O Reino de Telmamlet - O Castelo de Gelo
3 Onde estou?
Notas iniciais
A visão do que estava na minha frente mudou. Eu não estava mais na minha casa. Na mesma hora achei que estivesse tendo uma alucinação. Eu ainda estava com o livro na mão e com a mão no colar.
Estava em uma velha cabana, pelo o que me parecia. Era como se estivesse acabado de aterrissar em um daqueles filmes antigos, onde todas as cores são variáveis do tom marrom. Além das cores, tudo ali era rústico, como se parecesse muito velho e acabado.
Aquele lugar era estranho, muito estranho. Tudo estava em um único cômodo. A sala, a cozinha, o quarto... Tudo junto, sem parede para intervir, a única coisa que estava separada era o banheiro e graças a Deus.
O medo começava a me corroer. E se o dono fosse um maníaco e me matasse? Isso resolveria alguns dos meus mais recentes problemas, mas não quer dizer que queria morrer daquele jeito. O problema é que se estava tendo uma alucinação, como eu ia saber como sair dela?
—Como é que eu cheguei aqui?
Ao dar alguns passos pela casa, notei que a pessoa tinha uma pequena biblioteca particular. Todos os tipos de livros, como todos os tons de marrons, estavam ali. Nomes variados e estranhos para livros estavam disposto um ao lado do outro. Autores que eu desconhecia com nomes desconhecidos. Tirei um do lugar e li o seu título: "Pégasos — como treiná-los." A curiosidade falou mais alto que o medo de ser pega e acabei abrindo o livro. Havia um lindo cavalo branco — se é que poderia chamar deste jeito — com asas. Ele parecia querer sair das folhas daquele livro só para poder dar um voltinha no mundo real — se é que aquilo era o mundo real. Suas asas eram tão brancas e tão brilhantes, que suas pontas pareciam ser feitas do mais belo tom de prata. Ele era tão branco quanto a neve. A vontade que eu tinha naquele momento era de montá-lo.
Depois de acordar do meu devaneio, o coloquei no lugar e olhei para outros livros. Mas tampouco tive algum tempo de ler um título, ouvi passos do lado de fora, e o medo tomou conta de mim. Fui para trás da pequena estante e esperei até que o dono entrasse pela porta.
Era um homem alto, com orelhas pontudas. Carregava uma arma em uma das mãos, uma espécie de machado, com sangue pingando no chão. Em seu rosto havia rugas que os anos lhe deixaram como presente. Suas roupas pareciam ser feitas de peles de animais, ele tinha uma carranca e seus olhos cintilavam num tom de verde.
Ele fechou a porta e deu alguns passos para dentro. "Farejou" alguma coisa e fechou ainda mais a cara. Empunhou o machado e estudou os móveis da cabana.
— Eu sei que você está aí. É bom você vir até mim, por que se eu te achar, vai ser um homem morto.
Sua voz era grossa e saia imponente. Eu não sabia bem o que fazer. A ameaça havia me paralisado.
— Vai querer brincar agora? Saia da onde você está para que eu te mostre o que uma pessoa que invade a casa da outra merece.
Com grande força eu me levantei da onde eu estava. A cara do homem não melhorou.
— Me desculpe! E-eu...
Ele me estudou com cuidado e continuou com a cara feia. Não colocou o machado de lado.
— Quem foi que te deixou entrar? Mexeu em alguma coisa?
Não sabia se seria sensato falar a verdade, ou se mentir seria melhor.
— Ninguém me deixou entrar e eu estou aqui acaso.
— Acaso? Ninguém está em algum por lugar por acaso. Você acha que existe por acaso? O universo não é assim por acaso, menina. Tudo tem uma ordem. Não sei o que foi que você veio fazer aqui, mas eu quero que dê o fora e de preferência não volte mais — a dele continuou grossa e impotente.
—Eu não sei como cheguei aqui então como é que eu poderei ir embora?
— Está vendo aquela porta ali? — ele apontou para a porta pela qual tinha chegado e continuou — Ao passar por ela, é o primeiro passo que você vai dar para longe da minha casa.
Ele colocou o machado junto com outras armas que estavam penduradas e continuou me olhando. Cruzei os braços e o fitei.
