Notas iniciais
Quem quiser escutar nas partes finais desse capítulo a música "November Rain": http://www.youtube.com/watch?v=s0McfH-hweQ

A noite de Pequim parecia agitada. Nuvens negras por todo lado anunciavam a chegada de um temporal. Pessoas assustadas pelo raio aterrorizante e chuva torrencial corriam para lá para cá em busca de arrego.

Uma luz, proveniente da bicicleta que seguia pelo asfalto despertou a karateca dos devaneios. Permanecera na loja de antiguidades a pedido da Cologne para cuidar da Shampoo.

A amazona, que sempre fora energética e disposta, estava pálida e abatida. Mexia para os lados, murmurava frases desconexas, como se estivesse num filme dramático nos derradeiros momentos antes do fim quando sentiu uma mão acudir seus ombros pesados.

Shampoo despertou suada e ofegante e passeou lentamente seus olhos cansados, encontrando solitária a namorada daquele que um dia foi seu homem dos sonhos. Buscou forças para sentar-se na cama onde permanecera deitada por longas horas.

– Onde está todo mundo? – Shampoo indagou.

– É melhor você descansar – a karateca ignorou a pergunta e disse, receosa.

Um súbito mal-estar e vertigem, agora mais intensa que antes, fez a amazona bater de costas na parede. Shampoo notou sua pele gelar, a mente bagunçar e o corpo desaparecer. Suspirou com sofreguidão, rangeu os dentes e apoiou-se na Akane.

– Xian-Pu precisa ir... – a amazona murmurou, num tom enfraquecido.

– O que você está pensando? – a karateca continuou sem dar espaço para respostas – Você precisa preservar seu corpo se não pode... – dessa vez foi Shampoo quem interrompeu o seu diálogo.

– Por isso mesmo que eu não posso perder mais tempo! – disse, ofegando por ar –Eu sinto que algo está acontecendo...

Akane assentiu com a cabeça em sinal negativo e falou: — Eu vi que não adianta insistir.

– Onde está a minha avó? – Shampoo fitou o chão e continuou – Eu quero ver ela antes de... – um dedo em riste impediu que ela continuasse a fala.

– Não diga uma coisa dessas – continuou, ajudando-a ficar em pé – obaachan e todo mundo está fazendo de tudo para isso não acontecer.

– Como assim? – perguntou, intrigada.

– Eles estão na Cidade Proibida para impedir Mousse de cometer a besteira de não escolher você – explicou, encaixando os braços trêmulos da amazona nas suas costas.

– Eu apoio ele – falou, esboçando um sorriso triste – aquele pato ama aquela mulher e ela também...

– E você não sente nada por ele? – indagou com uma voz firme, fitando atentamente a sua ex-rival.

Shampoo deixou a franja cobrir seus olhos, como se pudesse esconder aquelas maçãs do rosto violentamente coradas e respondeu bem baixinho: – Xian-Pu ama Ranma e não ama Mu-Tsu...

– Por Kami! Quanta teimosia – Akane soltou um longo suspiro em reprovação e comentou mais para ela do que para a amazona – bom, depois que tudo se resolver vão ter o tempo do mundo para se entenderem...

– Diz isso porque é amado por alguém – desabafou sozinha, virando-se para o lado – ninguém ama Xian-Pu...

Um ruído ensurdecedor ecoou por todos os cantos daquele quarto. Uma dor despertava Shampoo com o tapão que acabara de ganhar na face. Dóia no fundo da alma. Doía o orgulho de uma mulher não correspondida pela sua verdadeira paixão descoberta tarde demais. Mais fácil era fugir da verdade, ignorar seus sentimentos e morrer esquecida.

Akane Tendo. Uma rival. Uma moleca. Uma amiga. Entendia finalmente porque Ranma escolhera ela como prometida.

– Sua baka! – a karateca disse, descontrolada – Como assim ninguém me ama? Se ama tem que correr atrás entendeu? Será que não consegue pensar em mais ninguém além de você mesma? E a sua avó? E o Ranma? E a Ukyo? E eu?

