Notas iniciais
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Era estranho vê-lo daquele jeito, como se toda a vida tivesse se esvaído de seu corpo e deixado para trás apenas um suspiro do que ele uma vez fora, nada mais que uma sombra silenciosa e esquecida em um canto. Suas feições não tinham expressão alguma, o que não era estranho já que estava mergulhado em um sono profundo. Mas não era do tipo sereno e agradável, e sim do que deixava Liza preocupada e com medo. Se não fosse pelo movimento leve e quase imperceptível do peito que subia e descia, Liza poderia jurar que ele estava...

Ela balançou a cabeça, se recusando a pensar na possibilidade, e chegou um pouco mais perto. Olheiras profundas e de um tom forte de roxo se pronunciavam sob seus olhos, combinando com a pele e os lábios pálidos para deixá-lo com o aspecto de um cadáver. "Pare de pensar nisso", Liza reprimiu a si mesma e xingou baixinho. Ele estava bem na frente dela, ainda respirando, ainda com aquela aura de Sam, e era isso que importava. Seus cabelos estavam bagunçados e espetados para todos os lados, e ela imaginou que quando ele acordasse poderia fazer alguma piada a respeito.

Liza abaixou um pouco o lençol que o cobria até o pescoço e mal foi capaz de conter o choque que atravessou seu corpo como um raio. Hematomas escuros o cobriam de cima a baixo, intercalados por veias negras que imitavam teias de aranha, subindo e descendo ao longo dos braços e do abdômen em uma sequência de linhas tortuosas e assustadoras. Ela não se atreveu a olhar além disso.

Tinha vontade de acordá-lo, perguntar se estava bem e passar os dedos entre seus cabelos rebeldes apenas para se certificar de que ele estava ali, para sentir seu calor e afirmar para si mesma que tudo daria certo e eles iriam embora assim que pudessem. Mas ela sabia, lá no fundo, que aquele era só o começo. Sabia que por mais que mentisse para si mesma, talvez as coisas não acabassem bem, e antes que pudesse conter sentiu lágrimas quentes rolarem por suas bochechas. Uma poltrona simples estava encostada contra a parede, e Liza arrastou-a para perto da cama apenas para ficar olhando e torcendo para que Sam acordasse logo, mesmo que não tivesse coragem alguma para tocá-lo ou falar qualquer coisa.

Ela perdeu a conta de quanto tempo ficou apenas sentada o encarando, poderia ser uma hora, poderia ser cinco minutos, não faria diferença alguma pois ele continuava naquele estado de estranha quietude enquanto a mente de Liza vagava sem rumo em uma velocidade atordoante. Ela queria desesperadamente entender, mas era informação demais de uma só vez, e começou a considerar a opção de pedir um bloquinho e uma caneta da próxima vez que alguém começasse a falar sobre o que era aquele lugar, talvez dessa forma não esquecesse de nenhuma informação crucial.

Uma batida forte soou do lado de fora, despertando-a de seus devaneios, e Liza imediatamente ajeitou a postura na poltrona. Nem teve tempo de responder um "pode entrar" antes que o homem invadisse o quarto com sua presença imponente. Era o mesmo da floresta, o que carregava as facas e fazia um arrepio percorrer sua coluna apenas por olhar para ela. Agora que podia prestar mais atenção, ele não parecia tão mais velho. Uns quatro ou cinco anos talvez, se chegasse a tanto.

— Oi. — Ele falou, parando no meio do quarto, e ela ficou esperando por algo mais, alguma ordem, talvez uns gritos, um interrogatório sob tortura muito provavelmente, mas não veio nada. Ele estava tenso, isso era notável, mas ela não conseguia imaginar o porquê, e quase teve vontade de rir por estar frente a frente com um cara daquele tamanho que parecia tão... Sem jeito? Intimidado? Com vergonha? Talvez fosse um pouco de cada.

— Oi. — Ela respondeu com a voz um pouco mais aguda que o normal e acabou soando como uma pergunta. Foi o bastante para ele relaxar os ombros e concluir que podia dar continuidade à conversa. Arrastou uma cadeira de plástico até os pés da cama e sentou, apoiando os cotovelos nas pernas e olhando para as próprias mãos como se tentasse encontrar as palavras certas.

— Meu nome é Theron. — Ele olhou para Liza, esperando alguma coisa que ela só entendeu depois de alguns segundos.

— Ah, eu sou Liza.

— Liza. — Ele assentiu, tomando nota — Bem, Liza, temo que não saiba muito mais sobre o que está acontecendo do que nós. — Ela negou com a cabeça, falando o mínimo necessário para não ser traída pela voz trêmula. — É, foi a essa conclusão que cheguei, com... Alguma ajuda. Muitas pessoas chamam isso aqui de lar, incluindo eu, então espero que entenda quando digo que posso ser um pouco... Protetor demais.

