— Isso é... estranho. Não parece certo. Uma pessoa tão jovem sem qualquer documento?

JungKook virou-se finalmente para JiMin, os olhos frios, mas também mostrando um toque de empatia pela situação.

— Não é comum, mas não é impossível. Muitos jovens de bairros mais afastados, sem recursos, às vezes acabam em situações assim. A verdade é que, sem documentos, não podemos fazer nada além de esperar.

JiMin ficou em silêncio, processando a informação. Ele sentiu uma mistura de desconforto e frustração, desejando poder fazer mais, mas entendendo que a realidade da medicina era limitada em algumas situações.

JungKook, percebendo a inquietação de JiMin, completou:

— A melhor coisa que podemos fazer agora é focar no que está ao nosso alcance: salvar esse garoto. O resto, nós lidamos depois.

JiMin assentiu. O paciente, sem identidade, estava completamente nas mãos dele e de JungKook. Eles precisavam fazer o melhor possível, independentemente dos obstáculos.

**

O som estridente do bip do monitor de sinais vitais cortou o silêncio da sala, acordando JiMin abruptamente. Seus olhos se abriram lentamente, e a sensação de confusão tomou conta dele por um momento, até que ele percebeu o que estava acontecendo. O paciente estava em parada cardiorrespiratória, seu corpo tremendo violentamente em convulsões.

O medo se apoderou de JiMin, mas ele rapidamente se levantou da cadeira e correu até a cama do paciente, assumindo a posição para iniciar as compressões torácicas. Ele sabia o que tinha que fazer, mas a pressão de estar sozinho naquele momento foi imensa. O som do monitor continuava, uma sirene implacável que soava como um grito desesperado, e JiMin tentava se concentrar, mantendo o ritmo constante das compressões. Ele tentava gritar por ajuda, mas sua voz saía abafada, como se a gravidade da situação o tivesse paralisado.

Em um instante que parecia eterno, a porta da sala se abriu rapidamente. JungKook entrou, com pressa, e a equipe de enfermagem seguiu logo atrás, com olhares de preocupação.

— O que aconteceu? — JungKook perguntou, a voz firme, mas não escondendo o toque de urgência. Ele rapidamente se aproximou da cama, suas mãos ágeis checando os sinais vitais do paciente e fazendo uma rápida análise da situação.

JiMin, ofegante, tentou explicar entre as compressões, seu tom ansioso.

— Eu estava... estava monitorando ele e... O monitor começou a apitar de repente. Eu... não sei como isso aconteceu, mas ele começou a convulsionar... — Ele parecia perdido, mas logo se concentrou novamente e fez o movimento de compressão com mais firmeza.

JungKook não respondeu imediatamente. Seu olhar já estava fixo no paciente, observando cada detalhe com precisão cirúrgica. Ele colocou as mãos no peito do jovem, realizando um exame rápido e então se voltou para a equipe de enfermagem.

— Preparem os medicamentos, precisamos entubar agora. — Sua voz era autoritária, mas calma, como sempre. Ele olhou de novo para JiMin, que estava ainda no meio da RCP. — Continue, JiMin. Você está fazendo o certo. Não pare.

JiMin, determinado, seguiu as instruções de JungKook, continuando as compressões com o máximo de força que conseguia, o suor escorrendo pela sua testa enquanto seu corpo lutava para manter o ritmo. Mas ele sabia que JungKook tinha razão: o momento era crítico, e cada segundo contava.

JungKook se preparou para entubar o paciente. Ele pegou os equipamentos com calma, não demonstrando sinais de pressa, mas cada movimento seu era preciso e carregado de uma confiança inabalável. Quando ele finalmente posicionou o tubo endotraqueal, sua expressão mudou ligeiramente, sinalizando a gravidade da situação.

JiMin, vendo tudo acontecer, sentiu a tensão aliviar um pouco, mas sabia que a situação ainda estava longe de resolvida. JungKook terminou o procedimento com precisão e olhou para JiMin, que ainda estava com as mãos suadas e tremendo de cansaço.

— Ele está estável por enquanto. — JungKook disse, olhando para o monitor, que agora exibia sinais vitais mais regulares. — Mas ainda não estamos fora de perigo. Vamos precisar monitorá-lo de perto nas próximas horas.

JiMin sentiu um alívio momentâneo, mas não conseguiu relaxar totalmente. Sua mente ainda estava agitada com o que acontecera. JungKook, vendo o cansaço nos olhos de JiMin, fez um gesto para que ele se afastasse por um momento.

— Você fez bem, JiMin. — Sua voz era mais suave agora, um raro momento de reconhecimento. — Mas é importante que você entenda que momentos como esse vão acontecer. O que importa é como lidamos com eles.

JiMin apenas assentiu.

**

JiMin caminhava pelos corredores do hospital em direção à cantina, os olhos pesados de cansaço e a mente lutando contra o sono. Ele sabia que precisava de um café, algo para mantê-lo alerta durante as próximas horas do plantão. Com o paciente ainda em estado crítico, JiMin não queria correr o risco de baixar a guarda.

Ao entrar na cantina, ele notou que o espaço estava quase vazio, exceto por duas figuras sentadas em uma mesa afastada. Reconhecendo JungKook imediatamente, JiMin hesitou, congelado por um momento. Ele não queria parecer intrometido, mas sua curiosidade o traiu. Ele começou a se afastar, mas a voz de Ren chamou sua atenção, carregada de impaciência e determinação.

— Por que você não pode simplesmente me levar a sério, JungKook? — Ren perguntou, inclinando-se para frente, os olhos fixos em JungKook. — Já faz meses que estamos assim, e eu estou cansado de ser um segredo.

JungKook estava sentado com uma postura relaxada, os braços cruzados enquanto olhava para Ren com uma expressão neutra, quase indiferente. Ele suspirou, desviando o olhar por um momento antes de responder.

— Ren, você sabia desde o início que eu odeio relacionamentos. — Sua voz era firme, mas não agressiva. Ele parecia estar explicando algo que já havia repetido várias vezes. — Não sou o tipo de pessoa que se prende a alguém, e você sabia disso antes de qualquer coisa.

