O Resgate de Hadassah

4 O Sangue que Escolhemos



​Quatro anos se passaram como um sopro de primavera na mansão Lioncort. Aos 14 anos, Hadassah já não lembrava em nada a garotinha frágil e assustada que Jason encontrara naquele beco escuro. O cabelo ruivo, agora longo e meticulosamente bem cuidado por Olívia, caía em ondas sedosas pelas costas. Graças às aulas particulares intensivas no início e à sua inteligência brilhante, ela não apenas alcançara a idade escolar correta, como conseguira acelerar duas séries, estudando agora na mesma sala de Alycia, que estava com 16 anos.

​Naquela tarde de sábado, a luz do sol banhava a imensa sala de jantar. A mesa de jacarandá estava posta para o almoço, preenchida pelo tilintar dos talheres de prata e pelo aroma de um risoto preparado sob a supervisão de Olívia.

​— Eu ainda não me conformo com a nota que você tirou em Química, Hadas — Alycia comentou, gesticulando com o garfo antes de levar um pedaço de carne à boca. — O professor passou aquela equação enorme no quadro e você resolveu em dois minutos. Eu quase engasguei com o meu chiclete.

​Marta Lioncort soltou uma risada elegante do topo da mesa.

— Sua irmã sempre teve uma mente brilhante, Alycia. Você deveria usar o exemplo dela para focar mais nos estudos e menos nas revistas de moda.

​— Ah, mamãe, a moda também exige intelecto! — Alycia defendeu-se, piscando para Hadassah, que apenas sorria timidamente, tomando um gole de seu suco.

​Na cabeceira oposta, Jason observava a cena. Aos 24 anos, ele era um titã ainda mais poderoso no mercado publicitário; sua postura exalava uma autoridade natural, e as linhas de seu rosto pareciam esculpidas em mármore. Mas ali, naquele ambiente, seus olhos azuis transmitiam apenas uma calmaria protetora.

​— Falando em eventos importantes... — Alycia mudou de assunto abruptamente, os olhos brilhando de excitação enquanto olhava fixamente para Hadassah. — O aniversário de 15 anos da Hadas está chegando. Falta menos de um ano! Temos que começar a planejar tudo agora.

​Hadassah quase se engasgou com o suco. Ela limpou os lábios com o guardanapo de linho, sentindo as bochechas esquentarem.

— Alycia, por favor... Não precisa de tanto barulho. Um jantar simples aqui em casa já seria perfeito.

​— De jeito nenhum! — Jason interveio. Sua voz forte e aveludada cortou o ambiente, fazendo Hadassah olhá-lo imediatamente. — Nós faremos uma festa inesquecível para você, Hadassah. Exatamente como fizemos para a Alycia. Quero os melhores decoradores, o melhor salão da cidade e o vestido que você escolher. Você merece o melhor.

​— Meu filho tem toda razão — Marta concordou, estendendo a mão para tocar a de Hadassah sobre a mesa. — Quinze anos é uma data mágica. Será o seu baile de debutante, minha princesa.

​Enquanto a família continuava a planejar e debater sobre paletas de cores e convites, um nó apertado começou a se formar na garganta de Hadassah. Ela olhou para o luxo ao seu redor, para os sorrisos genuínos daquela família rica e perfeita, e uma onda avassaladora de culpa e inadequação a atingiu. Eu não pertenço a isso de verdade, o pensamento cruel sussurrou em sua mente. Eu sou apenas uma menina que eles tiraram do lixo.

​Com o peito apertado, ela forçou um sorriso, pediu licença e subiu para o quarto, sem conseguir terminar o almoço.

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​Mais tarde, por volta das nove da noite, a mansão estava silenciosa. Sabendo que Jason costumava trabalhar até tarde em seu escritório particular dentro de seus aposentos, Hadassah caminhou pelo corredor dos quartos a passos lentos. Suas mãos tremiam levemente.

​Ela parou diante da imensa porta de madeira escura e respirou fundo antes de bater duas vezes.

​— Entre — a voz de Jason ecoou de dentro.

​Hadassah empurrou a porta devagar. O quarto de Jason era espaçoso, decorado em tons de cinza, preto e madeira escura. Ele estava sentado atrás de uma mesa de vidro, analisando alguns contratos no notebook, com as mangas da camisa social branca dobradas e os primeiros botões abertos. Ao erguer os olhos e ver a expressão aflita da jovem ruiva, ele fechou a tela do computador imediatamente.

​— Hadassah? O que houve? Você mal tocou na comida no almoço e sumiu o resto do dia. Está sentindo alguma coisa? — Ele se levantou, contornando a mesa e aproximando-se dela com os supercílios franzidos de preocupação.

​— Eu estou bem de saúde, Jason... Eu só... — Ela travou, olhando para os próprios pés descalços.

