O Reino de Telmamlet - O Castelo de Gelo
4 Hipnotizada
Minha tia olhou para mim com uma expressão de dó no rosto que me deu vontade de vomitar.
— Olha Lexie, estou me sacrificando por você. — Diz ela abrindo a porta de casa — Espero que me ajude para que isto dê certo.
Balanço a cabeço positivamente, como se tivesse entendido — O que não é de todo verdade, pois estava com a cabeça em um lugar muito distante. Ela abre a porta e entra com uma das caixas na mão. Eu a sigo com minha mochila e outra caixa.
A casa dela é bem grande, e com cômodos bem amplos. É linda. A cozinha tem uma bancada enorme, uma janela do lado oeste com a geladeira do lado da janela e um fogão em baixo. Não há parede para separa a cozinha da sala, do jeito que dá pra ver TV na cozinha. Mais atrás da sala, posso ver uma porta de vidro fechada, mas não dá pra ver o que tem dentro. Quase de frente para a porta de entrada, mas do outro lado da casa, tem uma escada.
Madelyn coloca a caixa em cima do balcão e me olha.
— O que quer comer hoje? — eu olho pra ela pensando no apetite que não tenho há dias — podemos pedir comida se quiser.
— Você escolhe.
— Tem certeza? — ela olha pra mim e eu afirmo com a cabeça — então vai ser comida chinesa.
Ela pega o telefone e disca enquanto eu continuo encarando a escada.
— Pode subir se quiser. Sabe onde fica o seu quarto.
Ela se vira pra pedir a comida e eu resolvo subir.
— Pode deixar tudo do seu jeito, só não mude os móveis de lugar. ― ela grita da cozinha enquanto eu já estou no final da escada
Chego finalmente ao meu quarto e abro a porta. As únicas coisas presentes são uma cama no centro do quarto — só com um lençol —, a cortina, uma mesa do lado da cama e o guarda-roupa com aparência de muito velho. Dou as costas e fecho a porta. Chegou a hora de largar tudo e começar de novo.
–*-
Acordei no meio da noite com insônia. Há muito tempo não durmo direito. Não consigo. Acho que estou muito triste para fazer isso. Estou muito triste para fazer qualquer coisa.
Fico olhando para o teto, e por alguns instantes, deixando meu pensamento me levar a lugares inimagináveis. Lembro-me do que ouve ontem. Não posso deixar de pensar em como aquilo tudo foi estranho. Mesmo que tenha sido uma alucinação — que eu não quero que seja, devido ás consequências — foi tudo muito real. Não se parecia com um sonho, eu podia sentir a vibração da terra, o calor da casa, a intensidade do olhar daquela coisa que queria me matar. Será que é assim uma alucinação?
Resolvo acender a luz e assim que me viro para o outro lado da cama, e bem em cima da cabeceira, estava um livro. O livro que eu resolvi deixar, no que agora é, minha antiga casa. Estava bem ao meu lado, sem que eu sequer pegasse nele. Como se a coisa mais natural do mundo fosse livros aparecerem — digo, literalmente aparecerem — em locais que eles não deveriam estar.
Questiono-me se devo pegar o livro. Ver o que tinha depois daquela página. Depois de ter ido para aquele lugar, tenho uma noção de como voltar. Mas o medo de ficar louca me deixa com um pé atrás. Posso conseguir algumas informações úteis no livro, ou não... Só de pensar nisso, me arrepio. Resolvi deixar de lado e tentar dormir. Quem sabe amanhã eu acordo e tudo isso é apenas um sonho? Porque, afinal, livros não aparecem assim. Virei novamente e apaguei a luz. As coisas iam melhorar pela manhã, espero.
–*-
Apesar de não ter dormido bem na noite anterior, fui obrigada a acordar pela minha adorável tia — que já quase esmurrava a porta do quarto. Segundo ela "já passou muito tempo desde que tudo aconteceu e já está mais do que na hora de começar a viver de novo". Como se fosse fácil assim, "começar a viver de novo". Não foram os pais dela que morreram, foi? Ela não pode saber se está na hora ou não.
O livro continuava em cima da mesa do meu quarto. Eu estava assustada com o livro e tinha ignorado ele desde então. Me levantei e dei um passo para longe dele. Talvez Madelyn tivesse trago, afinal ela tinha me visto com ele na mão. Talvez tenha pensado que eu o esqueci e trouxe para mim. Boa tentativa a dela. Bom, isso era fácil de concertar, era só jogar fora. Foi quando eu vi a saída de ar. Arrastei a pequena mesa que estava na frente dela e percebi que estava solta. Alguém havia tirado os parafusos e não colocou de volta. A saída era bem funda, pois, nem com a luz do meu celular pude ver o fundo. Coloquei o livro escorado na parede, de um jeito que não daria para ver de longe, a não ser que estivesse procurando alguma coisa. Fechei e saída e coloquei a mesa no lugar. Iria resolver o que fazer com aquele mundo mais tarde.
Peguei o uniforme que Madelyn havia deixado em cima da minha mala e o vesti. O uniforme não era bonito, mas dava pro gasto. Sua cor azul era bem chamativa, mas não tinha escolha. Peguei minha mochila e desci só para poder ouvir mais xingamentos.
Quando sentei para tomar café, minha tia já estava arrumada. Sua blusa verde de grife estava bem passada, e sua saia preta estava igualmente impecável. Seu salto agulha era maior do que qualquer salto que eu já usara, e o coque que formava em seus cabelos, não tinha um fio solto. Perfeita, pena que só se arrumava assim para trabalhar.
— Vi que acendeu a luz de madrugada.
— Precisei pegar mais cobertores.