Ren bateu a mão na mesa, frustrado.

— Isso é só uma desculpa. Você sempre tem desculpas para não assumir nada comigo. — Seus olhos estavam brilhando de raiva, mas também de mágoa. — Eu quero que você me apresente aos seus pais. Quero que você me leve a sério.

JungKook riu baixinho, mas não havia humor em seu riso. Ele se levantou lentamente, colocando as mãos nos bolsos do jaleco.

— Ren, você não sabe nada sobre mim. Nada. — Ele o encarou diretamente, sua expressão agora mais fria. — E mesmo que eu quisesse te dar essa chance, não teria pais para te apresentar.

A declaração caiu como uma pedra no silêncio da cantina. Ren abriu a boca para responder, mas nenhuma palavra saiu. Sua expressão passou de raiva para surpresa, e depois para algo mais difícil de decifrar.

— Você sempre faz isso... — Ren finalmente disse, a voz mais baixa agora. — Sempre encontra um jeito de me afastar.

JungKook deu de ombros, desviando o olhar como se estivesse encerrando a conversa. Nesse momento, ele percebeu a presença de JiMin, que estava parado próximo à entrada, visivelmente desconfortável. Em vez de reagir, JungKook apenas o ignorou, passando por ele sem dizer nada, saindo da cantina.

Ren, no entanto, não demonstrou a mesma indiferença. Ele se levantou com rapidez e, ao passar por JiMin, esbarrou nele de propósito, quase o empurrando.

— É melhor cuidar do seu trabalho e não se meter na vida dos outros. — Ren disse com um tom de voz ácido, antes de sair apressado pelo corredor, deixando JiMin parado ali, com o café ainda por pegar e os pensamentos confusos sobre o que havia acabado de testemunhar.

**

Na manhã seguinte, JiMin entrou no quarto do paciente com uma prancheta em mãos, pronto para começar sua rotina de checagem. Ele anotou cuidadosamente cada dado no relatório: os sinais vitais, a evolução do quadro, e os detalhes do tratamento até aquele momento. O paciente permanecia inconsciente, mas havia uma leve melhora nos parâmetros, o que trouxe um breve alívio ao residente.

Depois de finalizar sua avaliação, JiMin se dirigiu ao escritório de JungKook para entregar o relatório. O cirurgião estava sentado à mesa, concentrado no tablet, analisando algo com atenção. Sem levantar os olhos, ele pegou o relatório que JiMin estendia.

— Bom trabalho. — JungKook disse rapidamente enquanto percorria o documento com o olhar. — Mas não fique muito animado. Vamos ter um dia cheio hoje.

JiMin franziu a testa, tentando entender a mudança repentina no tom.

— Dia cheio?

JungKook ergueu os olhos do relatório, finalmente encarando JiMin.

— Finais de semana são caóticos aqui. Hospitais menores transferem os casos mais complicados para nós. Hoje não será diferente. Espero que esteja preparado.

JiMin assentiu, tentando demonstrar confiança.

JungKook largou o relatório e se levantou, caminhando até ele com o tablet em mãos.

— E mais uma coisa... — Ele começou, pausando para encontrar as palavras certas. — Notei que você e Min YoonGi não estão exatamente... em sintonia.

JiMin arregalou os olhos, surpreso pela observação direta.

— Não sei do que está falando, doutor.

JungKook estreitou os olhos, estudando a expressão de JiMin como se pudesse ler seus pensamentos.

— Não sei o que aconteceu entre vocês, e sinceramente, não me importa. Mas, dentro da sala de cirurgia, isso precisa acabar. Vocês dois vão trabalhar juntos hoje, e o único foco deve ser o paciente. Entendido?

JiMin hesitou por um segundo antes de responder, mantendo a postura.

— Sim, doutor. Mas não temos nenhuma desavença.

JungKook ergueu uma sobrancelha, cético, mas não pressionou mais o assunto.

— Ótimo. — Ele disse, voltando a atenção para o tablet. — Nos vemos no centro cirúrgico.

Ele saiu da sala, os olhos já fixos na lista de cirurgias do dia, deixando JiMin para trás, confuso sobre como lidar com a situação. Ele sabia que o relacionamento com YoonGi era distante e, no melhor dos dias, cordial. Mas trabalhar juntos em uma operação parecia mais desafiador do que nunca.

"Vai ser um longo dia," JiMin pensou enquanto respirava fundo, preparando-se para o que viria.

**

Durante a pausa para o almoço, JiMin encontrou TaeHyung e HoSeok na cafeteria. Eles já estavam sentados em uma mesa próxima à janela, com bandejas de comida pela metade. JiMin se sentou, suspirando, antes de começar a relatar sua preocupação.

— Ainda não sabemos o nome do meu paciente. Não encontramos nenhum documento dele. — JiMin comentou, misturando distraidamente o arroz no prato com os hashis.

— Isso acontece mais do que você imagina. — HoSeok disse casualmente, tomando um gole de suco. — Mas já parou para pensar que ele pode estar sem documentos de propósito?

JiMin franziu o cenho, confuso.

— Como assim? Ele é só um ciclista que foi atropelado.

— Será? — HoSeok arqueou uma sobrancelha, inclinando-se para frente. — Tem rolado uma história na internet sobre um cara que invade casas de madrugada e, depois, sai pedalando pela cidade como se fosse um ciclista inocente.

— Que absurdo! — JiMin respondeu, chocado. — Ele estava de casaco e mochila, nada além disso.

TaeHyung, que estava quieto até então, bateu palmas animado.

— Então vamos descobrir o que tem na mochila dele! — Ele sugeriu, os olhos brilhando de curiosidade.

— O quê? — JiMin o olhou incrédulo. — Não podemos simplesmente mexer nas coisas dele.

— Claro que podemos. — TaeHyung insistiu, inclinando-se para frente. — Aposto que ninguém está na sala onde os pertences dos pacientes ficam guardados. Todo mundo está aqui almoçando.

HoSeok riu, achando graça da ideia ousada.

— Isso é tão irresponsável quanto parece. Mas não vou negar que estou curioso.

