O Resgate do Mousse
16 Capítulo 16
Lei Li surgiu diante dos dois e desferiu um rápido chute duplo, atingindo os dois num só golpe como se quisesse cumprimentá-los em grande estilo. Mousse correu para sustentar a amada nos braços, que fragilizada com os últimos acontecimentos, não havia suportado o impacto daquele ataque surpresa.
– Ora ora que cena mais comovente – o desertor da Dinastia direcionou o comentário irônico para sua ex-cúmplice – você viu o que acontece com quem trai a confiança do seu mestre?
– Impossível! – Yu indagou mais para si do que para os outros – como ele conseguiu vir parar nessa época?
– Se esse impostor está aqui provavelmente... – o jovem general concluiu o raciocínio em pensamento.
– Infelizmente devo lhe informar que seu grande e admirável mestre Liang Hu está – fez uma pequena pausa na intenção de criar expectativa e disse – morto.
Uma gargalhada impetuosa ecoou por todos os cantos. Liang Hu estava morto. Aqueles dizeres despertaram uma ira incontrolável na Yu, que vira nele um segundo pai e amigo conselheiro de todos os momentos.
– Eu vou acabar com você – Yu esbravejou em alto e bom som, deixando as lágrimas rolarem soltas – nem que seja última coisa que eu faça nessa vida!
A cena a seguir foi bastante rápida, violenta e intensa: Yu desprendeu-se descontrolada dos braços do amazona, desferindo uma sequência de golpes velozes contra seu antigo parceiro, intercalando entre técnicas corporais e energias psíquicas. A fúria havia desestruturado o seu equilíbrio emocional, virando alvo fácil para Li, que desviava de todos os ataques com a maior facilidade.
– Você não deveria ficar assim – Lei disse com um sorriso malévoro, desviando dos socos e chutes desenfreados – você também traiu ele!
Traição. Uma palavra banida no código de honra dos samurais, ninjas e os antigos guerreiros de todas as épocas. Um ato imperdoável.
Yu recobriu a consciência, trazendo as lembranças do propósito inicial que virara aprendiz de Liang Hu. Sentiu o rosto perder a cor, as mãos tremerem e os pés perderem a força. Quem em mente sã e corpo são diria ser uma fiel seguidora de alguém que traira a confiança?
No momento seguinte, Mousse surgiu diante da Yu, e aproveitando a distração do impostor, lhe golpeou impiedosamente na face direita, o fazendo bater as costas no resistente teto do pavilhão.
– Acorda Yu! – o amazona disse – Ele está tentando só nos provocar!
– Mas eu traí o mestre e não tenho moral nenhuma para acusar ele de nada – Yu afirmou em voz alta com sofreguidão – Eu sou igual a ele!
– Não diga uma bobagem dessas! – Mousse retrucou – Você não está do meu lado para se vingar do mestre? – ele não esperou pela resposta e falou num tom acolhedor – Isso é o que importa agora.
– Acabou o falatório? – Lei Li interrompeu o clima do casal e avançou em direção ao Mousse, lhe golpeando com um chute aéreo – Eu detesto enrolações!
– Eu também – o amazona respondeu seguro de si, usando seus punhos de aço como defesa – vamos acabar logo com isso!
Num canto, estava Mousse que aprendera a maioria das habilidades com Liang Hu em pouquíssimo tempo, tornando o seu melhor aprendiz e por outro lado, Lei Li, ou temido pela Antiga China como “Trovão Forte”, um profissional grau master em Kung-Fu e traidor do Palácio Imperial. A regra era simples. O melhor venceria e o perdedor receberia a sentença da morte.
Turistas e habitantes locais próximos dali correram seus olhos curiosos para assistirem a batalha que poderia ou não modificar definitivamente a história de Pequim.
A platéia não afetara nenhum deles. Tanto o amazona como o Lei Li continuaram concentrados, intensificando os golpes, chegando a provocar um impacto explosivo, que tremia nos pés dos espectadores.
Um perseguia o passo do outro, pavilhão a pavilhão, transformando a atração turística num cenário tenso e violento. Energias psíquicas mescladas explodiam no ar, chamando atenção dos visitantes nas proximidades do portão principal.
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E não tão distante daquele conflito interminável, uma energia densa e escura acercava a Shampoo, que agonizava de dor e febre. Seu corpo ficara ainda mais transparente, como se desaparecesse a qualquer instante.
Era uma existência em risco e qualquer decisão mal-tomada poderia comprometé-la para sempre.
Cologne não sabia o que fazer, de fato. Estava aflita e preocupada. Suas mãos suavam inseguros e seus pés tremiam amedrontados. O que adiantara masterizar todas as técnicas das amazonas se não conseguia salvar uma única vida?
– Chega de esperar! – ela disse mais para ela do que para os outros e largou a sua neta deitada na cama, descendo as escadarias que dava acesso a pequena salinha.
