O Reino dos Morangos

2 O Conselho dos Males de Sangue


Capítulo dois: O Conselho dos Males de Sangue

A declaração de Amaterasu Hajime teve um impacto que foi além do que qualquer um poderia esperar. A reação primeira foi o escárnio, dias depois se tornou preocupante. Uma massa de importantes nomes japoneses se ergueu e acompanhou Amaterasu em seu discurso “Somos Vampiros”. O Japão descobriu-se fortemente manipulado pela raça, que ocupava diversos cargos na política, na mídia e principalmente, nos principais grupos de pesquisa tecnológica.

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Os vampiros japoneses não queriam ser reprimidos. Com suas grandes mentes, prepararam todo o cenário internacional, “Não é questão de aceitação, e sim submissão” diziam. Alegavam que eram mais capazes que a raça humana que possuía pouco tempo de vida para se desenvolver, ao passo de que eles carregavam a experiência e o saber de séculos. Retrucavam as ameaças de terror com a invenção de Amaterasu, dizendo-se completamente inofensivos aos humanos, já que se alimentavam do sangue sintético.

O último golpe da raça foi Cossack Nuruyev – coroado rei absoluto da Rússia há dez anos – entrando como o segundo nome na lista do Big Bang e o centésimo sexto na lista dos vampiros assumidos na mídia.

Declarou que a Rússia seria a pátria-mãe dos vampiros, e que todos que se sentissem intimidados em seus países, poderiam migrar livremente para lá. Com a segurança garantida pelo seu regime absolutista, o apoio dos influentes japonês e o sangue sintético, em menos de dois anos todo humano conhecia um vampiro, ou o amigo do amigo de um. O mundo viu-se ciente que 7% da sua população era formada por vampiros, e este número só fez crescer.

A cada dia, pessoas consideradas mortas há anos ressurgiam. Antigos nomes, antigos heróis voltavam. Álvares de Azevedo¹ era um vampiro e começou a publicar uma série de romances acumulados por séculos. Mas o principal fator responsável pelo aumento dos números de vampiros foi a criação de novos. As pessoas procuravam vampiros que pudessem transformá-las, e formaram-se redes de agenciamento ilegais para tal, que garantia, em troca de uma enorme quantia monetária, tal transformação, seu público alvo era em sua maioria adolescentes fãs de romances vampirescos e jovens homens sedentos pela aura sensual que os vampiros emanavam.

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De certo que a primeira explosão de nosso Big Bang não seria ignorada pelo tumultuado cenário político internacional. Representantes dos 25 países mais influentes do mundo foram convocados para o “Conselho dos Males de Sangue”, que discutiria o assunto, dentre eles estava Michael Evans, Gabriela Nunes e Cossack Nuruyev.

A reunião teve que ser estendida por uma semana inteira, e como possuía dois vampiros em seu corpo (além de Cossack, o Japão enviara seu Ministro da Segurança, que era vampiro), realizou-se à noite. Em seu decorrer, milhares de manifestantes caminhavam pelas ruas, uns a favor do total extermínio da raça, mas estranhamente, a grande maioria parecia apoiá-los.

No primeiro dia do Conselho apenas gastou-se palavras.

No segundo foi uma vitória vampiresca, de fato os vampiros seriam aceitos, com seus detalhes a serem tratados no terceiro dia.

E foi no terceiro, e programado para ser o último dia, que Gabriela Nunes entrou oficialmente para a lista do Big Bang, proporcionando a segunda e maior explosão. Com a frase “Não são só eles.” ganhou a capa dos maiores jornais de todo o mundo e garantiu que o Conselho dos Males de Sangue durasse mais quatro dias.

Neste mesmo infeliz dia, Gabriela Nunes mostrou que não era esquizofrênica, como seus ministros juravam. Aproveitara o impacto causado pelos vampiros para revelar ‘seus amigos’, dizia manter contato freqüente com outros seres que para nós não passavam de lendas, como fadas e lobisomens, “E acredito que existam outros também, mas podem ficar calmos, eles aparecem qualquer hora.”

Ficar calmos? Gabriela Nunes seria a próxima ganhadora do Prêmio Nobel da Comédia.

¹ — escritor brasileiro da geração Ultra Romântica, nascido em 1831 e falecido aos 21 anos de idade.