— Isso é um pedido de desculpas? — Ele estava começando a parecer menos ruim, pensou Liza, e por um segundo isso fez suas preocupações irem embora.

— Não. — Tudo bem, talvez ela tivesse tirado conclusões precipitadas. — As coisas andam meio estranhas por aqui, e tenho todos os motivos nos sete mundos para desconfiar de você. Mas enquanto parecer inofensiva, pode ficar.

— Hmm... Obrigada, então?

— Não precisa agradecer. — Ele bufou, como se fosse ridículo. — É seu dever estar aqui, e é meu dever fazer com que fique, pelo menos até o momento certo. É um lugar seguro para aprender o que precisa, mas estará sob observação, devo acrescentar. Creio que Christian já tenha aberto o bico e contado algumas coisas a nosso respeito.

Ela tinha notado que Christian era tagarela, e pelo visto tinha alguma fama por isso. Não que ela fosse reclamar, afinal, graças a ele não estava totalmente por fora de todos os acontecimentos. Talvez mais algumas conversas com ele rendessem um bom material. Sim, ele com certeza seria alguém que ela gostaria de manter por perto se fosse ficar.

— Sim, ele veio com uma conversa estranha sobre viajantes, sobre esse trem que vaga pela galáxia e disse que existem outros tipos de vida. Ainda não entendi se isso quer dizer que existem alienígenas. — Ele fez uma cara engraçada, a olhando como se estivesse vomitando lesmas. — Também falou que aqui é tipo uma escola, que o uniforme obrigatório é de spandex laranja e que cada um precisa ganhar seu próprio dinheiro fazendo truques de circo. — Acrescentou, sem resistir.

— Que merda... —Ele parecia estar prestes a se levantar e chamar Christian para que se explicasse, mas viu o brilho nos olhos de Liza antes. — Muito engraçadinha. — Ela precisou reprimir um sorriso quando os olhos dele se estreitaram. Teve a impressão de que por mais que se recusasse, ele também sentia vontade de sorrir, mas sumiu tão rápido que Liza se perguntou se tinha sido apenas coisa da sua cabeça. Não se desculpou, afinal ele também não tinha o feito, e ela só estava tentando quebrar a tensão sólida e fria que pesava no ar. Algo lhe dizia que ele não iria machucá-la, embora confiar completamente nesse instinto não fosse muito seguro. — Eu não sei muito bem como começar a explicar, nunca passei por uma situação como esta antes, e é estranho lidar com alguém de fora depois de tanto tempo. — Liza se perguntou como teria sido, divagando rapidamente para uma situação hipotética onde um homem como ele se enrolava com as palavras e corava diante de uma mulher qualquer que não entendia uma palavra do que ele dizia e ameaçava mandá-lo para um manicômio. Quando voltou para a realidade, ele agitava uma mão na frente do seu rosto e a olhava como se fosse um bicho estranho. —Você está bem?

— Sim! — Exclamou, um pouco mais exaltada do que o normal por causa do susto. — Desculpe-me, só... Esqueça, pode continuar.

— Okay. — Ele não parecia muito convencido, mas continuou do mesmo jeito pois parecia ser uma tarefa que desejava tirar da sua lista o quanto antes. — Você pode descobrir os detalhes conversando com as pessoas, há muitas por aqui. O importante é que vai ficar, por quanto tempo achar necessário ou até que alguém arranje motivos pra te mandar embora, portanto seja esperta. Cada um aqui faz o possível para ajudar, o que significa que poderá escolher o turno em que acha melhor trabalhar, e no outro vai aprender o máximo possível no menor tempo possível. Nunca se sabe quando vai receber o chamado, então é melhor se preparar o melhor que puder antes que isso aconteça. Christian vai arranjar um lugar para você dormir, te ajudar com os horários e responder as eventuais dúvidas para que não precise vir até mim. No geral é isso. — Ele fez uma pausa, esperando que Liza assimilasse tudo, e ela apenas assentiu com a cabeça, sentindo seu cérebro revirar dentro do crânio. — O único problema é o seu amigo aí. — Apontou para a cama onde Sam ainda estava deitado, inconsciente.

Liza quase se esquecera de Sam, e voltou um olhar assustado para ele, se sentindo culpada.

