Notas iniciais
Mais em: https://www.wattpad.com/user/BrunaNonnenmacher

A mente de Liza mergulhava em uma nuvem de pensamentos desconexos, e em algum lugar ao fundo ela podia ouvir vozes, milhares delas, falando em idiomas que, estranhamente, ela podia entender, embora não conhecesse. Ela não sabia onde estava, o mundo parecia uma confusão de cores e sensações, como se ela não fosse apenas uma, mas várias, e pudesse estar em diferentes lugares ao mesmo tempo que não estava em nenhum.

À medida que tentava entender o que acontecia a menina sentia sua consciência sendo sugada cada vez mais para dentro do que quer que fosse aquele lugar. Era como um daqueles sonhos em você tenta correr mas está tudo em câmera lenta, e aos poucos ela começava a acolher aquela sensação, se agarrando a ela pois era a única coisa remotamente familiar.

Entretanto, tudo isso foi varrido de sua mente assim que abriu os olhos e esqueceu do sonho ao qual estivera tão entregue durante os últimos... Minutos? Horas? Dias, talvez? Ela não fazia ideia, e também não estava disposta a descobrir, pelos menos não naquele momento.

Sua cabeça latejava insuportavelmente, e era como se cada pequena parte de seu corpo tivesse sido chutada e depois moída. Liza reprimiu um grunhido e fechou novamente os olhos, tentando se afastar da luminosidade que só piorava as coisas, e se concentrou nos sons.

— Calem a boca, todos vocês! — Uma voz desconhecida rosnou, grave e rouca. — Ela está acordando. — O silêncio a abraçou novamente, como se quem quer que estivesse com ela não ousasse nem mesmo respirar.

A superfície sobre a qual estava deitada era macia e ao mesmo tempo áspera, por mais estranho que isso pudesse parecer. Passando as mãos sobre ela, identificou algo que se parecia com um monte de folhas secas, e uma rápida olhadela confirmou que era mesmo. Nada daquilo fazia sentido.

Ela tentou se recordar de como fora parar ali, mas seus pensamentos não estavam em ordem. A última coisa da qual se lembrava era de uma forte tempestade lavando a terra, uma casa abandonada e de estar furiosa com alguém.

Um estalo iluminou sua mente.

— Sam! — Gritou, se levantando de repente e batendo a cabeça em uma superfície dura. — Aaaai! — Grunhiu, seu próprio gemido sendo ecoado por outro a centímetros de distância. Um garoto a encarava, a mão esfregando a testa onde Liza e ele se chocaram. A pele dele parecia chocolate ao leite, e os olhos expressivos de um verde claro peculiar estavam arregalados. — Onde ele está??? — Ela perguntou em pânico, um medo crescente se espalhando por seu corpo e congelando a boca de seu estômago.

— Seu amigo? Levaram-no para dentro. Está pior do que você, mas ainda consegue respirar. — Ele respondeu sem pestanejar. Estava falando a verdade. — Teremos que falar sobre ele mais tarde.

Liza olhou rapidamente para as pessoas que se amontoavam atrás do garoto, apoiado nos joelhos junto a ela. Duas meninas que deveriam ter mais ou menos a sua idade, a primeira com longos cabelos castanhos e lisos, vestida no que parecia ser uma roupa de mergulho colada que a cobria dos pés à cabeça em um intenso tom de azul-marinho brilhante. A segunda vestia somente preto, e tinha cabelos curtos cortados rente ao queixo, brancos como a lua cheia. Além delas havia outros dois adolescentes nos quais ela não reparou, pois um homem alto e forte como somente um guerreiro poderia ser se agigantava na frente deles, a encarando com uma expressão ameaçadora. Ele trajava um colete de couro marrom por cima de uma camisa de linho branca, com diversas fivelas que prendiam facas afiadas. Facas de verdade, precisamente afiadas, e ele não tinha cara de cozinheiro. Liza desviou o olhar.

— Por quê? O que há de errado?

— Como assim o que há de errado? — O garoto pareceu surpreso, a expressão vacilando conforme Liza balançava a cabeça em um sinal claro de que não sabia do que ele estava falando. — Ele não deveria estar aqui.