JiMin olhou para ambos, dividido entre a hesitação e a curiosidade. Por fim, suspirou.

— Tá bom, mas só vamos dar uma olhada rápida.

**

Os três caminharam pelos corredores, tentando parecer o mais discretos possível. TaeHyung liderava o grupo, com JiMin logo atrás, murmurando nervosamente sobre como aquilo era uma péssima ideia.

Quando chegaram à pequena sala de armazenamento, HoSeok verificou se o corredor estava vazio antes de abrir a porta. Lá dentro, havia prateleiras etiquetadas com os nomes dos pacientes e sacolas contendo seus pertences.

— Aqui está. — JiMin apontou para uma sacola com o código do paciente politraumatizado.

TaeHyung puxou a sacola sem hesitar e abriu, tirando de dentro o casaco e a mochila.

Quando JiMin abriu a mochila do paciente, além do celular quebrado, do dinheiro amassado e da pequena chave, ele encontrou algo que fez seus olhos arregalarem: dois livros de medicina usados, com anotações nos cantos das páginas.

— Livros de medicina? — TaeHyung exclamou, pegando um deles. Ele folheou rapidamente, observando as anotações feitas à mão, com letra apressada e marcadores destacados. — Que ciclista leva isso na mochila?

— Talvez ele seja um estudante. — JiMin sugeriu, pegando o outro livro. Ele reconheceu o título como sendo um manual de anatomia bastante usado por residentes e estudantes de medicina.

JiMin continuou examinando o livro, e algo caiu de dentro dele. Era uma foto, amassada e um pouco desgastada. Ele a pegou e viu a imagem de uma mulher jovem, sorrindo, segurando um diploma com o nome de uma universidade.

— Talvez seja alguém da família dele. — JiMin disse, mostrando a foto para os amigos.

TaeHyung pegou a foto e a olhou de perto.

— Ou talvez ele esteja ligado a essa pessoa de alguma forma. Mas por que estaria carregando isso?

JiMin guardou a foto novamente no livro, fechando-o com cuidado antes de colocá-lo de volta na mochila.

— Precisamos descobrir quem ele é. — Ele afirmou, olhando para os outros.

— Sim, mas não aqui. — HoSeok lembrou, guardando o dinheiro de volta na sacola. — Estamos nos arriscando demais.

Com pressa, eles reorganizaram os pertences do paciente e saíram da sala, trocando olhares conspiratórios.

**

Na sala de cirurgia, JungKook entrou com a postura séria de sempre, seguido por YoonGi e JiMin, que estavam prontos para assistir e auxiliar. O procedimento seria delicado: um reparo de uma válvula mitral danificada. Assim que todos estavam preparados e o paciente anestesiado, JungKook iniciou a incisão no tórax com uma precisão impecável.

— YoonGi, posicione o afastador. Preciso de máxima visibilidade. — JungKook ordenou, sem desviar os olhos do campo estéril.

YoonGi segurou o afastador com firmeza, demonstrando segurança em cada movimento. Enquanto isso, JiMin permanecia atento, observando cada detalhe com o coração acelerado. Ele queria absorver tudo o que pudesse daquela cirurgia.

Assim que o tórax foi aberto, o sangramento aumentou. YoonGi rapidamente ajustou a sucção, permitindo que JungKook expusesse o coração. O monitor cardíaco começou a emitir um alerta.

— Ritmo cardíaco irregular. Possível arritmia ventricular. — YoonGi informou calmamente, chamando a atenção de JungKook.

— Boa observação. Adrenalina, agora! — JungKook ordenou, e o anestesista administrou o medicamento imediatamente.

O coração começou a estabilizar, mas o clima ainda era tenso. JungKook iniciou o reparo na válvula danificada, cada ponto de sutura exigindo habilidade e precisão.

— YoonGi, segure aqui. Não deixe o tecido escorregar. JiMin, preste atenção. É assim que se faz uma sutura eficiente em tecidos tão delicados. — JungKook explicou, enquanto trabalhava.

JiMin observava fascinado. Era evidente que YoonGi tinha uma habilidade natural, agindo como uma extensão dos movimentos de JungKook. Ele manipulava os instrumentos com destreza, sempre um passo à frente das instruções.

Quando o reparo foi concluído e o coração voltou a bater com força, JungKook começou a fechar o tórax.

— Próteses posicionadas corretamente, sem vazamentos. O paciente está estabilizado. — YoonGi relatou, com a mesma calma de sempre.

JungKook assentiu, satisfeito.

— Bom trabalho, YoonGi.

Ele olhou para JiMin, que ainda estava absorvendo tudo.

— JiMin, anote tudo o que viu. Amanhã, quero um relatório detalhado sobre essa cirurgia. — Olha para YoonGi. — Façam juntos!

**

Na sala de descanso, JiMin entrou segurando o tablet, os olhos fixos na lista de anotações que JungKook havia mandado fazer. YoonGi estava sentado no canto, mexendo em seu celular, alheio ao mundo.

— YoonGi, o Dr. Jeon pediu para fazermos juntos as anotações sobre os pontos cruciais da cirurgia. — JiMin anunciou, parando ao lado dele.

YoonGi sequer levantou os olhos do celular.

— Pode fazer sozinho.

JiMin franziu o cenho e, sem pedir permissão, sentou-se ao lado dele, colocando o tablet sobre a mesa.

— Isso é trabalho em dupla, e graças à sua indiferença, o Dr. Jeon acha que temos algum problema.

YoonGi suspirou, finalmente olhando para JiMin.

— E não temos?

— Eu diria que você tem um problema comigo. — JiMin retrucou, encarando-o com determinação.

YoonGi apenas deu de ombros, voltando a mexer no celular. JiMin percebeu quando ele recebeu uma mensagem e os olhos de YoonGi ficaram por um instante mais atentos. Sem dar explicações, YoonGi guardou o celular no bolso e se levantou.

— Preciso ir.

JiMin ficou incrédulo.

— Como assim, ir? Estamos no meio do plantão, e o Dr. Jeon vai querer isso pronto pela manhã.

YoonGi o encarou com uma expressão impassível.