​— Sente-se aqui — ele a guiou suavemente até um par de poltronas de couro perto da varanda. Jason sentou-se na frente dela, inclinando-se para a frente e apoiando os cotovelos nos joelhos, mantendo o olhar fixo nela. — Pode me dizer o que está te incomodando. Sabe que pode me falar qualquer coisa.

​Hadassah engoliu em seco. Suas mãos apertaram o tecido do pijama de seda.

— É sobre a festa de quinze anos. E sobre... tudo o que vocês fazem por mim.

​— Não gostou da ideia da festa? Se preferir uma viagem, ou algo mais reservado, nós podemos mudar os planos...

​— Não é isso, Jason! — Uma lágrima teimosa escapou pelo rosto de Hadassah, e ela finalmente ergueu os olhos verdes, brilhando de angústia. — Vocês querem me dar uma festa de debutante com direito ao brasão dos Lioncort. Mas eu... eu me sinto mal. Eu sinto que estou roubando um lugar que não é meu.

​Jason permaneceu em silêncio, sua expressão tornando-se profundamente séria, ouvindo com atenção.

​— Eu vejo a forma como você, a dona Marta e a Alycia me tratam — Hadassah continuou, a voz embargada pelo choro reprimido. — Vocês me dão o melhor colégio, as melhores roupas, o mesmo amor... como se eu fosse do mesmo sangue que vocês. Mas a verdade é que eu não sou uma Lioncort de verdade. Eu sou a menina que você achou revirando o lixo em um beco escuro. Às vezes eu sinto que, por mais que eu tente ser perfeita, eu sempre vou ser aquela intrusa que foi adotada por caridade. Eu não tenho o sangue de vocês, Jason...

​Antes que ela pudesse terminar a frase, Jason estendeu a mão e segurou os pulsos delicados de Hadassah, interrompendo o fluxo de suas palavras. O toque dele era firme, quente e seguro.

​— Olhe para mim, Hadassah — ele ordenou, com uma intensidade que fez o choro dela cessar por um instante.

​Ela olhou para ele. O rosto de Jason não tinha a frieza que ele exibia para o mundo lá fora; havia apenas uma verdade absoluta e uma ternura feroz em suas feições.

​— Nunca mais repita isso. Nunca mais diga que você é uma intrusa ou que está aqui por caridade — Jason começou, sua voz baixa e pausada, garantindo que cada palavra entrasse na mente dela. — O sangue é apenas um detalhe biológico, Hadassah. Ele une pessoas por obrigação. Mas o que nós temos nesta casa é uma escolha. No dia em que eu te tirei daquele beco, eu fiz uma escolha. E nos quatro anos que se passaram, minha mãe e Alycia escolheram amar você todos os dias.

​Ele soltou os pulsos dela e, com extrema delicadeza, usou os polegares para secar as lágrimas nas bochechas de Hadassah.

​— Você acha que está aqui por caridade? — Ele soltou um meio sorriso, balançando a cabeça. — Eu sou um homem frio, Hadassah. O mundo dos negócios me transformou em alguém implacável, e você sabe disso. Eu não mantenho nada na minha vida por mera convenção ou pena. Se você está aqui, se você tem o nosso sobrenome, é porque você conquistou cada pedaço do nosso coração. Você trouxe vida para esta casa depois que o meu pai se foi. Você salvou o pouco de humanidade que ainda restava em mim.

​Hadassah olhou para ele, o peito subindo e descendo, absorvendo o peso daquelas palavras.

​— Você é inteligente, é doce, é forte e carrega o nome Lioncort com mais dignidade do que qualquer pessoa que conheço — Jason continuou, segurando o pingente de leão no pescoço dela. — Você é minha irmã, Hadassah. Você é filha da Marta e é o orgulho desta família. O seu lugar nesta casa e nessa festa de quinze anos é seu por direito, porque nós escolhemos você, e você nos escolheu. Entendeu?

​Hadassah deixou escapar um soluço, mas desta vez era de alívio. O peso invisível que carregava nos ombros desmoronou diante das palavras de Jason. Ela se inclinou para a frente e o abraçou apertado, escondendo o rosto no pescoço dele. Jason envolveu os braços longos ao redor da garota, protegendo-a contra o resto do mundo, como vinha fazendo desde aquela noite chuvosa.

​— Obrigada, Jason... — ela sussurrou contra o tecido de sua camisa. — Obrigada por nunca ter desistido de mim.

​— Eu nunca vou desistir de você, ruivinha — ele respondeu baixinho, beijando o topo da cabeça dela. — Agora, volte para o quarto e descanse. E se prepare, porque aquela festa vai ser exatamente do tamanho do orgulho que eu tenho de você.