— E eu deveria? — A pergunta soou um tanto quanto cética, mas era exatamente assim que ela se sentia quando reparou nas imensas árvores que a cercavam, tão diferentes das da noite anterior. Parecia ser outono, onde quer que ela estivesse, pois folhas alaranjadas, amarelas e marrons caíam ao seu redor, congelando o mundo em tons intensos de fogo, como em um pôr do sol constante.

— Você sim. — Respondeu ele como se fosse óbvio, apontando para o ombro direito de Liza, onde a blusa amarrotada e em frangalhos não era capaz de cobrir uma estrela de sete pontas, marcada em sua pele pálida com uma tinta escura que parecia nanquim. — Você tem a marca.

A marca. As palavras pesaram na língua dele, adquirindo um significado que ela não entendia, e Liza reparou que ele vestia uma regata simples, que deixava o mesmo desenho à mostra em seu ombro. A menina deu um salto e esfregou a figura, tentando arrancá-la da própria pele nem que fosse por força bruta, antes de o garoto agarrar suas mãos e força-las a se prostrarem junto ao corpo. Ele rangeu os dentes quando ela não se deu por vencida.

— O que pensa que está fazendo? — A menina de cabelos brancos falou por todos eles, a encarando horrorizada.

— O que vocês pensam que estão fazendo? — Liza retrucou em um súbito acesso de raiva. — Onde eu estou? O que é esse desenho?

— Nós deveríamos chamar o Condutor. — Um dos garotos mais atrás falou, a ignorando completamente. Ele era apenas um pouco mais alto que Liza, e usava óculos. — Ela nasceu com a marca, assim como todos nós, e se não se lembra nem mesmo disso....

— Não seja tolo, o Condutor tem assuntos mais importantes para resolver. — O homem do colete o interrompeu, sem tirar os olhos de Liza. Olhos de um azul intenso. Sua voz grave ecoava parecendo muito antiga, como se pertencesse às profundezas da Terra, e o modo como ele falava "O Condutor" fazia parecer que era algum tipo de título. — Você realmente não sabe onde está, garota?

— Não. — Respondeu, engolindo em seco ao notar a preocupação em todos os rostos diante de si. Os desconhecidos trocavam olhares assustados em uma conversa silenciosa da qual Liza não fazia parte, e a garota apenas se encolheu quando a voz do homem retumbou mais uma vez.

— Christian, leve-a para a enfermaria e certifique-se de que nem ela nem o amigo saiam de lá até segunda ordem. — O menino da pele de chocolate que ainda a segurava pelos pulsos assentiu com a cabeça. — Amélia, Lucas e Daniel, espalhem o aviso: todos os vagões devem ser trancados até que eu descubra o que diabos está acontecendo. — A garota de cabelos brancos, o menino dos óculos e um terceiro, do qual Liza apenas conseguiu vislumbrar uma cabeleira loira, saíram em disparada pelos arbustos. O homem fez uma pausa, pela primeira vez desviando o olhar de Liza e concentrando toda a sua atenção na menina da roupa azul que restara. Ela não parecia intimidada com aquilo. — Helena, você vem comigo.

E simples assim, eles se foram, deixando uma Liza confusa e irritada para trás, com a cabeça ainda doendo e os pulsos presos pelo garoto desconhecido.

— Posso soltá-la ou planeja sair correndo quando eu o fizer? — Ele perguntou em tom amigável, recebendo nada mais que um olhar raivoso. -Tudo bem, já que não quer falar, eu vou dizer como as coisas funcionam. Primeiro: seu amigo está lá dentro sob a nossa custódia, então eu acho que não seria uma boa ideia fugir e deixá-lo para trás. Segundo: se, de alguma forma, você conseguir ser mais rápida que eu e se esgueirar pela floresta, duvido que dure pouco mais do que algumas horas. Você está muito longe de casa, garota. E terceiro, mas não menos importante: dada a sua situação, sou um dos poucos amigos que conseguirá fazer neste lugar se realmente acharem que pode ficar. Não jogue isso fora.