— Não se preocupe, parece pior do que realmente é. Em dois ou três dias ele poderá se levantar, e vai acordar bem antes disso. — O nó que se formara no peito dela lentamente começava a afrouxar, e Liza se permitiu relaxar um pouco, acreditando naquelas palavras e se agarrando a elas. É, talvez não fosse tão ruim quanto parecia. O choque inicial de vê-lo naquele estado já havia passado, e Liza reparou que alguma cor tinha voltado ao seu rosto. — Quando o encontramos já estava inconsciente, mas alguém deu remédio a ele, para que dormisse mais um pouco e o corpo pudesse se curar melhor. A pressão está normal, os batimentos cardíacos também, e não há cortes, portanto não corre nenhum risco de contrair uma infecção. Não sabemos o que aconteceu, mas tudo indica que foi algum tipo de descarga elétrica que o atingiu...

Liza lembrou-se daquele momento no quintal de uma casa desconhecida, quando ela saíra furiosa na chuva para encontrar um cobertor abandonado, mesmo que fosse altamente improvável que achasse um, e Sam aparecera do nada, jogando seu corpo sobre o dela antes que uma luz ofuscante os cegasse.

— Foi um raio! — Sua voz estava esganiçada de surpresa. — Agora eu lembro! Estávamos nos abrigando da chuva em uma casa abandonada, pois não podíamos voltar de moto no meio daquele dilúvio. Nós brigamos, e eu saí para procurar um cobertor. Foi quando Sam se jogou sobre mim e uma luz nos atingiu do nada. Uau... — Ela contemplou a descoberta brevemente, algo dentro dela se agitando. — Fomos atingidos por um raio. E não morremos!!! Essa é uma história boa de se contar! — Falou, recebendo um revirar de olhos de Theron.

— Que bom que sua experiência de quase morte foi divertida, mas algo me diz que seu amigo ali não vai pensar a mesma coisa quando se olhar no espelho durante as próximas semanas. Ele parece uma aberração.

— Ah. — Ela olhou mais uma vez para Sam, uma ruguinha se formando entre suas sobrancelhas enquanto avaliava mais uma vez seu estado. Aquilo tudo sumiria dentro de alguns dias. — Você não conhece Sam. É uma pena não ter nada grave o bastante para deixar uma cicatriz bem máscula. Ele iria adorar. — Liza deu um pequeno sorriso, sabendo que era verdade. Certa vez, quando estavam no sexto ano, Sam conseguira de alguma forma cair de joelhos sobre um prego que entrou uns cinco centímetros para dentro da carne e perfurou o osso. Dias depois, quando pôde voltar a frequentar as aulas, ao invés de ficar sentado em um canto e descansar a porcaria da perna, ele andou pela sala inteira arrastando o ferimento como se fosse um troféu, e até tirou as bandagens para que Liza pudesse ver o quão ruim era. A imagem ainda assombrava seus pesadelos.

Theron olhou para ela novamente com algo entre horror e curiosidade. Murmurou algumas palavras que soaram vagamente como "crianças idiotas" e deixou passar.

— Como eu estava falando, ele é seu único grande problema. Nunca tivemos alguém que não fosse viajante no trem. Algumas pessoas aqui podem não aceitar isso muito bem, então acho que deve ficar de olho nele, ao menos por enquanto.

— Ele não tem culpa de estar aqui, você sabe disso. O que vão fazer, jogá-lo do trem? — O silêncio que se seguiu foi resposta o suficiente. — Está brincando né? Não podem fazer isso!

— Não podem, mas isso não quer dizer que não vão.

— Então vamos levá-lo para casa! Aliás, podem me levar para casa também! Pronto, é uma solução bem simples, todos ficarão felizes. — Ela se sentiu burra por não ter pensado nisso antes.

— Não é assim que funciona, Liza. O trem segue seu próprio curso, independentemente das vontades de qualquer um de nós. Uma vez que embarcamos, estamos à mercê do que o destino nos reserva, e temos que aceitar isso. Não é possível dar meia volta e ir para casa, é completamente inviável sequer tentar fazer isso só para que duas pessoas fiquem mais à vontade. Se ambos embarcaram nesse trem, deve haver algum motivo maior. Além do mais, algo me diz que o lugar de onde você vem é bem longe daquela floresta. Estou certo?

— Eu... Eu não sei. Estava muito escuro naquela noite, e estava chovendo horrores... — Liza tentava enganar a si mesma. Ela sabia muito bem que ele estava falando a verdade, só não queria aceitar, e o modo como falou "aquela noite", como se tivesse acontecidos há semanas, já indicava que não havia volta. O único caminho era em frente. — Por que o resgataram?

— Preferiria que o deixássemos lá? — Ele retrucou com uma sobrancelha arqueada. Era irritante a maneira que ele falava, a fazendo se sentir idiota toda vez que abria a boca.

— Não! Mas pensei que ele não pudesse estar aqui.