— Eu não sou como "todos" os residentes. Tenho coisas para fazer fora daqui.

— O que pode ser mais importante do que o trabalho aqui? — JiMin perguntou, irritado, mas YoonGi já estava na porta, ignorando a pergunta.

Antes de sair, YoonGi virou a cabeça apenas o suficiente para lançar um último olhar sobre JiMin.

— Você deveria aprender a não fazer tantas perguntas.

A porta se fechou com um leve som metálico, e JiMin ficou sozinho na sala. Frustrado, ele suspirou e puxou o tablet para si, decidido a terminar o trabalho sozinho.

Horas depois, ao sair do hospital, ele caminhava devagar até o ponto de ônibus, com a mente ainda girando entre as palavras de YoonGi e as anotações que tivera que fazer. "Eu não sou como todos os residentes." A frase ecoava na sua cabeça.

Quando JiMin chegou em casa, o cansaço finalmente o atingiu. Ele deixou suas coisas de lado, tomou um banho rápido e caiu na cama, pensando em como seria o próximo dia naquele hospital e se um dia conseguiria entender YoonGi.

**

JiMin saiu do hospital com passos arrastados, o corpo cansado após mais um longo plantão. Seus amigos, TaeHyung e HoSeok, ainda estavam de plantão, deixando-o sozinho naquela caminhada até o ponto de ônibus. A noite estava fria e silenciosa, mas isso mudou rapidamente quando um motociclista passou em alta velocidade, quase colidindo com o meio-fio. O susto fez JiMin tropeçar e torcer o pé, caindo no chão com um gemido de dor.

Ele tentou se levantar, mas a dor no tornozelo era intensa. Sentado na calçada, olhou ao redor à procura de ajuda, mas a rua estava vazia. Pegou o celular e tentou ligar para TaeHyung, mas caiu direto na caixa postal. Tentou HoSeok, mas o resultado foi o mesmo. JiMin soltou um suspiro frustrado, já pensando em como arrastar-se até o hospital, quando uma sombra apareceu ao seu lado.

— Precisa de ajuda? — Perguntou um homem alto e jovem, estendendo a mão.

JiMin ergueu os olhos e viu o estranho que o observava com um sorriso amigável.

— Acho que torci o pé.

O homem o ajudou a se levantar com cuidado, apoiando JiMin pelo braço.

— Meu nome é Lee Hyun. Pelo que vejo, é uma entorse. Não se preocupe, vou levá-lo para o hospital.

— Eu trabalho no hospital Kanbuk. — JiMin disse, tentando parecer firme, apesar da dor. — Sou residente na cirurgia geral, pode me levar até lá por favor?!

Hyun sorriu.

— Então somos colegas de trabalho. Sou fisioterapeuta ortopédico no Hospital Kanbuk mas ainda não tive a oportunidade de conhecer os residentes.

Antes que JiMin pudesse responder, Hyun o guiava de volta para o hospital, ajudando-o a se equilibrar enquanto caminhavam devagar.

No hospital, ao cruzarem as portas da emergência, JungKook surgiu do corredor, o tablet em mãos. Ele imediatamente franziu o cenho ao ver JiMin apoiado em Hyun.

— O que aconteceu com meu residente? — Perguntou JungKook, a voz carregada de autoridade.

— Ele caiu e, pelo que percebi, torceu o tornozelo. É melhor fazer um raio-x para confirmar. — Hyun explicou com um tom tranquilo.

JungKook o encarou, os olhos estreitando.

— Sei muito bem o que fazer nesses casos. Não preciso que você solicite exames no meu departamento.

Hyun riu, ignorando o tom ríspido de JungKook.

— Você continua o mesmo de sempre. Devia tentar ser mais simpático com um velho amigo.

Surpreso, JiMin olhou de um para o outro, notando a dinâmica incomum. JungKook revirou os olhos, algo que JiMin nunca o imaginaria fazendo, e virou-se para a enfermeira mais próxima.

— Traga uma cadeira de rodas.

A enfermeira obedeceu rapidamente, trazendo a cadeira para JiMin, que foi ajudado a sentar-se por Hyun. Antes de sair para a sala de raio-x, Hyun se voltou para JungKook com um sorriso travesso.

— Não mudou nada, JungKook. Continuamos teimosos.

JungKook apenas balançou a cabeça, resmungando algo inaudível enquanto JiMin era levado para fazer o exame.

**

TaeHyung e HoSeok entraram no quarto onde JiMin repousava após o incidente. TaeHyung, como sempre, parecia animado, enquanto HoSeok mantinha uma expressão preocupada.

— Ficamos sabendo do que aconteceu! — TaeHyung disse, aproximando-se da cama de JiMin. — Você está bem?

JiMin arqueou uma sobrancelha.

— Como vocês souberam disso tão rápido?

— Por favor, JiMin, você está subestimando meu talento. Fiz amizade com o maior número de enfermeiras possível. Elas sabem de tudo o que acontece aqui antes mesmo dos médicos.

HoSeok riu levemente, mas logo voltou seu olhar para JiMin.

— E aí, como tá o tornozelo? Ainda doi muito?

JiMin suspirou.

— Lateja um pouco, mas o Dr. Hyun disse que é só uma entorse leve. Preciso ficar de repouso por uns dias, o que significa que provavelmente vou perder as cirurgias mais interessantes.

TaeHyung bufou e se sentou ao pé da cama.

— É, nada pior do que perder ação nesse lugar. Mas olha pelo lado bom, você vai ter tempo de fofocar com as enfermeiras, e eu posso te ensinar tudo que descobri até agora!

HoSeok balançou a cabeça, divertido.

— TaeHyung, o JiMin precisa descansar, não virar seu cúmplice em espionagem hospitalar.

— Descansar? — TaeHyung fingiu indignação. — No nosso ritmo de trabalho? Isso aqui é uma guerra, HoSeok. JiMin precisa estar atualizado.

JiMin sorriu diante do exagero de TaeHyung, sentindo-se grato por ter os amigos por perto.

— Vocês são impossíveis.