Era difícil deixar o orgulho de lado, mas o bom senso falou mais alto e Liza decidiu escutar.

— Pode me soltar, eu não vou fugir.

— Muito bem. — Ele a soltou e sorriu, mas não do modo como Sam sorria quando a vencia em alguma coisa. Era sincero e humilde, quase como se fossem cúmplices, e tornava difícil não sentir certa simpatia pelo rapaz. — Venha, hoje o dia será cheio.

Christian, ela lembrou, era o seu nome, e ele começou a abrir caminho entre os arbustos na mesma direção em que os outros tinham ido. Ela imaginou que estava em alguma propriedade, algum tipo de acampamento talvez, embora muitas das palavras que tivessem usado ficasse totalmente fora de contexto em sua cabeça. De qualquer forma, nada do que pudesse ter imaginado passaria sequer perto do que viu depois de seguir Christian alguns metros floresta afora. O ar ficou preso em algum lugar entre seus pulmões e a faringe, e ela quase engasgou.

Uma locomotiva imensa estava parada no meio de uma clareira ainda maior, pousada sobre trilhos maciços de um material que ela não conseguia identificar mas que refletia levemente um brilho prateado. Era alta como um prédio de dez andares, e da largura de uma quadra de basquete. Cada vagão ricamente pintado e ornamentado de maneiras diferentes, as cores dançando conforme portas eram fechadas e pessoas entravam e saíam do trem, puxando cordas, carregando caixas e conduzindo animais para dentro em um fervilhar de atividade que a deixou tonta. Ela não conseguia enxergar onde o trem acabava, pois seu comprimento se perdia no horizonte até onde a vista não alcançava mais, então se concentrou no que estava bem à sua frente.

O primeiro vagão era ricamente decorado com milhares de espirais de tinta dourada que contrastavam contra o fundo vermelho em uma explosão de vivacidade. As rodas eram pelo menos da altura de Liza, pretas e pesadas o bastante para parecerem indestrutíveis, e uma escada retrátil levava para uma porta na lateral. Havia um enorme relógio na frente do trem, mas ele não marcava as horas e nem parecia girar em sentido algum. Seus vários ponteiros apontavam para desenhos ao invés de números, nada que Liza conseguisse compreender, e toda vez que mudavam de lugar adquiriam um brilho holográfico hipnotizante.

— Impressionante, não é? — Christian falou a alguns metros de distância. Ela não percebera que havia parado para admirar o trem até ouvir sua voz. Não conseguiu fazer mais do que assentir com a cabeça, estupefata, e um sorriso de quem já tinha passado por aquilo surgiu no rosto dele. — Bem vinda ao Expresso Entre-Mundos.

— É lindo. — Ela roubou um olhar mais uma vez, antes de seguir Christian para o segundo vagão e subir na escada que se estendia. Ao redor de todos eles havia uma plataforma de ferro larga o bastante para três pessoas caminharem lado a lado, e Liza supôs que era a maneira como se locomoviam de um vagão ao outro. — Mas o nome é meio pretensioso, não acha? Para um trem...

— Não, não é. É autoexplicativo. O trem realmente viaja através dos mundos. — Ele só podia estar querendo fazê-la de boba, pois de maneira alguma iria acreditar naquilo. A expressão em seu rosto fez ele perceber isso também. — Olha, eu sei que é difícil acreditar, já que nunca ouviu falar de nada disso antes. Geralmente aprendemos a história quando ainda somos muitos pequenos, com nossas famílias. Você deve ter passado por algum trauma, ou talvez alguém tenha apagado sua memória no mundo no qual estava antes. Não seria a primeira vez, embora nas outras tenha acontecido com Viajantes mais experientes, e você não tem cara de quem já esteve por aqui antes...

— Eu fui adotada. Não conheço meus pais de verdade.

— Ah... — Por um momento, o garoto perdeu a fala. — Isso explica muita coisa. — Nada de pena, nada de perguntas incômodas ou desculpas sem graça, apenas um dar de ombros despreocupado. Liza gostou dele.