— Não há nenhuma lei que proíba, não com todas as palavras. Claro, é meio que um código de conduta que quebramos, que eu quebrei, quando permiti que o trouxessem para dentro. Mas ainda é uma vida a ser salva, então não havia o que questionar. Estava apenas cumprindo meu dever, e isso sempre vem em primeiro lugar.

As palavras dele, por mais simples que fossem, aqueceram o peito de Liza de uma forma reconfortante e agradecida. Ele já não parecia alguém que enfiaria uma faca em seu pescoço sem seque piscar, e Liza se sentiu mal por tê-lo julgado tão mal logo de primeira. Deveria ter percebido que era uma pessoa boa, ou não teria se dado ao trabalho de falar com ela tão pacientemente.

— Obrigada. — Falou baixinho, sentindo a necessidade de agradecer não apenas porque a situação pedia, mas de coração.

— Disponha. Só trate de manter seu amigo e a si mesma na linha, já tenho trabalho o suficiente por aqui. Ele deve acordar em breve, então se quiser ficar mais um pouco eu peço para Christian esperar. — A menina assentiu com a cabeça, e ele levantou e foi para a porta, andando de forma mais leve, como se um peso invisível tivesse saído de seus ombros. Ele parou pouco antes de sair e se voltou para Liza novamente. — E Liza, seja bem vinda.

Ela não teve chance de responder antes que Theron saísse. Mais uma vez estava sozinha, encarando as paredes e o teto para não precisar olhar para Sam. Havia uma grade de um túnel de ventilação em um canto, mas nada de janelas, por isso já não sabia mais que horas eram. Seu estômago roncou de fome e Liza se perguntou há quanto tempo estava sem comer. Se passasse muito mais tempo assim, era provável que não fosse capaz de se manter em pé.

Por mais que tentasse se distrair, não havia nada ali capaz de fazer isso. Nenhum livro, nada de música, nem mesmo um quadro para o qual pudesse olhar. Os pensamentos em sua cabeça estavam confusos demais e só o que ela queria era adiar o máximo possível o momento em que tivesse finalmente que encará-los. Olhar para Sam não era um opção, pois toda vez que o fazia sentia as entranhas se revirarem e as mãos formigarem com vontade de tocá-lo, de sentir seu coração batendo. Ela estava sendo ridícula. Ele iria ficar bem, e a única coisa que tinha que fazer era mantê-lo fora de confusões. Quanto antes achasse uma maneira de mandá-lo para casa, melhor. Tinha que haver uma espécie de cronograma que o trem seguisse, alguma hora ele tinha que voltar para o ponto onde haviam embarcado.

Liza arriscou um olhar em sua direção, e soltou um suspiro ao ver que continuava igual.

— Me desculpe Sam, mas se você não acordar logo serei obrigada a trocá-lo por um prato de comida e uma cama macia. E não pense que eu não faria isso. — Ela esperou por uma resposta que não veio. Podia ser idiota, mas ela tinha esperança de que ao ouvir sua voz falando diretamente com ele, o garoto respondesse. Mais alguns minutos se passaram, aumentando sua impaciência a um nível quase insuportável, e Liza se levantou, andando em círculos pelo quarto. — É sério garoto, não me obrigue a jogar um balde de água fria em você.

Não adiantou. Liza esperou, e esperou e esperou, até que tomou coragem para segurar a mão dele entre as suas.

— Vamos lá, Sam. Não me faça ficar preocupada, eu odiaria criar rugas antes de hora. — Ela sentiu os calos da mão dele se arrastarem sobre sua palma ao tocá-lo mais uma vez, os dedos longos e meio gordinhos tão sem vida quanto todo o resto. Liza estendeu uma mão hesitante até seus cabelos e os acariciou devagar. Eram tão macios quanto imaginava, e ela engoliu em seco, tentando não pensar no que ele falaria se acordasse bem naquele momento. Seria muito, muito constrangedor.

Liza começou a contar baixinho, e chegou até trezentos e vinte e quatro antes de se levantar e bufar em desistência. Ignorar a fome até não era tão difícil, mas agora ela precisava muito, muito mesmo, ir ao banheiro.

— Tudo bem, eu posso até me sentir mal por isso depois, mas se não for agora é possível que acabe em uma maca assim como a sua, então me desculpe Sam, mas eu volto mais tarde.

Liza não queria, mas mesmo assim passou as pontas dos dedos pelo contorno do rosto dele antes de sair, sentindo a pele mais áspera do maxilar e do queixo onde a barba que ele nunca deixava crescer estava nascendo. Ao sair pela porta, o peso insuportável da culpa se alojou em seu coração, e ela quase deu meia volta e se sentou naquela poltrona de novo. Assim que fosse possível, ela voltaria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.