— E é por isso que você nos ama — TaeHyung respondeu com uma piscadela.

HoSeok cruzou os braços e olhou para JiMin.

— Sério, se precisar de qualquer coisa, me avisa. Mesmo se for só pra ouvir você reclamar do JungKook ou de qualquer outra coisa.

JiMin assentiu, sentindo-se um pouco melhor.

— Valeu, pessoal. Acho que com vocês por perto vou sobreviver a isso.

Eles riram juntos, e JiMin percebeu que, apesar de tudo, não estava sozinho.

**

Enquanto TaeHyung e HoSeok ainda estavam no quarto de JiMin, a porta se abriu, revelando Dr. Hyun com um sorriso descontraído no rosto e uma sacola na mão.

— Olha só, JiMin! Vim ver como você está, espero que não esteja causando muito problema — Disse Hyun com um tom brincalhão, entrando no quarto.

TaeHyung arregalou os olhos ao ver Hyun.

— Uau, você é o famoso Dr. Hyun? O "herói" que salvou o JiMin?

Hyun riu ao ouvir isso.

— Eu não diria "herói", mas sim, fui eu quem trouxe ele de volta. Achei que seria melhor não deixar um residente da cirurgia geral jogado na calçada.

HoSeok deu um risinho discreto, enquanto JiMin balançava a cabeça, um pouco sem graça.

— Muito obrigado por isso, Dr. Hyun — Disse JiMin. — Mas como você conseguiu tempo pra vir aqui?

Hyun ergueu a sacola na mão.

— Trouxe isso pra você. Um pouco de chá e biscoitos. Achei que algo quentinho ajudaria a passar o tempo.

— Ele realmente é o "herói"! — Exclamou TaeHyung, fingindo estar emocionado. — Dr. Hyun, está disponível para consultas psicológicas também? Porque claramente precisamos de mais pessoas gentis nesse hospital.

Hyun riu, colocando a sacola na mesinha ao lado de JiMin.

— Vocês são uma equipe animada. Parece que JiMin está em boas mãos com amigos como vocês.

— Sempre estamos aqui pra ele — Garantiu HoSeok, lançando um olhar cúmplice a JiMin.

Hyun se aproximou da cama e olhou para JiMin.

— Mas, falando sério, como você está se sentindo?

— Melhor, graças a você — Respondeu JiMin. — Só frustrado por não poder fazer muito.

— Descansar faz parte do processo, JiMin. Não dá pra ser um bom médico se você não cuida de si mesmo também — Disse Hyun com um tom encorajador.

— Você devia dar essa aula pro Dr. Jeon — JiMin murmurou, o que fez os outros rirem.

Hyun ergueu as sobrancelhas, curioso, mas não comentou. Ele apenas deu um tapinha no ombro de JiMin antes de se despedir.

— Certo, preciso voltar pro meu setor. Mas qualquer coisa, me chama, entendeu?

— Entendido. Obrigado, Dr. Hyun — Disse JiMin com um sorriso sincero.

Hyun acenou para os outros antes de sair, deixando JiMin mais animado e TaeHyung murmurando sobre como ele queria que todos os doutores fossem assim.

**

Na manhã seguinte, JungKook entrou no quarto de JiMin, sério como de costume, mas com uma leve preocupação estampada no rosto.

— Como está se sentindo hoje? — Perguntou ele, parando ao lado da cama.

— Melhor, acho que a fisioterapia vai ajudar — Respondeu JiMin, ajustando-se na cama. — E o meu paciente? Já descobriram quem ele é?

JungKook cruzou os braços, encostando-se na parede.

— A polícia está cuidando disso.

JiMin franziu a testa.

— A polícia? Por quê?

— Houve uma série de roubos na região recentemente, e o perfil do rapaz coincide com o do suspeito que eles estão procurando — Explicou JungKook.

JiMin parecia surpreso, mas logo perguntou:

— E os pertences dele? Alguém verificou a mochila?

— Estão com a polícia agora — respondeu JungKook. — Eles acham que podem encontrar algo útil ali.

Antes que JiMin pudesse fazer outra pergunta, um enfermeiro entrou no quarto, interrompendo a conversa.

— Dr. Jeon, os policiais querem falar com o senhor na recepção.

JungKook assentiu para o enfermeiro antes de se voltar novamente para JiMin.

— Vou ver o que eles querem. Mais tarde eu volto para te atualizar.

Ao dar alguns passos em direção à porta, ele se virou novamente.

— Ah, e por falar nisso, você terá algumas sessões de fisioterapia. Quero você de volta ao trabalho o mais rápido possível. Só YoonGi não dá conta de tudo sozinho.

JiMin deu uma risada curta.

— Você está com pressa para me sobrecarregar, não é?

— Não fuja das sessões como a maioria faz, JiMin. Preciso que você esteja funcional. Não temos espaço para desculpas — Disse JungKook, com o tom mais leve do que de costume, antes de sair do quarto com o enfermeiro.

JiMin suspirou, olhando para a porta fechada, já prevendo como seria o resto do dia.

**

JungKook entrou na sua sala e encontrou dois policiais uniformizados já o aguardando. Eles se levantaram ao vê-lo entrar.

— Dr. Jeon, obrigado por nos receber — Disse um deles, oferecendo um aperto de mão firme.

— Claro, oficiais. O que precisam? — Perguntou JungKook, gesticulando para que se sentassem enquanto ele ocupava sua cadeira atrás da mesa.

— Estamos aqui por causa do jovem envolvido no atropelamento. Conseguimos identificar alguns itens na mochila dele, mas há mais perguntas do que respostas. Ele carrega livros de medicina, mas também encontramos objetos que podem estar ligados aos roubos recentes na área.

JungKook arqueou uma sobrancelha.

— Como assim?

O segundo policial respondeu:

— Relógios, uma carteira com documentos de outras pessoas e até algumas joias. Esses itens foram reportados como roubados recentemente. Estamos tentando descobrir se ele é o autor ou se há outra explicação.

JungKook inclinou-se para frente, o olhar sério.

— Ele ainda está em estado grave. Não há como interrogá-lo no momento.