— Então... — Ela limpou a garganta e continuou, ignorando o breve momento de constrangimento. Se sentiu extremamente idiota por fazer perguntas, uma vez que não conseguia acreditar muito no que ele falava, mas precisava obter algumas informações. — Para quê exatamente serve esse trem? E o que significa esse negócio de Viajantes?

— É bem complicado de explicar. Mas para fazer um resumo, existem sete mundos, um para cada ponta da estrela. — Ele apontou para o ombro dela enquanto seguia andando, ignorando deliberadamente os olhares curiosos das pessoas que passavam. — Há também outros três que... Bem, não vêm ao caso agora. O importante é que o Expresso viaja entre eles, através de fendas no espaço. Se passar tempo o suficiente aqui vai perceber que a cada dia a paisagem muda, o clima muda, a própria estrutura de tudo o que você conhece pode ser reduzida a nada mais do que cinzas ao atravessar as fronteiras, e é por isso que nunca, jamais, você deve pular do trem. Aqui dentro estamos protegidos.

— Eu não entendo uma palavra do que você está falando. Como assim sete mundos? Como eu posso nunca ter ouvido falar disso antes?

— Você não pensou realmente que estava sozinha no universo, pensou? Quer dizer... Você já viu o tamanho dessa coisa? São mais de cem bilhões de galáxias onde há planetas, estrelas, asteroides, luas, buracos negros e uma infinidade de outros astros que nem mesmo nós conhecemos, mas mesmo assim, é tolice pensar que só há vida no seu planeta.

— Okay... Então quer dizer que há outro seis lugares por aí onde há vida, tipo alienígenas?- Absurdo. Uma completo lunático, isso que ele era. — Você consegue se escutar falando?

—Não, não são alienígenas. E sim, eu posso me escutar falando. Será que pode parar de debochar e me deixar continuar?

— Por favor, Yoda. Vai me dizer agora que preciso combater o lado negro da força e salvar a galáxia? — Não, ela não havia visto sequer um filme da série e não entendia uma palavra do que estava falando, mas algo naquela situação a fez pensar que era como se de repente tivesse mergulhado em um universo como o da trama.

— Yoda? — Ele estreitou os olhos. — Isso é algum tipo de insulto? — Perguntou, avaliando Liza como se repensasse a proposta de amizade, o que provocou uma crise de riso na garota. Pelo visto tinha achado alguém que entendia ainda menos do assunto do que ela.

— O quê? Claro que não. — Respondeu, secando o canto dos olhos que chegaram a lacrimejar. Talvez a exaustão estivesse a deixando meio boba. — Por favor, continue Christian.

— Hmm... Está bem. Onde parei? Ah sim, o trem é uma espécie de escola e abrigo para aqueles como nós. Podemos morar aqui, aprender sobre nossa história e nosso dever, desenvolver técnicas de cura, de luta e outras coisas complexas demais para explicar agora. — Ele limpou a garganta, entrando por uma porta de metal em um vagão inteiramente branco. — Não há alienígenas, pelo menos não da maneira como está pensando, há apenas diferentes formas de vida. A maioria é como no seu planeta, uma espécie dominante e racional que predomina sobre milhares de outras, e até mesmo a aparência muda muito pouco. Já outras, são como eu.

— E o que você é? — Perguntou Liza, intrigada. À primeira vista ele parecia um garoto comum. Dois braços, duas pernas, a pele achocolatada, cabelos encaracolados cortados rente à cabeça, estatura mediana... Seus olhos eram peculiares, de um verde tão claro que a fazia lembrar de fotos que um dia vira de um lago congelado na Sibéria. Mas fora isso, era absolutamente normal.

— Talvez um dia você descubra. — Ele respondeu com uma piscadela, e se a intenção era deixar Liza se corroendo de curiosidade, conseguira. — Nós, os Viajantes, podemos vir de todos esses sete planetas. Não somos uma "raça", por assim dizer, mas algo bem mais grandioso e antigo... Quer saber, esqueça, é melhor eu lhe explicar isso outra hora. O que deve saber é que nosso dever é ajudar. Onde quer que haja guerra, caos, conflitos, ou lugares onde as pessoas necessitem de socorro, em qualquer um dos sete mundos, somos enviados até lá para ajudar, e assim garantir que todas as formas de vida continuem a existir.