Passou apressada pelo Ryoga que estava encostado na parede em estado meditativo, Lien que sorvia seu chá como se tomasse um paliativo e por fim Ranma, que não parava de caminhar inquieto pros lados.
– Hei onde pensa que vai? – Saotome indagou, nervoso.
– Eu mesma irei salvar Xian-Pu nem que eu perca a minha vida! – Cologne respondeu aos gritos.
– Velha... – Ranma murmurou admirado pela intensidade de suas palavras.
Ranma jamais a vira num estado tão emotivo. Logo ela que sempre fora fria, calculista e trapaceira para alcançar seu objetivo em fazê-lo casar-se forçado com sua neta a qualquer custo.
Quando a anciã estava colocando seus pés para fora da loja, a karateca surgiu apreensiva e ofegante diante de todos, apoiando-se na entrada.
– Por Kami, vocês não sabem o tumulto que está na Cidade Proibida! – Akane anunciou, num tom nervoso.
– O que houve? – Cologne indagou, intrigada.
– Aquele homem que atacava o Mousse na Antiga China veio pra cá não sei como e eles estão lutando agora! – a karateca respondeu, notando mais desocupados correrem no sentido da luta.
Um calafrio percorreu as entranhas da anciã. Uma batalha que decidiria o passado, o presente e o futuro de Beijing, mais precisamente da China. Muitas existências em jogo. Quem imaginaria que uma simples busca pelo passado de um único ser tomaria tais proporções?
– Vamos para lá também! – Ranma disse, calçando os sapatos.
Nesse instante, Cologne fitou o teto e respirou fundo como se buscasse uma resposta dos deuses orientais e impediu o genro e os outros que já seguiam para a saída: — Esperem! – após uma pequena pausa, continuou – Eu tenho algo em mente...
Arriscaria custasse o que custasse o único plano que surgira nos seus pensamentos. Transportaria o armário do sóton até o impostor e a ascendente da Shampoo e levaria os dois de volta ao passado. Trancaria à força caso necessário com ou... sem consentimento do Mousse. O tempo era precioso demais e falhas não seriam permitidas.
Depois de um rápido falatório, Ranma ficou pensativo por algum momento e redarguiu: — Mas velha, eles vão se lembrar do...
– Quanto a isso não se preocupem – Lien tomou a frente e interrompendo o a fala de Saotome, explicou com um pequeno frasco na mão – esse “pó do esquecimento” farão os dois perderem todas as lembranças do rapaz e de todos aqui.
– E por que só do Mu-Tsu? – Cologne retrucou, desconfiada – Que eu saiba não se perde a memória pela metade.
– Você quer ou não salvar a vida da sua neta? – Lien perguntou, um pouco contrariada.
– É o que eu mais quero – a anciã confessou, cabisbaixa.
– Então confie em mim – Lien disse, cheio de convicção.
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A batalha se estendera por bastante tempo. Fez uma breve calmaria típico de reta final. O cansaço de ambos era notável. Ninguém queria ceder um palmo sequer. Um deslize colocaria tudo a perder. Como uma águia que mirava a presa do alto antes de atacar, um seguia o movimento do outro num simples olhar.
Lei Li foi quem cortou o silêncio: — Fazia tempos que não me sentia tão excitado numa luta – Mousse se limitou a sorrir e deixou que ele terminasse a fala – Você provou que realmente é bom, mas...
E uma nova encruzilhada das duas forças desumanas abalou novamente a superfície da Cidade Proibida. Velozes e insanos. Os dois não parariam até um deles morrer, se Mousse não fosse interrompido pela comunicação mental da Cologne, que assistia a todo áquele espetáculo.
– “Está me escutando Mu-Tsu?” – ela continuou sem dar espaço para respostas – “Eu sei que você pode escutar a minha voz.”
– “Oh velha ingrata não vê que eu estou ocupado agora?” – Mousse gritou em pensamento, fugindo ao mesmo tempo dos golpes de Lei Li com certa dificuldade.
Ao ver o sinal positivo da anciã, Ranma e cia surgiram diante da multidão, carregando o armário velho. Cologne pediu que deixasse no chão e tornou a concentrar suas energias para comunicar-se à distância com o seu empregado, se é que ainda poderia chamá-lo dessa forma...
– “Eu compreendo que eu e a minha neta fomos ingratas e você tem todos os motivos do Universo para nos odiar – prosseguiu, respirando fundo – mas saiba que seus atos inpensados está colocando em risco além da Xian-Pu, a história de um país.”
O amazona parecia confuso e calou-se por alguns instantes, tentando focar sua mente tão somente nos movimentos do oponente. Sabia que colocaria o progresso de uma nação inteira em perigo caso continuasse em oposição as leis divinas. Infelizmente ele não podia brincar de Deus...
– “Escute com bastante atenção. Você só precisa nos ajudar induzindo os dois a entrar nesse armário que...”
Antes que ela pudesse continuar, um suave toque nos seus ombros lhe interrompeu o diálogo.
– Eu estou pronta – Yu disse, fitando os olhos surpresos da anciã.
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