O Resgate do Mousse
18 Capítulo 18
Passaram-se alguns meses desde o incidente na Cidade Proibida. A ponte entre o passado e o presente foi destruído por Ranma e cia. antes que Mousse cometesse uma nova loucura. Loucuras de amor. Dores de amor. Como era possível envolver-se intensamente por alguém em tão pouco tempo? Assim pensava ele sentado na janela da casa.
Passeou seus olhos perdidos naquele quarto simples e familiar, onde saíra com um propósito e retornara com outro totalmente diferente. Antes queria recuperar sua memória acontecesse o que acontecesse e agora queria esquecer tudo. Ah, se pudesse voltar atrás, se pudesse fazer escolhas, se pudesse ser Deus e comandar o destino de todos ao seu redor!
Nesse instante, duas batidas na porta o despertou dos devaneios. Era o único motivo que o fez regressar ali. Uma fortaleza. Um porto-seguro. Uma amiga e companheira nos momentos difíceis. Uma mãe sempre seria mãe e nem as leis divinas mudariam esse fato.
Após o regresso do filho, a dona de casa que até pouco tempo sofria de crises de choro, parecia refeita e disposta com uma bandeja nas mãos.
– Você ainda não comeu nada hoje – ela colocou o prato sobre a cama cuidadosamente e continuou – eu fiz a sua sopa favorita.
– Obrigado mãe, mas... – o amazona disse, sem ânimo – eu estou sem fome.
– Bom eu vou deixar aqui, tome antes que esfrie – como se lembrasse de algo, parou a alguns palmos da fechadura e indagou – ah filho tem uma correspondência para você, quer ler?
– A senhora pode abrir e ler – respondeu desinteressado, retomando sua atenção para a paisagem monótoma da janela.
– Bom – respirou fundo e confessou baixinho, um pouco contrariada – a carta veio do restaurante daquela... que você trabalhava antes.
Tomado por um sentimento de fúria e revolta, Mousse tornou a encará-la e falou em alto e bom som – Rasga e joga fora – afirmou.
– Você quem manda Mu-Tsu – ela disse, num tom aliviado.
Ao deixar o cômodo, a dona de casa seguiu em direção a carta e correu direto na lixeira quando tocada por uma súbita curiosidade, abriu o envelope. Jogaria o papel fora somente depois que visse o conteúdo. Olhou para os lados e começou a ler o manuscrito:
Quem escreve é a Cologne, quem você nunca mais quer ouvir falar e muito menos ver. Eu não vou tirar a sua razão, tem motivos de sobra para sentir ódio e repulsa por mim e pela minha neta.
Como estão as coisas por aí? Imagino que esteja mais preocupado em ficar cada vez mais forte e superar o próprio limite.
Quanto a nós, depois do que aconteceu na Cidade Proibida, Xian-Pu está muito magoada, quase depressiva. Chegou a emagrecer por não se alimentar bem. Mal consegue atender os clientes, troca os pedidos toda hora, derruba os pratos, restando a opção de fechar o Cat Café por algum tempo até ela recuperar do baque, “se” recuperar...
E justamente essa incerteza da recuperação dela que mais me preocupa. Quando toco no seu nome, ora fica sem fala, ora fica nervosa, ora fica lunática. Ela insiste em dizer que é só uma fase e logo passa, mas... isso tem nome e chama-se: amor reprimido.
Sabe Mu-Tsu, antes mesmo da sua perda de memória, eu tinha notado o quanto você cresceu no coração da minha neta durante esses anos que trabalhou no meu restaurante. Uma pena que ela só percebeu o que sente por você tarde demais...
Bom, eu imagino que quer jogar essa carta no lixo o mais rápido possível, então chega de delongas e irei direto ao assunto:
Mesmo sendo impossível, eu peço, ou melhor, eu imploro de joelhos que venha para cá. Minha neta precisa de você por perto. Ela perdeu o sentido de viver, o brilho nos olhos e o sorriso nos lábios. Além disso, conforme já conversamos antes, eu ainda preciso passar o nome do Cat Café para você como parte do meu acordo por ter salvado a vida da Xian-Pu. Depois, faça o que bem entender. Administrar, vender ou queimar. Eu só quero vê-la feliz outra vez...
Eu não tenho mais a quem recorrer e espero por uma resposta sua urgente.
– Velha abusada – ela desabafou, assentindo a cabeça em reprovação – mesmo depois de tudo o que aconteceu, ainda quer fazer Mu-Tsu sofrer!
– Quem quer me fazer sofrer? – Mousse indagou, ouvindo parte da fala da dona de casa.
– Nada filho, não foi nada – respondeu, disfarçando a revolta e escondendo o papel debaixo da mesinha.
– Obrigado pela sopa mãe – disse, colocando o prato limpo na modesta mesa de jantar.
– Por que não sai um pouco de casa Mu-Tsu? – indagou, mudando o rumo da conversa.
– Eu também acho – concluiu – eu estava agora mesmo saindo para treinar.
Os olhos esperançosos da dona de casa se transformaram num olhar desalentador. Como um homem saudável, bonito e jovem não sente vontade de encontrar outras ocupações mais interessantes além de treinar?