— Não sei como era em sua casa, mas aqui as luzes se apagam ás 11 da noite. Como a luz do seu quarto é forte, acaba me acordando, então, por favor, não as acenda novamente.
— OK.
Odiei o jeito como ela falou "antiga casa". Sou estranho e falso. Como se minha “antiga casa” tivesse morrido. Fosse algo em algum lugar do passado distante. Não queria discutir com ela e já que agora vamos morar sobre o mesmo teto, é bom eu saber quando me esquivar de uma briga antes de nos matarmos. Não estava por que queria, e muito menos ela. Estávamos ali obrigadas e obrigatoriamente teríamos que sobreviver.
— Eu passo na frente da sua escola todos os dias. Posso te dar uma carona se quiser...
Balancei a cabeça devagar, sinalizando que iria aceitar a carona. Não era exatamente minha intenção ter mais contato social com a minha tia. Mas ela só estava tentando nos aproximar. Não queria muito que isso acontece, pelo fato de que eu já tinha noção de como Madelyn realmente era. Não tinha certeza se era isso que eu queria.
Ficamos caladas durante todo o percurso. Ás vezes, ela tentava puxar assunto, mas eu logo me esquivava. Quando percebeu que não queria papo, ela parou e continuou a dirigir.
Chegar à escola não foi a parte mais difícil. Entrar nela foi pior. Ao sair do carro e olhar para aquela imensidão de pessoas, me angustiei novamente. Virei para entrar no carro de novo, mas ela já tinha saído e estava virando a esquina. Eu não queria ouvir o que as pessoas tinham para falar. "Sinto muito pelos seus pais", "Como você está?", "Você está bem?". São perguntas que as pessoas não querem saber a resposta. Elas querem saber até onde sua dor vai, para que possam se vangloriar de suas vidas fúteis e saber o quanto são felizes. Elas querem saber da sua dor, para ficar com pena de você e não ter pena delas mesmas. Não estava a fim de enfrentar isso.
Passei correndo pelas minhas "amigas" e fui direto pra sala. Escutei meu nome, sei lá, quantas vezes, mas não parei. Não iria passar por isso. Não precisava passar por isso. Sentei na minha cadeira e fiquei calada até os alunos começarem a chegar. Abaixei a cabeça e coloquei o fone. Continuei fingindo que não ouvia as pessoas me chamando, que estava dormindo, ou sei lá o que.
O professor entrou na sala e começou a dar sua aula. Levantei minha cabeça e tirei o fone. Comecei a prestar atenção na aula, e continuei a ouvir o meu nome. Como as pessoas não desconfiam. Já era para ter notado que eu não estava a fim de conversa. Continuei ignorando todos do mesmo jeito que estava fazendo e do mesmo jeito que continuaria a fazer até o resto do dia.
–*-
Segundo horário: filosofia.
Ok. Eu gosto de filosofia, acho interessantes os pensamentos dos filósofos e tudo, mas... O professor não ajuda. Digamos que ele não é o melhor exemplo de sanidade.
— Então Poseidon e Atena se juntaram para criar a carruagem. Atena, com toda a sua inteligência, fez a biga e Poseidon fez com que da espuma do mar, saíssem os cavalos...
Ele era completamente maluco. Achava ser de outro mundo e tudo mais. Contava histórias sobre monstros e outras coisas que, todo mundo estava careca de saber, não existiam. Claro que ninguém acreditava.
— Não foi só disso que o Deus do Mar criou. Ele teve uma grande ideia e se juntou com o seu irmão, Zeus, o Deus do Céu, para fazer o cavalo alado. Poseidon queria fazer com que seu cavalo andasse mais rápido e...
Cavalo alado. "Pégasos". Aquele livro com o cavalo branco. Um lindo cavalo, devo admitir, pena que ele não exista. Ou existe? As coisas têm estado tão confusas ultimamente. Lá vem a loucura de novo. O que eu tenho que fazer é seguir com a minha vida e esquecer esse pequeno "incidente". Continuar sofrendo pelos meus pais, evitar minhas colegas, discutir com a minha tia... Tudo normal novamente, sem aquele tipo de coisa na minha vida. Ela já está complicada demais.
O sinal bateu para que o professor pudesse ir embora e outro viesse em seu lugar. Ao em virar para guardar os meus pertences de filosofia, vejo um livro que não deveria estar lá. Não tem como aquele livro ter simplesmente aparecido na minha mochila. Eu havia escondido ele, e ele simplesmente está me seguindo. Por quê?
Olhei para os lados. Todos estavam fazendo o que faziam de costume e ninguém notaria se eu tivesse saído da sala. Guardei tudo o que era meu e saí pela porta, a tempo de encontrar o professor no corredor.
— Onde a senhora está indo?
— Oi Sr. Greg. Eu não estou me sentindo bem, posso ir embora?
— Lexie, você tem que superar isso. A vida segue em frente. Não posso deixá-la sair assim todos os dias. Vou te liberar hoje, mas não quero dizer que nos outros dias isso irá acontecer.
— Obrigada, Sr. Greg.
— Boa sorte!
Ele passou do meu lado e entrou na sala. Não demoraria muito que as minhas colegas viessem me procurar. Saí andando — quase correndo — e fui direto para o banheiro. Entrei em um dos boxes e sabia que teria que ser rápida. OK. Eu já havia feito isso duas vezes, mas uma foi um acidente e a outra foi sob pressão. Peguei minha mochila e tirei o livro. O abri na primeira página e vi a frase. Hesitei um pouco antes de decidir que eu realmente deveria ir.
Coloquei minha mochila nas costas e falei a frase em voz alta. No mesmo instante fiquei cega com a brancura. Foi só ai que eu me dei conta que aquilo não podia ser uma alucinação. Ou podia?
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