— Entendemos, doutor. Nossa prioridade agora é localizar a família dele. Mas gostaríamos de saber se alguém na equipe do hospital notou algo estranho ou suspeito relacionado a ele.

JungKook franziu a testa, pensando por um momento.

— Nada que eu tenha notado. Meus residentes estão acompanhando o caso de perto, mas acredito que seja apenas um ciclista que sofreu um acidente grave.

— Faremos uma visita ao quarto do paciente para verificar mais detalhes. Podemos também conversar com os residentes? — Pediu o primeiro policial.

— Claro. Vou pedir que o enfermeiro responsável lhes dê acesso. E, se precisarem de mais informações, estou à disposição.

Os policiais assentiram, agradecendo. Antes de sair, um deles acrescentou:

— Doutor, sabemos que o senhor está apenas cumprindo seu trabalho, mas é bom ficar atento. Não queremos criar alarde, mas há chances de o paciente ser mais do que aparenta.

JungKook os acompanhou até a porta, o rosto impassível, mas sua mente já começava a ponderar sobre as implicações da investigação. Ele sabia que aquilo poderia complicar o trabalho de todos — especialmente de JiMin, que estava tão envolvido no caso.

**

JungKook entrou na sala, onde dois policiais o aguardavam de pé, exibindo expressões sérias. Ele os cumprimentou com um aperto de mão firme antes de se sentar na cadeira de seu escritório.

— Doutor Jeon, obrigado por nos receber — Disse o mais velho dos policiais. — Precisamos compartilhar algumas informações importantes sobre o paciente politraumatizado que foi trazido após o atropelamento.

JungKook inclinou-se ligeiramente, sinalizando que estava ouvindo.

— Revistamos a mochila encontrada com ele e descobrimos alguns pertences que nos deram pistas sobre sua identidade. Entre eles, encontramos livros de medicina e uma fotografia de família. A partir disso, conseguimos identificar a pessoa como um jovem chamado Kang MinHo.

— MinHo? — Repetiu JungKook, assimilando o nome.

O segundo policial continuou:

— Sim. Curiosamente, enquanto investigamos, uma mulher foi até a delegacia para reportar o desaparecimento do irmão, cujo nome coincide com o do paciente. Mostramos a ela a fotografia encontrada e ela confirmou que se trata de Kang MinHo, seu irmão mais novo.

— Ela disse que ele estava estudando para o vestibular de medicina — Completou o primeiro policial. — Aparentemente, ele estava usando a bicicleta como transporte para se deslocar entre casa, trabalho e a biblioteca.

— E onde ela está agora? — Perguntou JungKook, interessado.

— A caminho do hospital — Informou o policial. — Nós a contactamos assim que fizemos a conexão. Ela está ansiosa para vê-lo, embora tenhamos explicado que ele ainda está em estado crítico.

JungKook assentiu lentamente.

— É bom que ela venha. Pelo menos teremos alguém da família para tomar decisões, se necessário.

Os policiais se levantaram para sair, mas o mais velho fez um último comentário:

— Doutor, sabemos que a situação é delicada, mas é reconfortante ver que ele tem alguém que se preocupa com ele. Esperamos que isso ajude na recuperação do jovem.

— Obrigado, oficiais. Vou garantir que ela seja informada assim que chegar.

Após eles saírem, JungKook permaneceu sentado, processando a informação. Saber que o paciente tinha uma família trazia algum alívio, mas também acrescentava mais responsabilidades à situação. Ele já estava acostumado com a pressão, mas sabia que teria que preparar JiMin para lidar com os próximos passos.

**

Dr. Park ChanYeol e TaeHyung estavam sentados em um canto da sala de descanso quando BaekHyun apareceu, fazendo a conversa fluir de forma descontraída. ChanYeol sorria enquanto contava sobre o tempo da universidade, e TaeHyung estava completamente envolvido na história.

— BaekHyun me odiava naquela época, sabia? Me achava "metidinho" — Comentou ChanYeol, lançando um olhar divertido para o marido, que estava próximo.

BaekHyun, ouvindo a provocação, se aproximou com um sorriso irônico.

— E era mesmo. Sempre metido com aquele jaleco impecável e aquele cabelo arrumadinho. Não sei em que momento caí na sua lábia.

— No momento em que percebeu que eu era irresistível — Respondeu ChanYeol, brincando enquanto mostrava o anel de casamento em sua mão.

TaeHyung riu, encantado com a interação entre os dois. Ele ia fazer um comentário, mas uma comoção no corredor chamou a atenção do trio.

Uma mãe apareceu correndo, segurando uma menina desacordada nos braços, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Por favor, alguém ajude minha filha!

ChanYeol imediatamente se levantou, mantendo a calma.

— O que aconteceu?

BaekHyun correu para buscar uma maca enquanto TaeHyung tentava acalmar a mãe.

— Ela caiu da escada! Por favor, ela precisa de ajuda!

Assim que a maca chegou, ChanYeol colocou a criança nela com cuidado, examinando rapidamente o estado dela. Ele percebeu hematomas espalhados pelo corpo, marcas que pareciam incoerentes com uma queda simples. No entanto, manteve o tom profissional e começou a conduzir o atendimento.

— TaeHyung, fique ao meu lado. BaekHyun, vá adiantando os exames de imagem. Precisamos de um raio-X e tomografia imediatamente.

A mãe seguia aos prantos, mas ChanYeol manteve a calma. TaeHyung, ao seu lado, notava o ar sério de seu mentor, mas não ousava perguntar sobre o que ele poderia estar pensando.

Enquanto encaminhavam a menina para o pronto-socorro pediátrico, ChanYeol pensava nas possíveis causas daqueles sinais. Apesar de suspeitar de violência doméstica, sabia que precisava de mais informações antes de tomar qualquer atitude. Mas, internamente, já se preparava para lidar com o que poderia ser uma situação muito mais complexa do que aparentava.

**

HoSeok estava sentado ao lado da Sra. Kim, ouvindo-a falar com entusiasmo sobre suas orquídeas favoritas. A cada manhã, ele fazia questão de trazer uma nova flor para ela, alegrando seus dias difíceis.