De repente, a amazona começou a sentir uma nova onda de sentimentos confusos e sumir diante dos olhos aflitos da colega. Seus braços, seu corpo e suas pernas, tudo esvanecia num ritmo intenso. Os intervalos de crise encurtara desde sua saída da loja. Definitivamente uma rajada de emoções jogada nas veias em grande quantidade não lhe fizera bem.

– Agüenta firme! – Akane encorajou-a.

– Xian-Pu não quer sumir antes de chegar lá... – Shampoo implorou aos céus, engolindo as lágrimas que insistiam em descer pelo rosto.

– Me prometa que vai lutar por ele depois! – disse, carregando-a nas costas.

– Por favor... não insista nisso... – falou, escondendo os olhos marejados nos ombros da karateca.

– Vamos promete! – persistiu, convicta.

Shampoo balbulciou uma palavra que morria na garganta, fazendo a karateca esboçar um ligeiro sorriso e retomar o caminho rumo à Cidade Proibida.

+++

Yu estava disposta para retornar a sua vida na Antiga China, o que de fato facilitara o trabalho da Cologne.

Parou a poucos palmos do túnel de tempo e deixou as lágrimas banharem o seu rosto, ganhando compaixão de Ranma e cia. Demorou alguns instantes contemplando a Cidade que se tornara turística. Sabia que seria condenada ou na pior da hipóteses assassinada logo após o regresso.

Tomada por um mar de emoções, mal conseguia disfarçar seu ki, o que acabou chamando a atenção do amazona.

– Não faça isso! – Mousse largou a batalha e correu rapidamente em direção a ela.

Segurou-a pelos pulsos e beijou-a violentamente, sentindo as lágrimas escorrerem na garganta. Queria que os deuses congelassem o tempo e levassem eles para bem longe dali. Um lugar onde não existisse nem passado e nem presente.

Lei Li não permitiu que eles continuassem a se beijarem e desferiu um chute aéreo em Mousse, obrigando-o a lamber o chão. Sorriu satisfeito por descobrir o grande segredo do armário velho.

– Quer dizer que se eu destruir essa porcaria nunca mais vou precisar voltar – Lei Li disse, aproximando-se da única esperança de todos.

Mousse desejou ardentemente que seu inimigo destruísse o empecilho, assim nada mais impediria a Yu regressar ao Palácio Imperial. Limitou-se em erguer a cabeça, permanecendo seu corpo inerte.

– Não deixem ele chegar perto do armário! – a anciã disse, olhando para seu ex-genro e Ryoga.

Notara o Mousse parado e estirado no chão. Arriscaria quantos apelos que fossem necessários. Humilharia a si mesma um milhão de vezes. Faria qualquer coisa para salvar sua neta.

– Ajudem eles também Mu-Tsu! – Cologne suplicou, aflita.

O amazona não deu ouvidos aos apelos da anciã e permaneceu caído, assistindo seus colegas defenderem a todo custo o armário. Como ajudar alguém que desgraçara sua vida?

Lei Li captou as reais intenções do Mousse e gargalhou alto: — Ora ora, veja só isso – continuou, desferindo golpes mortais aos dois – Estamos de acordo em alguma coisa, não acha meu jovem?

Nesse instante, Yu aproveitou a distração do seu ex-cúmplice e avançou sobre ele, ficando cara a cara, olho por olho e dente por dente. Mousse que assistia a cena, levantou-se apressadamente, tentando preservá-la de qualquer desgaste vital que antecipasse o que ele mais temia nessa face da Terra: a “morte” da Yu, mais precisamente o comprometimento de sua existência pela eternidade.

– O que você está fazendo? – o amazona gritou, abalado – Pare já com isso!

– Ninguém pode brincar de Deus! – ela virou-se para Mousse e disse, com um sorriso triste – nem você Mu-Tsu...