Essa era a nova rotina de Mousse. Treinamento dia após dia. Sem descanso. Sem tempo para sentimentalismos. Talvez fosse uma maneira de preencher o vazio ou uma forma de sentir-se próximo do falecido mestre Liang Hu e da Yu...
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Metida num avental com lindos bordados, o que Shampoo menos fazia era prestar atenção nos seus clientes. Atribulada de tarefas e mais tarefas, sentia a falta de um certo ex-empregado que a deixara na mão, não muito pelos afazeres, mas por realmente sentir sua falta. O simples fato de não vê-lo todos os dias e trocar diálogos habituais. Acostumara tanto com a presença daquele pato maldito, insuportável e cego! Um cego de amor.
Isso porque ele não era totalmente ignorado pela clientela feminina. Uma piscadela daqui, um olhar interessado de cá. Fingia frieza e desinteresse na boca e escondia o ciúme que lhe corroía na alma.
Correu o olhar nostálgico no depósito empoeirado de antiguidades. Mesmo que ignorasse o passado, as lembranças fluíam desenfreadas, uma a uma, nítidas e perfeitas. Lábios rubros engoliam seco, dentes rangiam irritados e as falas morriam na garganta. Queria gritar bem alto o nome do infeliz, materializá-lo naquele instante, esbofeteá-lo até arder suas mãos e beijá-lo com fervor.
Um mar de confusão era seus pensamentos. Cadê aquela mulher obsecada por Saotome Ranma? Uma paixão fulminante transformado num mero pretexto de orgulho no decorrer do tempo. Um esconderijo que cabia perfeitamente sua paixão pelo Mousse...
Reflexões foram interrompidas pela voz gritante da Cologne. Ela, ao contrário da Shampoo, estava à todo vapor, atendendo a freguesia exigente.
– Xian-Pu ajuda aqui! – a anciã suplicou, voltando ao macarrão fervente da panela.
As horas passaram num único sopro e o último freguês deixou o Cat Café. O sossego típico de final de expediente logo reinou por todo o estabelecimento. Tomada pelo cansaço e desânimo, Shampoo acomodou seu traseiro e deitou os braços doloridos e a cabeça pesada na mesa, entrando em estado meditativo. Virara um hábito pensar, mergulhar e viver no passado.
Um passado que tornara distante. Vozes de um amor ingênuo e puro, mas friamente ignorados. Recebia declarações descabidas todas as tardes. Aquelas falas ensurdeciam seus ouvidos: “Wo ai ni Xian-Pu!” “Saia comigo e esqueça o Saotome Ranma!” Buquê de flores eram pisoteados e esquecidos no calçado.
Sentiu uma mão acudir seus ombros fatigados, lhe despertando do profundo torpor. Esfregou as pálpebras pesadas e viu a imagem embaçada da sua avó.
– Eu acho melhor você descansar no quarto – Cologne disse, cheio de ternura – hoje foi um dia difícil.
– Todo dia é assim... – Shampoo murmurou num tom baixo, ajeitando-se na cadeira.
– Sente muita falta dele não? – indagou, batendo de leve nas costas da jovem em incentivo.
– Xian-Pu sente falta sim – respondeu, contrariando as espectativas da dona do Cat Café — do Ranma, meu homem prometido.
Um breve suspiro morreu nos lábios da anciã. Tivera também sua culpa no cartório, de fato. Obrigara a neta aprender todas as leis dos amazonas quando a coitada mal completara três anos, o que na época garantira uma colocação acima das outras aprendizes. Criara uma expert em aperfeiçoar o orgulho e deficente em cultivar afetos.
Como reverter esse quadro depressivo? Pensava Cologne. Precisaria de um meio rápido e eficaz que não fosse esperar a resposta da carta remetida a ele em segredo. Quem sabe se fechasse o restaurante e concedesse a ela um tempo de descansar e refletir sobre seus sentimentos.
– Eu estive pensando esses dias – Cologne indagou, sentando-se ao lado da neta – O que acha de tirarmos umas férias? – sem dar espaço para respostas, continuou – Sabe eu estou com saudades da nossa vila...
– Por Tenma! – Shampoo respondeu indignada, batendo na mesa – Por que eu preciso ir ver aquele pato maldito?
– Mas nem citei o nome dele – disse, achando graça em vê-la corar violentamente.
– Xian-Pu precisa pensar um pouco – falou, confusa.
– E quanto ao... – pausou – basta agir como sempre – indagou, encenando ingenuidade – aliás o que tanto aflige esse coração?
– Quer, quer saber de uma coisa? – ignorou a última pergunta e respondeu, fingindo desinteresse – Eu vou para a vila sim! – murmurou para si mesma – A senhora tem toda razão, Xian-Pu não ama Mu-Tsu...
– Ótimo! – disse, sorrindo satisfeita – Amanhã mesmo vamos arrumar as malas para viajar.
– Agora eu posso ir descansar? – indagou, levantando-se da cadeira.
– Vai lá – viu desaparecer no segundo andar e esboçou um ar de riso.
Shampoo mordera a isca. A viagem justamente serviria para reaproximar aqueles dois corações endurecidos e quebrar a geleira existente entre eles. Mesmo que ninguém saísse suspirando amor, seria já um bom recomeço. E o tempo encarregaria do resto...
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