— Dr. Jung, você é um anjo. Essas flores são a única alegria que me resta — Dizia a idosa, com um sorriso fraco.

Antes que ele pudesse responder, Dra. JiHyo entrou no quarto, acompanhada pelo filho da Sra. Kim. Ela acenou para HoSeok, indicando que precisava falar com ele em particular.

No corredor, JiHyo foi direta.

— Conversei com o filho da Sra. Kim. Ele implorou por eutanásia para a mãe.

HoSeok ficou surpreso e balançou a cabeça.

— Mas isso não é permitido no nosso país.

JiHyo suspirou, visivelmente abalada.

— Eu sei. Mas veja a situação dela. A dor só vai piorar. Não há mais o que possamos fazer para aliviar o sofrimento.

HoSeok tentou manter a calma.

— Eu entendo o que você está dizendo, mas... Se fizermos isso e alguém descobrir, nossas carreiras estarão acabadas.

Ela o encarou com seriedade.

— HoSeok, essa não é a primeira vez.

O choque foi evidente no rosto dele.

— Como assim?

— Estou te contando isso porque confio em você. Sei que é meu residente e que não vai deixar essa informação vazar. Mas precisamos fazer o que é certo para a paciente.

Apesar do conflito interno, HoSeok acabou concordando em manter segredo. Ele voltou ao quarto com JiHyo, onde o filho da Sra. Kim estava segurando a mão da mãe. JiHyo explicou calmamente o que faria, enquanto tirava um pequeno frasco da bolsa.

— HoSeok, pegue uma seringa para mim, por favor.

Ele hesitou, mas obedeceu. Ficou próximo à porta, observando enquanto JiHyo preparava a medicação. A tensão no quarto era palpável.

O filho da paciente segurava a mão dela com força, as lágrimas escorrendo silenciosamente. JiHyo injentou a medicação com precisão e cuidado.

— Vá em paz, mãe — Sussurrou o filho, a voz embargada.

HoSeok observava em silêncio, sentindo o peso do momento. Ele sabia que, de certa forma, aquilo era o certo a ser feito para aliviar o sofrimento da paciente. Mas, ao mesmo tempo, a possibilidade de alguém descobrir a verdade pairava sobre ele como uma nuvem negra.

Assim que tudo acabou, JiHyo olhou para ele.

— Obrigada, HoSeok. Sei que você entende o porquê disso.

Ele apenas acenou com a cabeça, incapaz de responder. Por mais que acreditasse ter feito algo bom, sabia que devia carregar aquele segredo pelo resto da vida.

**

Na sala de fisioterapia, Dr. Hyun aguardava JiMin, sempre exibindo seu sorriso caloroso. Ele acabava de se despedir de outro paciente e se aproximou quando viu JiMin entrar com o auxílio de uma enfermeira.

— Bom dia, residente Park! Espero que tenha descansado bem, porque teremos uma longa e cansativa manhã. — Hyun apontou para uma das macas.

JiMin sorriu sem jeito, sentando-se com cuidado.

— Vou ser honesto, Dr. Hyun, eu entendo muito pouco sobre reabilitação.

Hyun deu um leve riso, já organizando alguns equipamentos.

— Não se preocupe, é para isso que estou aqui. Seu pé vai estar como novo em pouco tempo. — Ele puxou um banco e se sentou à frente de JiMin. — Fiz um plano terapêutico personalizado para acelerar sua recuperação.

Enquanto iniciava a avaliação, Hyun comentou casualmente:

— Fiquei surpreso quando o Dr. Jeon pediu pessoalmente para encaixar você na minha agenda.

JiMin ergueu as sobrancelhas.

— Surpreso? Por quê?

— Bem, para ser honesto, nunca pensei que JungKook se importasse com os residentes, mesmo que, tecnicamente, seja responsabilidade dele cuidar de vocês.

A curiosidade de JiMin foi aguçada.

— Ele já teve muitos residentes antes?

Hyun parou por um momento, ajustando a posição do pé de JiMin antes de responder:

— Apenas uma. E ela acabou sendo sua noiva. Mas, no final, as coisas não deram certo.

JiMin inclinou a cabeça, intrigado.

— A filha do dono do hospital?

Hyun ergueu os olhos, surpreso.

— Como você sabe disso?

— Ouvi por aí — Respondeu JiMin, casualmente, tentando disfarçar seu interesse crescente.

Hyun suspirou, enquanto aplicava um leve movimento no tornozelo de JiMin.

— É uma história complicada. Vamos apenas dizer que algumas pessoas não conseguem lidar com JungKook por muito tempo.

JiMin ficou em silêncio por um momento, observando o fisioterapeuta trabalhar com precisão. Finalmente, ele perguntou:

— Por que você acha que ninguém consegue lidar com ele?

Hyun parou o que estava fazendo, encarando JiMin com um olhar sério, algo raro vindo dele.

— Um conselho, JiMin. Não se envolva demais com JungKook.

— Por quê? — JiMin perguntou, surpreso.

Hyun voltou a trabalhar, mas sua voz estava mais baixa e séria.

— Porque as coisas nunca terminam bem para quem fica muito próximo dele. Acredite, você não quer descobrir isso da pior maneira.

O clima ficou tenso por alguns instantes, enquanto Hyun retomava a leveza com um sorriso para amenizar a conversa.

— Agora, me diga, sente alguma dor aqui? — Perguntou, pressionando levemente o tornozelo de JiMin, mudando o foco do diálogo.

Mas JiMin sabia que aquela conversa não sairia de sua cabeça tão cedo.

**

JungKook entrou no quarto de JiMin no final da tarde, carregando um tablet. Sua expressão era neutra, mas seus olhos demonstravam certa tranquilidade.

— Boa tarde, residente Park. Como está? — Perguntou, parando ao lado da cama.

JiMin se ajeitou, acomodando-se melhor com o pé ainda enfaixado.

— Melhor, doutor. Obrigado.

JungKook assentiu.

— Vim atualizá-lo sobre o paciente. A polícia conseguiu localizar a irmã dele. O nome dele é Kang Sun. Ela está com ele agora, e o estado dele está melhorando. Se tudo continuar assim, logo faremos a extubação.