— Como assim são enviados?

— Enviados não é a palavra correta. Nós meio que... Atendemos a um chamado. Por isso que a maioria de nós vive neste trem. Como posso explicar... — Ele esfregou as mãos, parando ao pé de uma escada em um corredor que parecia vazio. — Ocasionalmente, o trem para. Pode parecer ridículo, mas somente viajantes podem saber do que realmente tudo isso se trata, então toda vez que montamos acampamento, nos passamos por um circo. Aos olhos dos que não são como nós, a verdadeira magnitude do trem fica escondida. Não passa de um atrativo ocasional que visita pequenos vilarejos esquecidos pelo mundo. Mas todos os viajantes conhecem esses lugares, e sabem quando iremos passar. É como uma estação, e então os jovens das famílias de viajantes que vivem nesses lugares ou próximo a eles embarcam no trem, para que possam iniciar o treinamento.

— E onde é que você descem? Quando fazem isso?

— Nessas mesmas estações, quando sentimos que é a hora. — O menino começou a andar novamente, como se tivesse saído de um transe, e subiu as escadas com Liza em seu encalço. — O chamado é algo que apenas sentimos... Algo que impele a parte mais profunda do seu ser, do que faz você ser o que é, a seguir em determinada direção. Nunca sabemos quando vai acontecer, ou onde, apenas acontece.

— E você já passou por isso? — Era tudo muito... Liza não encontrava palavras para descrever.

— Ainda não, mas pode acontecer a qualquer momento. — Eles pararam em frente a mais uma porta de metal em um corredor cheio delas. Algumas pessoas andavam por ali, empurrando macas e carregando kits de primeiros socorros. Ninguém se deu ao trabalho de falar com eles. — Perdoe-me, não perguntei seu nome.

— É Liza. — Ela estendeu o braço para cumprimentá-lo, mas ao invés disso Christian curvou-se e beijou levemente o dorso de sua mão. Um calor incômodo banhou as bochechas da menina conforme ela desviava os olhos, tentando ignorar o constrangimento.

— Espero ter ajudado. — Falou, sorrindo mais uma vez. Ele sorria bastante.

— Sim, obrigada. — Liza olhou para os próprios pés, rezando para que o tom rosado em suas bochechas já tivesse ido embora.

— Seu amigo está dentro do quarto. Vou lhes dar alguns momentos a sós. Qualquer coisa, estarei aqui fora.

— Está bem. — Ela se virou para a porta, se atrapalhando com a maçaneta de metal e hesitando à medida que mais uma dúvida se formava em sua cabeça. — Christian, como posso ser uma de vocês se nunca ouvi nem ao menos rumores sobre tudo isso?

— Sabe Liza, essa não é nem a parte mais estranha. — Ele deu de ombros, aparentando estar cansado de se perguntar a mesma coisa. — Quando a encontramos, não estávamos em um vilarejo. O Expresso para só e restritamente nas mesmas estações, sem exceção. E no entanto, ele parou para você. Somente para você. Isso nunca aconteceu antes. Em um momento estávamos seguindo no mesmo ritmo de sempre, e de repente o trem parou com um solavanco e ninguém entendeu nada, até que saímos para checar as rodas e os arredores e encontramos você e seu amigo jogados na floresta.

— Você tem certeza? — Perguntou, ignorando o arrepio desagradável que percorreu seu corpo da sola dos pés até o último fio de cabelo.

— Absoluta.

"Não faz sentido," Liza pensou, se trancando às pressas do lado de dentro do quarto e rejeitando o pensamento que insistia em assombrar sua cabeça dizendo que algo estava errado. É claro que havia algo errado. Tudo estava errado desde que acordara naquele lugar. Era perfeitamente normal se sentir assim, mentiu para si mesma. Perfeitamente normal, e mais tarde ela tentaria descobrir mais sobre como fora parar ali. Mas agora...

Ela se virou para a maca no meio do quarto, lentamente e com medo, e um soluço ficou preso em seu peito ao ver o que tinha acontecido com Sam.