— Você poderia deixar toda essa grosseria de lado e me ajudar? — Falei ríspida para dar ênfase a ideia, e ele mal olhou para os lados.
— Infelizmente, gentileza não é o meu forte. E não vou te dizer nada, nem sei de onde você é.
— EU NÃO SOU DAQUI!
— É com essa atitude que você espera conseguir ajuda? Sem chance.
Ele foi até a janela, não deu para ver muito lá fora, mas o que eu vi me deixou com um frio no estômago. Não tinha a menor ideia da onde estava. E eu estava muito longe de casa. Como eu fui para ali, naquele fim de mundo?
Antes que pudesse me dar conta disso tudo, ele fechou a janela e me olhou.
— Onde estou?
— Já falei que não lhe conto nada. Eu quero você o mais longe da minha casa possível.
— Você é surdo? Já disse que não sei como vim parar aqui, e nem sei como voltar de onde eu vim. Só sei que eu disse uma frase idiota, que está escrito nessa porcaria de livro — mostrei o livro que está na minha mão — ouvi um barulho feio, e num piscar de olhos vim parar neste lugar horrendo!
— Olha como você fala mocinha. Este lugar horrendo é a minha casa. — Ele deu mais uma olhada pela janela e dessa vez não me deixou ver nada. Continuou falando sem que nada tivesse acontecido. — Se for o livro que eu estou pensando é só ler a outra que está do outro lado da página, e vê se não volta na minha casa. — Ele me lançou o pior olhar que podia ter.
Estava furioso e eu não sabia o que tinha feito pra merecer tudo aquilo. As coisas estavam meio confusas e definitivamente ele não estava ajudando. Ele se voltou para as armas na parede, pegou uma faca e colocou no coldre, depois pegou o machado novamente.
— É melhor não aparecer aqui dentro sem ser convidada mocinha, ou vai ter sérios problemas. — eu estava encarando seu olhar, engoli em seco — Eu tenho mais coisa pra fazer, então se você puder ir embora logo...
Lancei um olhar pra ele e abri o livro. Como ele disse, havia outra frase na contracapa. Olhei para ele de novo e sua expressão continuava fria.
Li a frase em voz baixa e quando vi já estava na biblioteca da minha casa de novo.
–*-
Admito. Fiquei totalmente aterrorizada com o que vi. Imagina se você "acorda" em um lugar totalmente novo, onde todas as suas crenças são jogadas no lixo, e outras são colocadas no lugar. Agora imagina se nesse lugar há uma pessoa totalmente grossa, que parece um assassino em série e o único lugar que você conhece nesse “mundo” é a casa dele. Não chegaria nem perto do terror que eu estava sentindo. Senti-me tonta e ainda nem sabia se o que tinha acontecido tinha sido real ou uma alucinação.
— Ainda está aqui Lexie? — Madelyn apareceu na biblioteca. Devia ser tarde e minha tia estava ali para me buscar.
— Hã... Eu me distraí. Desculpe-me, não arrumei nada.
Ela respirou fundo e me lançou um sorriso frouxo.
— A senhora trouxe caixas?
— Sim — ela respondeu.
— Pode trazer algumas pra mim?
Ela balançou a cabeça afirmando e começou a sair.
— Madelyn — ela se virou — será que você poderia encaixotar minhas coisas? Quero escolher alguns livros.
Ela me olhou com cara de desdém e saiu pela porta. Eu olhei para o livro que ainda estava na minha mão e toquei o colar. Eu não sei o que aconteceu e acho que não quero saber. Não quero descobrir que fiquei louca e inventei isso porque meus pais morreram. Pior do que viver a realidade é saber que você ficou louca.
Minha tia havia chegado com as caixas e saído logo depois. Eu coloquei o livro em cima da mesa e vou pegar as caixas. Talvez eu leve ele também.
— Já terminou Lexie? — Pergunta Madelyn.
Eu hesito em responder e dou um suspiro. Havia tanta coisa lá e eu queria levar tudo.
— Acho que sim tia. Você já terminou?
— Sim, acho que podemos ir então — ela deu um sorriso e saiu pela porta — leve as caixas para o carro!
Eu olhei para a mesa e vi que o livro ainda está lá. “E vai estar pra sempre”, penso enquanto saio da biblioteca.
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