Tanto Lei Li e Yu ficaram com corpos translúcidos. Como uma bomba relógio que entrara nos últimos cinco minutos antes da explosão, como o clímax de um filme longo e doloroso antes de entrar nos créditos finais.

– Mas, mas o que é isso? – Lei Li entrou em desespero, recuando em passos cambaleantes – Eu ainda não quero sumir!

– Está na hora da criança ir para a cama... – Yu falou trêmula, imobilizando o impostor pelas costas.

O último fio da razão havia desaparecido em Lei Li e este passou a dizer palavras desconexas em chinês tradicional: — Mas é claro que eu sou o Deus! Consegui, consegui! É o fim da Dinastia! Eu venci! Eu venci seus otários!

Ao vê-lo totalmente transformado numa criança amedrontada que queria vencer as leis divinas, a anciã consentiu com a cabeça para Ranma e cia., sinalizando a ocasião adequada de capturar a presa.

Lei Li foi imobilizado pelos braços firmes de Ranma e Ryoga. Uma vergonha era aquele que prometera fidelidade eterna ao imperador lado a lado de Liang Hu acabar perdido num labirinto da loucura mental. Assim pensava Yu, enquanto o via jogado no túnel de tempo, onde ele jamais deveria ter saído...

Uma súbita crise assolou Yu, a obrigando ajoelhar-se no chão destruído devido as sucessivas batalhas. Sentia a aproximação de algo muito forte, uma espécie de energia semelhante. Ficou suada e gelada, como se o corpo tivesse vontade própria e quisesse espichar para os quatro cantos.

Mousse praticamente atropelou os colegas e abraçou-a firme, assegurando que ela ainda existia ali. Yu queria desfalecer em seus braços se não enxergasse sua sucessora. Shampoo surgiu na frente de todos abraçada na karateca, respirando acelerado e perdendo os sinais vitais.

– O que está fazendo aqui? – Cologne continuou, nervosa – Você precisa se poupar!

– Gomennasai obaachan, mas ela insistiu... – Akane respondeu no lugar da quase desfalecida.

Com muito fôlego e persistência, Shampoo ergueu a cabeça pesada, encarou o olhar apreensivo da sua avó e confessou: – Xian-Pu queria se despedir de todo mundo...

– Nani? – a karateca retrucou, contrariada – Mas você tinha me prometido que ia...

Fitou o amigo de infância abraçado a sua amada e deixando a franja esconder seu orgulho ferido, falou baixinho: – Xian-Pu quer a felicidade do Mu-Tsu...

Quem ama liberta.

Aquelas palavras da Shampoo despertaram a consciência adormecida da Yu. Tocada no âmago do ser, afastou-se bruscamente do amazona e apertou os passos vacilantes, rumando até o armário.

Por sua vez, Mousse dificultou a passagem da Yu de todas as maneiras possíveis e impossíveis, abraçando-a, beijando-a. Mesmo assim, ela não cedeu as tentações, chegando mais e mais próximo do túnel. Tomado pela ignorância e desespero, ele parou os pés na frente da porta do armário.

– Eu não vou sair daqui – Mousse disse, seguro de si – e duvido muito que você me enfrente...

– Então não duvide! – Yu atingiu alguns pontos do corpo de seu amado, e deixando-o paralisado de cintura para baixo, murmurou com uma voz chorosa: — Esse foi um dos primeiros golpes que treinamos, lembra?

– Por que? – o amazona amaldiçoou por cair na armadilha da amada e suplicou num tom trêmulo – Você não pode me deixar!

– Eu vou renascer em forma de Shampoo e vamos nos encontrar de novo – Yu evitou encará-lo nos olhos suplicantes do amado e continuou – ela tem a mesma garra que eu pelo menos e isso me basta...

– Não, não Yu! Você não é ela! Você nunca pode ser ela! – Mousse gritou, delirante.

– Wo ai ni... Mu-Tsu... – Aquelas foram as últimas falas da Yu antes de desaparecer no armário. Virou-se mais uma vez, e sorrindo, deixou as lágrimas correrem soltas.

Notas finais
E o final se aproxima...