JiMin sorriu, aliviado.

— Que ótima notícia! Ele teve muita sorte.

— Talvez, mas ainda precisamos acompanhar de perto — Comentou JungKook.

Após uma breve pausa, JiMin perguntou:

— Dr. Hyun vai participar da extubação?

JungKook arqueou uma sobrancelha, parecendo surpreso com a pergunta.

— Hyun? Ele trabalha apenas com reabilitação, JiMin. Não é a área dele.

JiMin assentiu, meio sem jeito. JungKook aproveitou a deixa para perguntar:

— E falando nele, como foi sua sessão de fisioterapia?

— Cansativa, mas produtiva — Respondeu JiMin, com um sorriso pequeno. — Dr. Hyun disse que em breve estarei de volta à ativa.

JungKook esboçou um leve sorriso, algo raro.

— Ótimo. Precisamos de você logo, Park. Não quero depender apenas de YoonGi.

JiMin riu baixinho, mas ficou surpreso com o tom sincero de JungKook.

— Vou fazer o possível para não decepcioná-lo, doutor.

JungKook balançou a cabeça, satisfeito.

— Certifique-se disso. Descanse e, por favor, não fuja da fisioterapia.

— Nem se eu quisesse, Dr. Hyun não deixaria — Brincou JiMin.

JungKook lançou um último olhar para JiMin antes de sair. O silêncio no quarto parecia mais leve, mas JiMin não conseguia deixar de pensar nas palavras e no comportamento de JungKook.

**

Na sala de descanso, YoonGi estava sentado em uma cadeira, olhando para o celular com uma expressão fechada. A voz de sua mãe no outro lado da linha era firme.

— Você não pode recusar esse jantar, YoonGi. É importante para a campanha do seu pai.

— Mãe, eu já disse que não vou. Tenho plantão esta noite, e não vou deixar isso de lado — Respondeu ele, claramente irritado.

— Todos sabemos que você não precisa desse trabalho. Sua prioridade deveria ser apoiar sua família. As eleições estão próximas, e a vitória do seu pai já está garantida, mas sua presença é importante.

— Não vou repetir, mãe. Já participei de jantares demais. Quero focar no meu trabalho.

Houve uma pausa do outro lado da linha antes de sua mãe falar com um tom frio:

— Muito bem. Então vou ligar para o diretor do hospital e resolver isso.

YoonGi desligou com força e, no impulso, jogou o celular contra a porta. O aparelho bateu com um estalo e caiu no chão, exatamente quando TaeHyung e HoSeok entravam na sala.

TaeHyung olhou para YoonGi com surpresa.

— O que aconteceu?

YoonGi, com os olhos faiscando de raiva, respondeu friamente:

— Não interessa.

HoSeok cruzou os braços, claramente irritado.

— Você precisa parar de agir como se fosse melhor que todo mundo só porque vem de uma família rica.

— Cala a boca, HoSeok — Retrucou YoonGi com desdém.

HoSeok deu um passo à frente, mas TaeHyung rapidamente se colocou entre os dois, estendendo os braços para separá-los.

— Vocês dois estão loucos? Isso é um hospital, não um ringue de luta! — TaeHyung exclamou, olhando de um para o outro. — Somos médicos, e nosso trabalho é cuidar das pessoas, não brigar como crianças.

Os dois permaneceram em silêncio, ainda com os ânimos exaltados. YoonGi abaixou o olhar, pegou o celular do chão e saiu da sala sem dizer mais nada.

HoSeok respirou fundo, tentando se acalmar. TaeHyung colocou uma mão em seu ombro.

— Não vale a pena perder a cabeça com ele — Disse TaeHyung.

HoSeok balançou a cabeça, frustrado.

— Às vezes parece que ele faz isso só para provocar.

— Talvez seja, mas o importante é não dar corda — Respondeu TaeHyung, tentando aliviar a tensão.

Os dois voltaram para seus afazeres, enquanto YoonGi desaparecia pelos corredores, ainda carregando o peso da conversa com a mãe.

**

No movimentado saguão do aeroporto, uma mulher alta de cabelos escuros e expressão decidida caminhava ao lado de um homem de aparência tranquila, que empurrava suas malas. Um motorista aguardava na saída, segurando uma placa com o nome "InSu".

Assim que avistou o motorista, InSu pegou o celular e digitou rapidamente uma mensagem.

— Está avisando ao seu pai que chegou? — Perguntou NamJoon, observando-a com curiosidade.

— Sim, e dizendo que agora é o momento certo para voltar — Respondeu ela, com um tom enigmático.

NamJoon arqueou uma sobrancelha.

— E o que exatamente torna esse momento tão "certo"?

InSu parou por um instante, olhando para o anel discreto em seu dedo.

— Faria cinco anos de casada com JungKook... se eu não tivesse ido embora.

NamJoon soltou um suspiro.

— Então você voltou para atormentar o homem como um fantasma do passado?

Ela balançou a cabeça, parecendo genuinamente arrependida.

— Eu me arrependo de ter abandonado JungKook. Agora que estou mais madura, vejo o quanto errei.

NamJoon soltou uma risada curta, quase amarga.

— Não sei por que ainda sigo você nessas ideias malucas, prima. Tenho a sensação de que vou me arrepender de ter voltado para este lugar.

— Preciso do seu apoio, NamJoon. Você sabe como meu pai é. Ele vai fazer perguntas que eu não quero responder.

Ele parou por um instante e cruzou os braços.

— Talvez seja hora de dizer a verdade, InSu. Assumir o que fez, pedir desculpas de verdade para JungKook. Você quase destruiu a carreira dele com suas escolhas egoístas.

Ela olhou para ele, visivelmente desconfortável.

— Eu voltei para consertar as coisas.

NamJoon deu uma risada cínica.

— Tarde demais, prima. Certas feridas não se curam com pedidos de desculpas.

InSu desviou o olhar, mas não respondeu. Eles seguiram até o carro, o clima carregado de tensão, com o passado os acompanhando como uma sombra silenciosa.